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domingo, 9 de janeiro de 2022

Resenha: Romance gráfico "Grande Sertão: Veredas" (João Guimarães Rosa)

Por Thaís Inocêncio: Grande Sertão: Veredas é considerado uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Publicado em 1956, o livro apresenta mais de 500 páginas sem capítulos e uma linguagem que, até hoje, é vista como inovadora, principalmente pela presença de neologismos (criação de palavras novas formadas por outras já existentes). 

Por isso, muita gente teme enfrentar esse clássico em sua forma original, cuja leitura, apesar de valer a pena, é desafiadora, não posso mentir. Para essas pessoas, a adaptação da obra em romance gráfico é uma excelente alternativa. Roteirizado por Guazzelli e com arte de Rodrigo Rosa, o livro em formato de quadrinhos é super fiel à obra original – isso porque não se pôde alterar nada da narrativa criada por Guimarães Rosa, apenas fazer cortes. 

Para quem não conhece a história, o romance é narrado em primeira pessoa por Riobaldo, um ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos, seus amores e suas dúvidas no sertão. E isso é tudo o que eu posso dizer. Aliás, aconselho àqueles que nunca tiveram contato com a obra e querem se aventurar por ela a não fazer nenhuma busca na internet para não dar de cara com revelações que fazem toda a diferença na experiência de leitura. 

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

O romance gráfico torna a leitura de Grande Sertão: Veredas mais fácil que a do texto original na íntegra. Isso acontece, sobretudo, pelo auxílio das imagens, que dão ao livro um caráter de obra cinematográfica. É como se o leitor pudesse ver os personagens em ação, o que facilita o entendimento de todo o enredo. As ilustrações são muito bonitas e condizentes com a ambientação da obra. Além disso, os personagens têm traços característicos, o que permite ao leitor diferenciá-los com facilidade. 

O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.

Outro ponto de destaque da adaptação são as cores utilizadas, com predominância de tons amarronzados, que remetem ao sertão, como se pode ver nestes exemplos:



Essa é uma obra riquíssima e inesgotável de sentidos. Sempre que se lê, se descobre um novo caminho, uma estrada não antes navegada. Cada vez que se encontra com esse texto, surge uma nova perspectiva das coisas. Conhecer Guimarães Rosa é conhecer uma parte importante da nossa cultura nacional. 

O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia.

Espero que tenham gostado e até a próxima!

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Resenha: "Pequena coreografia do adeus" (Aline Bei)


Sinopse: Julia é filha de pais separados: sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto seu pai não suporta a ideia de ter sido casado. Sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e falta de afeto, a jovem escritora tenta reconhecer sua individualidade e dar sentido à sua história, tentando se desvencilhar dos traumas familiares.

Entre lembranças da infância e da adolescência, e sonhos para o futuro, Julia encontra personagens essenciais para enfrentar a solidão ao mesmo tempo que ensaia sua própria coreografia, numa sequência de movimentos de aproximação e afastamento de seus pais que lhe traz marcas indeléveis.

Escrito com a prosa original que fez de Aline Bei uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea, Pequena coreografia do adeus é um romance emocionante que mostra como nossas relações moldam quem somos.

Por Stephanie: Pequena coreografia do adeus é o segundo livro da autora Aline Bei, que conquistou crítica e público com seu primeiro trabalho, O peso do pássaro morto. Eu já estava completamente convencida do talento de Aline quando li O peso, mas, ao finalizar Pequena coreografia, tive ainda mais certeza de que essa autora é uma das vozes literárias mais importantes de sua geração.

Escrevo esta resenha ouvindo Spit of you, de Sam Fender, um cantor pelo qual sou apaixonada e estou obcecada nos últimos dias. A canção fala sobre a dificuldade que o eu lírico tem de se comunicar com seu pai, ainda que o ame muito. E, por mais que o foco de Aline não seja exatamente essa relação em sua obra, e sim a de mãe e filha, acho que esse livro tem a mesma melancolia da música e ambos se complementam de alguma forma. Recomendo ouvirem e assistirem ao clipe, que é maravilhoso.

Agora, focando mais na minha opinião sobre a obra de Aline, é impossível não destacar a sensibilidade que permeia as páginas do começo ao fim. Em O peso, me lembro de sentir cada parágrafo como um soco, pesado e seco. Aqui, mesmo ainda abordando temas difíceis como abandono parental e violência doméstica, Aline parece quase fazer um carinho no leitor com sua prosa (que é quase verso, devido à sua estrutura diferenciada). E esse mesmo carinho se estende, de alguma forma, à protagonista Julia, uma jovem que está passando pelo momento mais conturbado de sua vida enquanto tenta se encontrar num mundo que também não é muito gentil com ela.

Em vários momentos eu me vi em Julia. Assim como ela, sou filha de pais separados, e por mais que eu (felizmente) nunca tenha passado pela maioria das situações que ela passou e tenha uma relação saudável com os meus pais, consegui entender perfeitamente suas dúvidas e anseios ao longo da leitura. A sensação de abandono emocional, as tentativas de aproximação, os dilemas… todas as reflexões dela me soaram muito críveis e condizentes com o que ela estava vivenciando.

A mãe de Julia certamente é a personagem mais enigmática e tridimensional da obra: uma mulher fria que definitivamente não deveria ter se tornado esposa e nem muito menos mãe, mas que mesmo com tantas atitudes odiosas acaba nos despertando empatia em certos momentos. Eu senti tanta raiva e desprezo por ela, mas ainda assim consegui entender um pouco como ela se tornou aquela pessoa.

Já o pai foi um personagem que me causou muita raiva também, mas por motivos diferentes. A apatia dele em relação à Julia me deu vontade de gritar em diversos momentos e mostrou como muitos homens ainda não se sentem tão responsáveis por seus filhos como as mulheres/mães. E esse pensamento claramente é fruto de uma sociedade sexista que sempre coloca nos ombros das mulheres um peso muito maior do que o considerado justo.

Acho que deu pra perceber o quanto eu gostei desse livro, né? Tanto que se tornou um dos meus livros favoritos de 2021. Recomendo muito, desde que o leitor se atente aos gatilhos. Não vejo a hora de poder ler mais trabalhos da Aline.

a gente pensa que conhece as pessoas

a gente se apega ao que imaginamos que conhecemos delas

mas no fim o que cada um constrói com o outro

 quando não estamos no recinto

é um Mistério.

Confira também a resenha da Thaís, colaboradora do DB que também adorou o livro, clicando aqui!

Até a próxima, pessoal!

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Resenha: "Belo mundo, onde você está" (Sally Rooney)

Tradução de Débora Landsberg.

Por Thaís Inocêncio: Eu nunca gostei muito de filmes ou livros "parados", aquelas histórias sem muitas ações ou reviravoltas, porque esse tipo de narrativa não costuma prender a minha atenção. Encontrei uma exceção no meio do meu caminho: as obras da escritora Sally Rooney.

