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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Resenha: "De Espaços Abandonados" (Luisa Geisler)


Por Kleris: Uau. Perplecta estou. Surtada fiquei. E palavras encontrarei, porque preciso falar desse livro.

Conhecido por desafiar os limites da ficção, De Espaços Abandonados nos coloca frente a mais possibilidades de feitura ficcional até então inimagináveis. Luisa tornou possível a formação de um romance em um... romance. E romance esse de formação.

Inception sim. Mas vamos por partes. 
Tudo o que está na terceira pessoa aconteceu. E se sabe que aconteceu porque o(a) narrador(a) é onisciente e confiável. O(a) narrador(a) é sempre confiável. O(a) narrador(a) não mentiria sobre aonde ele vai durante a noite. O(a) narrador(a) pode ver. E tudo o que está na terceira pessoa aconteceu com certeza. Aconteceu porque eu sei que aconteceu.

O enredo retrata a busca de Caio por Maria Alice, sua irmã, que viajou à procura da mãe, Lídia, que fugiu de casa e pelo tempo de desaparecimento, foi dada como morta. Lídia é bipolar, então constantemente Maria Alice e Caio, desde pequenos, assumiram responsabilidades quanto a cuidar da mãe. Ainda nesse papel, Maria Alice jura de pé junto que descobriu o paradeiro de Lídia, em Dublin, e parte nessa viagem.

É pela jornada de Maria Alice que entendemos mais sobre essas buscas, as relações familiares, o que a move (ou não move), seus planos e seu senso quanto ao panorama. Através dela somos levados também a outras pessoas e histórias, já na Irlanda, onde conhece estudantes brasileiros, como Maicou, Bruna e Caetano, com quem divide um apartamento. Todos, pelo jeito, estão tentando dar um jeito na vida. 
Costumava ser a criança que era “uma promessa” e que “tinha futuro” e que “ia dar certo”, mas aí. Sei lá.

O pulo do gato do livro é como o enredo é apresentado ao leitor: são fragmentos que funcionam como pistas para ligarmos os pontos, o que torna a leitura um tanto investigativa e ao mesmo tempo desafiadora, pois esses mesmos fragmentos são pedaços de uma narrativa dentro do próprio livro com múltiplas vozes narrativas. E esses fragmentos são registros e vivências que precisam de nossa costura (como um manuscrito inacabado), algo que não é fácil, mesmo com todas as sugestões no ar e mesmo com o manual que existe dentro do livro. 
“Imigrantes. Todos nós o somos, hoje. Quando a viagem não nos move, é o entorno que nos foge, o que dá no mesmo. Ficamos então parados, com tudo o mais indo, imigrantes a tentar entrar, todos os dias, em nós mesmos.”
Elvira Vigna, O que deu para fazer em matéria de história de amor.

Ler De Espaços Abandonados é se sentir constantemente perdido, bugado (modo HARD), e ainda assim instigado, perguntando-se sobre o que está acontecendo, se o que nos é apresentado vale para todo o contexto, se a narrativa está nos enganando, se a gente está no paralelo certo, qual é o sentido do rolê, e, claro, uma busca alucinada sobre o destino dos personagens. Como já disse a própria autora em entrevistas, é um livro esquisito e de leitura esquisita.

Isso quer dizer que o livro demanda um pouco de seu leitor. Por quebrar e reconstruir o script de um romance, pede-se um leitor mais experiente, mais solto e disposto a sair da zona de conforto. E que saiba inglês também, porque há conversações e referências quando vivemos com os imigrantes. Quem tem alguma experiência com escrita criativa pode ter umas vantagens – vai se situar melhor, entender as razões de algumas coisas e, por que não, se identificar nas mil e umas anotações.
dfghjkl.rtf
O dia em que Brasileiro desembarcou na Irlanda era verde com cheiro de cerveja. As pessoas se abraçavam. As pessoas sorriam muito. Bebia-se muito nas ruas. Cantavam. O rio que cruzava a cidade estava pintado de verde. As pessoas bebiam, lotavam os pubs e celebravam nas ruas. Dublin era o melhor lugar do mundo. 

Sempre que menciono exploração urbana — uma expressão estranha, que me desagrada, que requer explicação —, muita gente fala que gostaria de fazer. Mas nunca chegam a realizar o desejo. Como escrever um livro, todo mundo acha que deveria fazer. Todo mundo acha que tem que fazer. Ou isso ou todo mundo está escondendo lugares bons (na literatura e nos lugares abandonados).



Tal qual um jogo narrativo, nossa percepção é posta à prova. Mesmo com toda a visão privilegiada que Luisa nos permite, esse é um quebra-cabeça em que não conhecemos as “peças da ponta”, pelo menos não até terminar o livro e ficar só BERROS pela ficha que cai. 
O landford não vai aprovar essa merda. Vai sobrar pra mim, pra variar.
Fiz carinho em Taco Cat.
É um gatinho, não um rinoceronte festivo. Como ele vai saber?
Eu me sentiria mal mentindo para ele.
Eu dei uma gargalhada forçada:
Mas moram três pessoas a mais nesse apartamento do que o contrato prevê. E o gato é o que te incomoda?

