Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 15 de julho de 2019

Resenha: "De Espaços Abandonados" (Luisa Geisler)


Por Kleris: Uau. Perplecta estou. Surtada fiquei. E palavras encontrarei, porque preciso falar desse livro.

Conhecido por desafiar os limites da ficção, De Espaços Abandonados nos coloca frente a mais possibilidades de feitura ficcional até então inimagináveis. Luisa tornou possível a formação de um romance em um... romance. E romance esse de formação.

Inception sim. Mas vamos por partes. 
Tudo o que está na terceira pessoa aconteceu. E se sabe que aconteceu porque o(a) narrador(a) é onisciente e confiável. O(a) narrador(a) é sempre confiável. O(a) narrador(a) não mentiria sobre aonde ele vai durante a noite. O(a) narrador(a) pode ver. E tudo o que está na terceira pessoa aconteceu com certeza. Aconteceu porque eu sei que aconteceu.

O enredo retrata a busca de Caio por Maria Alice, sua irmã, que viajou à procura da mãe, Lídia, que fugiu de casa e pelo tempo de desaparecimento, foi dada como morta. Lídia é bipolar, então constantemente Maria Alice e Caio, desde pequenos, assumiram responsabilidades quanto a cuidar da mãe. Ainda nesse papel, Maria Alice jura de pé junto que descobriu o paradeiro de Lídia, em Dublin, e parte nessa viagem.

É pela jornada de Maria Alice que entendemos mais sobre essas buscas, as relações familiares, o que a move (ou não move), seus planos e seu senso quanto ao panorama. Através dela somos levados também a outras pessoas e histórias, já na Irlanda, onde conhece estudantes brasileiros, como Maicou, Bruna e Caetano, com quem divide um apartamento. Todos, pelo jeito, estão tentando dar um jeito na vida. 
Costumava ser a criança que era “uma promessa” e que “tinha futuro” e que “ia dar certo”, mas aí. Sei lá.

O pulo do gato do livro é como o enredo é apresentado ao leitor: são fragmentos que funcionam como pistas para ligarmos os pontos, o que torna a leitura um tanto investigativa e ao mesmo tempo desafiadora, pois esses mesmos fragmentos são pedaços de uma narrativa dentro do próprio livro com múltiplas vozes narrativas. E esses fragmentos são registros e vivências que precisam de nossa costura (como um manuscrito inacabado), algo que não é fácil, mesmo com todas as sugestões no ar e mesmo com o manual que existe dentro do livro. 
“Imigrantes. Todos nós o somos, hoje. Quando a viagem não nos move, é o entorno que nos foge, o que dá no mesmo. Ficamos então parados, com tudo o mais indo, imigrantes a tentar entrar, todos os dias, em nós mesmos.”
Elvira Vigna, O que deu para fazer em matéria de história de amor.

Ler De Espaços Abandonados é se sentir constantemente perdido, bugado (modo HARD), e ainda assim instigado, perguntando-se sobre o que está acontecendo, se o que nos é apresentado vale para todo o contexto, se a narrativa está nos enganando, se a gente está no paralelo certo, qual é o sentido do rolê, e, claro, uma busca alucinada sobre o destino dos personagens. Como já disse a própria autora em entrevistas, é um livro esquisito e de leitura esquisita.

Isso quer dizer que o livro demanda um pouco de seu leitor. Por quebrar e reconstruir o script de um romance, pede-se um leitor mais experiente, mais solto e disposto a sair da zona de conforto. E que saiba inglês também, porque há conversações e referências quando vivemos com os imigrantes. Quem tem alguma experiência com escrita criativa pode ter umas vantagens – vai se situar melhor, entender as razões de algumas coisas e, por que não, se identificar nas mil e umas anotações.
dfghjkl.rtf
O dia em que Brasileiro desembarcou na Irlanda era verde com cheiro de cerveja. As pessoas se abraçavam. As pessoas sorriam muito. Bebia-se muito nas ruas. Cantavam. O rio que cruzava a cidade estava pintado de verde. As pessoas bebiam, lotavam os pubs e celebravam nas ruas. Dublin era o melhor lugar do mundo. 

