quarta-feira, 27 de abril de 2016

Resenha: “No sufoco” (Chuck Palahniuk)

Tradução de Érico Assis

Por Yuri: No sufoco narra a história de Victor Mancini, jovem e trabalhador, que pagava uma alta quantia em dinheiro para um centro de idosos que cuidava de sua mãe com Alzheimer. Por conta da doença da mãe, Victor largou a faculdade de medicina e conseguiu um emprego em um museu interativo.

Para conseguir pagar todos os gastos que tinha com a mãe, o jovem frequentava restaurantes chiques e caros e fazia a sua cena preferida: engasgava com um pedaço de comida e esperava alguém salvá-lo. Esse herói se sentia tão responsável pela vida de Victor que ocasionalmente enviava cheques para ajudá-lo.
“Você ganha poder quando finge que é fraco. Por outro lado, faz o outro se sentir forte. Você se salva deixando os outros te salvarem. Todo mundo precisa se sentir superior em relação a alguém. Por isso você fica oprimido. Você é a prova da coragem que eles têm. A prova de que eles foram heróis. A evidência do sucesso deles. Eu faço isso porque toda pessoa quer salvar uma vida humana com outras cem assistindo.”

Victor, também um viciado em sexo, participava de grupos de sexólatras apenas para se aproveitar da fragilidade das mulheres na mesma situação.

Ao longo do livro entendemos como a infância do personagem foi sofrida, pulando de lar em lar, uma vez que sua mãe sempre fugia e voltava para buscá-lo.

O livro mistura as memórias do passado, quando Victor era uma criança e vivia essa relação desgastante e conturbada com a mãe, com o tempo presente, no qual a mãe de Victor não encontra paz para viver devido ao segredo sobre a concepção do filho. Ao mesmo tempo que ela deseja contar a verdade, não consegue reconhecer o próprio filho quando ele vai visitá-la.

Para ajudar o personagem a descobrir o grande segredo, surge a Dra. Paige Marshall, médica da mãe de Victor, que propõe ao jovem revelar a verdade em troca de favores sexuais. Parece fácil para um viciado em sexo, mas isso se torna difícil para o personagem uma vez que ele se apaixona pela médica.

Antes de começar a ler “No sufoco”, li o resumo na orelha do livro e logo me interessei. A história parecia totalmente louca e nova para mim. Assim que iniciei a leitura, veio a frustração, parecia mais um daqueles livros de sexo vulgar e achei que a história seria focada no interesse do personagem em frequentar os grupos de viciados em sexo.

Então logo percebi que a questão não era só colocar cenas obscenas, mas em como isso foi utilizado para compor o perfil do personagem e como isso seria importante para desenvolver o resto da história.

Esse é possivelmente e por falta de uma definição melhor, o livro mais distorcido que eu li nos últimos anos. Eu jamais daria atenção se o encontrasse no estande da livraria, mas foi um achado muito interessante, pois foi um prazer ser apresentada ao humor negro e sarcasmo de Chuck Palahniuk.

Eu indico este livro para quem quer fugir da leitura de sempre, das histórias repetidas e dos clichês. Como eu disse anteriormente, tudo nessa história é distorcida: o amor, o sexo, o herói e o vilão. Para apreciar esse livro é preciso quebrar todos os pré-conceitos da moral e avaliar o personagem principal sem julgamentos.

Fica um trecho de lição de moral que eu aprendi com o livro:
“O caso era o seguinte: não era o sexo que fisgava o garotinho imbecil pra pornografia. Era a autoconfiança. A coragem. A falta de pudor total. O conforto e a honestidade genuína. A franqueza de conseguir ficar ali, parado, e dizer pro mundo: “Arrã, foi assim que quis passar meu dia de folga. Vim posar com um macaco que enfia castanhas no meu cu”. [...] Então, depois daquilo, toda vez que ele ficava com medo ou triste ou sozinho, toda vez que ele acordava em pânico num novo lar adotivo, o coração acelerado, a cama molhada, todo dia que ele começava no colégio novo num bairro novo, toda vez que a Mamãe vinha buscá-lo, mais uma vez, em todo quarto de motel nojento, em todo carro alugado, o menino pensaria nessas doze fotos do gordão se curvando. No macaco e nas castanhas. E aí o garotinho imbecil se acalmaria na mesma hora. Aquilo mostrava pra ele como uma pessoa podia ser valente e forte e feliz.
Mostrava que tortura é tortura e que humilhação é humilhação somente quando você quer sofrer.”
Espero que vocês curtam a leitura.
Até a próxima!

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Resenha: "Star Wars - O Império Contra-Ataca - Então Você Quer Ser um Jedi?" (Adam Gidwitz)

Tradução por André Conti

Sinopse: Com a ajuda de Luke Skywalker, a Aliança Rebelde conseguiu uma grande vitória contra o Império. Mas a guerra está longe de acabar. Agora, instalados em Hoth, um planeta gelado, os rebeldes temem que seu esconderijo seja descoberto pelas forças imperiais. Infelizmente, não demora muito para que o temível Darth Vader os encontre e organize o ataque. Esta é uma versão de Star Wars: O Império contra-ataca (episódio V) como você nunca viu. A edição vem acompanhada de ilustrações incríveis e apresenta a história original a uma nova geração de leitores, assim como fornece uma perspectiva inédita para os fiéis fãs da saga. Aqui, você entrará na pele de LukeSkywalker, dando os primeiros passos para se tornar o maior Jedi da galáxia, e encontrará uma série de lições para aprimorar seus conhecimentos Jedi.Fonte: Skoob

Por Eliel: Esse é o segundo volume da trilogia inicia em A Princesa, o Cafajeste e o Garoto da Fazenda. Essa releitura ilustrada da trilogia clássica tem por objetivo atrair novos fãs que ainda não conhecem todo esse universo criado por George Lucas e (re)encantar, com um novo ponto de vista, os velhos fãs.