Depois de ter lido Pessoas normais e gostado do estilo peculiar de escrita e da construção dos personagens, eu estava ansiosa por mais uma história da autora. E ela não me decepcionou; pelo contrário: esse foi um dos meus livros favoritos de 2021. 

É até difícil de construir uma sinopse, porque nesse livro não acontece nada, mas ele fala sobre tudo. A história se passa na Irlanda e relata, principalmente, a vida de três amigos: Alice, Eileen e Simon. Alice é uma romancista que se mudou de Dublin para uma cidadezinha irlandesa litorânea. Lá, por meio do Tinder, ela conhece Félix, com quem passa a se relacionar. Eillen e Simon, amigos de Alice, vivem em Dublin e se conhecem desde crianças. Eles nutrem fortes sentimentos um pelo outro, mas, por muito tempo, não têm coragem suficiente para deixá-los florescer (se você leu Pessoas normais, talvez veja um pouquinho de Marianne e Connell aqui). 
Talvez a gente tenha nascido para amar e se preocupar com quem a gente conhece, para continuar amando e se preocupando mesmo quando temos coisas mais importantes para fazer. [...] E amo esse aspecto da humanidade, e de fato é por esse exato motivo que torço para que sobrevivamos – porque somos uns idiotas em relação aos outros.
O livro é isso: o cotidiano, as relações e os pensamentos dessas quatro pessoas. A beleza e a grandiosidade da história estão no fato de a autora conseguir universalizar esses personagens. É como se eles passassem pelos dilemas e questionamentos que atravessam quase todo ser humano contemporâneo na casa dos trinta anos. Talvez por isso eu tenha gostado tanto – porque eu me identifiquei muito. 

Como Alice e Eileen não moram mais tão perto desde que a escritora se mudou de Dublin, as duas se comunicam bastante por e-mail – e eles são a melhor parte do romance. Nessas conversas, que são como monólogos, já que não há uma resposta imediata, elas refletem sobre amizade, sexo, religião, política, consumismo, relações de poder e de trabalho, mudanças climáticas e outras questões ambientais e o futuro do planeta de modo geral. Por meio desses e-mails, Sally Rooney consegue traduzir muitos dos nossos pensamentos a respeito do mundo (em diversos momentos eu me vi gritando "É ISSO" enquanto lia essas mensagens). A compreensão da autora sobre o universo que nos cerca na atualidade é o que mais me impressiona.
E se o sentido da vida na terra não for o progresso eterno rumo a um objetivo indefinido – a engenharia e a produção de tecnologias cada vez mais poderosas; o desenvolvimento de formas culturais cada vez mais elaboradas e abstrusas? E se essas coisas ascendem e recuam naturalmente, como marés, enquanto o sentido da vida continua sempre o mesmo – só viver e estar com outras pessoas?
Mas a história fala, sobretudo, de relacionamentos. Convenhamos que, embora o ser humano seja um ser social, não é simples se relacionar com as pessoas. Uma boa relação demanda diálogo e transparência, o que às vezes falta na dinâmica desses personagens, acarretando mágoas, ressentimentos, arrependimentos e frustrações. Mas os relacionamentos também envolvem compreensão, parceria e amor, o que faz com que eles valham a pena. E eu gosto muito da mistura de melancolia e otimismo que esse livro proporciona. 
Se Deus queria que eu abrisse mão de você, ele não teria feito de mim quem eu sou.
É importante destacar, porém, que o estilo de escrita da autora se mantém aqui, com parágrafos longos e diálogos sem nenhuma diferenciação, o que exige muita atenção do leitor. Mas, depois de mais essa história, Sally Rooney tem toda a minha atenção. Eu ainda preciso ler o primeiro romance da autora, Conversa entre amigos, mas ele já está à minha espera na estante.

Espero que tenham gostado e até a próxima!

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Resenha: "Depois do sim" (Taylor Jenkins Reid)

Tradução de Alexandre Boide.

Sinopse: Lauren e Ryan viveram juntos os melhores e mais importantes momentos da vida adulta. Um romance dos sonhos durante a faculdade. A formatura. Uma bela cerimônia de casamento. O primeiro emprego. O primeiro apartamento. Eles sempre estiveram lá um para o outro, mas depois de onze anos casados as brigas parecem não ter fim – desde contas a pagar até o que vão jantar, do seguro do carro até onde estacionar. 

É triste, mas inegável: o casamento está em crise. Incapazes de avaliar se ainda se amam, eles decidem tentar algo nada convencional: viver separados durante um ano, sem manter nenhum tipo de contato, na esperança de encontrar um jeito de se apaixonar novamente.

É possível ter romance sem compromisso? E parceria sem casamento? O que faz um relacionamento durar? Pelo que vale a pena lutar? Na tentativa de responder a essas perguntas, Lauren embarca em uma jornada de autoconhecimento que vai levá-la mais longe do que imagina.

"Não estamos brigando por dinheiro, por ciúme ou por falta de comunicação. Estamos brigando porque não sabemos o que fazer para ser felizes. Estamos brigando porque não estamos felizes. Estamos brigando porque não fazemos mais o outro feliz."

Por Thaís Inocêncio: O livro começa no presente, com mais uma das brigas rotineiras do casal, então já conseguimos sentir a atmosfera de crise na qual eles estão envoltos. Nos capítulos seguintes, voltamos onze anos no tempo para descobrir como Lauren e Ryan se conheceram, se apaixonaram e o que os fez deixar de viver um romance repleto de companheirismo e felicidade e passar a discutir por cada situação cotidiana.

Esse é um dos pontos mais interessantes do livro: o fato de que o casamento não está acabando por causa de algum acontecimento grandioso ou um problema recorrente, e sim por pequenas coisinhas do dia a dia, aparentemente imperceptíveis, que se acumulam até transbordar. Chega a ser até difícil explicar o motivo da crise para quem está de fora dela. É o que acontece com Lauren ao dividir com sua família a decisão que ela e Ryan tomaram.

Aliás, a relação entre Lauren e sua família, que acaba se tornando sua rede de apoio nesse momento difícil, é muito próxima e descrita de uma maneira bastante real. Desde o início, Ryan é acolhido pela mãe, irmãos e avó de Lauren como se fosse mesmo parte da família, portanto eles também sentem essa separação de maneira intensa, cada um a seu modo.

Um ponto negativo dessa história é a ausência de Ryan na narrativa. Como o livro é narrado em primeira pessoa por Lauren, temos apenas a perspectiva dela da situação, então não sabemos muito bem como ele está enfrentando esse momento. É quase como se a autora tivesse tomado partido diante dessa crise. Lá pela metade do livro, ela tenta inseri-lo um pouco mais na história, mas ainda é insuficiente.

