quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Resenha: "A invenção das asas" (Sue Monk Kidd)



O barulho estava na sua lista de pecados dos escravos, que nós sabíamos de cor. Numero um: roubar. Número dois: desobedecer. Número três: preguiça. Número quatro: barulho. Um escravo devia ser como o Espírito Santo: Não se vê, não ouve, mas está sempre por perto, a postos.

Por Marianne: Confesso que rolou um bloqueio absurdo pra escrever essa resenha. Tudo o que eu escrevia ou montava na minha cabeça pra escrever não fazia jus a grandiosidade dessa obra de Sue Monk Kidd. Mas a resenha precisava sair então tentei o meu melhor pra convencer todo mundo a ler esse livro maravilhoso hahaha. Acho que é a maior que já escrevi, so sorry meus amigos, mas foi impossível resumir minha análise sobre A invenção das asas em poucas palavras.

'Por que a ideia de perfeição de Deus deve ser baseada numa natureza imutável? ’, perguntei. ‘A flexibilidade não é mais perfeita que a estagnação? ’.
Papai estapeou a mesa: ‘Se Sarah fosse um menino, seria a maior jurista da Carolina do Sul!’

Sarah Grimké é a caçula da família que vive em Charleston, no sul dos Estados Unidos do século 19. Ao completar 11 anos Sarah ganha de aniversário Hetty, uma escrava que tem a mesma idade de Sarah, para ser sua dama de companhia.
'Escravos, eu advirto vocês a se contentarem com seu quinhão, pois é a vontade de Deus! Sua obediência é ordenada nas Escrituras. É comandada por Deus através de Moisés. É aprovada por Cristo através de seus apóstolos e defendida pela igreja. Tomem tento, então, e que Deus em sua piedade lhes conceda que sejam prostrados hoje e voltem a seus mestres como servos fiéis.'

Apesar da pouca idade e de viver numa época totalmente escravagista Sarah recusa o presente por não aceitar o fato de outra pessoa como sua propriedade. Diante da negativa da mãe pela sua recusa do presente Sarah acaba tendo de aceitar Hetty como sua dama de companhia e tem a ideia mais genial que poderia lhe ocorrer: libertar Hetty. Através de uma carta de alforria Sarah deixa claro que Hetty é uma escrava livre e não mais propriedade da família Grimké. No dia seguinte Sarah encontra a carta rasgada na porta do seu quarto.  Afinal Hetty, pela lei, pertence ao pai de Sarah e a carta de alforria aos olhos da família Grimké foi só rebeldia infantil da filha caçula.

'Nossos escravos estão felizes', ela se orgulhava. Nunca ocorreu a ela que a alegria deles não era satisfação, mas sobrevivência.'

Hetty, mais conhecida como “Encrenca” por todos na fazenda dos Grimké, é filha de Charlotte, escrava costureira da família. Charlotte  é uma mulher simples porém muito à frente de seu tempo que tenta a todo custo transmitir a Hetty suas ideias de busca pela liberdade. Hetty por sua vez é uma personagem que engana a todos. Até mesmo Sarah não imagina a garotinha perspicaz que existe por trás de Encrenca, que se questiona sobre a conduta da sociedade que aceita que escravos sejam vendidos e torturados sem intervenção.

'Por que você pegou?'
'Porque eu podia'.
Aquelas palavras grudaram em mim. Mamã não queria o tecido, só queria causar confusão. Ela não podia ser livre e não podia dar na sinhá com uma bengala, mas podia pegar a seda dela. Você se rebela do jeito que pode.

Hetty e Sarah tem uma relação de amizade bem atípica. Quando crianças percebemos uma intimidade maior entre as duas, mas a medida que crescem desenvolvem uma familiaridade onde é notável que não são necessários palavras e gestos de apego pra nos mostrar que ali existe um grande laço de afeto.

Por essas primeiras narrações de Sarah e Hetty no livro podemos ter uma vaga ideia do tipo de mulheres que teremos pela frente, mas nada teria me preparado pra um dos enredos mais envolventes que já li na vida.