Seguindo a ordem, esse segundo volume tem por base o Episódio V - O Império Contra-Ataca. A Aliança Rebelde teve uma importante vitória na batalha contra o Império, porém a guerra está bem longe de acabar. Reunidos em uma nova base no planeta de Hoth nos encontramos com nossos heróis: a Princesa (Leia), o Cafajeste (Han Solo) e o Garoto da Fazenda (Luke Skywalker).

Não há resposta certa. Mas as escolhas que você faz vão te moldar. E podem moldar a história também.
Interessante que o esse livro não foi escrito pela mesma autora do primeiro volume e também não é o mesmo do terceiro volume, ou seja, três autores diferentes, três formas de recontar essa aventura. O primeiro volume você já viu aqui no blog. O segundo será centralizado no ponto de vista de Luke, o autor te faz enxergar com os olhos do herói, você será ele, agirá como ele e, porque não, TREINAR como ele...


Isso mesmo, você não foi enganado por um Lord Sith, junto com a história central Adam Gidwitz incluiu um manual de treinamento Jedi. Nele você aprenderá sobre meditação, equilíbrio e como agir em momentos críticos.


Nesse volume temos muitas batalhas, muitos ensinamentos e aprendizado. E temos o Mestre Yoda também!!! (Um dos meus personagens favoritos).

- Não, não vou mudar de ideia. Vou encontrar o tal Yoda.- Bup bip bip bip.- Olha a boca, R2!

Dentre os três livros, esse é o mais infantil (só lembrando que essa trilogia é para o público mais jovem mesmo, infanto-juvenil), mas isso vai depender muito dos olhos que o lêem. As crianças podem se divertir muito com as atividades propostas e os mais velhos podem usar essa leitura para pensar como foi difícil para Luke e como podem levar isso para sua vida (eitaa, agora virou auto-ajuda). Essa linguagem mais infantil é característica marcada de Adam, até porque ele é autor de contos infantis.


Brincadeiras à parte, esse livro é realmente bom e na minha opinião agrega e muito para o Universo Star Wars. E eu já falei das ilustrações? Mais uma vez Joe e Ralph que surpreenderam tanto com as ilustrações coloridas entre uma parte e outra e as preto-e-branco do miolo. Uma verdadeira obra de arte do mundo nerd.

P.S.: Há uma cena clássica que os fãs irão à loucura.

- Eu sou o seu pai.

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resenha: “Gigantes – Cinco Amigos, Uma História” (Pedro Henrique Neschling)

Por Kleris: Estreia do diretor, roteirista, dramaturgo e ator, fiquei balançada com o booktrailer que a Companhia/Paralela lançou ao promover o livro (aqui). Minha referência de trabalhos do autor talvez seja só a lembrança de um papel na novela Da Cor do Pecado (que passou na minha terrinha maranhense!), em que ele era o jovem Dionísio, um dos irmãos lutadores da família Sardinha. Pois então, agora Pedro se revela na literatura e, reconheço, é perceptível sua excelência na escrita... só não me ganhou.

Em Gigantes, há todo esse querer em ser mais do que se é, em conquistar seu espaço, realizar-se enfim. Como diz o subtítulo, temos a história de cinco amigos, agora um pouco distantes vez que a vida aconteceu e a escola, bem, acabou. São jovens sonhadores e que muitas vezes dão a cara a tapa, se aventuram, levam rasteiras e, sim, eles vivem intensamente conforme seus corações lhe mandem. Lipe, Fernando, Camila, Duda e Zidane são esses garotos que a gente vê crescer. Os cinco são a representação dessa geração que está passando dos 30 ou 40 e ainda vivem se atropelando nas fases naturais da vida. É, por certo, um livro que coloca em pauta a nostalgia e aquele bom e velho sorrisinho de olhar para trás e pensar “eu vivi isso”. 
Era iminente que tinha talento para aquilo e mantinha intacta a certeza que havia nascido para fazer sucesso. As dificuldades pelas quais passara nos últimos tempos foram uma espécie de aprendizado que precisava ter, como leu que havia acontecido com vários de seus ídolos. Foram uma preparação para algo muito maior que estava começando. O trem entrava de volta nos trilhos, e a locomotiva ia partir a toda velocidade, sem freio. Um dia leriam sobre tudo aquilo na sua biografia na Wikipedia, com a Rolling Stone de fonte para comprovar. Não tinha chance de dar errado. Não tinha mesmo.

As histórias aqui correm como um cinema de poucas falas e somos meros espectadores sem muitas perspectivas, pois não vivemos junto com os personagens por exato. De perfis tão elitistas, não pude não lembrar de como era assistir à série Gossip Girl, com personagens tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes de mim – pareceu-me, inclusive, que era o livro do Dan o que eu lia (há uma notinha introdutória então, bate certinho). Há um pouco de metaficção, aliás.