"Talvez precisar de alguém não signifique ser incapaz de viver sem ele. Talvez precisar de alguém signifique que essa pessoa torna nossa vida mais fácil."

Mesmo assim, adorei o livro! Não chega a ser perfeito como Amor(es) Verdadeiro(s), da mesma autora, mas vale a leitura. Para quem é casado ou está em um longo relacionamento, é fácil se identificar com a história e compreender as atitudes e decisões do casal. Quem não se encaixa nesses quesitos, pode achá-los um tanto dramáticos. De todo modo, é uma ótima história sobre as várias nuances do amor e sobre a importância de não desistir dele. 

Até a próxima, pessoal!

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Resenha: "Daisy Jones & The Six" (Taylor Jenkins Reid)

Tradução de Alexandre Boide.

Sinopse: Todo mundo conhece Daisy Jones & The Six. Nos anos 1970, dominavam as paradas de sucesso, faziam shows para plateias lotadas e conquistavam milhões de fãs. Eram a voz de uma geração, e Daisy, a inspiração de toda garota descolada. Mas no dia 12 de julho de 1979, no último show da turnê Aurora, eles se separaram. E ninguém nunca soube o por quê. Até agora.

Essa é a história de uma menina de Los Angeles que sonhava em ser uma estrela do rock, de uma banda que também almejava seu lugar ao sol e de tudo o que aconteceu – o sexo, as drogas, os conflitos e os dramas – quando um produtor apostou (certo!) que juntos poderiam se tornar lendas da música.

Nesse romance inesquecível narrado a partir de entrevistas, Taylor Jenkins Reid reconstitui a trajetória de uma banda fictícia com a intensidade presente nos melhores backstages do rock'n'roll.

"É isso o que todo mundo quer da arte, não? Ver alguém expor os sentimentos que existem dentro de nós. Arrancar um pedaço do seu coração e mostrar para você."

Por Thaís Inocêncio: Por se tratar de "uma história de amor e música", como diz o subtítulo, eu já sabia que iria me apaixonar por esse livro – e estava certa! Escrito em formato de entrevista, a obra traz um registro completo de como surgiu a estrela Daisy Jones, como foi formada a banda The Six e como essas duas potências se juntaram, formando o fenômeno Daisy Jones & The Six. 

Os relatos inéditos são dados pelos próprios integrantes da banda e por pessoas próximas a eles, também envolvidas no meio musical na década de 1970. As entrevistas foram feitas anos após o fim da banda, portanto os personagens recorrem a flashbacks. Isso torna a narrativa ainda mais interessante, porque, em muitos casos, cada um deles se lembra da mesma situação de maneiras diferentes, a depender do modo como foram afetados por aquele momento. 

"Muitas vezes a verdade não está nem de um lado nem de outro, e sim escondida num meio-termo."

Quem está acostumado com uma narrativa linear, pode se atrapalhar um pouco até se ambientar na história e conhecer os personagens, que não nos são apresentados da maneira tradicional; vamos descobrindo quem eles são e o contexto em que vivem aos poucos. Gostei desse formato porque a autora nos coloca no papel de fãs ou, pelo menos, de pessoas que já conhecem os membros da banda, afinal, ela foi muito famosa, o que contribui para a verossimilhança da história. 

Por falar em verossimilhança, mais uma vez Taylor Jenkins Reid consegue construir personagens tão complexos – como as pessoas realmente são – que fica difícil de acreditar que Daisy Jones & The Six não existiu de verdade. Para completar, a autora criou, de fato, as letras das músicas compostas pela banda, as quais podem ser encontradas na íntegra ao final do livro. Cada vez que uma música aparece na história, a vontade de ouvi-la de verdade é quase incontrolável. Felizmente, há uma série vindo por aí e eu mal posso esperar para ver essa banda ganhando vida!

"We only look like young stars

Because you can't see old scars"

[Nós só parecemos astros jovens / 

Porque você não tem como ver as velhas cicatrizes]

Letra da música "Young stars"

Outro ponto de destaque é a representação das personagens femininas, que são à frente de seu tempo e dignas de admiração. Daisy é uma personagem cheia de camadas que chama a atenção pela determinação e ambição, pela maneira como impõe suas vontades e pelo controle do próprio corpo. Karen, a tecladista e minha personagem preferida nessa história toda, é independente e conhece bem o significado de sororidade. Camila, esposa do vocalista Billy Dunne, impressiona pela resiliência, perseverança e pelo modo como coloca os outros acima de si mesma (o que às vezes é uma virtude, às vezes uma fraqueza).

É importante dizer que, apesar de ter sido o que me chamou a atenção inicialmente, essa não é apenas "uma história de amor e música". O livro aborda, ainda, a dependência de álcool e drogas, o relacionamento abusivo e os diversos sentimentos que perpassam as relações humanas em geral, como inveja, egoísmo, paixão, insegurança, desejo, entre outros. O plot twist realmente me impressionou e acredito que esse seja um dom da autora (vide o que ela fez em Os sete maridos de Evelyn Hugo). 

"As coisas não precisam ser perfeitas para ser fortes."

A Stephanie também escreveu uma resenha de Daisy Jones & The Six para o Dear Book. Estamos aqui pra provar que essa leitura vale a pena!

Até a próxima, pessoal!


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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Resenha: "Conectadas" (Clara Alves)

Sinopse: Raíssa e Ayla se conheceram jogando Feéricos, um dos games mais populares do momento, e não se desgrudaram mais – pelo menos virtualmente. Ayla sente que, com Raíssa, finalmente pode ser ela mesma. Raíssa, por sua vez, encontra em Ayla uma conexão que nunca teve com ninguém. Só tem um “pequeno” problema: Raíssa joga com um avatar masculino, então Ayla não sabe que está conversando com outra menina.

Quanto mais as duas se envolvem, mais culpa Raíssa sente. Só que ela não está pronta para se assumir – muito menos para perder a garota que ama. Então só vai levando a mentira adiante… Afinal, qual é a chance de as duas se conhecerem pessoalmente, morando em cidades diferentes? Bem alta, já que foi anunciada a primeira feira de Feéricos em São Paulo, o evento perfeito para esse encontro acontecer. Em um fim de semana repleto de cosplays, confidências e corações partidos, será que esse romance on-line conseguirá sobreviver à vida real?

"Sabe quando as coisas vão virando uma bola de neve e você não tem chance de voltar atrás?"

Por Thaís Inocêncio: Tudo começa de maneira muito inocente, nada premeditada. Raíssa escolhe um avatar masculino simplesmente para fugir do machismo escancarado do mundo dos games. Um dia, porém, ela encontra Ayla perdida no jogo, pedindo ajuda e sendo ignorada, já que nenhum menino sabichão quer interromper suas jogadas para ajudar uma menina iniciante. Como Raíssa já passou por isso e conhece esse preconceito, ela se dispõe a ajudar, sem, no entanto, se despir da sua capa de personagem masculino. 