Dividido em três partes, temos diversos paralelos enquanto a história está sendo construída na nossa frente. Para além de Maria Alice, Maicou e Bruna são dois personagens que facilmente roubam a atenção e Caio é aquele à espreita, com um lugar cativo na narração. Mas o mais curioso é que no meio de tanta voz, Luísa joga umas pistas e depois desfaz, o que quebra umas teorias e nos deixa desconfiados pensando demais.

Já a ambientação e o contexto em que somos inseridos, esses são pontos sensíveis para a compreensão do título. Fala-se muito sobre se perder, se abandonar e as relações que construímos ou desconstruímos no meio do caminho, estando parados ou não. Luisa é maravilhosa em nos mostrar isso.

Obviamente, o tom do texto assume uma melancolia constante para demonstrar essa falta de norte ou foco. A questão da imigração cai como uma luva, mas é interessante que Luisa não se prende a amarras comuns (e quanto a qualquer coisa). Quer dizer, não há qualquer exaltação ou romantização, seja sobre viver fora do país, seja sobre relacionamentos ou aspectos mais pessoais de seus personagens. Essa banalização e desprendimento também revelam um pouco de depreciação, o que não sei dizer se faz parte do estilo da autora ou se é um caso em particular, vez que essa é a primeira obra dela com que tenho contato (e com certeza lerei outros). 
Lembrem que vocês são brasileiros, tá?, eu disse.
Tipo os nossos cuidam dos nossos?, o bosta disse.
Não, eu disse. Vocês são brasileiros. E tem muito brasileiro por aqui. Vocês também são. Só isso. 
Sempre discutiam a respeito do termostato na parede. Matildo queria economizar eletricidade. Caetano achava que não tinha que tremer de noite. Que comprasse um cobertor. Caetano jogou dinheiro na cara de Matildo. Matildo disse que ia usar para pagar a parte do aluguel de Caetano, que sempre estava atrasado. Um dia a capinha do termostato caiu. Ele não estava conectado a nada. 
— Então só sobra uma saída pra você — ela disse. — Cê tá fugindo de algo.
— Se fosse pra fugir, é uma fuga meio cara, não é? Meio playboy magnata cheio da grana que vai desopilar na Europa.
— Vontade de fugir não é um luxo. É uma vontade. Só.

Por vezes o ritmo do livro diminui, e os fragmentos parecem incongruentes, aleatórios e até mornos, mas terminamos a leitura sabendo que estava tudo no lugar. Luisa nos entrega uma obra original, madura, pretensiosa, excepcional e que abre novos precedentes para a ficção e seus experimentalismos. Uma certeza que se tem é que, entendendo ou não entendendo o rumo ficcional, seremos geislerados. Eu estava no caminho certo quando ainda decifrava sua capa. 
Branco no azul no azul no branco com azul sob o azul.
Mas são só cadernos em branco. Sempre é só papel. 
Passei tanto tempo na minha cabeça que tinha desenvolvido um novo nicho/camada de humor que ninguém no mundo real, em que as coisas aconteciam, entendia.

E talvez eu precise reler. Porque perguntas e respostas e novas perguntas continuam ecoando aqui dentro.
Ou isso. 
Ou.

*Não preciso dormir. Preciso de respostas.* 
— Não é estranho como a gente fica constante e continuamente numa conversa mental com a gente mesmo? — Bruna disse para ninguém em específico. E tanto me sentia como ninguém em específico que me apaixonei por ela. 
Mas a verdade é que todos os livros são sobre criação literária, não é mesmo?

Fica ainda a dica de ouvir um episódio do Podcast 30Min dedicado ao livro e uma entrevista da autora no Programa Folhetim, para se embrenhar mais nessa viagem toda que é De Espaços Abandonados.

Recomendadíssimo se esse tipo de proposta também te fascina.

Até a próxima!

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Resenha: "O céu de Lima" (Juan Gómez Bárcena)

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

Por Kleris: Sabe aqueles livros que tem, em seus releases, tudo a ver com você? O céu de Lima se apresentou como uma comédia de erros, metaficção meutombofavorito, com correspondência por cartas, conspiração, bases de realidade e essa capa muito massa para brincar. Às vezes tenho receio de livros assim, com aspectos tão nós mesmos, pois as expectativas e a bagagem literária podem inferir demais na leitura. Mas O céu de Lima foi... diferente. 
Só sabe que ao receber o pacote de cartas tem a sensação de que lá dentro há algo muito íntimo e por outro lado absolutamente alheio. Que é a coisa mais importante que fez na vida e ao mesmo tempo um absurdo, uma estrepolia, uma brincadeira de mau gosto que desandou.
Pense em um autor que você tem uma grande admiração. Agora pense: esse autor lançou um livro que é impossível de encontrar disponível no seu país e você e um amigo (ou amiga) tem interesse na obra. Daí vocês mandam um e-mail falando sobre essa admiração, o quanto esse autor fez/faz diferença na vida de vocês, que tem interesse nesse livro, mas se veem sem a possibilidade de encontrar, e assim, por acaso, pede um exemplar. Talvez o autor não responda ou talvez ele responda, mas não mande o livro pra vocês. O mais natural seria voltar a procurar nas livrarias, esperar que alguma editora publicasse, algo do tipo. Mas e se o pensamento lhes soprasse a ideia de imaginar para que pessoa em especial o autor mandaria e daí se passar por essa pessoa, vocês topariam o desafio de conseguir o livro? 
É verdade que ainda parece brincadeira. Mas de certo modo é a coisa mais séria que fizeram na vida.