Sempre que menciono exploração urbana — uma expressão estranha, que me desagrada, que requer explicação —, muita gente fala que gostaria de fazer. Mas nunca chegam a realizar o desejo. Como escrever um livro, todo mundo acha que deveria fazer. Todo mundo acha que tem que fazer. Ou isso ou todo mundo está escondendo lugares bons (na literatura e nos lugares abandonados).



Tal qual um jogo narrativo, nossa percepção é posta à prova. Mesmo com toda a visão privilegiada que Luisa nos permite, esse é um quebra-cabeça em que não conhecemos as “peças da ponta”, pelo menos não até terminar o livro e ficar só BERROS pela ficha que cai. 
O landford não vai aprovar essa merda. Vai sobrar pra mim, pra variar.
Fiz carinho em Taco Cat.
É um gatinho, não um rinoceronte festivo. Como ele vai saber?
Eu me sentiria mal mentindo para ele.
Eu dei uma gargalhada forçada:
Mas moram três pessoas a mais nesse apartamento do que o contrato prevê. E o gato é o que te incomoda?

Dividido em três partes, temos diversos paralelos enquanto a história está sendo construída na nossa frente. Para além de Maria Alice, Maicou e Bruna são dois personagens que facilmente roubam a atenção e Caio é aquele à espreita, com um lugar cativo na narração. Mas o mais curioso é que no meio de tanta voz, Luísa joga umas pistas e depois desfaz, o que quebra umas teorias e nos deixa desconfiados pensando demais.

Já a ambientação e o contexto em que somos inseridos, esses são pontos sensíveis para a compreensão do título. Fala-se muito sobre se perder, se abandonar e as relações que construímos ou desconstruímos no meio do caminho, estando parados ou não. Luisa é maravilhosa em nos mostrar isso.

Obviamente, o tom do texto assume uma melancolia constante para demonstrar essa falta de norte ou foco. A questão da imigração cai como uma luva, mas é interessante que Luisa não se prende a amarras comuns (e quanto a qualquer coisa). Quer dizer, não há qualquer exaltação ou romantização, seja sobre viver fora do país, seja sobre relacionamentos ou aspectos mais pessoais de seus personagens. Essa banalização e desprendimento também revelam um pouco de depreciação, o que não sei dizer se faz parte do estilo da autora ou se é um caso em particular, vez que essa é a primeira obra dela com que tenho contato (e com certeza lerei outros). 
Lembrem que vocês são brasileiros, tá?, eu disse.
Tipo os nossos cuidam dos nossos?, o bosta disse.
Não, eu disse. Vocês são brasileiros. E tem muito brasileiro por aqui. Vocês também são. Só isso. 
Sempre discutiam a respeito do termostato na parede. Matildo queria economizar eletricidade. Caetano achava que não tinha que tremer de noite. Que comprasse um cobertor. Caetano jogou dinheiro na cara de Matildo. Matildo disse que ia usar para pagar a parte do aluguel de Caetano, que sempre estava atrasado. Um dia a capinha do termostato caiu. Ele não estava conectado a nada. 
— Então só sobra uma saída pra você — ela disse. — Cê tá fugindo de algo.
— Se fosse pra fugir, é uma fuga meio cara, não é? Meio playboy magnata cheio da grana que vai desopilar na Europa.
— Vontade de fugir não é um luxo. É uma vontade. Só.

Por vezes o ritmo do livro diminui, e os fragmentos parecem incongruentes, aleatórios e até mornos, mas terminamos a leitura sabendo que estava tudo no lugar. Luisa nos entrega uma obra original, madura, pretensiosa, excepcional e que abre novos precedentes para a ficção e seus experimentalismos. Uma certeza que se tem é que, entendendo ou não entendendo o rumo ficcional, seremos geislerados. Eu estava no caminho certo quando ainda decifrava sua capa. 
Branco no azul no azul no branco com azul sob o azul.
Mas são só cadernos em branco. Sempre é só papel. 
Passei tanto tempo na minha cabeça que tinha desenvolvido um novo nicho/camada de humor que ninguém no mundo real, em que as coisas aconteciam, entendia.

