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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Resenha: “O menino no alto da montanha” (John Boyne)

Tradução de: Henrique de Breia e Szolnoky

*Por Mary*: Olá, pessoinhas! Hoje não vou enrolar, não. Vem comigo, que tem livro bom pra gente conversar.

Meu primeiro – e, até então, único – contato com este autor foi com O Menino do Pijama Listrado, que é um livro que indico para todo mundo. Fiquei impressionada, tocada e sem palavras com a narrativa inteligente, sutil e incisiva de Boyne.

John Boyne, aliás, parece ostentar a habilidade de arrancar distintas emoções de seu leitor. Se, por vezes, a gente sente raiva, em outras somos tomados pela sensação de impotência, para logo depois ficarmos chocados com as ações de seus personagens e, muito frequentemente, sem palavras, olhando para o nada, sem saber como reagir a alguma de suas mais impactantes cenas. 
O que aconteceu com você, Pierrot? Era um menino tão doce quando chegou. É fácil assim corromper os inocentes?
Com O menino no alto da montanha não é diferente.

Pierrot é um garotinho parisiense de sete anos, filho de mãe francesa e pai alemão, que tem como melhor amigo Anshel – um judeu com deficiência auditiva – e vive a efervescência do nazismo. Após a perda dos pais e uma temporada no orfanato das irmãs Durand, Pierrot se muda para Berghof, onde mora a tia Beatrix, em uma bela mansão no alto de uma montanha alemã próxima à divisa com a Áustria.

O senhor de Berghof é Adolf Hitler, líder do Partido Nacional-Socialista e fundador do crescente movimento nazista; um homem sisudo, de bigode estreito e com ideias distorcidas sobre as coisas, que logo se torna seu protetor. Constantemente vítima das piadas e violência dos mais fortes, Pierrot experimenta pela primeira vez, ao lado do Führer, o viciante sabor do poder. Seduzido pelo futuro glorioso vislumbrado para o Reich, Pierrot trai não apenas as pessoas que ama, mas, principalmente, a si mesmo. 
Me apavora pensar no tipo de homem que ele vai se tornar, se isso continuar – disse Breatrix. – Alguma coisa precisa ser feita. Não só por ele, mas por todos os meninos como ele no mundo. Se não for impedido, o Führer vai destruir o país todo. A Europa toda. Ele diz que está iluminando a mente do povo alemão, mas é mentira. Hitler é a própria escuridão.
Com uma narração em terceira pessoa, John Boyne desenha de modo muito delicado os fatos que compõem sua trama, impondo em sua escrita impressões e marcas tão sutis que somente um leitor mais atento não deixará passar despercebido. Não é nenhum demérito, muito pelo contrário, porque o leitor desatento, apesar de perder parte da maestria deste grande escritor, ainda poderá se deliciar com uma história bem contada, envolvente e fundamentada com uma pesquisa minuciosa acerca do corte histórico a que se propõe contar.

E por falar em leitores atentos, aposto que estes terão notado breves participações literárias, já conhecidas, entre as páginas de O menino no alto da montanha. Mas não posso contar o que é, afinal, estragar a surpresa não tem graça nenhuma.

É muito difícil não encarar O menino no alto da montanha de uma tacada só – eu mesma não consegui fazer isso. Contudo, eu aconselho uma leitura com calma, pois, francamente, Boyne é uma leitura que precisa ser apreciada, curtida, refletida. Sabem como é, façam o que eu digo e não o que eu faço. Embora nada os impeça de ler várias vezes, claro. 
[...] Sempre odiara qualquer forma de violência, e se afastava instintivamente de conflitos. Alguns meninos na escola de Paris começavam uma briga por qualquer provocação – e pareciam gostar daquilo. [...] Pierrot nunca via; não entendia o prazer que certas pessoas tinham em machucar os outros.
Merece um adendo o desfecho desta história, que foi escrito no curso de uma disciplina de escrita criativa ministrada pelo autor a mestrandos da Universidade de East Anglia, Norwich. Já queremos cursar escrita criativa com o John Boyne pra ontem? Queremos! Urgentemente!