Nota introdutória ;)
A escrita é leve e se dá em capítulos curtíssimos, cada um se centrando em um dos personagens. A gente nunca sabe quem terá sua cena estampada nas páginas e achei isso um toque interessante, vez que são muitos caminhos para convergir e é aqui que a narração trabalha. O narrador bem conhece a galera e se preocupa mais em demonstrar quem eles são a construir uma trama complexa – logo, vemos relatos, reflexões e pouca ação, numa vibe meio contador de histórias, com cenas delicadas e sentimentalismos. Vê-se muito também daquela velha máxima de sexo, drogas e rock n’roll, além de pinceladas de roteiro e dramaturgia, imagino.
Deitado em sua cama, de cueca samba-canção, com o baseadinho apagado no cinzeiro ao lado, assistia atentamente ao Chaves que passava no SBT. Era o episódio em que todos os personagens, até dona Clotilde, a bruxa do 71, vão para Acapulco, e que termina com ele, Chaves, sozinho e desolado em seu barril/casa com a vila toda apagada. Sentiu uma imensa vontade de chorar revendo a cena, provavelmente pela milésima oitava vez. Sentia-se como o Chaves, sabe. Sem ninguém. Sem perspectiva.

Neschling abre as cortinas e mostra que a vida tende a ser fatalista, pois vez e outra ela vai te derrubar e ainda assim nos sentiremos gigantes por enfrentar essas batalhas. Elas, de alguma maneira, vão nos fortificar e, com sorte, nos colocar no lugar onde deveríamos estar. Isso porque muitos desses jovens (e muitos de nós) têm oportunidades a seus pés, mas ainda não sabem bem o que querem. A saga da vida é a saga dessa busca aparentemente incessante; e percalços nunca faltarão.
Olhando para o teto, um sorriso involuntário escapava no canto de sua boca. Era bom ter planos. Era bom ter desejos. Era bom ter dificuldades e até angústias quando se vislumbravam soluções. Ter motivação para acordar e cansaço para dormir. Era tranquilizante ter força para caminhar sem um pânico paralisante. Ter coragem para arriscar novamente. Ainda se sentia frágil, mas viva. 
Agora estava ali, sentada no chão panicando e rindo da própria cara.
Mais tranquila, levantou-se devagar e deitou na cama. Em cima do edredom encontrou algumas fotos da época de escola que tinha resolvido deixar para trás, aquelas que ficam mais bem guardadas na casa dos pais. Numa delas estava abraçada com Fernando e Belinha, sua amiga inseparável naquele tempo. Fazia tempo que não falava com nenhum dos dois. Sentiu uma pontada aguda de saudade. [...] Foi tudo divertido, mas a pobre Duda nutria ódio dela até hoje, achava. Nunca mais faria uma coisa daquelas de novo.

Apesar desse porte de gigantes, os problemas aqui relatados não são nada rasos, tampouco sem empatia – em dados momentos de cada um invariavelmente vamos enternecer. Mas, como eu disse, a história não me ganhou, muito provável por não ter sido o momento certo da leitura... não sei, não me conectei. Por outro lado, foi diferente. Esse caráter sim, razoável, me agradou. Vale a leitura – o traço existencial te faz pensar nessa louca viagem que é a vida e no rumo que temos trilhado. Interessados na essência do meio artístico de roteiros, produção, peça publicitária, dramaturgia e semelhantes podem vir a se agradar também. 

Enfim, Gigantes é para quem procura ir além numa leitura: além do conhecido, além do que é contado e além de meras histórias que vemos estampadas em crônicas no cotidiano. É sobre conhecer a vida de outrem que já fez parte da nossa e que sempre deixa um pedacinho cá conosco, que pode nos instigar (e querer voltar no tempo) a qualquer momento da vida. No mais, é um breve suspiro carregado de vivências. Por isso, meus melhores votos de felicidades a Lipe, Camila, Fernando, Duda e, sim, Zidane. Somos todos gigantes, sem certo ou errado :) 
Olharam-se com todo o carinho do mundo. E o tempo parou. Não estavam mais ali na areia, não eram mais os adultos que tinham sem tornado sem perceber, tampouco eram os adolescentes que se conheceram na escola. Eram alguma coisa além de si mesmos, e a existência, apenas uma fantasia. Tinham se tornado eternos.
[...] Continuaram lá sentados, um ao lado do outro, sentindo. Apenas sentindo.


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Resenha: "O Canto do Cisne" (Bianca Sousa)

Sinopse: Elena vê sua vida virar de cabeça para baixo quando espetáculo e vida real se misturam.
Nos palcos: ela interpreta a princesa Odette, de “O lago dos cisnes”, que, enfeitiçada, tem como sina se transformar em cisne todas as manhãs.
Na vida real: tal como ocorre na história que protagoniza, torna-se vítima do mesmo feitiço, e agora precisará encontrar o tal do amor verdadeiro para findar a maldição, sob o risco de perder o papel do espetáculo – e a própria vida.Fonte: Skoob


Por Eliel: O Lago dos Cisnes, posso afirmar que é o ballet de repertório mais conhecido do mundo e mais remontado também. E foi nesse famoso lago que Bianca Sousa foi buscar inspiração para recontar essa fábula cheia de magia. Que eu gosto de ballet não é nenhuma novidade, novidade mesmo foi o que a autora fez para dar uma nova cara e um novo formato para esse clássico dos palcos.