A partir desse primeiro contato no jogo, as duas estreitam relações na internet. É aí que as mentiras e confusões têm início e a sensação que temos é exatamente a da quote acima: como é que essa bola de neve vai ser desfeita? As artimanhas de Raíssa para não revelar seu verdadeiro "eu" à Ayla são tão bem construídas que ficamos com a impressão de que, a qualquer momento, ela será engolida pelas próprias mentiras e não conseguirá mais se safar. 

Essa maneira de amarrar a história de modo que as coisas não fiquem muito óbvias ou com pontas soltas foi uma das coisas de que mais gostei no livro. A autora consegue nos convencer tanto de que Ayla realmente nem desconfia que Raíssa é uma menina quanto de que Raíssa tem motivos reais para continuar se escondendo por trás de um avatar masculino. Isso faz com que a gente não julgue (muito) as atitudes de Raíssa, mas a compreenda. Afinal, revelar-se para Ayla é também revelar-se para o mundo, não só o dos games, e é preciso muita coragem pra fazer isso. 

"Eu não estava pronta para admitir ao mundo que gostava de meninas."

Essa história vai muito além de um romance clichê entre duas meninas gamers; ela fala de descobertas, inseguranças, autoconhecimento, amor próprio, amizades e questões familiares. Imagino que quem faz parte da comunidade LGBTQIA+ se identifique com muitos dos caminhos e obstáculos que os personagens percorrem e enfrentam nesse livro, e o melhor é que ele mostra que, no fim, tudo vale a pena. Amei toda a representatividade presente nessa obra e espero que isso seja cada vez mais comum na literatura e na vida. 

Desejo que essa leitura aquela o coração de vocês como fez com o meu. Até a próxima, pessoal!

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Resenha: "Pessoas normais" (Sally Rooney)

Tradução de Débora Landsberg.

Por Thaís Inocêncio: Marianne e Connell frequentam o mesmo espaço, mas não pertencem ao mesmo mundo.  Apesar de serem colegas de classe de um colégio em Sligo, cidade da Irlanda, eles parecem viver em universos diferentes e paradoxais: ela é rica, mas excluída; ele pertence a uma classe social mais baixa, mas é popular. Há, porém, um fio que os conecta: a mãe de Connell trabalha como faxineira na mansão da família de Marianne.

Em uma das idas à mansão para buscar a mãe, Connell adentra o mundo de Marianne. Entre conversas e olhares, surge um desejo mútuo de ficar junto. Entretanto, como Marianne é vista como esquisita pelos alunos, Connell propõe que eles mantenham o relacionamento em segredo. Temos aí o primeiro conflito dessa história, causado muito mais por uma questão de poder social do que econômico.

“Quando conversa com Marianne, ele tem uma sensação de completa privacidade. Poderia contar qualquer coisa a seu respeito, até as coisas estranhas, e ela jamais as repetiria, ele sabe. Estar sozinho com ela é como abrir uma porta para fora da vida normal e fechá-la depois de passar.”

A partir de então, acompanhamos a vida e a dinâmica dos dois ao longo de quatro anos – do fim do ensino médio ao período da graduação. À primeira vista, esse parece o roteiro de um romance clichê que se passa entre jovens que estão entrando na vida adulta, mas essa é uma história muito mais densa do que se imagina, sobretudo pelos assuntos tratados. Entre outros temas, o livro aborda conflitos familiares, abuso psicológico, suicídio, depressão e diversos níveis de insegurança.

Com uma trama repleta de encontros e desencontros, o livro me fez lembrar bastante de Um dia, do autor David Nicholls, mas acredito que a linguagem usada por Sally Rooney atrapalhou um pouco a minha imersão na história.

Assim como Nicholls, Sally adota a narrativa em terceira pessoa para que seja capaz de nos dar uma visão ampla e, talvez, imparcial dos personagens. No entanto, sua escrita foge do convencional e a autora insere diálogos sem nenhuma diferenciação, como travessões ou aspas, e às vezes os coloca no meio dos parágrafos, o que pode causar confusão ao menor sinal de distração do leitor. Por isso, é importante estar concentrado na leitura para não se perder em relação ao momento do diálogo e a quem está falando.

“Passado um tempo ele a ouve dizer algo que não entende. Não escutei direito, ele diz. Não sei o que há de errado comigo, diz Marianne. Não sei por que não consigo ser que nem as pessoas normais.”

No entanto, ainda assim, achei incrível a construção dos personagens, que nos são apresentados de maneira tão crua. É como se a autora os revirasse do avesso e nos mostrasse tudo o que eles têm escondido lá dentro – e que, muitas vezes, escondemos também. Por isso, é fácil nos identificarmos com diversos sentimentos e situações apresentados no livro. Sally Rooney criou uma história simples, sem muitas reviravoltas, sobre “pessoas normais” e, ao mesmo tempo, extremamente complexas.

“A vida é a coisa que você traz consigo dentro da própria cabeça.”

E, se a escrita da autora prejudicou um pouco o meu envolvimento com a história, a adaptação lançada pela BBC (disponível no Brasil pelo streaming Starzplay) fez exatamente o contrário: me colocou de cabeça e coração na trama. A série, dividida em 12 episódios, é bem fiel ao livro, mas consegue ser superior, principalmente por causa da atuação dos protagonistas, interpretados de modo brilhante por Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal. A intimidade e a química do casal nos faz ter certeza de que, ainda que a vida tenda a levá-los por caminhos separados, eles estão destinados a ficar juntos, pois só na companhia um do outro é que conseguem ser eles mesmos.

Paul Mescal e Daisy
Paul Mescal e Daisy Edgar-Jones como Connell e Marianne na série Normal People.

Até a próxima, pessoal!

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Resenha: "Amor(es) verdadeiro(s)" (Taylor Jenkins Reid)

Tradução de Alexandre Boide.

Por Thaís InocêncioNa adolescência, Emma Blair tinha um crush no líder da equipe de natação do colégio, mas achava que nada iria acontecer entre eles, afinal, ele era popular e ela era... normal (bem coisa de filme estadunidense, sabe?).

Um dia, em meio a uma confusão numa festa, eles iniciam uma conversa e descobrem que têm muito em comum. Ambos não querem atender às expectativas dos pais e desejam fugir de toda a pressão que eles fazem: Emma não quer trabalhar na livraria da família; Jesse não quer ser nadador profissional. E assim eles começam a namorar.

Emma e Jesse, então, deixam sua cidade natal, em Massachusetts, e vão para a faculdade em Los Angeles. Eles se casam e têm uma vida muito feliz – até que uma tragédia acontece. Na véspera do aniversário de casamento deles, Jesse sofre um acidente de avião e é dado como morto.