Enfim, vou ficar por aqui deixando a minha mais sincera indicação aos leitores que se interessam por temas históricos, especialmente a Segunda Guerra Mundial. Portanto, se você deseja um romance interessante, uma trama envolvente e reflexiva, inteligente, bem amarrada e com mil outras qualidades, não deixe de conhecer Pierrot, O menino no alto da montanha.
- Olhe para mim, Pieter. Olhe para mim.
Ele levantou os olhos cheios de lágrimas.
- Não finja que não sabia o que estava acontecendo aqui – disse Herta. – Você tem olhos, tem orelhas. E esteve naquele escritório inúmeras vezes, tomando notas. Você ouviu tudo. Viu tudo. Sabia de tudo. E sabe também das coisas pelas quais foi responsável. – Herta hesitou, mas era algo que precisava ser dito. – As mortes que carrega na consciência. Você ainda é jovem, tem só dezesseis anos. Tem muitos anos pela frente para ficar em paz com sua cumplicidade no que foi feito. Mas jamais convença a si mesmo de que não sabia. – Ela soltou o rosto dele. – Seria o pior crime de todos.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Resenha: “Os príncipes encantados também viram sapos” (Megan Maxwell)

Tradução de: Tamara Sender

*Por Mary*: Sabe aquele livro que a gente não sabe dizer se gostou ou não? Pois é.

Quem me acompanha aqui, sabe que sou doida pela Megan Maxwell. Deixei isso muito claro em todas as minhas resenhas de livros dela e sobretudo em Você se lembra de mim?, que acabou comigo de uma maneira... Sendo bem franca, não tenho muita certeza se já superei essa DPL.

Os príncipes encantados também viram sapos aborda o relacionamento de Kate e Sam, que se conheceram muito jovens, enfrentaram um relacionamento à distância durante anos e, após terminarem a faculdade, finalmente se casaram e formaram uma família linda, com duas filhas maravilhosas.

Sam, que foi criado em um orfanato e nunca soube o que significava realmente ter uma família, realiza com Kate o seu grande sonho. Com muita luta, junto a Michael – seu melhor amigo e quase um irmão – Sam e Kate abrem o seu próprio escritório de advocacia, vão viver em uma casa confortável e criam, juntos, as duas filhas. Contudo, este conto de fadas se vê ameaçado pela rotina e uma traição pode colocar tudo a perder.

A trama, em si, é muito boa; apresenta um lado até então desconhecido da autora. Pelo menos, para mim. Apesar de Megan Maxwell não ser uma escritora de perfeições – vida cor-de-rosa e pessoas maravilhosas de personalidades perfeitas – este livro parece acentuar ainda mais as imperfeições de seus personagens, suas fraquezas e as agruras da vida.
- Você sabe o que o Sam significava pra mim – disse Kate, enxugando as lágrimas. – Era meu príncipe encantado. O homem ideal! Mas sabe o que eu concluí com essa história toda?
- O que você concluiu?
Com a dor refletida em seu rosto, respondeu:
- Que a vida não é o maravilhoso conto de fadas que eu imaginava... porque os príncipes encantados viram sapos.
As informações vão sendo reveladas aos poucos, o que parece ser feito de propósito, porque você começa detestando um personagem para depois ir descobrindo suas motivações. Isso acabou me fazendo refletir sobre as notícias totalmente descontextualizadas que às vezes recebemos e nos fazem julgar uma pessoa, até que você conhece o panorama real da situação e se dá conta de que, talvez, você se equivocou ao se posicionar antecipadamente.