Nossa aventura começa com as audições para a montagem do Musical O Lago do Cisnes, idealizado por Manolo, Angelique (quem leu Eterna, vai reconhecer esse nome) e Ronald. Esse trio será responsável pela magia que será levada aos palcos e além.

Elena (nossa protagonista) é uma jovem cantriz (cantora + atriz) que sonha em ser a Rainha Cisne do novo Lago dos Cisnes e está preparada para a audição que a testará para esse papel. Extremamente talentosa é óbvio que o papel é dela. Tradicionalmente o cisne branco e o negro são interpretados pela mesma pessoa, porém por decisão do jurados Elena dividirá o papel com Aline, branco e negro respectivamente. Elena é personificação do cisne branco, leve, doce e delicada. Já Aline é invejosa, má e egoísta. 

– Por que a gente faz tanta merda, Elena? – perguntou chorando. – É para adubar a vida!

Continuando as audições conhecemos o Príncipe Siegfried, ou melhor quem irá interpretá-lo. A disputa está entre Diego e Samuel. Beleza e talento não faltam aos dois, mas Diego faz o estilo badboy e Samuel é o perfeito príncipe.

Sem querer dar spoilers (já dando hahaha), o príncipe tem uma química imediata com Elena, dentro e fora dos palcos. E veremos muitos encontros e desencontros por parte desse casal.

– Eu não quero brigar.– Nem eu. – Então me beija.

Agora que a história se complica, Elena vira alvo de um feitiço horrível e até cômico se não fosse trágico. Eis que a vida imita a arte e todas as manhãs, Elena se torna um cisne, voltando ao normal só ao anoitecer.

Sua melhor amiga, Lúcia, depois do susto, tenta e todas as formas ajudar a amiga a quebrar esse feitiço. Mas como toda boa maldição de conto de fadas, essa só será quebrada com um ato de amor verdeiro. Nos tempos de hoje, tão difícil encontrar amor por aí.

Boa sorte Elena...

Lembrou-se de Lúcia e do que ela sempre dizia: “A sorte só acontece quando a preparação e a oportunidade se encontram”. Tinha apenas sete minutos para se preparar agora.

Eu estou apaixonado pelos livros da Bianca, ela tem uma forma tão fluída de escrever que te prende do primeiro capítulo até o último. Leitura de fácil entendimento com alta probabilidade de vício. E se você quiser conferir esse e outros livros da Bianca, ela foi uma fofa e preparou um Descontão para você leitor:


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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Resenha: "A cidade murada" (Ryan Graudin)



Não sou uma boa pessoa.
   Se precisarem de provas, mostro minha cicatriz, digo minha contagem de corpos.

Por Marianne: Depois de presenciar sua irmã mais velha Mei Yee ser vendida pelos próprios pais, Jim assume uma identidade de menino, pra sobreviver na cidade murada de Kowloon, Hak Nam, e tentar encontrar a irmã num dos muitos bordeis espalhados pela cidade.

A cidade murada é uma terra sem lei. Liderada por traficantes e donos de bordeis, onde a pobreza e o crime imperam. Para sobreviver num meio tão hostil Jim cria suas próprias regras: Não confie em ninguém, ande sempre com uma faca e corra.

Mas suas regras são quebradas e desafiadas quando Jim encontra Dai e vê no menino misterioso a oportunidade de uma aliança de interesses que pode ajuda-la a encontrar sua irmã.

Mas, assim como todas as outras varandas de todos os outros apartamentos de Hak Nam, a minha é fechada por grades. São ara manter os ladrões do lado de fora, mas, nos meus dias mais sombrios, tudo que vejo é a gaiola que me mantém preso aqui dentro.

O enigmático e entusiasmado Dai encontra em Jim o parceiro que precisava para investigar mais de perto os segredos escondidos em Hak Nam, que podem ajudá-lo a lidar melhor com alguns fantasmas do seu passado e transformar o futuro de muitos que vivem ali.

O livro é narrado em primeira pessoa e a narrativa se divide entre os três personagens principais, Mei Yee, Dai e Jim. A agonia, medo e sensação de confinamento dos personagens são compartilhados por todos, mesmo sendo Mei Yee a única a estar fisicamente confinada.

Tive alguns problemas na leitura desse livro. Comecei e não me conquistou, passou um tempo e fui ler de novo de onde tinha parado e o resultado foi confusão total. Comecei o livro todo de novo e depois de terminar consegui entender o motivo de toda minha confusão no começo da leitura. É IMPOSSÍVEL distinguir os personagens apenas pela narrativa. Várias vezes precisei voltar no começo do capítulo, onde o personagem narrador é identificado, pra saber quem estava falando. Não sei se foi problema de tradução, ou se a autora pecou mesmo na hora de moldar a personalidade de cada personagem de modo a transmitir com clareza a individualidade de cada um para o leitor.

Outra coisa que não me convenceu foram as torturas aplicadas pelos tão temidos traficantes e donos dos bordeis. Os líderes de Hak Nam, conhecidos pelo seu sangue frio, são bem mornos na hora de mostrar todo seu lado de maldade. Me deu a impressão de que a autora ficou com medo de forçar a barra na violência num livro voltado para um público mais jovem. O que acredito ser um erro.  Não subestimem seus leitores caros autores!