'Ou eu devia lhe perdoar por querer exprimir seu intelecto? Você é mais inteligente que Thomas ou John, mas é mulher, outra crueldade que eu não podia fazer nada para mudar.'

 A invenção das asas nos conta a história dessas duas mulheres (mais adiante no livro temos uma terceira mulher, mas eu chego lá) ao longo dos anos de uma maneira tão intrincada e angustiante que é IMPOSSÍVEL não nos envolvermos com seus impasses e histórias. Por vários momentos no livro Sue Monk conflita os dilemas de Sarah; mulher que frequenta aulas de etiqueta que a preparam pra ser uma boa esposa no casamento, proibida pelo pai de ler e sem a opção de seguir uma vida acadêmica,  com os dilemas de Hetty; mulher negra e escrava no século 19. Sue Monk faz isso sem em nenhum momento desmerecer a luta e tormento de nenhuma das duas personagens.

'Deus nos enche de todos os tipos de desejo que vão contra a normalidade do mundo. Mas o fato de que esses desejos com frequência não deem em nada, bem, duvido que seja obra de Deus’. Ela me penetrou com seus olhos e sorriu. ‘Acho que sabemos que isso é obra dos homens.'
A terceira mulher que conhecemos na história é a irmã mais nova de Sarah, Angelina. Ao descobrir que a mãe esta grávida Sarah implora pra ser madrinha de Angelina e acaba se tornando uma figura de apoio e orientação para a irmã.

O que essas três mulheres tem em comum é a constante indagação relacionada aos costumes da época. Por que existem tantas restrições impostas a mulheres e escravos, quem determinou que mulheres não podem ser juízas e escravos não podem andar livremente na rua sem uma carta de permissão?

Vamos acompanhando o desenvolvimento, amadurecimento e drama das personagens no decorrer dos anos. E a angustiante luta pra que fossem notadas, respeitadas, tratadas de igual para igual.

Quando Sarah se envolve mais diretamente na luta pelo fim da escravidão e decide levantar também a bandeira feminista, de igualdade entre homens e mulheres (que já é um “absurdo” pra muita gente hoje, imaginem no século 19) nos deparamos com um dos trechos mais interessantes do livro. Sarah e Angelina são confrontadas diretamente por homens que, até então, aprovavam e as acompanhavam em seus discursos anti escravagistas, e agora advertem as moças que calmaê moças, lutar pelos escravos ok, mas aí vocês querem lutar pelos direitos das mulheres também , aí já é demais!

Sem intenção, provocamos um alvoroço no país. A questão das mulheres terem certos direitos era nova e estranha e ridicularizada, mas, de repente, estava sendo debatida por todo o estado de Ohio. Eles chamavam minha irmã de Diabolina. Batizaram-nos de “incendiárias femininas”. De algum modo, tínhamos acendido o estopim.
O livro é uma mistura eventos históricos da época, como a temida revolução dos escravos que até hoje muitos não sabem se realmente foi planejada e a existência da casa de trabalho que era utilizada pra torturar escravos, e pessoas que não apenas existiram como contribuíram para que muitos dos eventos descritos no livro acontecessem. E a surpresa mais agradável de todas ao fim do livro, nas notas da autora: Sarah Grimké realmente existiu, e com ela toda a sua história. A autora deixa claro que através de pesquisas e relatos do diário da própria Sarah criou a personagem e lógico tomou liberdade de usar um pouco a imaginação.
'Dar as costas pra nós mesmas e ao nosso próprio sexo? Não queremos que o movimento se divida, claro que não. Entristeço-me ao pensar a respeito. Mas pouco podemos fazer pelo escravo enquanto estivermos sob os pés dos homens. Façam o que precisam fazer, censurem-nos, retirem seu apoio, continuaremos firmes de qualquer maneira. Agora, senhores, gentilmente tirem seus pés de nossos pescoços!' (Sarah Grimké)

Sarah Grimké teve um papel muito importante na história do feminismo e na luta pela abolição e é incrível poder conhecer um pouco do que foi essa história, ainda que com um “toque” de ficção. Um de seus últimos atos de “rebeldia”, ainda segundo as notas da autora, foi uma caminhada debaixo de neve em 1870 em direção a urnas simbólicas onde foram depositadas cédulas eleitorais. Isso em 1970, época em que mulheres sequer eram cogitadas a dar palpite na política, é muito amor essas irmãs Grimké!