Essa é mais ou menos a trama inusitada de Bárcena. Só que são dois amigos poetas (José e Carlos), no Peru, interessados no livro do poeta Juan Ramón Jiménez, em Madri, começo do século XX, trocando intensamente cartas se passando por Georgina Hüber, figura feminina totalmente fictícia. Com o tempo, a brincadeira foi mudando seus objetivos (os poetas passaram a “escrever” um romance sobre a peripécia e já queriam que o autor dedicasse uns versos verdadeiros à Georgina) e a coisa foi ficando séria, a ponto de a ficção de fato bater na porta da realidade. Bárcena abraça essa história – que se inspirou num fato verdadeiro com o autor Juan Ramón Jiménez – e nos faz viajar num espaço entre mundos da realidade e da ficção.

José e Carlos embarcam na empreitada. Eles são meio bobalhões, daquelas peças que não sabem bem ser ou como ser eles mesmos, porém, se arriscam em descobrir. Conforme a história vai ganhando corpo, vemos que aspectos mais profundos de cada um vão despertando – aspectos bons e ruins. Carlos é quem mais se destaca, quem mais parece querer cuidar de Georgina e da história. Questões sobre criação, escrita, percepção, fuga da realidade, soluções de trama, agradar público e outros vão passando diante de nossos olhos assim simplesmente. 
Carlos, por seu lado, não se preocupa com esse poema ainda não escrito. Seus temores na verdade são um só: de que Georgina não valha a pena. De que só tenham conseguido, depois de tantas cartas, de imaginá-la durante tantas noites de insônia, dar à luz uma mulher comum, insignificante, incapaz de despertar o interesse de Juan Ramón. De que ela esteja condenada para sempre a ser um personagem secundário. 
“Mas o que estão dizendo”, interrompe Carlos. “Georgina não tem vocação. Você sabe disso. Nós a fizemos assim. Juntos.”

É muito interessante ver essa relação de uma maneira tão realista e ao mesmo tempo fantasiosa, porque, como leitores, não só vivemos isso o tempo todo, como esperamos que isso aconteça sempre, pelas próprias características do que a literatura nos proporciona: mímese (imitação da realidade), verossimilhança (harmonia ou coerência de elementos em certa realidade) e catarse (processo de emoções que culmina e nos traz algum tipo de libertação, cura ou limpeza emocional).

Ou seja, um livro que traz um mundo semelhante à nossa realidade, que tem certa ordem de sentido, e toda sua jornada nos prende, passando por diversas emoções, a ponto de fechar uma lacuna ou compreensão dentro de nós mesmos; ter um efeito, a depender, em nós. Os autores literalmente se armam destas ferramentas para causar um efeito. Só que, claro, ao entregarem uma história, é sempre uma aposta, pois não há, precisamente, como adivinhar como um livro vai repercutir. O que é outro papo. Mas sim, José e Carlos estão empenhados em escrever essa história, com as cartas de Georgina, usando suas poucas experiências de escrita e leitura. 
É preciso enfeitar a realidade, porque afinal é isso que os poetas fazem, e eles são poetas, ou pelo menos é o que sonham ao longo de muitas noites em claro como esta. E é exatamente o que estão a ponto de fazer agora, o poema mais difícil, um poema sem versos mas capaz de comover o coração de um verdadeiro artista.

A sacada sacada mesmo é a do autor de O céu de Lima, Juan Gómez Bárcena, que tem uma exímia narração pra nos socar nesta (meta?)conspiração. Sagaz, ele não só se arma das melhores ferramentas (contexto, período de passagem, ambientação, psicologia, filosofia, sociologia), como as explora em experimentalismos de narração. Às vezes a gente acha que ele tá saindo da linha (tradicional), daí entendemos que ele quer mostrar várias outras histórias que valem ser conhecidas e que vão contribuir muito. Às vezes, bem, o narrador é apenas traquina e palhaço. Isso só mostra demonstra como o cara é engenhoso e soube segurar muito bem, de começo ao fim, sua história.

Imagino o quanto não deve ter batido cabeça!

O céu de Lima traz inúmeras discussões sobre a arte de escrever e ler, quase um easter egg para nossa percepção. Reflete também várias questões literárias perpetuadas pelos séculos, ainda atemporais. E, embora os capítulos sejam bem curtinhos, a trama é um tanto densa e por isso pede uma leitura mais calma, de sugar pouco a pouco as palavras de Bárcena, que, com certeza, são de arrebatar. 
Talvez seja exagero chamá-los de escritores só porque mandaram algumas cartas. Isso depende da importância que dermos a tal correspondência. E, claro, da seriedade com que considerarmos o próprio ofício de escrever, que aliás não é uma profissão, mas uma espécie de ato de fé. A única coisa de que podemos ter certeza é isto: eles julgam ser escritores. E, tal como uma gravidez psicológica o corpo se alarga para abrigar um filho que não haverá, em torno da sua hipotética condição de literatos também irão se gerando algumas das virtudes e defeitos dos verdadeiros escritores. 
Mas o amor, onde está? Ainda não está, porque ninguém lhe deu palavras. O amor é um discurso, meu amigo, é um folhetim, é um romance, e se não for escrito na cabeça, ou no papel, ou onde quer que seja, não existe, fica pela metade; não passa de uma sensação que imaginou ser um sentimento...