Temos J. K. Rowlling que começou com um livro quase infantil e que evolui pra cenas pesadíssimas no desenrolar da história (ainda infantojuvenil).

A cidade murada foi real e todos os horrores descritos existiram ali. Em uma breve nota da autora, no final do livro, conhecemos o que foi fora da ficção a cidade murada de Hak Nam. A cidade não existe mais, foi destruída e transformada em um parque.  Me lembrou muito a situação de muitas periferias que existem no Brasil, e que, diferente da cidade murada, estão bem distantes de se transformarem em parques. Descrita pela autora como uma sociedade quase distópica, essa realidade infelizmente ainda existe em muitos lugares por aqui.

Tirando os contratempos que tive com a leitura, a história é bem conduzida e tem um final aceitável. Espero que tenham gostado da resenha e até a próxima!


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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Resenha: “O Sorriso das Mulheres” (Nicolas Barreau)

Tradução de Karina Jannini

Por Kleris: Ah, Parri... Parri de encontros e desencontros, como sempre. Faz quase uns dois anos que tinha lido esse livro por acaso e na época foi todo o arco-íris que eu precisava. Foi tão não sei o que dizer, só sentir que eu não conseguia achar palavras para falar dele (embora tenha mencionado por alto aqui). 

Até hoje. Cá estou para te fazer mergulhar nesse açucarado romance, com pitadas de romã, pingos de chocolate e cachoeiras de metaficção, metaleitura, metatudo. Vale textão de resenha e vale muitas quotes. A propósito, preparem-se com os marcadores adesivados!

Sabe quando você passa por uma grande decepção e cai nos braços de um livro maravilhoso? É essa a sensação de Aurélie Brendin ao ler o romance O Sorriso das Mulheres, escrito por um tal de Robert Miller, autor inglês que fora publicado direto para o francês. Fora a maravilhosa trama e escrita, o encanto de Aurélie se dá por várias razões: 1) ela encontrara o livro muito por acaso durante uma fuga da polícia (ela se refugiou numa livraria) 2) o livro cita diretamente o restaurante dela como ambiente da narrativa 3) a heroína do livro é muito parecida com ela.

— Quem é você, Robert Miller? — perguntei à meia-voz, e meu olhar voltou ao homem sentado no banco do parque. — Quem é você? E de onde me conhece?

Quem não ficaria com uma pulguinha atrás da orelha depois dessa? Seria destino? Coincidência? Não importa, Aurélie tinha que conhecer esse moço! Só que ao buscar informações sobre o autor, ela descobre enormes (e inusitados) obstáculos: não há informações diretas, não há contato e, pior, ao que parece, Robert Miller tem horror a aparecer em público. E agora, como faz?

Bom, aí somos levados para o outro lado da história... Uma que envolve esquemas, mentiras e ficção demais. André Chabanais é o revisor responsável pelo autor Robert Miller, que, bom, é rondado por um mistério, mistério esse que põe André ao desespero quando a editora começa a pressionar para o autor fazer uma aparição, já que o livro tem vendido bem. 
— Agora vou lhe revelar um segredo, mademoiselle Mirabeau — ele disse, e cada um de nós sabia o que viria pela frente, pois todos já tínhamos ouvido isso uma vez. — Um bom livro é bom em todas as páginas — e com essas majestosas palavras, a reunião estava realmente terminada.

Acontece que o livro é uma “perfeita” jogada entre profissionais do mercado de publicação de livros da qual nem o editor chefe tá sabendo. Pra piorar essa situação, surge mademoiselle Aurélie Brendin querendo saber tudo sobre o autor, e André, que sabe bem demais desse esquema, se enrola em mil e umas mentiras ao se apaixonar por essa moça. Entre o amor e o trabalho, adivinha o que monsieur Chabanais escolhe?
E então, de repente, ela estava à minha frente, e eu me perguntava com toda a seriedade se era possível que uma personagem de romance pudesse ser de carne e osso. 
Se eu tivesse lido essa história em um romance, teria me divertido muito. Porém, quando se é obrigado a fazer o papel de herói cômico em uma história, ela já não tem tanta graça.

Paralelo a esse lado ficcional, O Sorriso das Mulheres é daqueles livros feitos para enganar o leitor. Ao mesmo tempo em que ele puxa as cortinas do teatro do mercado de publicação de livros, ele é uma peça, que ora escolhe dizer a verdade, ora escolhe manter a magia que todo publicador almeja. Para um leitor que pouco entende como funciona o trabalho de publicação, o romance não deve passar de uma leiturinha açucarada e boba com a torre Eiffel lá atrás. Por outro lado, para um leitor com mais visão, ele vai sacar que o livro foi “montado” exatamente para esse fim. É algo cíclico, pois o que acontece nesse livro, acontece no plano real – o mesmo segredo que ronda Robert Miller, dizem, é o mesmo que ronda Nicolas Barreau.

Acho que é isso o que tanto gosto em O Sorriso... e que me conquistou desde a primeira leitura. É esse caráter muito pretencioso, que promete e cumpre, e faz isso de uma maneira tão diluída à trama que é capaz de pegar todo mundo sem quase ninguém sequer notar. É preciso muita sobriedade para alguém conseguir arquitetar algo do tipo e executar perfeitamente – sobre ser impossível, não é.

