segunda-feira, 21 de maio de 2018

Resenha: "O Jardim de Ossos" (Tess Gerritsen)

Tradução: Alexandre Raposo

Por Sheila: Oi pessoas! Trago a vocês hoje um suspense policial com ares de fantasia que eu queria ler a muitooooooo tempo, mas sempre acabava colocando adiante na fila de leitura.

Como Tess era médica antes de se tornar escritora, seus livros muitas vezes envolvem médicos, e suas descrições das questões relativas a esse ofício são precisas, sem ser maçantes em momento algum.

No início do livro, somos apresentados a Julia Hamil, e Julia só queria plantar um belo jardim. Recém saída de um divórcio doloroso, Julia compra uma propriedade com um espaço amplo e começa a sozinha construir esse novo espaço, só seu.

O que Julia não esperava, era que em seu futuro jardim encontraria ossos. Pelo jeito muito antigos. A moradora anterior da casa que adquiriu, que já estava em seus avançados 92 anos, foi encontrada algumas semanas depois do óbito, também nesse mesmo quintal, parcialmente comida por animais. Ou seja, não é seu o corpo que Julia encontra acidentalmente. Então de quem seria?

Júlia estava junto à janela, olhando para os diversos montes de terra que haviam brotado como pequenos vulcões no quintal. Nos últimos três dias, uma equipe de perícia médica praticamente acampara em seu terreno. Agora ela estava tão acostumada a tê-los entrando e saindo de sua casa para usar o banheiro que sentiria falta deles quando terminassem as escavações e a deixassem em paz naquela casa com sua história, suas vigas entalhadas à mão... e seus fantasmas.

Paralelamente a este mistério, o autora também irá no contar sobre as agruras de Rose, uma imigrante Irlandesa que está acompanhando o difícil parto de sua irmã. Muito pobres, estão no hospital da cidade de forma beneficente e, em meio a sua dor, apenas o estudante de medicina Norris Marshall parece conseguir olhar para ela e ver mais do que uma simples garota tola.

A morte chegou com o doce tilintar de sinos. Rose Connolly aprendera a temer aquele som, pois já o ouvira diversas vezes enquanto se sentava junto à cama da irmã, Aurnia, enxugando-lhe a testa, segurando-lhe a mão ou oferecendo-lhe goles de água. Todo dia aqueles malditos sinos tocados pelos acólitos anunciavam a chegada do padre na enfermaria para ministrar o sacramento da extrema-unção. Embora tivesse apenas 17 anos, Rose já vira uma vida inteira de tragédias nos últimos cinco dias.

No ano de 1830, Rose precisa lidar com a xenofobia de Boston, que vê a si e sua irmã como descartáveis ou com grande desconfiança, enquanto Norris precisa lidar com o fato de ser um estudante de medicina pobre, não imigrante, mas de uma certa forma também um estrangeiro nesse círculo social, o que talvez acabe por fazer com que a empatia por Rose se manifeste.

No relato do passado, iremos lidar com o Estripador de West End, tramas macabras, visitas a lugares lúgubres como cemitérios, roubo de cadáveres, assassinatos, salas de necropsia, dentre outros, que irão progressivamente nos levando a explicações sobre a quem pertencera a casa de Julia num passado longínquo, e claro, de quem era o corpo por ela descoberto.

"O Jardim de Ossos" é uma mistura de romance histórico com romance policial e pitadas de fantasia, que conta com uma escrita extraordinária, que acaba por nos envolver por completo. Não há como acompanhar a excitação das descobertas de Julia sobre os acontecimentos do passado, enquanto também usa o que descobre para re-significar sua vida de recém divorciada.

Com toques de suspense e reviravoltas de tirar o fôlego, Tess Gerritsen consegue nos fazer sentir o que sentem os personagens, ao acompanhá-los em suas tragédias particulares, e tecer um fio intrincado de situações e enigmas com um final que nos surpreende, mesmo que não seja talvez o mais bonito.

Sua engenhosidade para juntar cada uma das peças desse grande quebra-cabeça, revelando-o ao leitor aos poucos, bem como aos personagens, é totalmente admirável, fazendo com que cada minuto e cada página façam sentido dentro da trama.

Recomendo!

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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Resenha: "As Sobreviventes" (Riley Sager)

Tradução: Marcelo Hauck

Por Sheila: Oi pessoas! Como estão todos e todas? Trago a vocês hoje a resenha de um thriller psicológico que eu estava louca para ler! Também com aquele "Stephen King" bem grande na capa, como seria diferente?

Sinopse:

Há dez anos, a estudante universitária Quincy Carpenter viajou com seus melhores amigos e retornou sozinha, foi a única sobrevivente de um crime terrível. Num piscar de olhos, ela se viu pertencendo a um grupo do qual ninguém quer fazer parte: um grupo de garotas sobreviventes com histórias similares. Lisa, que perdeu nove amigas esfaqueadas na universidade; Sam, que enfrentou um assassino no hotel onde trabalhava; e agora Quincy, que correu sangrando pelos bosques para escapar do homem a quem ela se refere apenas como Ele. As três jovens se esforçam para afastar seus pesadelos, e, com isso, permanecem longe uma da outra; apesar das tentativas da mídia, elas nunca se encontraram.
Um bloqueio na memória de Quincy não permite que ela se lembre dos acontecimentos daquela noite, e por causa disso a jovem seguiu em frente: é uma blogueira culinária de sucesso, tem um namorado amoroso e mantém uma forte amizade com Coop, o policial que salvou sua vida naquela noite. Até que um dia, Lisa, a primeira sobrevivente, é encontrada morta na banheira de sua casa com os pulsos cortados; e Sam, a outra garota, surge na porta de Quincy determinada a fazê-la reviver o passado, o que provocará consequências cada vez mais assustadoras. O que Sam realmente procura na história de vida de Quincy?
Quando novos detalhes sobre a morte de Lisa vem à tona, Quincy percebe que precisa se lembrar do que aconteceu naquela noite traumática se quiser as respostas para as verdades e mentiras de Sam, esquivar-se da polícia e dos repórteres insaciáveis. Mas recuperar a memória pode revelar muito mais do que ela gostaria.