P.S.: Inevitavelmente lembrei da Docinho de Coco (Candy Cane), do filme Perseguição: A Estrada da Morte (Joy Ride, 2001), clássico suspense de fim de noite da Globo. Não achei trailer legendado ou dublado.


 Até a próxima!

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Resenha: “A décima segunda noite” (Luis Fernando Veríssimo)


Por Kleris: Tenho esse costume de ir em feiras de livros pra procurar achados, livros que estão fora do meu campo de visão habitual – e com aquele precinho camarada. Ao ver A décima segunda noite em uma bancada em 2015, a capa de pronto me chamou atenção, mas por ter Luis Fernando Veríssimo como autoria, nem li a sinopse direito, levei pra casa! Do autor, faz um tempinho que havia lido um livro de contos, As mentiras que os homens contam, e já estava mais que na hora de voltar a mergulhar em alguma transloucada trama sua.

A décima segunda noite é baseada na peça Noite de Reis, de Shakespeare, e faz parte de uma coleção de adaptações, chamada Devorando Shakespeare, da Editora Objetiva. Os livros são independentes, todos novelas literárias, e com autores diferentes para cada título. Além de Veríssimo, temos Jorge Furtado no primeiro livro e Adriana Falcão no terceiro.

Não conheço muito de Shakespeare para poder calibrar uma crítica à adaptação, porém, já assisti um filme baseado na mesma peça, um high school americano chamado Ela é o Cara (com Amanda Bynes e Channing Tatum <3) (aqui trailer) que me salvou de entender e me orientar nas loucuras da história. Veríssimo ainda aproveitou a oportunidade para mergulhar em Paris, cidade pela qual é fascinado e onde toda a novela se passa. Eu diria, inclusive, que é uma novela inglesa afrancesada à brasileira. E metaficção!

A M O  M E T A F I C Ç Ã O!
E Veríssimo A R R A S A! 
Este era escritor, ou tentava ser. Morava sozinho e passa o tempo todo falando comigo, aos gritos, despejando em cima de mim as teorias que tinham lhe custado três esposas e todos os amigos, e só “oui, oui”, e “bien sûr”. Eu iria contestá-lo, para também ser atirado pela janela? Foi ele que me falou das diferentes formas de narrativas e da intervenção do narrador na narrativa. Qualquer um, qualquer coisa, pode ser o narrador. 
Se vocês querem me puxar para o passado, têm que aguentar a literatura. Já que querem me ouvir, têm que aguentar a comédia disfarçada de tragédia, a tragédia disfarçada de vaudeville e esta voz de caldeirão rachado. E a narrativa cronológica, com eventuais digressões, de um moribundo, finalmente com uma plateia atenta.

A gente chega na primeira página e já é golpeado pela trama. Tem um papagaio tagarelando sem fim sobre algo que a gente ainda não sabe o que é, nem o que tá acontecendo. Esse é um toque maravilhoso de Luis Fernando, que faz grandes imersões no ofício da escrita dentro da própria escrita e narração. O papagaio narrador é Henri, bisbilhoteiro, piadista, erudito e um verdadeiro contador de história. 
Tente dizer qualquer coisa séria, ou profunda, com voz de papagaio. Mesmo em francês. Impossible. Foi por isso que não me deram atenção, e a comédia que vou contar quase virou tragédia. Eu avisei, me esganicei, mas me ouviram? Diziam “Le perrouquet, qu’est-ce qu’il dit?”. E riam. Eu avisando que não era comédia, era drama, era tragédia. Tinha paixão, traição, perfídia, sociologia. E riam, riam. Culpa da voz, minha sina. 
É contra a natureza dos papagaios serem sucintos e breves. Durante séculos, milênios, gerações e gerações, vivemos com a capacidade de falar sem saber que a tínhamos. Imaginem. Uma espécie inteira que se autodesconhecia. Imitávamos uns aos outros, imitávamos os outros bichos e os sons da floresta, mas só quando ouvimos um humano falar, pela primeira vez, descobrimos este nosso talento para articular palavras. E descobrimos o que nos faltara durante gerações e gerações de loquacidade desperdiçada e sons desconexos: assunto. Até hoje, em florestas desabitadas, papagaios selvagens voam em bandos cacofônicos sem conhecer a delícia de fazer uma frase completa, os prazeres da prosódia. É em nome deles que eu falo tanto assim. E pra recuperar o tempo perdido, o nosso tempo sem assunto. Eu estaria traindo a minhas ascendência se fosse sucinto e breve. Eu... Está bem, a história que vocês querem ouvir. Isso é um gravador ou uma caixa de pílulas? Ridicule. Mas vamos lá.