Emma, é claro, passa por um longo processo de luto. Ela volta para a casa dos pais, para ter o apoio deles e da irmã, mas o sofrimento parece não ter fim. Aos pouquinhos, porém, ela vai se reerguendo. É nesse momento que ela reencontra Sam, um antigo colega, que trabalhava na livraria da família Blair. Eles se aproximam e iniciam um relacionamento. Emma, enfim, acredita ser capaz de se abrir novamente para o amor e, mais de três anos após a morte de Jesse, ela fica noiva de Sam. Então, chega a notícia bombástica: Jesse está vivo! É aí que Emma se vê dividida entre seus Amor(es) verdadeiro(s).

Narrado pela protagonista Emma, o livro consegue chamar a nossa atenção desde, literalmente, a primeira frase. Dá uma espiadinha:: 

"Eu estava terminando de jantar com a minha família e com o meu noivo quando meu marido de repente me liga."

Ou seja, já no prólogo, recebemos a informação de que Jesse está vivo. A história, portanto, começa na atualidade e, nos capítulos seguintes, recorre a flashbacks. Primeiro, somos levados à adolescência de Emma, que nos conta como conheceu e se apaixonou por Jesse. Depois, acompanhamos o seu intenso processo de luto. Por fim, vemos como ela consegue retomar a vida e se apaixonar novamente.

"Eu havia encontrado um homem que me entendia e me aceitava completamente, que tinha força suficiente para não se incomodar com o espaço no meu coração que guardei para o meu antigo amor." 

Essa estrutura é muito interessante porque permite que a gente conheça a personalidade dos personagens masculinos e saiba como nasceram e se consolidaram esses dois relacionamentos. Além disso, esse recurso de flashback nos permite entender o momento que Emma vivia quando se apaixonou por cada um. Isso é essencial para que os leitores se sintam tão divididos quanto ela, o que torna a experiência de leitura bastante imersiva. 

Além de romance, o livro tem bastante drama (acho que dá pra notar, né?). Alguns leitores podem achar certos momentos do livro cansativos ou repetitivos, como os que a Emma enfrenta o luto ou fica em dúvida sobre qual dos dois é o amor da sua vida, mas isso não ocorreu comigo. Eu entendi todas as dificuldades e os questionamentos da protagonista e me envolvi completamente com a história. Diria até que sofri quase tanto quanto ela.

Para mim, esse livro é 5 estrelas! Além de envolvente e emocionante, a história nos deixa belas lições sobre amor, amadurecimento e transformação. Será que daqui a cinco anos você será a mesma pessoa que é hoje? Isso é bom ou ruim? E, afinal, existe apenas um amor verdadeiro? Essas são algumas reflexões que poderão te acompanhar durante a leitura. 

"Não acho que um amor verdadeiro precise ser o único. Acho que amor verdadeiro significa amar de coração." 

Se você se interessou por esse livro, saiba que ele é só mais uma das obras perfeitas dessa autora. Por aqui, também somos fãs de Os sete maridos de Evelyn Hugo e Daisy Jones & The Six, todos escritos por Taylor Jenkins Reid. Confira nossas resenhas e até a próxima!

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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Resenha: "O Menino na Ponte" (M.R. Carey)

 

Tradução: Edmundo Barreiros

Sinopse: Aos 15 anos, Stephen Greaves é um gênio científico precoce, cujo trabalho pode dar à humanidade sua melhor arma contra uma praga devastadora que assola o mundo. Ele e a epidemiologista Samrina Khan são dois dos dez tripulantes do Rosalind Franklin, um laboratório blindado sobre rodas liderado por um comandante prepotente e autoritário, que cruza uma terra devastada em busca da cura para esse vírus que alterou para sempre a vida como conhecemos. A viagem é longa, e a restrição do espaço físico para toda a tripulação faz com que a tensão do confinamento seja também uma ameaça considerável. O veículo torna-se um caldeirão de diferentes agendas, crenças e visões de mundo prestes a explodir. Em meio a esse ambiente hostil, Stephen tem em Samrina uma figura maternal que o protege dos demais cientistas, que o tratam com cautela, desprezo ou verdadeiro ódio. Mas o menino não se importa com confrontos físicos, mentiras e incertezas; encara todos os seus desafios com interesse, astúcia e muita habilidade. Todos carregam aspirações e sonhos, mas sabem que, se tudo der errado, sua perda poderá ser suportada. Eles sabem muito bem que são dispensáveis. Estranho, surpreendente e assustador, O menino na ponte é uma história emocionante e poderosa que fará você questionar o que significa ser humano em um mundo onde a esperança pode ser o maior dos desafios. M.R. CAREY, sob o nome de Mike Carey, escreve para a Marvel e a DC, incluindo uma elogiada passagem pelos X-Men e a série Lúcifer, baseada no universo de Sandman. Seus trabalhos autorais aparecem com regularidade na lista de ficção gráfica do The New York Times."

Por Jayne Cordeiro: "O Menino na Ponte" é o segundo livro do autor M. R. Carey. O anterior "A menina que tinha dons" se passa no mesmo universo, mas não é necessário ter lido ele para ler este aqui. Eu mesma não li, mas já fiquei curiosa para procurar o livro e ler. Quem sabe acontece uma resenha dele por aqui. Peguei esse livro sem muita disposição, e acabei gostante bastante dele. Gosto de histórias envolvendo zumbis (caso dos chamados Famintos aqui), e esse livro conseguiu juntar ficção e ciência de uma forma bem estruturada. A história é densa, mas não é cansativa.

Acompanhamos vários personagens. Alguns de forma mais superficial, e outros de forma mais profunda, como Stephen Graves, um jovem com provável autismo, e extremamente inteligente. Sendo uma peça pouco valorizada, mas fundamental, em uma equipe que não tem muitas esperanças de achar a cura para a infecção que causou o Colapso. Stephen é um personagem cativante, mesmo que não tenha a intenção de ser simpático. Acompanhar essa história, principalmente através dele é uma ótima escolha, já que é um personagem inteligente, dedicado e com uma racionalidade bem interessante.

O enredo é bem estruturado e conectado. E as situações vão acontecendo, e o leitor precisa continuar lendo e ver aonde essas ações vão levar. Como saber que algo vai dar errado, mas a gente não consegue parar de olhar. Conseguimos nos apegar a esse grupo e sentir com eles as reviravoltas e dilemas. O livro consegue prender o leitor até o final, e mesmo sabendo, mais ou menos, aonde as coisas vão levar, ainda assim, acabamos surpreendidos no final. É uma leitura que recomendo, e que me deixou bem pensativa quando acabei. Com certeza, quero mais livros ambientados nesse universo, porque há muita coisa que pode ser tirada de lá.