Há alguns meses - tá bom, faz alguns anos já - comentei com vocês que às vezes não temos a maturidade necessária para um determinado livro (falei disso em P. S. Eu te amo). Penso que talvez tenha ocorrido isso comigo e, lendo futuramente, chegarei a uma conclusão distinta. Todavia, hoje, se me entregassem esse livro sem contarem que é a Megan, eu não saberia.

Apesar de termos aqui uma trama bastante adulta, os personagens não agem de acordo. Temos adolescentes agindo como adultos, adultos agindo como adolescentes e crianças de três anos sendo anormalmente sábias. 

Além disso, as quebras de cena também não são fluidas, falta um dos recursos que a escritora tão bem domina, que são os ganchos elaborados com maestria para não te deixar ir dormir antes de terminar o livro.
- Terry, você realmente me espanta. O cara de quem você é a fim e que estava incrível hoje te pega de jeito, te beija e diz que está louco por você. E você, em troca, humilha o sujeito na frente de dezenas de pessoas, dando uma joelhada onde mais dói. Sério, por que não pensa um pouquinho antes de agir?
Conversando com a Kleris, ela comentou comigo que talvez este seja um dos primeiros livros escritos pela autora e que somente foi publicado depois dos que anteriormente a tornaram Best-seller. Pode ser, não tenho essa informação para garantir ou refutar.

Fato é que não seria honesto dizer que Os príncipes encantados também viram sapos é um livro ruim - porque não é. E também não seria justo com as pessoas que nunca leram Megan Maxwell afirmar algo neste sentido. Como já conversei com vocês, sou muito reticente em realizar afirmações tão incisivas, principalmente porque há inúmeros fatores que podem influenciar o leitor no que tange às emoções causadas pela leitura.

Os príncipes encantados também viram sapos é um livro que aborda, essencialmente, o perdão, as segundas chances, a sobrevivência do amor e o crescimento de uma família a partir dos percalços da vida.
- Roncando?! – gritou. – Foi mal, gatinho, mas sinto te informar que eu não ronco, não.
- Tem certeza?
- Absoluta!
Michael sorriu e fez menção de dizer alguma coisa, mas ela se antecipou:
- Você disse que são sete da manhã?
Michael se levantou e foi se acomodar ao lado dela no balanço.
- Pra ser mais exato, são sete e vinte.
Confusa, Terry retirou o cabelo do rosto, que estava despenteado por causa da brisa, e sussurrou:
- Sentei aqui pra tomar um copo d’água e... putz, devia ser uma ou duas da madrugada!
- Então que belo cochilo você deu no balanço, hein! Hoje você vai ficar com o corpo todo moído.
O que me dói é não ter coragem de te beijar, seu idiota, pensou ela, acalorada. Ter Michael tão perto era pertubador, mas Terry se esforçava para aparentar normalidade.

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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Resenha (com participação): “Tá Todo Mundo Mal” (Jout Jout)


*Por Mary*: Vocês devem estar aí se perguntando o que significa “resenha com participação”, não é? Pois eu explico!

A resenha com participação traz alguns comentários de um ou mais colunistas do blog, que também leram o livro, e gostariam de enriquecer este nosso momento de conversa sobre a leitura. Não é a mesma coisa de resenha dupla, porque há uma resenha principal com “pitacos” de outro colunista.

Convenhamos que a gente sempre quer dar uma opiniãozinha sobre alguma coisa, né?

A nossa convidada nesta estreia de “Resenha (com participação)” é a Kleris e todos os comentários dela virão no corpo do texto com a fonte colorida em azul.

Então, vamos lá? 
Fiquei imaginando uma vida sem paixão; coisa mais sem graça e difícil de manter. A gente busca isso o tempo todo sem nem notar – quem não quer uma história linda de amor, ou várias histórias lindas de amor, cheias de tensão, frio na barriga, brincadeirinhas idiotas que só fazem sentido para o casal apaixonado? É claro que há momentos de pânico e agonia em que tudo que você quer é chorar para sempre e acha que vai morrer. Mas, no geral, é um sentimento gostoso.
Há alguns meses, confessei a vocês na resenha de Prometo Falhar que costumo ter um pouco de dificuldade em ler livros compostos por coletâneas de crônicas, porque, em geral, este tipo de obra traz uma espécie de quebra intrínseca à sua própria natureza literária.