Conforme o passar dos capítulos, vemos que ele é a única testemunha de uma tragicomédia em Paris. Por isso mesmo estão gravando seu depoimento. Como toda metaficção (uma ficção que conta sobre a própria arte e construção de ficção), a história é de camadas. O brilhantismo de Veríssimo atua bem aí, pois afora toda a confusão da Décima Segunda Noite (data conhecida após o Natal, que é a Noite de Reis), temos um grande mistério no ar com mil e uma pistas: Quem é que tá gravando? Por que tá gravando? Qual o interesse nessa gravação? Não imaginava o tamanho tesouro de Veríssimo que tinha em mãos! 
É em momentos como este, e olhando o rosto de Violeta quando viajava sobre o seu ombro no metrô, imaginando como seria tê-la nos meus braços, que eu sinto não ser, nem digo um Flaubert, mas gente, só gente, em vez de um mero artifício narrativo. Agora só falta me dizerem que não gravou nada e minhas palavras se perderam no ar, e minha voz lamentável esteja neste momento arranhando o domo de ozônio do planeta, tentando sair desta estufa de vaidades, rumo às estrelas. Mon Dieu, mon D

Entre os disse-me-disse de Violeta, Orsino, Olívia, César, Negra, Malvolio e outros, nos embrenhamos nos mal-entendidos, mistérios e toda emoção. A leitura é super rápida, de uma sentada, com muitos OH-MY-GOD! para soltar. Mon Dieu, são muitos babados numa só novela! Por isso mesmo não indico lugares que possam interromper a leitura, pois você não vai querer largá-lo de jeito nenhum.

Super legal também é o show de representatividade que Luis coloca, de maneira tão natural, além de tratar de uma época interessante da história do Brasil e França. Uma nota ademais é que Henri de vez em quando solta umas falas em francês, nada muito difícil e que nem nos atrapalha. São elementos que só enriquecem a obra. E o resto... bem, Henri te conta ^^

Se você procura um bom livro com gostosas sacadas, suspense, humor, conspiração e confusão, com toda a certeza, é A décima segunda noite, de Luis Fernando Veríssimo! 
Vocês acham que eu estou contando tudo isto que vocês já sabem para não chegar ao que vocês querem ouvir, ao saião da santa. Vocês acham que eu estou querendo ganhar tempo. Claro que preciso de tempo. Aceito tempo de onde ele vier, de qualquer fornecedor. Esta tinta está me matando, o verde e o amarelo me asfixiam, estou morrendo patrioticamente sem nunca ter visto o Brasil, quero mais tempo, mais vida, sim, nem que seja para mais amar a Violeta. Mas não é isso. O fato, mes amis, é que temos que pôr tudo num contexto. Precisamos, no mínimo, de ordem cronológica num mundo que cada vez mais desdenha a ordem. E precisamos de literatura.

Só sei que preciso ler mais livros desse autor :)

Super recomendadííííííssimo!

Espero que gostem o/



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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Resenha: “O Sorriso das Mulheres” (Nicolas Barreau)

Tradução de Karina Jannini

Por Kleris: Ah, Parri... Parri de encontros e desencontros, como sempre. Faz quase uns dois anos que tinha lido esse livro por acaso e na época foi todo o arco-íris que eu precisava. Foi tão não sei o que dizer, só sentir que eu não conseguia achar palavras para falar dele (embora tenha mencionado por alto aqui). 

Até hoje. Cá estou para te fazer mergulhar nesse açucarado romance, com pitadas de romã, pingos de chocolate e cachoeiras de metaficção, metaleitura, metatudo. Vale textão de resenha e vale muitas quotes. A propósito, preparem-se com os marcadores adesivados!

Sabe quando você passa por uma grande decepção e cai nos braços de um livro maravilhoso? É essa a sensação de Aurélie Brendin ao ler o romance O Sorriso das Mulheres, escrito por um tal de Robert Miller, autor inglês que fora publicado direto para o francês. Fora a maravilhosa trama e escrita, o encanto de Aurélie se dá por várias razões: 1) ela encontrara o livro muito por acaso durante uma fuga da polícia (ela se refugiou numa livraria) 2) o livro cita diretamente o restaurante dela como ambiente da narrativa 3) a heroína do livro é muito parecida com ela.

— Quem é você, Robert Miller? — perguntei à meia-voz, e meu olhar voltou ao homem sentado no banco do parque. — Quem é você? E de onde me conhece?

Quem não ficaria com uma pulguinha atrás da orelha depois dessa? Seria destino? Coincidência? Não importa, Aurélie tinha que conhecer esse moço! Só que ao buscar informações sobre o autor, ela descobre enormes (e inusitados) obstáculos: não há informações diretas, não há contato e, pior, ao que parece, Robert Miller tem horror a aparecer em público. E agora, como faz?

Bom, aí somos levados para o outro lado da história... Uma que envolve esquemas, mentiras e ficção demais. André Chabanais é o revisor responsável pelo autor Robert Miller, que, bom, é rondado por um mistério, mistério esse que põe André ao desespero quando a editora começa a pressionar para o autor fazer uma aparição, já que o livro tem vendido bem. 
— Agora vou lhe revelar um segredo, mademoiselle Mirabeau — ele disse, e cada um de nós sabia o que viria pela frente, pois todos já tínhamos ouvido isso uma vez. — Um bom livro é bom em todas as páginas — e com essas majestosas palavras, a reunião estava realmente terminada.

Acontece que o livro é uma “perfeita” jogada entre profissionais do mercado de publicação de livros da qual nem o editor chefe tá sabendo. Pra piorar essa situação, surge mademoiselle Aurélie Brendin querendo saber tudo sobre o autor, e André, que sabe bem demais desse esquema, se enrola em mil e umas mentiras ao se apaixonar por essa moça. Entre o amor e o trabalho, adivinha o que monsieur Chabanais escolhe?
E então, de repente, ela estava à minha frente, e eu me perguntava com toda a seriedade se era possível que uma personagem de romance pudesse ser de carne e osso. 
Se eu tivesse lido essa história em um romance, teria me divertido muito. Porém, quando se é obrigado a fazer o papel de herói cômico em uma história, ela já não tem tanta graça.