'Angelina, considero você uma amiga, das mais caras, e me tortura ir contra você, mas agora é o momento de se levantar pelo escravo. Chegará o tempo de tratarmos a questão da mulher, mas não por enquanto.’
‘É hora de tratar o direito de alguém quando este lhe é negado!'
Sabemos também pelas notas da autora que Hetty de fato existiu e foi dada de presente a Sarah, mas toda a história que foi criada para a personagem foi imaginação de Sue Monk Kidd, que buscou na personagem uma maneira de dar voz aos escravos da época.
Foi um livro que ficou nos meus pensamentos por muitas semanas (e ainda está) após a leitura.  Está mais do que recomendado, está no cantinho de favoritos da minha estante e eu espero que entre pra de vocês também.

Beijos e até a próxima!

As senhoritas Grimké fazem discursos, escrevem panfletos e exibem-se em publico de maneiras não femininas há um tempo, mas não encontraram maridos. Por que todas as solteironas são abolicionistas? Por não serem capazes de arrumar um marido, pensam que podem ter chance com um negro, se ao menos conseguirem colocar a miscigenação em moda...


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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Resenha: "Wayne de Gotham" (Tracy Hickman)

Por Eliel: Por trás de toda máscara existe um homem de verdade. Ainda criança, Bruce Wayne testemunha o assassinato dos pais – e o mistério sobre o motivo o impulsiona a fazer uma busca pelo seu passado. É quando descobre um diário secreto de seu pai Thomas, um médico rebelde que parece finalmente revelar o seu lado obscuro. Sua identidade é seriamente abalada quando um convidado levanta, inesperadamente, questões sobre o evento que acabou com a vida de sua amada mãe e seu admirável pai – caso que provocou para sempre sua vontade insaciável de proteção e vingança.Para descobrir a história real da família, Batman precisa confrontar o antigo inimigo, como o perverso Coringa, seu próprio mordomo Alfred, além do passado que assombra o Asilo Arkham, para assumir o novo fardo de um legado sombrio. Sinopse disponível no SKOOB, adaptada

Ao pegar o livro nas mãos e olhar para o símbolo tão conhecido de muitos, o que esperar das páginas que abrigam uma nova história de um herói que desde muito cedo vive em nosso imaginário? 

É a caçada. Espreitar aquele que espreita. Predar aquele que preda.

Esperamos saber quem realmente é a família Wayne, uma história um tanto quanto sombria. Essa viagem nos é apresentada em duas linhas temporais: A primeira segue um já não tão jovem Bruce Wayne em busca de respostas, e a segunda, a vida e morte de Thomas Wayne, pai de Bruce. Em muitas partes da narração, vemos essas duas linhas se colidirem e responder algumas questões que vão sendo levantadas.

- Talvez possamos vagar juntos por um tempo - sugeriu Bruce.

- Uma pessoa vaga, Sr. Grayson - retrucou Amanda. - Duas pessoas estão sempre indo para algum lugar.

Essa é uma história baseada na imagem que se tem dos pais Wayne e sobre o que eles realmente foram. A cada página descobrimos o passado tão negro que foi escondido até do seu filho. Vemos um Batman mais velho e cada vez mais dependente da tecnologia, mas com a mesma intensidade da juventude.

Autocontrole é poder. Conhecimento é mais importante que força. Espere para atacar no momento certo.

Temos uma narrativa bem dinâmica que prende a imaginação do leitor e não o deixa sair de Gotham. Cada página é repleta de ação, como as histórias em quadrinhos, vale lembrar que essa é uma narrativa e não tem ilustrações.

- Então nós pagamos pelos pecados de nossos pais? - sussurrou Bruce roucamente.