E talvez eu precise reler. Porque perguntas e respostas e novas perguntas continuam ecoando aqui dentro.
Ou isso. 
Ou.

*Não preciso dormir. Preciso de respostas.* 
— Não é estranho como a gente fica constante e continuamente numa conversa mental com a gente mesmo? — Bruna disse para ninguém em específico. E tanto me sentia como ninguém em específico que me apaixonei por ela. 
Mas a verdade é que todos os livros são sobre criação literária, não é mesmo?

Fica ainda a dica de ouvir um episódio do Podcast 30Min dedicado ao livro e uma entrevista da autora no Programa Folhetim, para se embrenhar mais nessa viagem toda que é De Espaços Abandonados.

Recomendadíssimo se esse tipo de proposta também te fascina.

Até a próxima!

Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram

Compre na Amazon através do link e continue ajudando o Dear Book a crescer:


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Resenha: “Minha Vida (Não Tão) Perfeita” (Sophie Kinsella)


Resenha publicada originalmente no Chalé Cult


Tradução de Carolina Caires Coelho

Por Kleris: “Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, permanece um pouco apoiado no colo e nos deixa absortos e distantes, pensando que não poderia terminar?” – Mário Sérgio Cortella me representa aqui. Que mixed feelings! Tão acostumada ao estilo da Sophie, estou um pouco sem saber escrever como me sinto em relação a este livro. Mas tentarei.

Cat está imersa numa rotina bem louca enquanto caminha atrás de seu sonho – trabalhar com branding (conceito de marcas/design). Assistente em uma agência, ela está esperando e trabalhando pela sua grande oportunidade. Sua chefe, Demeter, é um furacão que deixa um rastro de inveja a qualquer um – e tem, aparentemente, uma vida perfeita, badalada, glamorosa. Cat também “sustenta” uma vida baseada no status, só que um bem distante do seu. Comete até loucuras (como entrar em cafeterias e tirar foto de cafés gourmet) pra mostrar a todos que ela está bem, está feliz e satisfeita.

Quando Cat é demitida, por conta de problemas na empresa, ela se joga em um novo empreendimento de seu pai, o que se torna uma grande aventura. Mas Cat ainda não resolveu o que quer ou como seguir em frente. Nesse ínterim, ela sugada de volta aos problemas e à empresa quando Demeter torna-se sua cliente e Alex, seu chefe crush, está ali para terminar um trabalho.

Minha vida (não tão) perfeita tem uma pegada diferente dos demais livros da Sophie. É bem mais suave, lúcida até. Apesar do que diz a capa (“Chorei de rir”, Jojo Moyes), eu não consegui rir como antes, em outros livros da autora, pois este não é bem uma tragicomédia. Não há casos extraordinários, improváveis, tresloucados ou surreais. Sophie traz a realidade. Algo mais próximo de um drama de costumes, mas sem perder, claro, o seu jeito Kinsella de ser.

Outro ponto diferente foi o gênero de público. Sophie é conhecida por tratar de mulheres adultas fortes e/ou independentes, e neste livro, ela ousou em se colocar na pele de uma millenium (geração Y). Vemos muito de uma garota em seus 26 anos que tá começando de baixo e está em desespero sempre – porque nossa geração é aquela acelerada, que se joga e vai em busca dos seus sonhos, não importa de que maneira, e que também se ferra muito por isso. Mas nem tudo é exasperação. Um ponto forte do team Y é justo transformar o limão numa boa limonada – ou melhor dizendo, transformar qualquer coisa em oportunidade (de mercado, se possível). 
Mas veja bem: não sou invejosa. Não exatamente. Não quero ser a Demeter. Não quero as coisas dela. Sei lá, tenho só 26 anos. O que eu faria com um SUV da Volvo?
Mas, quando olho pra ela, sinto uma comichão de... alguma coisa, e penso: será que poderia ser comigo? Teria como ser comigo? Quando tiver condições, eu poderia ter a vida da Demeter? Não são só as coisas materiais, falo da confiança também. Do estilo. Da sofisticação. Dos contatos dela.