Narrado intercalando os acontecimentos presentes e passados, vamos acompanhando a vida de Quincy antes e após  tragédia que irá mudar para sempre sua vida. Apesar de ter tentado deixar para sempre no passado a tragédia onde todos seus amigos foram mortos, ser um sobrevivente tem um peso gigantesco, e tudo retornará com  a morte de Lisa e o aparecimento súbito de Sam.

Riley Sager consegue nos deixar ansiosos, apreensivos, furiosos, instigados, tudo ao mesmo tempo, com sua narrativa vibrante, onde todas as peças vão aos pouquinhos se encaixando e se encaminhando ao desfecho e a fatal descoberta do que de fato houve com Quincy.

A trama é muito bem elaborada, e consegue chegar ao desfecho sem deixar nenhuma ponta solta. Vemos que apesar de Quincy querer esquecer o passado, ele está inegavelmente presente a cada momento do seu cotidiano, pulando para fora inadvertidamente e a fazendo entrar num constante conflito consigo mesma.

O mistério é muito bem elaborado, nos levando a seguir várias pistas falsas, só entregando o final praticamente nas últimas páginas, o que acaba fazendo com que todo o livro seja devorado de uma vez só, a fim de que se consigam as respostas a tantas perguntas que vão sendo levantadas no decorrer da história.

Com um final que vem gerando muitas controvérsias entre os leitores, que vão do amor absoluto ao ódio extremo, principalmente pela personagem principal, por sua suscetibilidade, eu confesso que não achei o "melhor thriller de 2017" mas achei muito bom sim.

Recomendo.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Resenha: "Seu Nome era Morte" (Nicholas Vernetti)

Sinopse:  "A culpa é a cicatriz que a morte do amor deixou para trás. Aqui os olhos sangram, e o sangue é transparente.”

A garota quer morrer. 
Karen, a jovem que dizia possuir amor pela vida enfrenta o inferno. A perda do irmão, o abandono de seus pais, todos os sonhos desapareceram, os amigos não podem ajudá-la. Ela quer morrer, a vida não vale mais nada. 
E então, no Rio de Janeiro ela encontra aquele que se diz a própria Morte encarnada. O sedutor e poético homem lhe propõe um desafio: Ela deverá acompanhá-lo por três noites, para finalmente descobrir a verdade sobre a vida e a dor. Quando a Morte bate à porta trazendo um convite, não se pode recusá-lo.


Fonte: Skoob

Por Eliel: É a primeira vez que leio um romance filosófico, confesso que foi uma leitura difícil. Isso porque a filosofia não é o meu forte, embora o autor tenha se esforçado para deixar os conceitos bem claros para que o leitor fique confortável com o desenrolar do enredo. Talvez eu não estivesse preparado para o livro ainda, por isso vou reler com certeza.

Karen Bittencourt é uma jovem paulista que vive no Rio de Janeiro. Logo após a morte de seu irmão Lucas, abandonou o curso de psicologia. Por sinal, já se passou um bom tempo e ela ainda não superou a sua perda, talvez por ter sido em circunstâncias trágicas. Ele foi assassinado por um grupo dentro do seu próprio apartamento e ela viu. No presente, ela é uma gerente de  uma loja de roupas, atormentada por um sonho tenebroso e depressiva.

Karen namora Marcos, mas a relação deles é puramente de conveniência. Ele não faz nenhum bem para ela, sendo até mesmo uma relação abusiva, o que claramente não ajuda com a depressão que ela enfrenta. 

Quem sofre com essa doença sabe o quão difícil é sair de casa para sair com os amigos. Mas Karen faz um grande esforço em relação à isso e mesmo não se sentido bem em frequentar lugares que seu irmão ia e sua aura ainda está tão presente, ela acompanha seus melhores amigos Rafael e Amanda. Certa noite, diante de uma das pinturas de Lucas exposta em um bar Karen recebe um estranho convite de passar três noites com um homem que diz ser a Morte.

Nessa parte me veio muito do Conto de Natal de Charles Dickens, não sei se essa foi a intenção de Nicholas Vernetti. Aqui começa a parte mais densa do livro, pois nessas três noites Karen irá vivenciar uma filosofia nunca pensada antes, isso a mudará. Se o leitor estiver em um momento filosófico melhor que o meu poderá absorver muitos ensinamentos desse ser misterioso. O lago é profundo e eu provavelmente apenas arranhei a superfície.

Um romance filosófico gótico cheio de mistério e suspense e muito, mas muito tenso. É assim que eu definiria essa obra da literatura nacional, mas se eu a definisse iria limitá-la, portanto sugiro que a leia, tenho certeza que ela será uma leitura única para você. Afinal, junto com a leitura você irá trazer muito de você, das suas experiências e vivências para esse livro. Por vezes, denso, mas com uma essência poética e cheia de originalidade. 

Como eu disse no começo é uma leitura difícil, mas muito agradável no sentido de te tirar do lugar comum e te fazer pensar um pouco mais que o normal. Talvez isso tire o ritmo da leitura, mas na minha opinião esse não foi escrito para se ler rápido. Aqui cabe o conselho para ter paciência e aproveitar a jornada.

Nicholas escreve desde cedo na vida e ele tem muito talento. Ler os jovens autores nacionais é um incentivo para que mais obras surjam.

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Resenha: "O Aprendiz de Assassino - Saga do assassino" (Robin Hobb)

Tradução: Orlando Moreira

Por Sheila: Oi pessoas! Como estão? E vamos de mais trilogias! Comprei um kindle em função de um problema nas costas, que se agravava na leitura de livros grandes e pesados e estou podendo ler uma lista GIGANTE  de livros que antes eu precisava deixar de lado.

Neste primeiro livro de uma saga, seremos apresentados ao Bastardo do príncipe Cavalaria. No reino dos Seis Ducados, os nascidos de Sangue Nobre, geralmente são nomeados tendo em vista uma qualidade - apesar de que, ao longo da obra isso nem sempre se sustenta.

Assim, o Bastardo, mais tarde chamado de Fitz (que descobriremos ser apenas uma variação da mesma palavra) é levado ao príncipe Veracidade por seu avô materno quando tem em torno de 05/06 anos, já que o mesmo alega não poder mais prover seu sustento.

– Pai, por favor, eu imploro! Um tremor sacudiu a mão que agarrava a minha, mas se era de ira ou de qualquer outra emoção nunca saberei. Tão veloz quanto um corvo apanhando um pedaço de pão atirado, o velho inclinou-se e agarrou um pedaço de gelo sujo.
Atirou-o sem palavras, com muita força e fúria, e eu me encolhi de medo. Não me lembro de ter chorado. O que me lembro é de como as portas se abriram para fora, de tal forma que o velho teve de se mover depressa para trás, puxando-me com ele.