Não sou um grande fã do Homem-Morcego, mas conheço muitas das suas histórias, vilões, filmes e assuntos relacionados; Nada muito profundo, porém, essa narrativa é sem igual. Vemos que o autor seguiu à risca fatos e acontecimentos do Universo de Batman.

Para mim, o ponto alto foi a participação de Coringa, que desempenha um papel importantíssimo para a narrativa, embora tenha apenas uma pontinha.

- Sou quem sou porque escolhi este caminho, Alfred - disse o homem. - E agora verdadeiramente escolhi.

Minha impressão sobre esse livro, é que temos em mãos um ótimo roteiro para um filme, desde que respeitado. Fãs de Batman, não percam tempo e adquiram essa impressionante aventura do Cavaleiro das Trevas!


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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

[Minhas Palavras]: Um em Dois


A coluna "Minhas Palavras" apresenta textos originais, de diversos temas, produzidos pela equipe do Dear Book.

POR: Raquel Morelli
(Colunista de Cinema)


Ele e ela juntos já era um clichê de tanto tempo que fazia. Ele não era nada sem ela e ela não era nada sem ele. Já estavam todos acostumados que um só andava com o outro do lado.
Imagem: Google
A avó dizia, aos risos: "Minha filha, você não aparece mais aqui. E quando aparece, é só com ele. Seu tempo é dele, não é mesmo?"
E claro que era.
Gostavam de estar juntos, gostavam do bem que um fazia para outro. Se dá pra viver junto, sem se desgrudar, de uma forma gostosa, então pra quê se desgrudar?
Eram dois em um.
Era gostoso de ver o belo par que formavam, sempre na mesma sintonia. Sempre aos risos, sempre um dando a mão para o outro ao caminhar, ao resolver um problema.
Amor bonito a gente gosta de ver.
As pessoas que observavam na rua achavam que era apenas aquela fase de início de namoro. Mas não era, era mais. Era a intimidade pura do longo relacionamento saudável.
Eles sabiam de suas diferenças e sabiam ser dois, separadamente. Sempre lidaram bem com isso. E então, por causa disso se tornaram um. Um coração, uma vida, um único amor. Daquele tipo de amor difícil de explicar.
Explicação não há. Destino, vidas passadas ou apenas sorte?
Sortudos sim, por terem se encontrado.
Ao longo dos anos, descobriram e compartilharam a peça chave de um relacionamento: a intimidade. Não apenas aquela intimidade carnal, mas a intimidade plena, aquela que se pode falar sobre tudo com a pessoa amada. A intimidade do diálogo, para que a relação seja sempre saudável.
Íntimos de corpo e de alma.
Quanto ao corpo, a velha sensação do novo a cada toque, a cada carícia.
Já se conhecem o suficiente para ter liberdade com o corpo do outro. É delicioso conhecer cada detalhe de alguém. É maravilhoso poder tocar sempre em um mesmo corpo amado. Já sabem as manhas, os segredos, as malícias.
Enfim, já sabem como ser apenas um.
Um em dois e não dois em um.
É quase uma alma que se dividiu por esses dois corpos e agora se unificou novamente, não deixando as diferenças de lado.
E assim ele e ela seguem, tornando-se eles. Sempre eles. Sempre juntos, nunca longe, nessa longa caminhada gostosa que é fazer ao lado do verdadeiro amor que te dá a oportunidade de ser um em dois.

(OBS: O texto termina aqui, mas fica o convite para quem quiser visitar meu novo blog, que publico em primeira mão no Dear Book: http://textosraquel.blogspot.com
Ele ainda está em processo de formação, mas já postei alguns textos :D)

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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Resenha: "Todos nós adorávamos caubóis" (Carol Bensimon)

Por Sheila: Oi pessoas! Livro de estréia, e de uma autora conterrânea minha - sim ela é daqui do sul Tchê! - e tive uma idéia que a princípio me deixou hiper, mega empolgada: fazer uma resenha interativa!