Paralelo a esse lado ficcional, O Sorriso das Mulheres é daqueles livros feitos para enganar o leitor. Ao mesmo tempo em que ele puxa as cortinas do teatro do mercado de publicação de livros, ele é uma peça, que ora escolhe dizer a verdade, ora escolhe manter a magia que todo publicador almeja. Para um leitor que pouco entende como funciona o trabalho de publicação, o romance não deve passar de uma leiturinha açucarada e boba com a torre Eiffel lá atrás. Por outro lado, para um leitor com mais visão, ele vai sacar que o livro foi “montado” exatamente para esse fim. É algo cíclico, pois o que acontece nesse livro, acontece no plano real – o mesmo segredo que ronda Robert Miller, dizem, é o mesmo que ronda Nicolas Barreau.

Acho que é isso o que tanto gosto em O Sorriso... e que me conquistou desde a primeira leitura. É esse caráter muito pretencioso, que promete e cumpre, e faz isso de uma maneira tão diluída à trama que é capaz de pegar todo mundo sem quase ninguém sequer notar. É preciso muita sobriedade para alguém conseguir arquitetar algo do tipo e executar perfeitamente – sobre ser impossível, não é.

Na releitura, inclusive, lembrei-me das peças pregadas em A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário (resenha aqui), e da relação de metaficção/metaleitura que vi em Cafés Amargos (resenha aqui). No mais, há aquele quê clássico de brincar com clichês. Há alternância de pontos de vista, mentiras que viram super bolas de neve, grandes decepções amorosas, paixões platônicas e avassaladoras, excentricidades, fiéis escudeiros, “frases feitas”, reviravoltas, referências, etc, etc. 
Quando se está triste, ou não se absolutamente mais nada e o mundo afunda em insignificância, ou se enxergam as coisas com uma clareza excessiva, e então tudo assume de uma só vez um significado. Até mesmo as coisas mais banais, como um semáforo que passa do vermelho para o verde, podem decidir se vamos à direita ou à esquerda.

Monsieur Chabanais é um tremendo de um cafajeste e mademoiselle Brendin é uma perfeita ingênua. O Sorriso das Mulheres pode ser também, nesse sentido, um livro de crítica a todos esses elementos tão batidos e ainda assim procurados no mercado editorial. O que podemos dizer se eles cativam as pessoas?

A edição é bem caprichada, tanto no texto, quanto na parte gráfica. A capa? Me capturou desde o primeiro momento – tanto é que eu nem sabia com o que tava lidando da primeira vez. Tem totalmente a cara de livro que guarda a sensação de um achado e a cara de livro que esconde muitos segredos. Pra completar, traz as receitas mencionadas pela nossa heroína cozinheira. De uma maneira ou de outra, quase posso ter certeza de que, como diz o aviso na capa, este romance fará você feliz. Recomendo!

Há chances de eu estar enganada em várias de minhas percepções, mas vá lá, deixe-me conspirar :) 
Em novembro do ano passado, um livro salvou minha vida. Eu sei, agora parece muito improvável. Alguns podem até considerar exagerado ou melodramático eu dizer algo do gênero. Só que foi exatamente assim que aconteceu. 
— Ah, Aurélie, que conversa é essa? Você é uma velha teórica da conspiração.

E aí, o que vocês acham dessa super premissa de livro?

Obs: após a leitura, lembrem de voltar aqui e vejam esta matéria (contém spoilers!).


Até a próxima!

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Resenha: “A vida peculiar de um carteiro solitário” (Denis Thériault)


Tradução de Daniela P.B. Dias

Por Kleris: Sabe aquela história de que é nos frascos menores que estão as melhores fragrâncias? É neste pequeno romance e na vida peculiar deste carteiro que temos um livro incrível. Pensar nele me faz lembrar também daqueles achados (ou perdidos) que se concentram embrenhados em confins de bibliotecas e que guardam enredos extraordinários como pequenos segredos, esperando só um leitor topar ali, sem querer – pode-se dizer que topei sem querer, afinal, foi um presente ^.^ 
Bilodo se sentia fazendo parte da vida do bairro, e considerava que tinha um papel discreto, porém essencial nela. Para ele, entregar a correspondência era uma missão a ser cumprida conscienciosamente, sabendo que assim estava contribuindo para a manutenção da ordem universal das coisas. Ele não tinha vontade de trocar de vida com ninguém no mundo. Exceto, talvez, com outro carteiro.

Bilodo é um jovem carteiro humilde, sem muitas pretensões e de vida pacata. Enquanto uns são mais propensos a sair para noitadas, Bilodo tem ooooutros interesses, e seu trabalho é certeiro para alimentar um vício secreto: espionar e ler correspondências das pessoas e conhecê-las pelo que escrevem – ele captura as cartas antes de chegarem ao destino e depois devolve, entregando aos de fato destinatários. Esse vício o levou para outro, de stalkear correspondências de dadas pessoas. Nisso, Bilodo acabou se apaixonando por Ségolène. Quer dizer, pelos haicais que esta trocava em correspondências com um homem, que morava na cidade de Bilodo. Com o tempo, quanto mais ele alimenta esse vício, mais barreiras ele se vê tendo que transgredir.