Ao tratar desse desejo de crescer na vida, Sophie insere sensivelmente sua crítica sobre a rede de mentiras que se constrói na internet. Sobre como usamos as redes para nos sufocar e demonstrar uma vida que não é nossa. Como os filtros podem ser tão tóxicos e arrasadores quanto um ambiente de trabalho competitivo. Como essa competição pela foto ou vivência mais glamorosa nos faz perder o real momento. Como isso cria uma narrativa bem diferente para quem nos lê. E como essas mentiras todas podem interferir ou confundir a vida real. 
Depois de algumas semanas de funcionamento, percebi que alguns clientes só querem saber de perguntar: Vocês são sustentáveis? Porque isso é muito importante para nós.   
Sinto vontade de rir quando Demeter se esconde atrás de uma árvore. É inacreditável ver como uma pessoa inteligente pode se tornar uma tola que acredita em tudo o que ouve assim que ouve as palavras “orgânico”, “autêntico” e “Gwyneth Paltrow”. 
— Esse cavalo é especialmente místico. — Eu me aproximo de Carlo e passo uma mão pela anca dele. — Ele traz calma às pessoas. Calma e paz.
Mentira. Carlo é tão preguiçoso que a emoção que ele causa na maioria das pessoas é frustração. Mas não hesito e continuo:
— Carlo é o que chamamos de um Cavalo da Empatia. Nós classificamos nossos cavalos de acordo com seus predicados espirituais, como Energia, Empatia e Detox.
Quando digo isso, percebo que exagerei. Um cavalo de detox? Mas Demeter parece estar engolindo tudo. 

A escolha de tratar a história por um viés mercadológico e marketeiro foi um grande acerto, pois dessa maneira Sophie pôde nos demonstrar melhor do princípio que manipula as pessoas pelas suas fraquezas. Esse realismo coloca em xeque nossos desejos, sonhos e ilusões. É muito louco como a gente vive para reforçar, com palavras bonitas, sacadas de marketing, neurociência, um estilo de vida que não reverbera quem nós somos, mas quem queremos parecer que somos. E é tudo lorota! É como usar a sabedoria para semear o mal – para si e para todos. 
Talvez eu devesse entrar no Instagram agora. Postar alguma coisa divertida.Mas, quando rolo as imagens na tela do celular, parece que elas estão rindo de mim. A quem estou querendo enganar com essas coisas falsas e felizes? É sério: a quem estou querendo enganar?

Com certeza a gente fecha o livro pensando no que estamos postando em nossos perfis, quaisquer redes sociais que sejam. Toda a história, toda a abordagem, foram caminhos arriscados para se tomar, vide o grande histórico da autora, mas achei bacana que ela tentou sair dessa redoma. E me surpreendeu para onde ela levou a história. A alguns leitores pode parecer até morno em relação aos outros livros (e é em alguns pontos mesmo), por outro lado, prefiro encarar como uma história para exercer nossa empatia, senão nossa consciência. No mais, para ir sem grandes expectativas.


Minha vida (não tão) perfeita é um livro sobre as várias versões da gente. Sobre ser verdadeiros conosco, assumir nossa realidade. Sobre se arriscar em um projeto, mas não esquecer aquele sonho, nem de deixar de trabalhar por ele. Não poderia dizer que este é meu favorito da autora, mas relembro aqui uma frase de O sorriso das mulheres (aqui) que, como o trecho de Cortella no início do texto, vale como uma ótima conclusão: “Um bom livro é bom em todas as suas páginas”. 
Não posso deixar um contratempo destruir meu sonho, posso? Claro que não. Um dia vou trabalhar com branding. Ainda vou atravessar a Waterloo Bridge e pensar: Esta é a minha cidade. Eu vou chegar lá.

Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram

Confira os melhores preços pelo Buscapé e ajude o blog a crescer!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Resenha: "As mentiras que as mulheres contam" (Luis Fernando Verissimo)

Por Kleris: Conheci Luis Verissimo através de uma amiga comentando um conto do livro As mentiras que os homens contam uns bons anos atrás (meu Deus, 10 anos!). Outros tantos anos depois li e super curti na época – aliás, alguns contos guardo comigo até hoje. Daí claro que quando As mentiras que as mulheres contam saiu (2015) fiquei mega curiosa. Era o Luis Fernando Verissimo, ué! Humor, loucuras e grandes viradas eram as expectativas. Mas não foi isso que aconteceu. Muito pelo contrário.

As mentiras que as mulheres contam, paralelo ao livro anterior, é um livro de contos bem curtinhos – de duas a quatro páginas no máximo. São leituras para intervalo de afazeres ou salas de espera, quando você não tem muita expectativa, mas tá afim de ler algo. Espera-se, claro, contos envolvendo situações inusitadas em que a mentira seria a grande sacada da história, com bom humor e bom senso. Não é isso que Luis nos entrega.

— Vovó, você tem cartas do Juan Carlos da Espanha?
— Estão por aí, em algum lugar.
— E são cartas amorosas?
— Uuuuuuuuuuuuu...

Boa parte das historietas são sem foco, sem habilidade, sem sustentação. Tem conto sem pé nem cabeça, tem conto que perde o gancho, tem contos totalmente puláveis! Fora os textos maldosos machistas-mor que nem pra anedota servem, os que sugerem rir da violência doméstica (NÃO!) e textos em que as mulheres mal figuram, mal tem ponto de vista.
— Prometo não deixar mais minhas meias no chão se você prometer não ser tão desdenhosa de tudo.
Márcia sorriu do jeito que tinha, os contos da boca descendo em vez de subirem.
— Típico. — disse, com desdém.
— Olha aí — disse o Marcos.
— Meu querido, você sacrifica um mau hábito e pede que eu sacrifique um posicionamento moral!
Às onze e cinquenta e cinco, Marcos foi visto na rua correndo atrás de Márcia para acertá-la com uma garrafa de champanhe. A Márcia gritando:  — Típico! Típico!

Veríssimo, onde está você? O que foi isso? 
Foi essa minha sensação.

Alguns nomes de personagens são repetidos e fica a dúvida se se tratam dos mesmos personagens em outras situações ou outros personagens com o mesmo nome. Os temas rondam em sua maioria sobre relacionamentos amorosos, marido e mulher, traições, relações (extremamente) abusivas e até violência explícita. As conversações também são truncadas. Enfim, deixou muito mesmo a desejar.

A Estatueta foi praticamente o único que me deu o vislumbre de algo interessante. 
Dona Helena ia começar a dizer que não apenas não tinha tido mais contato com o poeta Maia Lins como não tinha menor ideia de quem era o poeta Maia Lins, quando a repórter deu um grito:  — A estátua!
Era uma estatueta, uma mulher nua com os braços estendidos, esculpida até os joelhos, que parecia tentar sair de dentro de um pedestal de mármore bruto. Estava sobre uma mesa alta no vestíbulo. A repórter passou por dona Helena e entrou na casa, fazendo sinal para que a câmera a seguisse:
— É a estátua. “Ninfa incompleta, presa à pedra bruta da existência...” É a senhora, não é?

É com pesar que escrevo: errou a mão dessa vez, Luis. Errou feio. 