Então a proposta foi: entrei em contato com um moooonnte de leitores do livro da Carol, "Todos nós adorávamos caubóis", e expliquei  a minha idéia, convidando aqueles que se dispusessem a participar comigo desta "empreitada". 

Assim, eu escreveria a resenha, e os leitores enviariam para mim os trechos que consideraram mais interessantes/emocionantes/originais/f#d#, e  etc, para que aparecessem aqui na nossa resenha. E o resultado, vocês vêem agora!

O livro é a narrativa do reencontro - e também desencontros - de Júlia e Cora, duas amigas que, quando ainda adolescentes, faziam diversos planos sobre embarcar numa viagem pelos "pampas" do Rio Grande (sim eu sou gaúcha também). Cora, que estava morando fora do país, marca de se encontrar com Júlia e ambas saem, estrada afora, com um carro, malas e um mapa das estradas.

Nossa querida Silvana, do blog Coleção de Frases e Trechos Inesquecíveis contribuiu para a resenha com o seguinte trecho, também disponível com outras mais de 500 frases no seu blog:
"Eu dirigia. Júlia estava com os pés sobre o painel. Eu raramente podia olhar para ela. Nós estávamos ali, finalmente ali. Tínhamos sobrevivido a uma briga que continuava pairando sobre nós."
Essa briga, é justamente um dos motivos para que Cora decida empreender esta viagem, tão docemente planejada entre músicas de vinis, tocadas até altas horas da madrugada. Sim, as coisas tinham ficado muito mal resolvidas entre Cora e Júlia. E, a princípio, não parecem que serão resolvidas, já que Júlia insiste em não querer remexer nas feridas do passado.

O livro vai alternando entre os flashbacks dos acontecimentos entre as duas - como se conheceram, as aventuras que viveram, e o fatídico acontecimento que abalou profundamente esta amizade - e os acontecimentos inusitados da viagem. As descrições da paisagem e dos acontecimentos são narrados de forma belíssima pela autora, como podemos ver no trecho selecionado pela Rosane Dover.
"Havia uma proposta de dia de sol acontecendo lá fora. Ela tinha batido na janela e agora entrava de forma discreta, jogando uma espécie de pó luminoso sobre os objetos dispostos na mesa". 
Claro que eu não vou contar para vocês, de jeito nenhum, por que Cora e Júlia brigaram. Apenas, que esta não será apenas uma viagem por paisagens do interior do estado do Rio Grande do Sul, com passagens tradicionalíssimas, mas também uma viagem interior para as duas amigas.

E o que dizer da escrita de Carol Bensimon? Impecável e impagável, nos fazendo realmente ver, com sua descrição, as paisagens do caminhos, bem como sentir a tensão e as emoções à flor da pela das nossas queridas protagonistas.

O livro tem 190 páginas, mas é uma daquelas obras em que sente-se que foi escrito na medida certa para prender nossa atenção, e deixar sua marca. Recomendo a leitura e espero seus comentários! Abraços a todos e tod@s e o meu muito obrigada às que se dispuseram a participar da resenha comigo! 


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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Littera Feelings #19 – Os leitores em pauta (Parte 2)


— Qual é o seu livro favorito?— Humm – murmurei.Meu livro favorito era, de longe, Uma aflição imperial, mas eu não gostava de falar dele. Às vezes, um livro enche você de um estranho fervor religioso, e você se convence de que esse mundo despedaçado só vai se tornar inteiro de novo a menos que, e até que, todos os seres humanos o leiam. E aí tem livros como Uma aflição imperial, do qual você não consegue falarlivros tão especiais e raros e seus que fazer propaganda da sua adoração por eles parece traição.
Não era nem pelo fato de o livro ser bom nem nada; era só porque o autor, Peter Van Houten, parecia me entender dos modos mais estranhos e improváveis. Uma aflição imperial era o meu livro, do mesmo jeito que meu corpo era meu corpo e meus pensamentos eram meus pensamentos.
John Green – A culpa é das estrelas, p. 36-37.
Oi, pessoal, aproveitaram bem as férias? Tem gente entrando e saindo, mas não importa, com prova ou não, a gente tá aí sempre pensando na nossa estante, não é? Falando em estante, acho que tem livro novo nela, não? Consigo ver que galere foi em busca do presente dos pais e voltou com mais um livrinho. Estavam só de passagem, né? Sei...  