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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Resenha: "Malorie" (Josh Malerman)

Tradução de Alexandre Raposo.
Por Thaís Inocêncio: Pra quem não conhece o livro nem o filme, Caixa de pássaros conta a história de um surto inexplicável que deixou poucos sobreviventes no mundo, entre eles Malorie e seus dois filhos. Aparentemente, ao ver alguma coisa, possivelmente uma criatura, as pessoas tiram a própria vida de maneira brutal. Por isso, o melhor a se fazer é não abrir os olhos. Nesse primeiro livro, Malorie sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas, para isso, terá que encarar, de olhos fechados, o mundo fora da casa em que está trancada.
Se você não leu Caixa de pássaros, talvez não queria ler o restante desta resenha.
Em Malorie, sequência de Caixa de pássaros, descobrimos que a estadia na escola para cegos não deu muito certo e conhecemos a vida da protagonista doze anos após a sua fuga anterior. Agora, ela vive em um acampamento apenas com os filhos, que estão com 16 anos de idade, mas o mundo continua o mesmo, portanto ainda não se pode vê-lo. Até que, um dia, um homem desconhecido que diz ser do censo bate à sua porta (Ok, eu ri muito nessa parte. Imagine que um mundo apocalíptico, tipo Walking Dead, terrível e perigoso, é incapaz de deter um homem do censo com sua prancheta. Hilário hahaha).
Malorie e os filhos não têm contato direto com esse homem, mas ele deixa para trás documentos contendo informações valiosas, inclusive a de que pessoas que Malorie acreditava estar mortas, na verdade, estão vivas. Então, ela terá que tomar a difícil decisão de se manter segura, protegida pela venda, ou partir em uma viagem incerta, cheia de riscos, em busca de esperança.
"Você pode fazer tudo o que puder para evitar o novo mundo, mas, de um modo ou de outro, em breve ele vai bater à sua porta."
Nos agradecimentos, o autor Josh Malerman conta que, após assistir à adaptação cinematográfica de Caixa de pássaros (que tem algumas diferenças em relação à obra original), ele se perguntou: O que acontece com Malorie agora? É o que ele nos conta neste livro. Não esperem explicações sobre as criaturas em si ou sobre o que originou tudo isso – o foco são Malorie, Tom e Olympia, três pessoas com maneiras completamente diferentes de lidar com um mundo que caiu na escuridão.
Malorie é uma pessoa que, há mais de uma década, vive pela venda (como ela mesma diz), seguindo fielmente as regras de não abrir os olhos e não confiar em ninguém. Olympia é uma garota tranquila e cuidadosa que demonstra respeitar as imposições da mãe. Já Tom é inquieto e, inconformado com o novo mundo, busca soluções para que não vivam mais escondidos. Essas diferenças de pensamentos e atitudes criam conflitos entre os personagens que acabam ditando o rumo da história. Porém, a descrição deles é tão boa que é perfeitamente possível compreender e até se identificar com cada um deles.
"Quero que vocês três saibam que o mundo não vai melhorar. Temos que começar de novo".
Essa sequência é menos eletrizante o primeiro livro, mas ainda carrega uma boa atmosfera de suspense e tensão que te mantém curioso o tempo todo. É inevitável comparar a história com o que vivemos hoje, que também parece ficção. O medo do desconhecido, do incompreensível. A sensação de impotências, as crescentes incertezas. As vendas deles são as nossas máscaras. Malorie diz que, pós-criaturas, a sociedade se dividiu entre pessoas prudentes e imprudentes. A obra ainda mostra que, embora as criaturas sejam terríveis, elas não são o problema; o homem é a criatura a ser temida. Hoje, no nosso mundo, não são os seres humanos imprudentes as verdadeiras criaturas a serem temidas?
"As criaturas podem ser monstros, mas, como evidenciado por sua mãe e pela vida que ela considerou adequada para você, essas coisas terríveis não são o problema. O homem é a criatura a ser temida."
Porém, o final do livro tem um tom de esperança que fez toda a jornada valer a pena pra mim – e até pensar que posso ter alguma esperança real por aqui.
Até a próxima, galera!
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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Resenha: "O caso dos dez negrinhos" (Agatha Christie)

Tradução de Leonel Vallandro

Por Thaís Inocêncio: Dez pessoas que não se conhecem recebem um convite misterioso para passar alguns dias na famosa Ilha do Negro. Embora não se lembrem muito bem do anfitrião, elas aceitam o convite, afinal, parece ser um lugar muito agradável que abriga uma mansão luxuosa. O que elas não esperavam é que a estadia na ilha não seria nada relaxante, e sim muito assustadora.

Ao chegarem ao local, os dez convidados descobrem que o anfitrião não está lá e que o barco que os levou já partiu, deixando-os sem possibilidade de sair da ilha. Mas a mansão está abastecida com muitos alimentos, então eles ficam tranquilos. Até que, após o primeiro jantar, eles ouvem uma gravação acusando cada um deles de ter cometido um crime que, direta ou indiretamente, resultou numa morte.

Logo, eles descobrirão que, dentro da casa, existe alguém que pretende fazer justiça com as próprias mãos, vingando-se de um por um dos convidados. Para isso, o justiceiro desconhecido vai se inspirar num poema infantil em que dez negrinhos são eliminados, um de cada uma vez, de maneiras diferentes (É tipo a musiquinha dos 5 patinhos da Xuxa, que cada um vai sumindo de uma vez, sabe? Só que o poema do livro explica como cada um “some”). Ao mesmo tempo, dez figuras negras que estavam em cima de uma mesa começam a desaparecer. Mas quem é o assassino? É alguém de fora ou um dos dez convidados? E como eles vão escapar dessa? Só lendo pra saber!

Esse foi o segundo livro da Rainha do Crime que eu li e gostei bem mais do que o outro – que foi “Assassinato no Expresso do Oriente”). O livro é curtinho, mas tem muita ação, emoção e consegue prender a gente até o fim! Além disso, percebi que não tem como ler Agatha Christie sem ficar tentando adivinhar quem é o culpado. Durante quase toda a leitura, eu desconfiei de uma pessoa e é claro que eu estava errada, porque a dona autora sempre segue pelo caminho que a gente menos imagina!

No Brasil, o livro foi relançado em 2014 pela Globo Livros com o título “E não sobrou nenhum”. Isso ocorreu porque a versão original, lançada em 1939, é “Ten Little Niggers” e a palavra “nigger”, nos Estados Unidos, tem cunho racista; ela era usada para insultar os negros ou se referir a eles de maneira pejorativa. Na nova versão, o local se chama Ilha do Soldado e o poema fala sobre dez soldadinhos. Minha edição, comprada por 5 reais em um sebo, ainda leva o título antigo. De todo modo, a história não é sobre a morte de pessoas negras; o nome original se refere ao poema.

Recomento muito a leitura!