Já de início a pequena criança, de forma involuntária, causa uma tremenda mudança nas vidas de todas as pessoas do reino: Cavalaria, que seria o próximo na sucessão ao trono, abdica de sua posição e se retira para o interior com sua esposa Paciência, com quem não conseguiu gerar herdeiros legítimos.

O Bastardo é entregue aos cuidados de Bronco, braço direito de Cavalaria, que na abdicação de príncipe passa a cuidar das Cavalarias de Torre do Cervo, local de residência do Rei Sagaz e de toda a corte que o rodeia.

Vamos então acompanhar o Bastardo vivendo como uma criança comum das cavalarias, trabalhando, correndo solto pelas ruas da vila próxima à Torre de Cervo, roubando tanto na vila como dentro da própria Torre. E é justamente num dia em que esta roubando os restos de comida após um banquete  que Fitz acabará sendo pego pelo próprio Rei, que decide que, a partir de então, ficará responsável por sua criação e educação em troca de sua lealdade.

 – Olhe para ele – o velho rei ordenou. Majestoso lançou-me outro olhar furioso, mas não ousei mover uma palha. – O que você vai fazer com ele? Majestoso parecia perplexo.
– Ele? É o Fitz. O bastardo de Cavalaria. Vagando sorrateiramente e afanando coisas por aí, para variar.
– Bobo. – O Rei Sagaz sorriu, mas os seus olhos continuaram firmes. O Bobo, pensando que o rei se referia a ele, sorriu docemente. – Seus ouvidos estão tampados com cera? Não ouve nada do que eu digo? Não te perguntei o que acha dele, mas sim o que vai fazer com ele! Aí está ele, jovem, forte e engenhoso. Os traços do rosto dele são tão reais quanto os do seu, embora tenha nascido no berço errado. Portanto, o que você vai fazer com ele? Vai fazer dele uma ferramenta? Uma arma? Um companheiro? Um inimigo? Ou vai deixá-lo andando por aí, até que outro o pegue e o use contra você?

E é então que Fitz, o Bastardo de Cavalaria, vira um aprendiz de Assassino.

Muitas outras coisas são dignas de nota, como a estranha facilidade que Fitz parece ter para se comunicar com  alguns animais e entender seus sentimentos, bem como o que é chamado de Talento, um dom que a realeza possui para se comunicar entre mentes, ou até criar certa confusão na mente de outra pessoa, uma arte que, infelizmente, acabou ficando mal compreendida até mesmo pelos príncipes herdeiros.

Neste primeiro livro, vamos acompanhar o crescimento lento e confuso de Fitz em meio a corte e suas intrigas, jogos de poder, verdades veladas e mentiras descaradas, e sua tentativa de sobreviver a ser um homem do Rei, filho de Cavalaria e amigo daqueles que conhece quando consegue fugir da opressão dos muros do castelo.

"O Aprendiz de Assassino" é uma aventura fantástica fascinante, apesar de ser um livro com mais de 400 páginas, li todo em um único dia. Como primeiro volume é um livro excelente, que nos deixa com muitas dúvidas acerca da história como um todo, mas que consegue fechar um ciclo em seu desfecho. Com personagens bem trabalhados, sua continuação é algo que pretendo ler o mais breve possível para continuar acompanhando o desenrolar dos acontecimentos.

Recomendo!

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Resenha: “Querido Dane-se” (Kéfera Buchmann)


Por Kleris: A gente tenta não ter nenhuma expectativa, mas ler uma ficção da Kéfera é algo bem curioso. Ela já havia mostrado um pouco da sua escrita espevitada no primeiro livro (reveja resenha aqui), o que não apareceu muito no segundo (reveja resenha aqui), e neste Kéfera surpreendeu. 
— Você tem muito ódio no seu coraçãozinho, né?
JURA? SÉRIO MESMO? Gênia. Deveria ganhar um prêmio pela constatação.

Sara não está no seu melhor da vida quanto queria – aliás, para ela o tempo está correndo muito depressa, com prazos por ela determinados prestes a expirar sem “conquista” alguma – no caso, chegar aos 30 sem um relacionamento ou emprego estável. 

Pra piorar, seu namorado termina com ela do nada e assume outra garota, que basicamente é a nova cliente de Sara, uma socialite para a qual ela que vai produzir roupas exclusivas. É nessa bagunça toda que Sara tenta focar na oportunidade de trabalho, seguir em frente sem estragar tudo e ainda tratar do seu déficit de atenção.
Querido diário,
FODEU.
Minha terapeuta quer ler meu diário.


Uma boa sacada do livro é sua narração. Kéfera nos apresenta a história como um diário, onde a personagem escreve coisas que ela deve reconhecer como positivas e negativas, proposta de sua terapeuta, o que acaba por virar uma jornada de autoconhecimento – daquelas com muitas resistências no início, muitas reviravoltas de recheio e grandes escolhas pelo caminho. 

Sara, como muitas pessoas, é uma pessoa de percepção frágil, que se entrega muito às expectativas irreais. Por conta disso, decepciona-se muito. Mas está lá, tentando mais uma vez, mesmo que isso envolva se meter nas mais loucas (e perigosas) situações, mesmo que dê uns closes errado bem errados. Quem equilibra essas doidices é sua amiga Denise, quem tá “na guerra” pra tudo. 

— Não. Se apaixonar é ótimo. Só lembra de não colocar todas as suas expectativas nesse cara! Você tem que conseguir ser feliz mesmo que as coisas não deem certo com ele também.
— Denise, para de querer cortar minha vibe! Você viu como o Tiago me trata, não viu? ele é superamoroso. Some de vez em quando, mas faz parte do jogo.
— Tá, pode ser. Mas lembra o que eu sempre digo? Para ser um bom par, você precisa saber ser um bom ímpar. Então, quando ele sumir, você tem que saber ficar bem consigo mesma. É isso que eu estou tentando...