Bom, retomando a listinha que elenquei no post passado (podem ver a primeira parte aqui), esse segundo post traz livros que, em suas tramas, os personagens são leitores; senão, o fato de ser leitor de alguma forma contribui para a história em si, não sendo esta necessariamente uma ficção sobre a ficção. Acredito que isso além de ser um plus para a caracterização desses personagens, é também para a leitura. Porque nos faz embarcar na história deles já com um pezinho de identificação.

Vamos ver os indicados à categoria?

A culpa é das estrelas – John Green

Dos vários gostos que Hazel Grace e Gus Waters parecem compartilhar, leitura é um deles. É uma marca que tá ali, selada na história e define parte desta. Por diversos momentos eles conversam sobre leituras variadas, e desses papos sobressaiu-se o livro fictício Uma aflição imperial, que norteia boa parte dessas histórias de vida. O plus de ambos serem esses leitores e isso estar atrelado ao enredo é que nos reconhecemos fácil quando descrevem seus maiores feels. Quem nunca quis devorar qualquer escrito de seu autor preferido, nem que fosse apenas uma lista de supermercado?

O lado bom da vida - Matthew Quick

Ler não nos faz necessariamente uma boa pessoa, mas certamente é algo de diferencial na nossa identidade. Em busca de sempre agradar a “esposa”, Nikki, e se tornar um cara melhor enquanto estavam separados, Pat tem esse propósito de ler os livros que Nikki trabalha em sala de aula. Pat quer entender qual é o grande segredo, o que nos agrada, porque as pessoas amam tanto, mesmo quando a história, aparentemente, é uma droga. Por que importa? O que influencia? Qual é grande questão?
Acho engraçada essa abordagem porque traz um leitor que adentra o “nosso mundo” forçosamente e enquanto ele não se entregar ao mero e simples prazer, tudo ao redor sempre lhe deixará alheio. Nem todo leitor consegue reconhecer uma boa leitura de cara e nem todo livro vai conquistar aqueles que o abrirem. O lado bom da vida nisso é que os livros, sendo ruins ou não, carimbam de alguma forma uma impressão em nós.

O inferno de Gabriel – Sylvain Reynard

SR escreveu uma trilogia em paralelo à trama da Divina Comédia (de Dante Alighieri), de maneira que trouxe, por essência, vários personagens leitores. Mais que leitores, eles são estudantes e professores que trabalham com a literatura de modo mais... científico. Acompanhamos os passos de Julianne, uma aluna de pós-graduação que tenta seguir a vida e realizar-se profissionalmente com um estudo em Dante, mas muito do seu passado surge nesse caminho.
SR foi magnífico de trazer à baila as mais diversas referências culturais, indo bem além dos estudos literários. Por todos os livros há citações, menções, comparações... enfim, uma gama de coisas contribuindo para a construção da história e seus personagens, isso sem perder o humor ou a fluidez. Tocas de hobbit e momento Bridget Jones são só o começo.

Dessa vez eu trouxe poucos porque 1) quis levantar livros da atualidade (vejam aqui sobre livros clássicos da literatura) e 2) também vou descobrindo livros por aí com(o) vocês (e aqui uma listinha mais diversa). 

Há muitos aí que conheço de nome e pretendo ler por esse “primeiro” interesse: Matilda (sim, existe o livro!); A menina que roubava livros; A menina que não sabia ler; O clube do livro do fim da vida; O clube de leitura de Jane Austen; Aprendi com Jane Austen; Austenlândia (é todo um amor por Austen, gentes); Amor nas entrelinhas; Ler, viver e amar; Fangirl...

(oh, você vê *respira* os livros?)

E eu que pensei que não seriam tantos assim!

Bom, espero que tenham gostado das dicas e se leram alguns da breve listinha ou um desses últimos citados, deixem sua opinião sobre o que acharam das abordagens, se se encontraram nas páginas, algum mais que queiram acrescentar, se houve algum caso curioso...