Na releitura, inclusive, lembrei-me das peças pregadas em A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário (resenha aqui), e da relação de metaficção/metaleitura que vi em Cafés Amargos (resenha aqui). No mais, há aquele quê clássico de brincar com clichês. Há alternância de pontos de vista, mentiras que viram super bolas de neve, grandes decepções amorosas, paixões platônicas e avassaladoras, excentricidades, fiéis escudeiros, “frases feitas”, reviravoltas, referências, etc, etc. 
Quando se está triste, ou não se absolutamente mais nada e o mundo afunda em insignificância, ou se enxergam as coisas com uma clareza excessiva, e então tudo assume de uma só vez um significado. Até mesmo as coisas mais banais, como um semáforo que passa do vermelho para o verde, podem decidir se vamos à direita ou à esquerda.

Monsieur Chabanais é um tremendo de um cafajeste e mademoiselle Brendin é uma perfeita ingênua. O Sorriso das Mulheres pode ser também, nesse sentido, um livro de crítica a todos esses elementos tão batidos e ainda assim procurados no mercado editorial. O que podemos dizer se eles cativam as pessoas?

A edição é bem caprichada, tanto no texto, quanto na parte gráfica. A capa? Me capturou desde o primeiro momento – tanto é que eu nem sabia com o que tava lidando da primeira vez. Tem totalmente a cara de livro que guarda a sensação de um achado e a cara de livro que esconde muitos segredos. Pra completar, traz as receitas mencionadas pela nossa heroína cozinheira. De uma maneira ou de outra, quase posso ter certeza de que, como diz o aviso na capa, este romance fará você feliz. Recomendo!

Há chances de eu estar enganada em várias de minhas percepções, mas vá lá, deixe-me conspirar :) 
Em novembro do ano passado, um livro salvou minha vida. Eu sei, agora parece muito improvável. Alguns podem até considerar exagerado ou melodramático eu dizer algo do gênero. Só que foi exatamente assim que aconteceu. 
— Ah, Aurélie, que conversa é essa? Você é uma velha teórica da conspiração.

E aí, o que vocês acham dessa super premissa de livro?

Obs: após a leitura, lembrem de voltar aqui e vejam esta matéria (contém spoilers!).


Até a próxima!

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Resenha: “Salve-me” (Rachel Gibson)

Tradução de: Cássia Zanon

*Por Mary*: Como resenhar Rachel Gibson, xenthyyyyyy?!


Vou até pular essa parte de introdução. Não vai sair nada de inteligente mesmo...
- Tecnicamente é possível, meu velho. – ela disse, antes de explodir em riso novamente.
- Já acabou?
Ela sacudiu a cabeça.
Ele franziu a testa para não sorrir e deu a ela o seu olhar penetrante. Aquele usado para incutir medo nos corações e mentes de jihadistas endurecidos. Não funcionou, então ele a beijou para que ela calasse a boca. Uma pressão dos lábios sorridentes dele para acalmar a risada dela.
- Venha tomar uma cerveja comigo – ele disse contra a boca de Sadie.
- Está entediado?
- Agora não.
Neste romance suuuuuper apimentado da dyvah Gibson, ganhamos um novo objeto de desejo: os militares. Cá entre nós, quem não tem uma quedinha – mesmo que bem inha – por fardas, ? Se você ainda não teve a sua, é porque ainda não conheceu o militar certo.

Pois bem, em Salve-me, Sadie e Vince se conhecem a caminho da nossa velha conhecida Lovett, Texas. O motivo de suas viagens é distinta: enquanto Sadie está voltando para sua cidade natal, a fim de comparecer ao casamento de uma prima que nem conhece; Vince, por sua vez, está indo encontrar a tia, que tem uma proposta misteriosa para o seu futuro. O acaso os faz cruzar seus caminhos e uma intensa atração se faz presente de imediato.

Há muito sua experiência ensinou a não se meter com homens emocionalmente indisponíveis, iguais ao pai, mas é bem difícil que Sadie persiga esse propósito quando o homem em questão é alto, forte, musculoso e tem uns olhos verdes brilhantes de matar. Uma relação que se inicia de modo puramente carnal vai se transformando em amizade e quando, no momento mais difícil de sua vida, Vince fica ao seu lado o tempo todo, a amizade colorida se transforma em amor. Não seria tão assustador se Vincent se abrisse um pouco... e não fugisse como o diabo foge da cruz diante da palavra “compromisso”.
- E você nunca se apaixonou?
- Claro – ele apoiou o punho sobre a direção. – Por algumas horas.
- Isso não é amor.
- Não? – Ele olhou para ela e virou o jogo. – Você já teve um relacionamento realmente sério? Já esteve noiva?
Ela sacudiu a cabeça e colocou a garrafa no porta-copos.
- Eu tive relacionamentos, mas ninguém me deu um anel. – a ansiedade dela escapava pelos seus dedos e ela batucava o console. – Eu namorei homens indisponíveis emocionalmente, como meu pai, e tentei fazer que eles me amassem.
- Um psiquiatra falou isso para você?
- O programa Loveline, com Mike e dr. Dre.
Nem preciso dizer que o livro é MA-RA-VI-LHO-SO, preciso? Caso reste dúvida, ESSE LIVRO É MARAVILHOSO!