Em uma primeira impressão, o livro é bem clichê e não traz nada muito novo no meio literário contemporâneo – é como a primeira temporada de Crazy Ex-Girlfriend, misturado com filmes brasileiros babacas (como aquele S.O.S. Mulheres ao Mar), umas romantizações e ganas dos anos 90 (em que mulheres precisam ou definem quem são por ter um homem ao lado), e umas tiradas meio #fail. Mas esse ar tragicômico exagerado é apenas um pano de fundo que vai tirar nossa personagem das órbitas e, durante sua jornada, perceber o que é preciso fazer pelo seu final feliz. 
— Peraí. Se você é frustrado, o problema é seu. Não vem querer dizer que meus sonhos são impossíveis.

Esse ponto de quebrar os tais ideais limitantes que torna o livro interessante. Aliás, passei o livro inteiro torcendo por isso! Queria que Sara não tivesse a Gio (a socialite), como inimiga e sim contasse a verdade sobre o pilantra que só queria tirar vantagem delas #sororidade Queria que a Sara se libertasse dessas noias que diminuem e prendem as mulheres por anos a fio e queria que ela não se contentasse com um amor meio bosta (ou com qualquer coisa mais) #yougogirl Nesse sentido, o livro traz sim algo bom, algo novo, algo verdadeiro, e acho ótimo que isso seja reverberado pela audiência que acompanha a autora. 
Essa pergunta ainda me assombra. Tenho procurado muito de mim por aí.

É um livro curto, super rápido e bem gostosinho de ler, excelente para aqueles momentos de pausa ou quando a gente tá querendo pegar o ritmo de leitura após uma ressaca. Não pense que por ser a Kéfera a autora, é um livro ruim ou sem conteúdo – dê tchau a esse preconceito. Muito pelo contrário, foi uma boa estreia da autora na ficção.

Recomendo!
Até a próxima o/


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domingo, 6 de maio de 2018

[Novidades] Seleção de colaboradores Dear Book - Resultado



Ansiosos?


Oi, pessoal!


Após umas semaninhas de inscrições, avaliações, decisões... e, claro, ansiedade por parte dos candidatos, enfim o esperado resultado!


Que rufem os tambores...


Equipe Dear Book dá as boas-vindas à ILI (resenhista)! PARABÉNS, menina! \o/ \o/ \o/ \o/ Cheque seu e-mail, que as instruções para integrar o blog vão estar lá.


Não foi dessa vez que conseguimos resgatar nossa coluna de filmes, mas... quem sabe mais pra frente? Agradecemos a todos os inscritos dessa seleção, teve muito material bom e de difícil escolha.


Logo logo vamos ver  aqui :)



Até a próxima!
sexta-feira, 4 de maio de 2018

Resenha: "O Clube dos Oito" (Daniel Handler)

Tradução de Fabricio Waltrick

Aviso de gatilho: este livro possui cenas de estupro e violência explícita.

Por Stephanie: O gênero (ou classificação comercial) Young Adult, também conhecido como YA, é um dos mais populares hoje em dia. Mas lá em 1999, ano de publicação de O Clube dos Oito, a coisa era bem diferente. Claro que a literatura infanto-juvenil sempre existiu, mas não com as características específicas que aproximam a obra de um público-alvo adolescente. E é por isso que arrisco afirmar que a estreia de Daniel Handler foi um dos precursores dos livros contemporâneos para jovens adultos.

O livro conta a história de Flannery Culp, uma garota acusada de cometer um assassinato quando estava em seu último ano do Ensino Médio. O crime teria sido motivado por um suposto culto satânico envolvendo seu grupo de amigos denominado Clube dos Oito, além de outros fatores ocultistas e bizarros.

Através de seu diário, Flannery nos conta (com muito sarcasmo) os acontecimentos dos dias anteriores ao assassinato e um pouco sobre sua vida atualmente, agora já condenada e encarcerada. Esse modelo de narrativa hoje em dia já é bem comum, mas acredito que contar a história através de um diário foi um dos pontos diferenciais da obra de Handler na época de seu lançamento.

Flannery é a típica narradora não-confiável e difícil de gostar. No começo eu tive muita dificuldade no andamento dos capítulos, já que a voz da protagonista me incomodava muito. A garota quase chega a ser intragável, de tão fútil e reclamona. Aos poucos foi ficando mais tranquilo, mas não por conta de Flannery, que continuou chata, e sim por causa da dinâmica entre os amigos do Clube dos Oito que, apesar de bizarra, me entreteve bastante.

É necessário ter em mente durante toda a leitura o fato de que a obra foi escrita no final dos anos 90, ou seja, não se pode criticar o livro se baseando em YA’s contemporâneos atuais. É difícil exigir representatividade e diversidade em uma época em que isso era pouco debatido em livros para jovens. Não estou dizendo que é motivo para perdoarmos qualquer preconceito, mas eu tive que relevar algumas coisinhas em relação aos conflitos do livro para que a experiência fosse a mais positiva possível.
(...) Talvez os jovens de gerações anteriores se rebelassem por algum motivo mais óbvio, mas hoje sabemos que estamos simplesmente nos rebelando. Entre filmes para adolescentes e livros de educação sexual, estamos tão ansiosos pela nossa fase rebelde que é inevitável sentir que ela é segura, controlada. Tudo vai acabar bem, apesar dos riscos, aconchegados dentro da proteção da narrativa rebelde. (...)
Explicando melhor o que eu quis dizer no parágrafo anterior: Flannery é uma garota extremamente preocupada com sua aparência; ela afirma diversas vezes que é gorda (o que provavelmente é mentira, visto os comentários de seus amigos) e chega a ficar sem comer em várias passagens do livro, mesmo sentindo fome. Ela também xinga outras garotas de coisas como “vaca gorda”, que é algo bem gordofóbico. Não consegui entender até que ponto esses eram pensamentos apenas da personagem ou que também refletem a opinião do autor. Por isso foi um pouco difícil analisar de maneira neutra.

A rivalidade feminina também existe em grande quantidade em O Clube dos Oito. As meninas brigam bastante por conta de ciúmes de seus pretendentes, e chega até a ser cansativo. Mais uma vez, esse tipo de conflito pode até ser aceitável lá em 1999, mas hoje em dia é algo pouco verossímil.

O Clube dos Oito também debate a liberdade e rebeldia de adolescentes ricos e com pouca supervisão de adultos, algo que até mesmo nos dias de hoje é um assunto relevante. É fácil perceber a ironia do autor em representar a ausência dos pais de todos os adolescentes, tal como a presença constante e às vezes um pouco invasiva da escola e de seus professores.