O destino então lhe reserva uma reviravolta que ou findaria seus pequenos crimes contra correspondências alheias ou lhe obrigaria a tomar uma decisão drástica para conseguir manter esse vício. Eis a tragédia: quando o homem com quem Ségolène trocava cartas foi postar a nova correspondência, ele foi atropelado pelo veículo dos correios, onde Bilodo estava. O tal homem, Grandpé, morre ali mesmo e a carta é engolida pelo esgoto por conta do rio que se formou no temporal que caía. E agora, como receber mais cartas de Ségolène? Como matar aquela ansiedade por seus haicais? Como se conectar a essa mulher? Como dar continuidade a essa... paixão? 
Montanhas austeras
em segredo esperam
serem enfim conquistadas

Ostentam bravura
em roupas contra avalanche –
mas no fundo, frágeis
Haicai/’haicai:/ sm. (pl. – AIS) 1. pequeno poema japonês composto por três versos, em geral com 17 sílabas, tratando muitas vezes de temas da natureza. 2. uma imitação dessa forma poética em outros idiomas. [F:Do jap. haiku]
A vida peculiar de um carteiro solitário fala de fascínios. Resgatando as correspondências, Denis coloca as cartas como as verdadeiras e perdidas almas de uma comunicação que ficou para trás. Quem, afinal, ainda escreve à mão? E cartas? E troca regularmente? E nelas brinca com as palavras, com a vida? Os fascínios aqui transitam desde o fato de escrever cursivas #aletradaspessoas às poesias que as letras e sons e o imaginário podem formar. Agora imagina uma pessoa que é fascinada pelo fascínio dos outros (eu): fiquei apenas APAIXONADA por como o autor descreve, insere e encaixa as construções artísticas nessa trama beeeem peculiar. 
Bilodo geralmente almoçava no Madelinot, um restaurante que não ficava muito longe da Central de Triagem, e, depois da sobremesa, passava um tempo praticando caligrafia – a arte da bela escrita manual, que havia adotado como hobby. [...]
Os colegas de Bilodo nos Correios não entendiam. Quando o bando barulhento adentrava o Madelinot, na hora do almoço, zombavam dos seus esforços caligráficos, chamando-os de garranchos. Bilodo não se ofendia, porque afinal aqueles eram seus amigos, e também porque, se tinham culpa de algo, era apenas de serem ignorantes mesmo. À exceção de uma pessoa informada, ou um entusiasta devotado àquela arte como ele próprio, quem iria saber apreciar a beleza sutil de um traço de caneta, o equilíbrio delicado de proporções de uma linha bem-traçada?  
Muito mais atraentes, sem dúvida, eram as cartas das outras pessoas. Cartas de verdade, escritas por pessoas de verdade que preferiam o ato sensorial de escrever à mão e a expectativa deliciosamente lânguida de aguardar pela resposta à frieza reptiliana dos teclados e à instantaneidade da internet [...].

capa com envelope fechado
A escrita de Denis é uma poesia em prosa e uma prosa em poesia. Já mencionei em algum post por aqui que AMO metaficção e que é um tema de difícil escrita, pois segurar e amarrar a história como deve ser ou se intenta, é bem complicado, é um delinear de camadas de enredos. Para as camadas que envolvem em A vida peculiar, o autor se saiu muito bem, muito ambicioso. Foi deliciosamente singelo e simplório (que me fez amar mais ainda!). 
Os poemas de Ségolène, por mais que fossem muito diferentes entre si, tinham todos a mesma forma, sempre com três versos: dois com cinco e um com sete sílabas, somando sempre dezessete sílabas – nem mais, nem menos. Sempre a mesma estrutura misteriosa, como se fossem regidos por um código.

capa com envelope aberto
Por tratar-se justo de uma escrita sobre escrita, imaginei que a leitura fosse se mostrar lenta, mas não, ela flui bem rápida e, com 128 páginas, é para uma sentada só. Parece um filme francês, aliás (quero filme já!). Você não encontra muita ação na história, porém, tem umas reviravoltas magníficas. Com pitadas de mistério e suspense, que a verdade seja dita: Denis prega várias peças na gente. Uma preciosidade só!

Para derrubar o forninho de vez, o projeto gráfico do livro é liiiiiiindo demais. A capa é em formato de carta (com um segredo para se espiar) e seus versos têm ilustrações com selos, a diagramação é permeada de carimbos, selos e flores, e como não falar das poesias e haicais? Igualmente bem trabalhados. 

Este é o segundo romance deste autor canadense e estou doida para conhecer o primeiro, que foi muito premiado (mas acho que ainda não chegou por aqui =/). Como veem, curti bastante e sim, shippei muito. Vou parar por aqui se não entro nos méritos das jogadas do destino e do tempo.


Magnifique! Admirable!

Segurem aí o meu recomendadíííííííííííííííííííííííííííííííííííííssimo!

Até a próxima!


P.S.: Acho que Bilodo piraria se visse o insta e/ou o livro do Eu me chamo Antônio ;)


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Resenha: “Cafés Amargos” (Sabryna Mendes)

Por Kleris: Sabe aqueles títulos que parecem se conectar com você desde o nome? Não sei bem qual foi a ligação ou curiosidade que bateu, só sei que algo me dizia “Kleris, você tem que ler esse livro”. E agora eu repito para a Mary e aqui pra vocês: gente, leiam Cafés Amargos.