Falando em caso curioso, indico uns bônus: adivinha quem é grande fã de Guerra dos Tronos? Foi numa websérie literária que reproduziu a história de Jane Eyre (Charlotte Bronte) que dois personagens (não vou entregar o ouro, viu) discutiram um pouco de George R.R. Martin. A série, Autobiography Of Jane Eyre, teve umas falhas de produção, mas achei bem legal a pegada da história. Vocês podem acompanhar episódios legendados aqui ou pela page de colaboradores, Todos Merecem Chá

E claro, não dá pra não citar The Lizzie Bennet Diaries, embora a websérie também não tenha focado necessariamente nesse ponto que levanto no post, mas, como fãs de Austen sabem, Lizzie era uma leitora e lá e cá pode ter umas referências. Episódios legendados aqui ou também na mesma page - créditos pra Larissa Siriani e todas as colaboradoras da page Todos Merecem Chá que legendam essas (e outras) webséries. 

Até a próxima jornada :) 

Kleris Ribeiro.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Resenha: "Neoplasia - O Homem e o peso de sua sombra" (Pio Furtado)

Por Sheila: Oi pessoas! Resenha nova de autor brasileiro! Esta é a segunda resenha da nossa nova parceria com a editora Alcance. Pio Furtado, o autor, é um conterrâneo meu, gaúcho de Porto Alegre e é Médico e Cirurgião Oncológico, o que parece tê-lo inspirado para a escrita deste livro.

Afinal, neste livro de estréia, iremos ser apresentados a Santino Santim, um contador perto da aposentadoria, que descobre-se com câncer. Num primeiro momento, seremos apresentado a Santino, e uma tosse que o acompanha desde tempos idos, e que começa a preocupá-lo.
Já me consideravam um tossidor crônico, produto de infinitas inalações do cigarro, pois durante meus quase sessenta anos consumira-os, desde muito cedo, com este hábito maldito. Fumava na ventura e na desventura, na saúde e na doença, por ódio e por amor. Fumava até que incorporara o vício de tal sorte que já não o sentia como malévolo, mas sim como um companheiro de todas as horas, que insistia em comigo estar, mesmo sem a minha vontade, como um automatismo.
Em busca de um parecer médico, Santino descobre que está com câncer, diagnóstico que recebe de maneira atônita e chocada, juntamente com sua companheira Valderez. A difícil tarefa de comunicar-lhe a “sentença” coube ao Dr Marcondes, que tenta acalmá-lo e elucida-lo sobre a doença ao mesmo tempo.
O câncer é uma doença crônica, genética que, diversamente do que pensam os leigos, tem crescimento extremamente lento, na celeridade das lesmas. Uma apendicite, uma pneumonia ou qualquer outra infecção, por exemplo, se estabelece em horas, um infarto do miocárdio ou um acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico em poucos segundos. Nestes últimos episódios, caracterizados como emergências médicas,às vezes os pacientes não tem a mínima possibilidade de lutar e defender suas vidas. Já a carcinogêneses pode levar anos até o aparecimento do tumor como um nódulo definido e ainda pode passar mais tempo para que este produza sintomas. Portanto, seu Santino – continuou o oncologista – o senhor tem as melhores condições e bastante tempo para enfrentar este câncer.
Depois disso, acompanharemos Santino em duas epopeias distintas: a primeira delas, acontecendo no agora. Primeiro as quimioterapias, cirurgias, radioterapias, sua luta contra a doença ao lado de seus familiares, e a convivência estreita com outros pacientes vítimas deste mesmo mal – alguns se recuperando, outros não.

Por outro lado, vemos um retorno de Santino à suas origens, sua história, alegrias e tristezas, bons momentos e arrependimentos, numa retrospectiva proporcionada pela possibilidade, sempre dramática, de um desenlace pela doença, bem como pela própria fragilidade provinda do fato de adoecer.