Tá, desliga esse CAPS LOCK, moça.

A narrativa de Salve-me se dá em terceira pessoa, seguindo a mesma linha dos livros anteriores dessa autora e se tem uma coisa que amo na Rachel, é esse recurso de intertextualidade que tem em seus livros.

Aqui não seria diferente, uma vez que encontramos rapidamente alguns velhos amigos, tais como: Daisy, Jack,Nathan e Lily. Além disso, há um breve encontro com o pessoal de Seattle, mas não é nenhum de nossos conhecidos – não que eu me lembre, pelo menos. 
- Isso é um progresso, eu acho, mas é triste – um pesar genuíno fez os cantos da boca de Autumn caírem. – Quando você tranca tudo bem apertado para que a dor não possa sair, você também impede que as coisas boas entrem.
Apesar de me sentir muito repetitiva, não posso deixar de mencionar o quanto os personagens de Salve-me são apaixonantes. Aliás, essa é uma característica da própria autora, de criar tramas envolventes, com uma linguagem fluida, recheadas de tensão sexual, romance e que prendem o leitor até a última linha. Cada elemento é empregado na medida certa.

No mais, é uma trama bastante simples, sem muitos altos e baixos ou grandes clímax. Não espere uma história recheada de grandes loucuras românticas e nem desfechos surpreendentes. É um livro previsível, descomplicado e, até certo ponto, objetivo.

Sendo assim, se você não está afim de uma leitura complexa e ama um bom romance, de escrita ágil – desses que é para ler de uma tacada só! – e quer suspirar (muito), se apaixonar (muito), se envolver (muito), este livro é a escolha certa!
- Tem mais uma coisa que eu vim dizer a você.
Ela baixou o olhar para o terceiro botão da camisa dele.
- O quê? – Ela não tinha ideia do que poderia estar faltando ele dizer. Apenas adeus.
Ele respirou fundo e deixou sair.
- Eu amo você.
O olhar dela subiu para o dele e um único “O quê?” escapou de seus lábios.
- Tenho trinta e seis anos e estou apaixonado pela primeira vez. Não sei o que isso diz a meu respeito. Talvez que eu tenha esperado você a minha vida inteira.
Sua boca se abriu, e ela respirou fundo. Ela estava se sentindo tonta, como se fosse desmaiar.
- Vince. Você disse que me ama?
- Sim, e isso me deixa completamente apavorado – ele engoliu em seco. – Por favor, não diga “muito obrigada”.


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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Resenha: “Amor e Memória” (Ayelet Waldman)

Tradução de: Debora Fleck




*Por Mary*: Olaaaaaaaar, comunidade! Como vão as leituras?




Confesso que inicialmente escolhi este livro por conta da temática envolvendo a expropriação de bens dos judeus, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Todavia, fui surpreendida por uma profusão de temas interessantes, tais como: Feminismo e sufrágio universal, a criação do Estado de Israel, o tratamento dado aos refugiados de guerra, a relação interpessoal dos judeus oriundos de diversificadas comunidades e a realidade europeia no pós-guerra. 


Quando a guerra terminou, era como se alguém tivesse sacudido a colcha de retalhos em que a Europa se transformara, fazendo as pessoas caírem de paraquedas nos mais diversos confins do continente. Havia milhares de trabalhadores forçados e escravos recrutados na Polônia e na Rússia, na Dinamarca e na Holanda, vindos de todos os cantos do Terceiro Reich. Reunindo-se a esse fluxo de gente que perambulava entre os destroços deixados pela guerra estavam (...) centenas de milhares de alemães e austríacos compelidos pelas forças armadas de Hitler a desocupar suas cidades em vez de se entregar ao inimigo em expansão (...). Os antigos prisioneiros de campos de concentração constituíam apenas uma pequeníssima parcela de indivíduos amontoados nos campos de refugiados. No meio deles, escondiam-se alguns guardas dos antigos campos (...), que tentavam voltar furtivamente para casa antes de seus crimes virem à tona.
Em Amor e Memória, Natalie Stein é uma advogada recém-separada, prestes a perder o seu amado avô para o câncer. Como forma de dar um propósito à neta para superar o divórcio e luto iminentes e, também, aliviar sua própria consciência, Jack, um ex-Capitão de Infantaria, que serviu durante a Segunda Guerra Mundial, entrega-lhe um medalhão e pede que ela o devolva a seu legítimo dono – ou a seu herdeiro. O problema é apenas um: Jack não tem ideia de quem seja o dono da joia.

Na busca pela realização do último desejo do avô, Natalie acaba conhecendo Amitai Shasho, um negociador de obras de arte roubadas durante o Holocausto. Ele está em busca de um quadro cuja modelo usa justamente o medalhão, pintado por um artista não tão conhecido. Essa parceria acaba os unindo de uma forma ainda mais profunda e as descobertas a respeito do enigmático medalhão em filigrana de ouro ao estilo art nouveau são ainda mais impressionantes.