Mas se é um livro desses que você procura, confira os melhores preços no Buscapé:



Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram
segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Resenha: “Recorte!” (Talita Guimarães)


Por Kleris: Hoje faço diferente, não escrevo uma resenha propriamente, mas sim um recorte sobre esta leitura. Te convido para este passeio em especial, e, para uma melhor experiência, cá deixo uma trilha sonora. Já plugou os fones no ouvido? Vem comigo.

Boy - We Were Here

We walked these streets like kings
Our faces in the wind
And everywhere we were
We made the city sing
We sang forever young
We had our fingers crossed
And when the city sleeps
It dreams of us

Sabe aqueles livros que aparecem na hora certa? Recorte! demorou para me chegar às mãos (publicado em 2015), porém, tão logo abri e li os primeiros textos, senti. Ele seria um mergulho necessário. Ele preencheria minhas pausas. Ele me encantaria. Valeria a espera. E ao fim, eu iria querer mais. E assim foi.
(guitar)
Yeah it still does

Oh love it changes shapes
It glows in many shades
We won't be gone as long as
Our echoes resonate
We need no photographs
The past's not only past
I find us everywhere
And that's how the magic lasts

Com um prefácio de guardar no bolso e todo um miolo de guardar no coração, Recorte! é um livro que procura reunir o melhor do dia a dia. A autora se propôs a recortar diariamente algo, um sentimento, uma ação, uma descoberta, algo que viveu, presenciou, ouviu, e imprimiu em cursivas em dois cadernos. Com o tempo, surgiu a vontade de compartilhar esses escritos e só de pensar em alguns, quero dar um abraço na Talita pela decisão – e olha que tenho uns bocados de abraços em débito. Da mesma maneira que ela captura e preserva o sentimento, reservo muitos deles cá comigo nas bandeirinhas azuis que demarquei por todo o livro. Prepare as etiquetas, porque você vai precisar de um montão delas!

'Cause everywhere we've been
We have been leaving traces
They won't ever disappear
We were here
We were really here
And the rains get rough
But time can't wash us off
We won't ever disappear
We were here
It was really love

Ao contexto, de procurar o melhor dos nossos dias, coisas que passam naturalmente em um borrão, revela-se também o melhor das pessoas; no caso, as pequenas experiências aqui escritas revolvem as nossas e viramos cúmplices, seja por empatia, seja por identificação. Resgatam-se as memórias, as historietas de criança, os dilemas do crescimento, os desejos ingênuos, as saudades que mais marcam, as catarses diárias. A gente para um pouco no tempo e desacelera. E conforme a leitura vai, acerta uma sintonia.

Everywhere we've been
We have been leaving traces
They won't ever disappear
We were here
We were really here
And the rains get rough
But time can't wash us off
We won't ever disappear
We were here
It was really love
Acumulados página após página, alguns ilustrados por mim mesma, meus recortes de cada dia vivido viraram exercício de apreensão sensorial da realidade. E me ensinaram a enxergar ao redor farejando vida, bebendo gestos, tateando intenções. 
É que a gente custa a descobrir para que nasce e às vezes quando não é levado a pensar muito, passa pela vida sem descobrir. 
Algumas pessoas arrancam de nós a paz. Outras restauram. E são por estas últimas que a vida vale a pena. 

It's only little things
Footmarks and fingerprints
A treasure hunt through town
It's full of evidence
Our monuments are all around
Everything's on the move
The paint is wet
All colors are new
But if you look carefully
You'll see us shining through

Para o leitor, é entregue pouco mais de 90 textos para serem lidos dose a dose. A cada pausa, dez, quinze, vinte folhas; a imersão é de vários mergulhos. O toque singelo que perpassa as páginas simplesmente me ganhou. E as percepções, claro, o olhar míope, aquele embaçado, mas imaginativo, deslumbrado e satisfeito. Talita transita pelo sensorial de maneira magnífica; é um puro exercício de contemplação. Senão, de resgate.