Conheci Cafés Amargos (e a Sabryna) muito por acaso. Teve o lançamento na minha cidade, por conta de o livro ter ganhado o concurso literário da prefeitura, categoria romance, e olhem só, nessa época eu estava na organização de um encontro de autores e já ia fechar a programação. Nos 45 minutos do segundo tempo consegui contatar a Sabryna e descobrir mais desse livro, que se antes me encantou só pelas primeiras expectativas, conseguiu alimentar segundas, terceiras, quartas... Enfim, comprei, li e ainda estou xonadinha nele.

Tomás é um escritor que está numa fase difícil, sem perspectivas, sem família e sem inspirações. E ele aceita essa realidade, vivendo um dia de cada vez, perdido em suas lembranças. Isso porque fora um escritor de sucesso que não soube bem lidar com o prestígio e quando veio o primeiro baque na carreira, logo atrás veio mais uma e outra, até que não deu mais pra segurar a barra, Tomás se deixou envolver pelo fracasso.

Sem mais nem menos, em um dia qualquer, sua vizinha pede para passar na sua frente na fila do caixa de um supermercado. Um feeling diferente, mas conhecido, bate em Tomás, que fica incerto sobre essa garota, Marina, que justamente lembra-o sobre outra Marina do seu passado, quem o inspirou para o primeiro livro. Mas... seria realmente outra Marina? Era possível ser a mesma Marina?
Ela se vira para ir embora, mas dá meia volta, antes que eu feche a porta totalmente.
— Mas me desculpe por ter vindo sem avisar, não vai acontecer de novo.
— Tudo bem.
Você mora na minha estante, Marina, nada mais natural que frequentar o resto da minha casa.

Poucas pessoas sabem que tenho certa queda (tombo!) por metaficção e justo por ser um tema às vezes complicado de transpassar, nem sempre as experiências são tão win quanto imagino que possam ser. Com Cafés Amargos, novamente, não sei bem que feeling de encontro foi esse, mas já fui com esse pezinho de metaficção e sem preocupações. Sem falar que logo nos primeiros capítulos, a autora me ganhou.

Sabryna envolve o leitor de maneira bem rápida e sem que percebamos. Foi engraçado que houve momentos em que a história, que fala de um escritor de seu sucesso a seu fracasso, parecia dizer a mesma coisa que eu estava sentindo com o próprio – pelo menos na parte de sucesso – o que deixava a trama ainda mais gostosa de ler. Essa pegada em muito me lembrou de O Sorriso das Mulheres, um livro muito queridinho por mim e recheado dessas pegadinhas com o leitor. 
— Escolheu bem, é um ótimo livro.
Apesar de a minha foto estar impressa na capa de trás, eu ainda não era reconhecido.
— Verdade? Ou é papo de vendedora?
Ela riu e disse:
— É verdade. Eu li e adorei, minha neta leu e também gostou muito. É um livro diferente e encantador.

Para um encanto maior, a autora se utilizou de idas e vindas do tempo para nos ambientar do enredo e isso foi uma jogada esperta, pois me deixou bem ansiosa e grudada no livro. Realmente, quando se começa a ler, você não para. E como é curtinho, vai tudo numa sentada só. 

Mais que falar de livros, leitores e sonhos, o romance coloca o amor, família e superação. Sabryna escreve, leva e traz a história, os ganchos, as reviravoltas, tudo de maneira bem despretensiosa, e isso também muito me impressionou, como concentrou muito em tão pouco. Gostei como pegou coisas usuais e corriqueiras e saiu do lugar comum, sem precisar ir muito longe para construir um bom livro.  
[...] ela invadiu meu espaço limitado e trouxe ar para o meu cubículo claustrofóbico. Tenho vontade de ir atrás dela e contar-lhe meus receios escondidos, mas minhas pernas parecem duas crianças desobedientes, me permitindo ir apenas até a janela e abrir uma brecha nas cortinas – agora brancas como algodão – a tempo de vê-la jogar os sapatos para o alto, como fez na minha casa.  Marina é encantadoramente espaçosa.

Cafés se revelou ser um daqueles pequenos romances que podem passar despercebidos, mas quem para uns minutinhos para lê-lo, sabe que não vai largá-lo. É no singelo doce e amargo dos cafés tomados por Tomás, e pelo preparo que tem por eles e pela vida, que ausências são preenchidas e que vemos aí uma autora ainda acanhada, mas que se arrisca e tem muito para nos apresentar.

O final deu uma corridinha e bateu a sensação de que poderia ter sido mais. Talvez pela estreia? Felizmente, em nada diminui o bom desenvolvimento da trama. A edição é simples, precisa de uma revisãozinha de texto e diagramação. Porém, depois de um tempo, juro, você nem nota mais. 

Preciso dizer? Recomeeeeeeeendo!

Quem se encantou como eu só nessas expectativas, pode comprar o livro aqui, direto com a autora. Adiciona lá no skoob também. E se a curiosidade bateu mais ainda, conheçam mais da Sabryna nessa entrevista bem bacana no blog Escalada: aqui.


Até a próxima!

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Ana Liberato