Até a próxima, galera!
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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Resenha: "Teto para dois" (Beth O'leary)


Tradução de Carolina Selvatici

Por Thaís Inocêncio: Tiffy terminou um relacionamento e saiu da casa do ex-namorado. Agora, ela precisa de um lugar barato para morar. 

Leon trabalha como enfermeiro no turno da noite e precisa de dinheiro para ajudar o irmão, que está com problemas. Então, ele resolve procurar alguém pra dividir o apartamento – ou melhor, a cama, porque só tem uma.

O plano é simples: encontrar uma pessoa que trabalhe durante o dia e só fique no apartamento à noite, quando ele está fora. Desse modo, eles podem usar a mesma cama e nem precisam se encontrar. É assim que Tiffy e Leon passam a morar “juntos”. 

Todo o trâmite da locação é feito entre Tiffy e a namorada de Leon, então ela nem o conhece pessoalmente. Por isso, eles passam a tratar de questões cotidianas via post-its espalhados pela casa. Aos poucos, essa comunicação evolui e o plano inicial de dividir a cama já não parece mais tão simples. 

Esse livro consegue ser fofo e sério ao mesmo tempo. Os capítulos são alternados entre os protagonistas e, assim, conhecemos a fundo o encantador Leon e a divertida Tiffy (que também é muito colorida – ela lembra a Lou, de "Como eu era antes de você").

"Bom, como o quarto vai estar?
Entro, intrépido. Solto um grito estrangulado. Parece que alguém vomitou arco-íris e estampas, cobrindo toda a superfície cm cores que nunca estariam juntas na natureza. Cobertor horrível e comido por traças em cima da cama. Uma enorme máquina de costura vege ocupa quase a escrivaninha toda. E roupas... roupas em todos os cantos."

Além do romance, a autora consegue tratar de assuntos necessários e atuais, como o relacionamento abusivo. E ela faz isso de modo muito responsável, esmiuçando a maneira como ele surge e se desenvolve, demonstrando como vítima é manipulada nesses casos e evidenciando a importância de se ter não só uma rede de apoio, mas ajuda profissional para superar os traumas que ele deixa.

"— Eu... me lembro de ser muito feliz com ele. Além de ser, tipo, infeliz pra cacete."

Achei interesse a maneira como a autora constrói pessoas "normais", que fogem do que é considerado padrão de beleza e são lindas na essência. A Tiffy é descrita como uma mulher de "grandes proporções" e Leon é pardo, magro e tem orelhas de abano. As personagens secundárias também são muito bem apresentadas e cativam o leitor, como os amigos da Tiffy, os pacientes do hospital onde Leon trabalho e o irmão dele, Richie (por quem estou apaixonada). A escrita é tão gostosa e a leitura é tão interessante que fica difícil não devorar o livro em poucos dias.

"Sempre vale a pena atravessar as portas."

Até a próxima, galera!
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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Resenha: "Os sete maridos de Evelyn Hugo" (Taylor Jenkins Reid)

Tradução de Alexandre Boide

Por Thaís Inocêncio: Evelyn Hugo foi uma das mais belas e famosas atrizes de Hollywood na segunda metade do século XX. Iniciou sua carreira na década de 1950 e permaneceu em evidência até o início dos anos 1990, fosse por sua atuação em alguma produção de sucesso ou pelas fofocas envolvendo seus sete casamentos. Agora, chegando aos 80 anos de idade e reclusa em uma mansão de Nova York, ela decide contar sua verdadeira história, mas com uma condição: a de que a escritora de sua biografia seja a jornalista Monique Grant. 

A princípio, não há ligação alguma entre essas personagens. Apesar de trabalhar em uma grande revista, Monique é iniciante e não entende a exigência da atriz. Mas quem é que perderia a chance de revelar ao mundo a trajetória dessa lenda do cinema? Assim, elas passam a se encontrar diariamente para que Evelyn Hugo conte, com detalhes, tudo o que fez para alcançar o sucesso e, sobretudo, para manter a fama. Ao final, ela promete, Monique entenderá porque foi escolhida para essa missão.
"A vida em Hollywood tem uma curva de subida acentuada e queda brusca. Fiz tudo o que pude para continuar no topo o máximo possível." 
No livro, há uma parte reservada para cada marido, iniciada com seu respectivo nome, como se fosse a abertura de um capítulo. Porém, essa estrutura e até o título do livro enganam: ambos dão a entender que o tema central são os casamentos da protagonista, quando, na verdade, eles só determinaram fases diferentes da vida de Evelyn Hugo – o foco é a personalidade dela.

A trajetória da atriz é narrada por ela em 1ª pessoa, como se fosse uma autobiografia, nos fazendo mergulhar nos detalhes do seu passado. As descrições, tanto de ambientes quanto de sentimentos, são tão precisas que nos colocam dentro da história e nos fazem questionar se Hollywood, no século passado, não era exatamente como é retratada no livro. À medida que os acontecimentos da vida de Evelyn Hugo são revelados por ela, também somos apresentados a reportagens da época, evidenciando o quanto a mídia de entretenimento sempre teve um caráter invasivo e pouco comprometido com a verdade.
"Obviamente, as pessoas entenderam tudo errado. E nunca se preocuparam em esclarecer. A mídia só conta aquilo que quer contar. Sempre foi assim. E sempre vai ser."   
Intercalando-se com a narração de Evelyn, temos o ponto de vista de Monique. Ao descrever, no tempo presente, como tem sido sua relação com a atriz, ela também revela informações sobre a própria vida profissional, amorosa e familiar e, aos poucos, percebemos o quanto esses campos passam a ser influenciados pela história da protagonista, principalmente quando ela descobre porque foi escolhida para escrever essa biografia.

Esse livro tem sido muito elogiado, e com razão! Para mim, o sucesso da obra está ancorado em três fatos principais: a escrita da autora, que é bastante fluida; o modo como ela consegue inserir na obra assuntos polêmicos e necessários, como violência doméstica, homossexualidade e suicídio, nos fazendo refletir sobre eles; e a construção dos personagens, especialmente de Evelyn Hugo, que é complexa e real, com defeitos, incertezas, mágoas, qualidades, desejos e sonhos. 

A atriz é ambiciosa e manipuladora, mas também é determinada, inteligente e sensível. Ao mesmo tempo em que discorda de normas e padrões estabelecidos pela sociedade da época, tem medo de não ser socialmente aceita e busca caminhos para, ao menos, fingir que é adequada, ainda que a realidade por trás da fama seja outra. Em diversas ocasiões, ela toma atitudes consideradas imorais em nome das aparências e do sucesso. Mas, em determinado momento, ela percebe que nem toda a aprovação do mundo pode suprir a falta de amor. E é aí que ela decide se abrir para o mundo. 
"Eu não sou uma boa pessoa, Monique. Mostre isso claramente no livro. Não tenho a menor intenção de dizer que sou boa. Fiz uma porção de coisas que magoaram muita gente, e faria de novo se fosse necessário." 
A Stephanie já fez uma resenha desse mesmo livro para o Dear Book. Se você quiser uma segunda opinião sobre a obra (não tão diferente da minha), clique aqui.