E aí vocês me perguntam: “Por que você insiste, Mary?”

E eu vos respondo: para ter o prazer de encontrar livros que contrariam à sua natureza. 
Ele disse que eu tinha que correr o risco de ser quem eu era, e que, ao não querer sentir sentimentos que eu reprovava, estava apenas com a exigência de ser perfeita, e que talvez fosse menos presunçoso se permitir ser um pouco invejosa e ciumenta.
E também porque gosto muito da Jout Jout. Compartilho das suas ideias e ela nem sabe o quanto me ajudou a entender umas coisas que eu nunca tinha problematizado na minha cabeça – ou até já tinha – e ficava apenas ruminando determinada situação de uma maneira nada construtiva.

Inclusive, em uma dessas situações, compartilhei com vocês um vídeo dela no fim de uma crônica minha, que vocês podem conferir aqui.

Bem, vocês devem já ter visto pelo menos um vídeo dessa menina e, se não viram, deveriam.

Tá Todo Mundo Mal reúne uma coleção de crises de uma das mais influentes youtubers brasileiras, a Julia Tolezano, famosa pelo canal Jout Jout Prazer, e apesar de não haver um tema específico, todos os seus textos têm um elemento comum: suas mais variadas crises.

Falar de algo tão pessoal como as crises que nos assaltam é puxar de vez as cortinas que escondem nossas pequenas grandes batalhas interiores. E Julia faz isso sem quebrar a magia que é seu espírito livre visto nos vídeos. Ela mostra que, ao contrário do que muitos pensam, ser uma pessoa maravilhosa não nos impede de sermos vulneráveis – e vice-versa. Todo mundo no fundo coleciona crises, uns mais que outros, e é interessante ter consciência deles. 
Nada mais reconfortante para quem está numa crise do que saber das crises dos outros e ficar medindo em silêncio sobre se a deles é pior ou mais branda que a nossa própria. Então aqui estou. Enumerando gentilmente meus piores momentos. Para você avaliar se os seus foram um pouquinho melhores e ter um sono mais tranquilo.
Quem nunca teve lá suas crisezinhas, não é mesmo, meus caros?

Aliás, depois deste livro, descobri que talvez eu nem tenha tido tantas. E, com ele, descobri também que algumas das minhas crises não foram muito diferentes da nossa autora, o que me faz pensar: às vezes a gente encara umas coisas achando que é o diferentão, quando, na verdade, elas são mais comuns do que esperávamos.

Quanto mais penso sobre isso, mais vejo que estamos realmente mal, como que nos afogando no mesmo mar sem saber quem está ali logo do lado. Como mencionei na resenha de Ansiedade (aqui), muitos de nós não só esconde dos outros as angústias, como de si, por conta de preconceito e incompreensão. Assim, Jout Jout entra nesse cenário nos chamando pra sentar e ter uma conversa aberta, sincera e bem humorada.

Em Tá Todo Mundo Mal, vocês encontrarão um livro que tem a marca da sua escritora: diversão, coloquialidade e reflexão. Ler este livro foi praticamente ouvir a voz da Jout Jout da primeira à última página. 
Eu me sentia péssima, mas era tão bom... Série tem disso. É um mix do melhor sentimento do mundo com um pensamento autodestrutivo constante martelando sua cabeça “você é uma inútil, isso não está acrescentando nada a sua vida. Vai ler um livro. Já estudou hoje? Isso de ‘só mais um episodiozinho’ já dura quatro horas e você ainda não fez um santo dever de casa”.
Com uma retórica fluida, textos fáceis e linguagem ágil, Jout Jout permeia por temas nem sempre tão leves. Em alguns momentos, soltamos umas risadas sem perceber; e, em outros, queremos apenas abraçá-la e dizer: você não está sozinha nessa, moça.