Por fim, outro assunto importante que ganha destaque na obra é a distorção dos fatos pela mídia. Vemos diversas passagens de programas de TV, livros e jornais que fizeram a cobertura do caso e como é fácil canonizar a vítima e demonizar o criminoso da forma mais exagerada possível. Lendo o relato de Flannery é possível enxergar a discrepância entre os fatos e o que é exposto para o público.

O desfecho de O Clube dos Oito tem uma reviravolta que me pegou de surpresa; Daniel Handler não fez muito esforço para esconder a revelação mas acho que eu estava tão curiosa pra saber como o assassinato tinha acontecido que deixei passar várias dicas. Os mais atentos vão conseguir sacar com muita facilidade.
(...) A verdade se escondia em mim como um peixe cauteloso, suspeitando que qualquer sombra é uma rede que vai capturá-lo e trazê-lo à luz. (...)
Recomendo a leitura para quem curte humor negro, sarcasmo e personagens repletos de defeitos. Depois da metade é uma leitura bem fluida e que entretém o leitor, e que com sorte, pode conseguir surpreender no final.

Até a próxima, pessoal!
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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Resenha: "A Rainha do Fogo - Trilogia A Sombra do Corvo, Livro 3" (Anthony Ryan)

Tradução: Gabriel Oliva Brum

Por Sheila: E chegou ao fim! Foram mais de 2000 páginas, noites insones, séries não maratonadas, churrascos do fim de semana furados, para concluir essa fantasia épica que tanto me arrebatou em seus dois primeiros livros - que já foram resenhados, o livro 1 aqui e o livro 2 aqui.

Como esse é o desfecho da trilogia, alguns spoilers são inevitáveis, então se você ainda não leu os dois primeiros livros e não gosta de estragar a surpresa, é melhor parar aqui e ler os dois primeiros livros antes de prosseguir.

Mas antes, recapitulando:

No primeiro livro vamos conhecer Vaelin Al Sorna, o Matador do Esperança, a partir do relato detalhado que faz de sua vida ao Lorde Verniers,  Cronista Imperial e, mais tarde descobriremos, amante do Esperança. Esse relato será realizado enquanto Vaelin é levado à ilha dos piratas, supostamente para ser morto em um combate.  

Ao final de "A Canção do Sangue" finalmente descobrimos por que o livro é intitulado dessa forma; As chamadas "Trevas" na verdade são dons, que o próprio Vaelin possui, uma espécie de sexto sentido que o avisa sobre as coisas. Na praia do Império Alpirano, onde aguarda sua captura pela morte do Esperança, o ex-futuro rei, adorado pelo povo, Vaelin descobre que seguia um rei insano, numa guerra fadada ao fracasso. Sua Fé parece ser nada mais que uma ilusão, quando descobre que há seres temíveis que habitam a escuridão do além túmulo, sendo que seu líder, o Aliado, planeja o Caos e a Destruição.

Numa narrativa que alterna passado e presente, "A Canção do Sangue" finaliza sua narrativa com o duelo entre Vaelin e o Escudo das Ilhas, numa jogada política que visava a libertação de Vaelin travestida de punição, dada a obviedade de seu sucesso sobre os piratas. Uma antiga dívida, contraída por seu pai ao queimar mulheres e crianças quando anda servia ao Rei Janus, que deveria ser paga com sangue.

"O Senhor da Torre" começará mais uma vez com o relato de Verniers que, impressionado com a narrativa do Matador do Esperança, resolveu partir para seu reino, apenas para ser capturado e virar escravo dentro de um navio, no cerco a um dos feudos do Reino.

Vamos encontrar um Vaelin mais velho, mais sábio, desiludido de sua Fé e relutante em aceitar o cargo que lhe oferecem, como Senhor da Torre dos confins do Norte, mas se dirigindo para lá mesmo assim pois é o que a canção do sangue lhe diz para fazer. Lyrna também parece ter mudado consideravelmente nos últimos cinco anos. Assim, quando o Aliado usa um de seus fantoches para matar Malcius, seu irmão, ela finalmente ascende como Rainha - mesmo que terrivelmente desfigurada, tanto física quanto emocionalmente.

Ao final de "O Senhor da Torre", Lyrna consegue fugir dos Volarianos, começar a retomada de seu reino e seu reconhecimento como rainha. Reva se torna a senhora de seu Feudo, quando seu tio por fim falece. E Vaelin forçou sua canção a tal ponto que acaba morrendo e, em seu retorno dramático da terra dos mortos, perde sua canção.

E - claro - numa reviravolta emocionante, um dos dotados dos confins do norte encontra a agora Rainha Lyrna. Apesar de ficar subentedido, entendemos ao final do livro que ela é curada das terríveis deformidades causadas pelo fogo. Um final emocionante, um desfecho eletrizante para um livro se igual.

Mas agora vamos ao "A Rainha do Fogo". Não vou mentir e deixar para o final: me decepcionei muito com o desfecho dessa trilogia, assim como muitos dos outros leitores que procurei pela internet para descobrir como se sentiram e o sentimento é um só... frustração.

Neste último livro, vemos a retomada por Lyrna da capital de seu império e sua organização para enfrentar os Volarianos em suas próprias terras, antes de que tenham tempo de se reorganizar para atacar o Reino novamente. Já Vaelin, irá partir para as terras do gelo, agora com uma Ionak que o orienta com sua canção, já que a dele foi perdida.

A guerra contra Volar será brutal, sangrenta, desumana. Muitos morrerão. Muitas batalhas serão traçadas. Eles são os vilões? Talvez. Mas há mulheres e crianças em meio ao povo massacrado, e por mais que haja alguma misericórdia, não há como nos depararmos com uma guerra sem que hajam baixas civis.

Vaelin também terá que lidar com batalhas, sangue e ossos partidos, perdas irreparáveis, enquanto busca pelas respostas que todos nós esperamos desde o primeiro livro: quem é o Aliado? Quais são seus objetivos? O que é história? Onde começam os mitos? E o que há de verdade travestida em adoração ao longo da passagem dos séculos?

Mas o final ... ah! O grande final! É como um grande rojão que não estoura, só solta fumaça. Entendam, tudo é resolvido, ou encaminhado de forma satisfatória. Todas as respostas foram dadas. Pelo que me lembro, todas as pontas soltas foram amarradas. Mas não foi grandioso. Não foi épico. Não foi arrebatador.