Uma joia. Três mulheres fortes e independentes. Vidas em momentos distintos da história entrelaçadas por um pingente esmaltado de pavão roubado durante a Segunda Guerra Mundial.
- Eu comecei tudo isso porque o meu avô sentia que tinha prejudicado alguém, e, para honrá-lo, eu precisava honrar esse sentimento. Aceitei a ideia de que poderia consertar a situação se achasse a mulher de quem ele havia tomado o colar, ou alguém que tivesse relação com ela, e devolvesse a peça. Imaginei as coisas voltando a se equilibrar. – Ela se virou para olhar o museu. – Mas é claro que não se tratou de nada disso, né? O meu avô está morto. Ele nunca vai saber o que foi que eu fiz ou deixei de fazer com o colar. Essa obsessão só serviu como repositório para o meu luto por ele. E pelo meu casamento, eu acho.
- Você tinha essa noção desde o princípio?
- Acredito que sim, mas acho que só agora entendi que, durante toda a minha vida, minha experiência com o Holocausto foi exatamente a mesma coisa: um repositório útil para os sentimentos. Em virtude da minha religião, eu estava livre pra adotar essa tragédia colossal e sem precedentes como se fosse minha. Por causa do Holocausto, eu tive permissão ou, melhor, o direito de sentir toda a dor de que a minha vida abençoada e confortável me poupou. Só que essa nunca foi a minha tragédia. Coletivamente, como judia, sim. Mas pessoalmente? Não.
Amitai balançou a cabeça, quase rindo, porque naquele mesmo instante sentia, pela primeira vez, que a tragédia dos judeus da Europa lhe pertencia sim.
Com um texto bem escrito e uma trama igualmente bem amarrada, Ayelet Waldman narra, predominantemente em terceira pessoa, a busca de Natalie e Amitai pelos verdadeiros donos do medalhão, entrelaçando com maestria três histórias aparentemente paralelas unidas por um ponto de interseção de ouro adornado por ametistas e peridotos.

Para além de um livro incrível, a autora também é muito feliz na criação de seus personagens, extremamente reais, cheios de defeitos e virtudes. As figuras femininas, aliás, são fortes e dominantes, absolutamente independentes mesmo em sociedades patriarcais que tolhem as liberdades e escolhas pessoais das mulheres. Três homens relativamente pacatos têm suas vidas viradas de pernas para o ar diante destas personas involuntariamente apaixonantes.
- Em Nova York, você vai ser minha mulher, Ilona, casa comigo. – pediu ele, caindo no chão com atraso, apoiado em um dos joelhos.
- Meu Deus, Jack! Você está bem?
- Estou.
- Mas você caiu.
- Eu não caí. Estou me ajoelhando, Ilona. Por favor, casa comigo.
Algo bastante singular que observei em Amor e Memória é que não há um "endeusamento" dos Aliados. Os vencedores da guerra, sobretudo os soldados americanos – particularmente retratados – são descritos de modo muito realista, não-heróicos e, por vezes, corruptos. Quando o assunto é Segunda Guerra Mundial, estamos acostumados a enxergar somente o lado do bem e o lado do mal – o que é muito fácil, cá entre nós – esquecendo-nos, por exemplo, do descaso com relação aos refugiados no pós-guerra, da apropriação indevida de bens dos judeus, do despreparo de grande parte dos soldados e da situação preocupante que assolou a Europa durante o período.

Fato é que Ayelet recheia seu livro de informações importantes, que contextualiza um conflito proveniente de décadas – talvez até séculos – anteriores e que aprendemos na escola de maneira descontextualizada, resultando em um dos maiores absurdos já praticados pelo homem – e olha que não foram poucos, hein? – fruto de posicionamentos ideológicos equivocados e desumanos.

Senti falta, contudo, de uma razão mais direta que relacionasse a última parte do livro à trama principal. Apesar de relevante, esclarecedora e extremamente rica, a maneira como foi alocada pela escritora ficou parecida como a de um “apêndice” o qual, apesar de sanar dúvidas dos leitores e fechar núcleos, não possui uma ligação contundente com o mote da obra. Penso que, com uma rápida adaptação em alguns diálogos e mudando de lugar algumas cenas, talvez  a trama ficaria ainda melhor amarrada e mais dinâmica.

Portanto, se você é apaixonado por boas histórias, ricas, bem escritas, esclarecedoras e que vão te agregar conhecimento sem deixar de entreter, não deixe de ler Amor e Memória.
- Depois que fomos liberados, a Cruz Vermelha inglesa fez uma inspeção. A gente não tinha nada. As pessoas ainda estavam morrendo a cada minuto. Lembro ter visto uma mulher, com um pedacinho de sabão, se limpando com a água de uma cisterna onde flutuava o corpo de uma criança morta. Mas então veio a Cruz Vermelha e, alguns dias depois, chegaram dez caixotes de batom, ninguém sabe como nem de onde. Não tínhamos comida nem gaze, mas batom a gente tinha. E, caramba, era muito batom! Caixas, caixas e mais caixas. Estávamos tão felizes! Todas nós usávamos batom o tempo todo. As mulheres se agachavam nos cantos para esvaziar os intestinos com disenteria, mas seus lábios... De um vermelho perfeito. Minha amiga morreu segurando seu batom. Era a coisa mais importante que ela possuía.
- No campo, ninguém é mais do que uma cabeça raspada, um trapo de roupa e um número. Mas – completou Ilona, juntando um lábio no outro – , se você põe um batom na boca, acaba virando uma pessoa. Um ser humano.
- Você está linda. – Disse Jack.
- Linda talvez não, mas um pouco mais parecida comigo mesma.

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