'Cause everywhere we've been
We have been leaving traces
They won't ever disappear
We were here
We were really here
And the rains get rough
But time can't wash us off
We won't ever disappear
We were here
It was really love

E não só de beleza vive o mundo. Os não-recortes transitam agridoces. 
Por isso este recorte é um não-recorteE não merece estar aqui.
Mas a vida é isso.
Para haver um álbum de recortes é preciso que existam coisas que não mereçam ser recortadas.
E sobrem longe de nós.
Então este recorte não merecedor de estar aqui foi recortado só para nos lembrar disso.

Everywhere we've been
We have been leaving traces
Everywhere we've been
We have been leaving traces
And the rains get rough
But time can't wash us off
We won't ever disappear
We were here
It was really love
Tenho o ipê que me cabe cultivar. Dentro das possibilidades do meu limitado jardim. Quando reconheço o tamanho do meu alcance, melhoro meu desempenho, ampliando minhas chances de melhor alcançar. 
Porque às vezes a gente precisa justamente da plenitude dos que nos toca sem motivo declarado. Daquilo que se completa sem precisar fazer sentido aos nossos sentidos. E ainda assim nos encanta.

(guitar)
We were here
We were here
We were really here

We were here
We were here
We were really here

We were here
We were here
We were really here

We were here
We were here
We were really here 
Nem todos nós nascemos com a alma de poeta sintonizada a um corpo sensível ao toque da poesia. Alguns de nós, vez em quando, tem a percepção da vida inspirada. Descobrem cores, cheiros, toques que parecem finalmente mostrar-lhes a existência de uma vida com leveza. Passam a recortar poemas das paisagens por onde passam. Ficam em um feliz estado de flutuação. O coração aquecido.
Cada um tem o seu motivo para achar, vez por outra, a vida mais bela. E aí entra uma sábia ressalva: a vida nunca deixou de ser inspiradora. Nós é que nem sempre estamos bem o suficiente para percebê-la. E por algum motivo misterioso, isso também confere sentido ao estado de não flutuação.
É que é preciso viver para aprender a se encantar. Fazer disso uma constante é o que nos impulsiona a flutuar em frente. Leve e ao sabor da brisa amiga que sopra a favor de nós, vez em quando.

(brass)
We were here
We were here
We were really here

Meus textos preferidos marquei de outra cor: A infância é leve, Do balãozinho, A vida e o encanto que dão sentido a tudo (último trecho acima citado), A caneta, Janela, A paz de cada dia, Das pessoas, O não-recorte, O avesso do recorte, Um tempo de não-recortes, O copinho II, Energia do mundo, Recorte carioca, A vantagem de ser invisível, Crença, Estimação, Quando fiquei parada vendo Mia Couto passar, Intervalo, Quem se é, onde se está, quando se está.

  
 

We're in the air
We're in the water
From the rooftops
Down to the pier
I'll never walk these streets alone
We were here
We were really here

We're in the air
We're in the water
Engraved into waves
Invisible ink on the walls
We were here
We were really here

Recorte! é, por fim, um bom companheiro de busão, metrô e outros transportes urbanos, lugares que você pode sentar, folhear e ler a vontade enquanto a vida corre solta. Pra mim foi uma das melhores leituras do ano. Obrigada, Talita, pelo presente <3 Espero ter conseguido transmitir a experiência neste recorte especial.

E você aí, leitor, se acha que precisa se encantar de novo pela vida, recorte. E procure por Recorte! Recomendadíííííííííssimo <333 
A gente é feliz nos intervalos, mesmo. Mas se for pensar em todos os intervalos em que já foi feliz, descobre uma vida inteira.

P.S.: We were here (Boy) foi uma música que marcou muito uma fase de exploração do mundo em exercícios antiestresse, catarse viciante, e a cada vez que retornava do passeio, lia doses em descanso. Por isso o music trip :)

P.P.S.: Encontre o livro aqui ou contate a autora aqui. Curta a página do livro e veja rodas de conversa sobre. Adicione no skoob!

Até!


Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram
 
Ana Liberato