Recomendo a trilogia em si. Os dois primeiros livros são simplesmente magníficos, o segundo sendo, em minha opinião, o melhor! Mas o desfecho sinceramente me deixou com um gosto de cinzas na boca. Me despeço de vocês hoje numa resenha sem citações, em luto pela dor das minhas ilusões não correspondidas.

Até a próxima!

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Resenha: “Por Onde Andam As Pessoas Interessantes?” (Daniel Bovolento)


Por Kleris: Fiz o caminho inverso – li primeiro Depois do Fim (reveja resenha aqui) – o que se revelou uma experiência interessante, ver o Dan mais “novinho”, mais incerto, à procura do tom ou do caminho a seguir, mas já mostrando de cara seu ouro: a escrita

Despretensiosa, fui saboreando-a devagar no dia a dia – aliás, vou sentir falta da acolhida após minhas caminhadas – de maneira seus pequenos textos foram trabalhando diversas de minhas acepções. Acho que é esse o ritmo natural das crônicas na rotina: um dia de cada vez, alguns textos por vez, uma boa companhia para pausar um pouquinho e ir além da realidade sem sair totalmente dela. 

Prepare os marcadores adesivados (de novo) – você vai precisar de muitos deles.
Se você reparar bem nas ruas, em toda multidão, os rostos que você não conhece, um dia, poderão fazer parte do seu mundo. São todos estranhos procurando uma chance pra deixarem de ser, pra tomarem função e papel na vida de alguém, às vezes até na própria. [...] Nós, os estranhos, só queremos deixar esse vício de anda-pra-lá-anda-pra-cá, para finalmente conhecer alguém que nos dê nome.


Fora de um roteiro manjado, as 45 crônicas traçam umas perfeitas histórias imperfeitas. São relatos, intervalos, fluxos de pensamentos, confissões, conversas... Vários deles carregados de platonismos, autossabotagens diárias, algumas bads, e, sim, aprendizados. Diria que o livro não se pauta tanto pelo cotidiano, mas pela zona de conforto. Na verdade, uma busca de conexões frente à nossa zona de conforto. É nessa forte resistência ou mesmo na falta dessa desejada ligação, que muitas vezes deixamos o imaginário tomar conta, seja para o bem, seja para o mal. 

[...] só porque acontece dentro da sua cabeça, quer dizer que não seja real? É real pra burro. Você já sentiu isso. E, se não sentiu, paciência. É só questão de tempo. 

A gente acaba se prendendo tanto ao que poderia ter acontecido, que arrasta uma culpa imaginária a toa. E se culpar pelo que não pode ser desfeito é um daqueles errinhos bobos que fazem da gente um pouco infeliz num mundo em que a vida já não está fácil.


O livro segue um caminho natural de fases. Estações conhecidas, agasalhos emocionais, relutâncias (in)voluntárias, que, apesar de nos fazer sentir gente como a gente, estão ali para contribuir para nosso despertar. Nesse processo, assim como a vida, Dan nos dá e nos toma “pessoas”. Da fantasia ao primeiro passo de sair dessa zona confortável – mas já não tão agradável – é que vivemos as possibilidades e nos medimos pelas expectativas. 
A gente sempre abafa o que tenta incomodar a apatia com algum som familiar, com alguma memória preenchida ou com a desculpa de que a gente tá sempre ocupado e não pode prestar atenção. Eu, assim como um monte de gente, não quero sair da inércia, não quero sair daquele limbo sentimental, a menos que alguém me puxe. 
E, de repente, é um fracasso. A gente não entende. Por quê? Tava tudo tão certo, tudo tão exato, a fórmula era aquela, o espetáculo parecia tão atraente no folhetim e fuén. 
No fim do dia, sabe quando você chega em casa, tira os sapatos, bebe um cappuccino quente e sente o corpo todo esquentar? Sou essa sua sensação.

Dose a dose, entre ideais, tantas buscas e esperanças, Dan tem uma escrita sincera que te agarra de pronto. Vai falar daquilo que a gente não admite, daqueles conflitos que a gente tenta se sobrepor, do apego que nos bagunça, de como a gente insiste em agradar pessoas antes de nós mesmos, e dá lição, a sua maneira, como sobre ser inteiro e não metade. A sensação mesmo é de “se dar conta”. É uma leitura que sugere olhar pra si, mesmo depois de olhar pro outro, e se questionar se é ou não pra ser, em um exercício de autoconsciência. Exercício esse que lembra um pouco de Do que eu falo quando falo de corrida (aqui), do Murakami. 
Você nunca quer se molhar; quer sempre se sentir seguro, quer pintar e bordar nessa figura íntegra e imponente de quem não sente nada e tá tudo bem. Tá tudo bem? Tá nada, não adianta mentir pra mim [...] 
A gente é o corredor, não a sala. É a maçaneta ou o corrimão. Somos caminho, nunca o destino final. Tem gente que pira quando percebe isso, porque, ao contrário do que o outro sente, talvez a gente veja nele uma droga de uma porta, um caminho final, uma faixa de chegada. E as expectativas não batem.

Embora muito se queira, também muito nos contentamos, muito tentamos fazer algo dar certo ou fazer algo acontecer sem, na real, pensar sobre o esforço necessário – e um esforço de duas vias. Nesse sentido, alguns textos já se aproximavam do limbo de Depois do Fim, fazendo de Por Onde Andam As Pessoas Interessantes? uma grande e excelente introdução. 
Uma das manias mais dolorosas que a gente tem é de sempre renunciar a uma história inteira por conta da forma como ela acaba. 
Percebi que amor nenhum dá certo quando a gente precisa se esforçar pra fazer acontecer a mágica. 
Só com o tornozelo torcido, na última consequência do acontecido, foi que percebi o que estava na minha cara. Que não adianta insistir quando a forma não cabe na gente. Às vezes até cabe, mas depois de um tempo incomoda.

Recomendadísssssimo! Leitura para revisitar sempre :) Apesar dos comentários sobre a capa do livro ter traços “infantis”, gosto dela. Gosto por inteiro da edição. Já mal posso esperar pelo terceiro livro – em processo de publicação.