O livro é narrado em primeira pessoa, e possui uma narrativa bastante descritiva tanto das cenas e situações, como dos pensamentos e emoções vividos pelo protagonista. Aliado a isso, o autor vai nos informando a respeito do câncer, como se comporta, mitos e tabus relacionados, esclarecendo dúvidas e informando ao longo da trama.

Só tive alguma dificuldade em acompanhar alguns dos termos médicos, que foram utilizados em quantidade, mas nos momentos corretos e com grande propriedade – o que já era de se esperar, tendo em vista o grande currículo nesta área de nosso autor. É um temática com a qual nunca havia entrado em contato, e que recomendo a você conferir. Abraços e até a próxima.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Resenha: "'Como viver eternamente" (Sally Nicholls)

Por Clarissa: Oi gente, tudo bem? Espero que sim, bem hoje super indico “Como viver eternamente. Para aqueles que querem pensar sobre a vida.
Sally Nicholls conta a estória de um menino de onze anos, chamado Sam, que decidira escrever um livro enquanto esperava a morte, anunciada por um câncer incurável. E assim ele decide viver tudo o que é de seu direito. E tem seu melhor amigo Félix, que questiona tudo, que quer viver tudo o que pode, e Sam o admira muito pela sua determinação e aproveitamento da vida que lhe resta.
“5. Tenho um sinal de nascença que tem a forma de um trevo de quatro folhas no joelho. Só que ele não realiza nenhum desejo.”
Sam tem uma mente aberta para tudo, ele não deixa se abater pela doença enfrenta tudo de cabeça erguida. É uma coletânea de listas, histórias, fotos, perguntas e fatos e também contando a historia de Sam. Ele não fala da morte, mas da vida. Não fala do fim, mas da eternidade. Não fala da tristeza, mas da alegria de viver. Ele fala sim, do que também é feio, mas é pura beleza.
“Onde moro, não dá para ver estrelas muito bem. Algumas sim, mas não de verdade. Papai diz que é por causa das luzes da rua. Naquela noite, não havia luzes. E tudo o que eu via, milhas e milhas à frente, até o universo fazer a curva nos cantos do céu, eram as estrelas.”
Sam encara tudo com boa harmonia, ser feliz acima de tudo, faz o leitor pensar na vida, lendo e se encantando com a maravilha da vida e do seu sentido. Nesta estória tem muita emoção, romance, comedia, pensar na vida e chorar. Mas o mais importante é ser feliz, aproveitar tudo porque cada minuto conta.

Como viver eternamente, faz com que o leitor pense na vida, reclamamos que não temos nada, mas afinal o que importa é ter uma vida plena e saudável e que coisas simples podem melhorar nosso dia, até a nossa vida, nada neste mundo é perfeito, mas você pode melhorá-lo. É uma leitura para todas as idades, basta estar vivo. Sally Nicholls passa as emoções para o leitor, você consegue senti-la como se estivesse na vida do personagem. Nos ensina que as coisas simples são bonitas. A leitura não é difícil, não tem erros de ortografia, e a capa é simplesmente apaixonante, a Editora Geração presenteou a todos os leitores com um livro maravilhoso. A estória vai pegando você de jeito e não quer mais largar, as paginas vai passando, vendo as coisas simples e importantes da vida, quando está chegando ao fim – que dá um enorme aperto no coração- você acaba em prantos e pensando que para ser feliz não precisamos de muito. Um livro que te faz realmente pensar nas coisas boas, e enfrentar as ruins com otimismo Me lembrou bastante A culpa é das estrelas, de como eles querem viver tudo o que querem antes de partir, mas essa lição não vale só para aqueles que estão com seus dias contados, todos temos que viver como se não houvesse o amanha, amar todos que estão a sua volta, rir, dançar, resumindo fazer a vida valer à pena. Como viver eternamente nos transmite que algumas coisas são perfeitas do inicio ao fim.

Bem, espero que tenham gostado e que leiam Como viver eternamente, vocês vão se apaixonar. E não se esqueçam de deixar seus comentários dicas e criticas. Beijos fiquem com Deus, até em breve.

Boa leitura!

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