Até a próxima, galera!

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Resenha: "Wild Cards - O Começo" (George R. R. Martin)



Tradução: Alexandre MartinsPetê Rissatti e Edmundo Pedreira Barreiros

Sinopse: Um vírus alienígena atinge a Terra logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, dotando algumas pessoas de poderes incríveis ou deformidades abomináveis, e transformando para sempre o rumo da história.
Aqueles abençoados com superpoderes físicos ou mentais são chamados de ases, enquanto as pessoas afligidas com habilidades ou características bizarras são denominadas curingas. Alguns usam seus poderes a serviço da humanidade. Outros, para os próprios interesses.
Nesse novo mundo, a humanidade busca recuperar seu equilíbrio - e enquanto ases viram heróis nacionais e estrelas de cinema, os curingas são marginalizados e relegados à miséria. No entanto, nem todo ás usa seu poder para o bem, e no Bairro dos Curingas os ânimos estão esquentando - e uma revolta parece prestes a explodir.
Wild Cards: O começo é o primeiro livro da Tríade Original, e dá início à série Wild Cards editada por George R.R. Martin, o consagrado autor de A guerra dos tronos. Capítulo a capítulo, um time de grandes nomes da ficção fantástica apresenta personagens complexos e interessantes, e constrói a trama inesquecível de um mundo ao mesmo tempo tão parecido e tão diferente do nosso.

Por Jayne Cordeiro: Nos últimos tempos tenho tido a oportunidade de me aventurar em outras obras de George R. R. Martin além de Game of Thrones. Indo para o mesmo lado que The Nightflyers, que é ficção, temos Wild Cards que se envereda para o lado da fantasia, e traz um universo de super herois, criados a partir de um vírus alienígena, que por um lado criou pessoas como poderes espetaculares, mas que também criou aqueles que tinham habilidades estranhas e se tornaram excluídos da sociedade.

Como o próprio título já diz, esse livro conta o começo da história e da série Wild Cards, que é uma antologia, onde vários autores contam histórias de personagens diferentes ambientados no mesmo universo. O que gostei muito aqui, é como a ficção se mistura com a realidade. Há esse desvio após o fim da segunda guerra mundial, e na medida em que você vai lendo, fatos reais vão se misturando e se adaptando a história. E isso torna a história bem mais verídica, apesar de ser uma história de fantasia.

Todos os autores souberam aproveitar bem o enredo principal, e apesar de vir de escritas diferentes, todas se complementam. Quando comecei a ler o livro nem sabia que se tratava de autores diferentes. O livro é atraente, e apesar de longo, a leitura flui rápida e interessante. Achei a capa também muito bonita, com cores atraentes e com imagens que representavam bem os personagens. O livro ainda traz trechos de textos falando sobre o vírus, como se tivessem selecionados artigos que poderiam complementar aquilo que a história já traz.

O livro é bom. Não é um livro espetacular pra mim, porque não sou muito fã de antologias. Prefiro histórias que seguem um caminho com um objetivo no final, mas no geral é um bom livro. Para quem gosta do gênero de fantasia/ficção e de histórias de super herois, é uma boa opção de leitura. E consegue trazer uma história do tipo sem ir muito para o lado fantasioso, mas para algo bem realístico. Que o leitor poderia ver acontecendo na sua vida.




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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Resenha: "Nightflyers" (George R. R. Martin)


Tradução: Alexandre Martins

Sinopse: Nas fronteiras do universo, uma expedição científica composta de nove acadêmicos dá início à missão de estudar os volcryn, uma misteriosa raça alienígena. Existem, no entanto, mistérios mais perigosos a bordo da própria nave. A Nightflyer, única embarcação que se dispôs à missão, é uma maravilha tecnológica: completamente automatizada e pilotada por uma única pessoa. O capitão Royd Eris, porém, não se mistura com a tripulação – conversando apenas através de comunicadores e se apresentando somente por holograma, ele mais parece um fantasma do que um líder. 

Quando Thale Lassamer, o telepata do grupo, começa a detectar uma presença desconhecida e ameaçadora por perto, a tripulação se agita e as desconfianças aumentam. E a garantia de Royd sobre a segurança de todos é posta à prova quando uma entidade malévola começa uma sangrenta onda de assassinatos.


Por Jayne Cordeiro: Este livro do autor de Game of Thrones não é um lançamento, afinal o livro é antigo, mas essa é uma edição nova lançada pela Editora Suma. A edição é muito bonita, de capa dura, e com ilustrações em alguns pontos. É um livro curto e que consegue prender o leitor até o final. Em um primeiro momento a história segue um pouco devagar, apresentando os personagens. Não sei se a ideia é fazer o leitor se apegar a eles, porque isso não acontece. A escrita do autor é muito impessoal, e eu senti como se estivesse vendo tudo de fora, o que não é tão legal, como quando o leitor se sente vivenciando aquilo.

Não sei quem ou o que ele é, não sei se aquela história que nos contou é verdade, e não ligo. Talvez ele seja uma mente hrangan, o anjo vingador dos volcryn ou o segundo advento de Jesus Cristo. Que diferença isso faz, porra? Ele está nos matando! — Ele olhou para cada um deles. — Qualquer um de nós pode ser o próximo. Qualquer um de nós. A não ser… Temos que fazer planos, fazer alguma coisa, acabar com isso definitivamente.

Apesar dessa questão, a história se desenvolve bem, e um mistério vai surgindo, incentivando a leitura. Dá para perceber que a história vai tendo uma crescente, e consegue surpreender o leitor no final. Adoro uma história de ficção cientifica, e esse livro cumpre todos os requisitos. Tem conversas sobre temas espaciais e sobre um povo misterioso, tem personagens cibernéticos, acidentes e mortes suspeitas, ação e mistérios para resolver. É uma obra bem interessante. O livro já virou um filme, e tem previsão de se transformar em outro. Uma série estava sendo planejada, mas parece ter sido deixada de lado.

— Entende o quê? — perguntou D’Branin, perplexo.— Você não entende — disse Royd com firmeza. — Não finja que sim, Melantha Jhirl. Não! Não é sábio nem seguro estar lances demais à frente.

Como disse, a história é bem escrita e coesa. Apresenta vários personagens, e apesar da forma como a história é contada, é possível simpatizar com alguns personagens e torcer por eles no final. A história é bem entendível, e o autor procura deixar as informações claras para o leitor que é novato nesse universo. Nunca tinha lido nada do autor, e para um primeiro contato, foi uma boa experiência. E a Suma está de parabéns pela edição que está linda.

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Ana Liberato