Abaixo, a playlist que ambienta todo o livro <3 
Mais importante que isso tudo: que você exista. E que não demore tanto pra chegar à minha vida. 
E aí que mora o problema: quando eu percebo. Depois que a gente percebe, não dá mais pra ignorar, e começa a acontecer de a gente perceber mais ainda.




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quarta-feira, 25 de abril de 2018

#Infinistante: Clube do Livro (Abril 2018)

Olá, Pessoas!!!

Mais um mês e mais uma leitura do Clube do Livro #Infinistante. E para Abril a proposta da Loma foi:

Abril é o mês de Conscientização do Autismo (dia 02 é conhecido como o dia mundial da conscientização) e queríamos ler mais a respeito. Buscamos títulos de ficção, mas que trazem a realidade do autismo e da síndrome de asperger (Transtorno Global do Desenvolvimento que pertence ao grupo de perturbações do espectro do autismo) para dentro da história.

Pensando nisso, nossa escolha foi:
 foto linduda por Melina Souza
📚EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS, de Clare Vanderpool. 📚

Escolhemos esse livro pelo motivo que já mencionei acima, mas também porque ele é um romance cheio de fantasia! Um tipo de livro que eu (Loma) e Maki não lemos com muita frequência (a Mel já tem mais experiência com livros do tipo).
Sem contar que a sua edição capa dura é linda, um item de colecionador!
Ele conta a história de Jack Baker, que perdeu sua mãe na Segunda Guerra e foi colocado em um internato por seu pai. Se sentindo isolado de todos e solitário, ele conhece o enigmático Early Auden, que tem Síndrome de Asperger. Early é um prodígio, mas por trás de sua genialidade há uma enorme dificuldade de se relacionar com o mundo e de lidar com seus sentimentos e com as pessoas ao seu redor. Os dois se aventuram juntos em um mundo de fantasias e muita coisa acontece (muita mesmo).

Estamos bem curiosas para conhecer essa aventura!

Tradução: Débora Isidoro

Por Eliel: Posso dizer que esse foi um dos livros mais emocionantes que li recentemente. Foi muito interessante conhecer um pouco do que é conviver com uma criança autista pelos olhos de uma outra criança que se quer sabe o que é o autismo.

Uma coisa interessante é que, exceto nos agradecimentos, a palavra autismo não é se quer citada em toda a aventura. Tudo fica claro por analisarmos o comportamento de Early Auden, o que acontece muitas vezes com a própria síndrome que dificilmente é diagnosticada em seus graus mais leves por pessoas que não são do convívio.

Jack Baker vai parar em um colégio interno após a sua mãe falecer e seu pai militar ter que voltar para seus afazeres. Esqueci de mencionar que a época que em essa história é contada é pouco após a Segunda Guerra Mundial. Embora não seja o plano de fundo oficial ela está presente e norteando alguns fatos dessa aventura.

Senti as lágrimas se formarem e me entreguei por um momento à lembrança dela.
Minha mãe era como a areia. Do tipo que o esquenta na praia quando você sai da água tremendo de frio. Do tipo que gruda no corpo, deixando uma impressão na pele para fazer você se lembrar de onde esteve e de onde veio. Do tipo que você continua achando nos sapatos e nos bolsos muito tempo depois de ter ido embora da praia.
Ela também era como a areia que os arqueólogos escavam. Camadas e camadas de areia que mantiveram os ossos dos dinossauros juntos por milhões de anos. E por mais que areia fosse quente, árida e simples, os cientistas agradeciam por ela, porque sem a areia para manter os ossos no lugar, tudo teria se espalhado. Tudo teria desmoronado.

Por vezes perdi o ar ao acompanhar Jack Baker e Early Auden em sua jornada em busca dos números perdidos de pi, do irmão mais velho de Auden e do Grande Urso da Trilha Apalache. Em outras passagens a emoção fica à flor da pele e é difícil segurar a emoção. É disso que gosto nos bons livros (tendencioso), essa capacidade de mexer com os sentimentos mesmo sendo uma ficção.

Sem falar que a edição da Darkside é uma verdadeira obra de arte, capa dura, ilustrações e um marca páginas (eu acho que era) que tem tudo a ver com a história. Aqui vai uma dica faça a leitura com o acompanhamento musical sugerido:


Certa vez, ouvi um poema sobre lançar a linha. Ele dizia que, quando o pescador joga a linha, é como se jogasse seus problemas para a correnteza levá-los embora. Por isso, continuo jogando. [...] Ninguém pode dizer nada sobre saber o nome das estrelas. O céu não é um campeonato ou uma prova. A única pergunta é: você consegue olhar para cima? Absorver tudo aquilo? Quanto ao nome das constelações, elas não são meio nem fim. As estrelas não estão presas umas às outras. Estão lá para serem admiradas. Olhadas, desfrutadas. É como pescar com vara. Pescar com vara não é sobre pegar o peixe. É aproveitar a água, a brisa, os peixes nadando à sua volta. Se pegar um, ótimo. Se não... melhor ainda. Significa que você pode voltar e tentar de novo!
Vocês estão acompanhando o Clube #Infinistante? o que estão achando da curadoria das meninas? Eu estou cada mês mais encantado.

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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Resenha: “Um Barril de Risadas, Um Vale de Lágrimas” (Jules Feiffer)


Tradução de Carlos Sussekind

Por Kleris: Acho que já mencionei em outra resenha que, da mesma maneira que curto sincronizar músicas à situação e/ou humor, gosto de aproveitar leituras conforme o momento. Com quase um aninho na estante, lembrei de Um barril de risadas, um vale de lágrimas e foi em um momento certeiro. Estava saindo de uma leitura um tanto pesada e Feiffer me ofereceu o caminho de volta. Então se você procura algo pra destravar ou fazer uma ponte de leitura, leve este livro <3 
Roger tinha um estranho efeito sobre as pessoas.


Roger é um príncipe meio abobalhado, que tem esse tal estranho efeito sobre as pessoas: quem chega próximo dele, ri, ri de se acabar. Sua presença por si só faz isso e é algo incontrolável. Roger também não colaborava, ele ria de qualquer coisa, não tinha tempo ruim pra ele. Só que essa “felicidade eterna” lhe era prejudicial. Como que um dia ele poderia assumir o trono (e o reino), se ninguém (nem se quisessem!) conseguia levá-lo a sério?

O rei Deldizifidicer, seu pai, então pede ao J. Imago Mago, mago do reino, para auxiliar Roger nessa causa. Ao que parecia, a causa deveria ser descoberta pelo próprio, em uma jornada sem um destino definido, a não ser essa busca, que ninguém também sabia de quê na verdade. Só se sabia que Roger precisava mudar sua situação, ter “experiências de vida”. E assim ele foi, atrás de seu destino, mais empurrado do que outra coisa, com um pó mágico que Imago lhe dera, um recurso que ajudaria a imunizar pessoas de rirem quando perto dele estivesse.

O mago, claro, dava suas bisbilhotadas na aventura de Roger, até porque o príncipe começava a se demorar na sua busca. Numa dessas espiadas, Imago Mago percebera que Roger estava a se dispersar da missão, vez que estava muito seguro com aquele pózinho mágico, tão perdido quanto os outros homens e mulheres que divagavam em suas próprias jornadas. Em uma última interferência, o mago produz uma situação a fim de chamar a atenção de Roger e colocá-lo de volta à trilha. É quando ele se vê em dificuldade que a jornada verdadeiramente começa. 
“Que significa isto?”, pensou. Seu primeiro pensamento depois de muito, muito tempo. A última vez em que chegara perto de algo que poderia chamar de pensar foi quando ele era uma árvore e havia deixado cair um galho na cabeça de Tom. Ao longo de um dia, pensar figurava em último lugar na lista de coisas que tinha para fazer. Por que pensar quando se pode brincar? 
“Você precisa tomar uma decisão.”
“Uma decisão?”, gemeu Roger. “Mas eu nunca tomei uma decisão.”
“Para tudo há uma primeira vez.”

Um barril de risadas, um vale de lágrimas é uma novela que fala sobre sair da zona de conforto – e que existe esperança para quem não se acha (ou não parece) capaz. De maneira quase ingênua, mas também realista, temos uma digna jornada de herói. Temos também uns elementos e personagens fora do comum para pequenas lições de vida. Além de Roger, destaques para Imago Mago, Tom, Lady Sarita e até mesmo o rei Deldizifidicer, figura singular que rouba a cena até mesmo sem querer.

Ao retratar a ideia de se lançar no mundo e dele colher as mais diversas experiências, Jules emparelha o bom e o ruim da vida como algo para nosso aprendizado – de que a parte ruim também tem papel importante, e por isso não deve ser evitado ou desprezado. Também se trabalha as percepções, sobre si, sobre o mundo, as amizades, nossos desejos e desejos de outras pessoas, de deixar que se lute as próprias batalhas, de se aperceber de pessoas que não respeitam a vontade ou o caminho do outro.

Feiffer nos insere nessa empreitada com muito humor. A gente acha que não vai rir, já que parece tudo tão bobo, mas ele tem um jeitinho de nos envolver tão tão tão carismático, que nos faz torcer por esse anti-herói e virar as páginas atrás de respostas. Para garantir essa bobice gostosa, o que mais tem é virada inesperada. Valoriza-se ainda a própria jornada – os passos, as dúvidas, desafios e enigmas da vida, os momentos de reflexão, maneiras de fazer diferente pra alcançar um rumo diferente. 
Armadilhas, uma após a outra. E depois, haveria mais armadilhas à sua espera? Uma vida inteira de armadilhas enfileiradas! Venceria a primeira contra todas as possibilidades para em seguida ver-se frente a frente com novas impossibilidades, uma segunda uma terceira, uma quarta, e assim por diante?

E tão melhor quanto a trama é a narração. Temos um narrador conversador ótemo, que garante uma leiturinha leve, fluída, suave na nave na medida. Geralmente não curto esse tipo de narração, vez que tendem a divagar, perder o foco e tentar agregar uns fatos nada a ver. Aqui, até mesmo as divagações são um elemento interessante, o que corrobora muito com a aura de metaleitura (uma leitura sobre leitura <3) e de realismo fantástico da trama – isso sem, no entanto, exagerar na dose. Goxtei muito disso. 
O que é bom nesse negócio de ser escritor é que a gente sabe tudo o que vai acontecer antes que aconteça. Na vida real não se consegue ter certeza sobre o que vai acontecer daqui a cinco minutos, mas no seu próprio livro você tem o controle que na vida real é impossível. 
Escolhi dar a este capítulo esse título porque, muitas vezes, quando vou chegando ao fim do livro que estou lendo, não consigo deixar de pensar em quantas páginas ainda faltam para acabar. Aí dou uma corrida até o final e espio. E acabo descobrindo coisas que não queria saber. #quemnunca

As ilustrações também, de maneira simplista, incrementam a história. Embora ache que daria um filme maravilhoso – de animação, de preferência – o conjunto como livro me parece bem mais rico. Os traços singelos e as entradas dinâmicas dão esse toque especial para guiar a imaginação. A capa, aliás, traz uma sacada de contexto bem bacana! Gostei da Seguinte ter mantido a arte anterior da edição da Companhia das Letras <3

Um barril de risadas, um vale de lágrimas é, assim, uma aventurinha juvenil que tem tudo pra ser abraçado. Amei a escrita de Jules e com certeza devo ir atrás de outros livros dele! 
“Há um mundo de verdade lá fora, meu peralta”, vociferou Imago Mago no auge de sua frustração. Apontou para a janela na direção da Floresta Para Sempre e mais além. “É um universo misturado em que há muito sol e muita sombra, muita glória e muita solidão. E você não experimentará nada disso. Não experimentará nada de coisa nenhuma,”. J. Imago Mago levantou-se de Roger e atravessou a sala até chegar à janela. Ficou um bom tempo olhando para fora. “O que está lhe faltando é aventurar-se numa busca”, disse ele. Um brilho faiscou nos seus olhos.
“Numa o quê?”, perguntou Roger.
“Exatamente!”, exclamou o mago. “O que é preciso é enviá-lo numa busca!”
“Tipo salvar uma linda mocinha das garras de um dragão ou de um ogro? Isso até que me faria dar boas risadas!”
“Roger, você não é sério bastante para salvamentos [...]” 
“Não compreendo”, disse Roger. “Lá onde?”
“Acolá, adiante ou além”, disse o mago.
“Deixa eu ver se eu peguei”, disse Roger. “É pra eu encontrar minha busca num desses lugares, ou num outro lugar. É isso que você está me dizendo?”
“Acolá, adiante ou além”, repetiu o mago.

Recomendo!

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Ana Liberato