Para quem acompanha seu canal, poderá facilmente identificar algumas crônicas em temas já abordados nos vídeos; mas se acalme, querido leitor, que não tem nada de copia e cola aqui. Os textos, além de muito originais, acabam por analisar outro prisma da situação.

Tá Todo Mundo Mal é um livro que corresponde muito àquele desejo de colocar uma pessoa num potinho e guardar com todo amor. Nele você entende que não importa quantas crises você já teve ou terá (e é possível que tenha um redemoinho delas após a leitura – por estarem de repente tão claras), as bads estão aí para serem sentidas e repensadas, e delas podemos tirar preciosas lições, basta que estejamos abertas a estas.

Sendo assim, se você está interessado em um livro de leitura fácil, rápida e fluida, ou quer uma literatura que te trará uma reflexão interessante sem ser exatamente este o objetivo, Tá Todo Mundo Mal é um livro para se ler de uma “sentada” só e você vai adorar. 
Então tudo bem fazer as coisas porque é romântico ou porque é prático, porque no final nada disso importa de verdade, já que o que tiver de ser prático, e o que tiver de ser romântico, assim será, e todos irão desempenhar seu papel muito bem.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Resenha: “Ainda Estou Aqui” (Marcelo Rubens Paiva)

*Por Mary*: É, minha gente, em tempos de manifestações políticas com pessoas ostentando cartazes pedindo pela volta da ditadura, sinto vontade de esfregar esse livro na cara de cada uma delas.


A tortura é a ferramenta de um poder instável, autoritário, que precisa de violência limítrofe para se firmar, e uma aliança sádica entre facínoras, estadistas psicopatas, lideranças de regimes que se mantêm pelo terror e seus comandados. Não é ação de um grupo isolado. A tortura é patrocinada pelo Estado. A tortura é um regime, um Estado. Não é o agente fulano, o oficial sicrano, quem perde a mão. É a instituição e sua rede de comando hierárquica que torturam. A nação que patrocina. O poder, emanado pelo povo ou não, suja as mãos.



Porém como este blog não é político, mas sim literário, vamos conversar sobre um livro maravilhoso? Vamoooooos!

Em Ainda Estou Aqui, com uma narrativa descontínua, sem preocupações com a ordem cronológica dos fatos, Marcelo Rubens Paiva descreve muito mais do que a vida de sua mãe ou a prisão e assassinato do seu pai, ele contextualiza um momento histórico importantíssimo na vida política do país. Mais ainda, o autor aborda um recorte histórico que deve ser lembrado, estudado e analisado a fundo, a fim de que um golpe semelhante não volte a se repetir.

Sabe quando você vai ver um filme? De início, há apenas uma tela negra que se abre a uma imagem ampla – a imagem de uma cidade aparece à sua frente, talvez? – que vai se fechando em um ponto fixo, afunilando até encontrar um bairro, um telhado e, finalmente, uma pessoa. Esse, na maioria das vezes, será o nosso protagonista. É dessa maneira que você se sente no primeiro capítulo deste livro do escritor, dramaturgo e jornalista Marcelo Rubens Paiva. A partir de uma reflexão pontual acerca da memória, o leitor é introduzido ao mundo de uma pessoa com alzheimer e, então, à vida de sua mãe, Eunice, portadora da doença. 
A memória é uma mágica não desvendada. Um truque da vida. Uma memória não se acumula sobre outra, mas ao lado. A memória recente não é resgatada antes da milésima. Elas se embaralham. Minha mãe, com Alzheimer, não se lembra do que comeu no café da manhã. Minha mãe, com Alzheimer, vê meu filho de um ano, que é a minha cara, e o reconhece. Não acha que sou eu, mas o chama de filhinho, de meu filhinho.
Que pessoa fascinante! Eunice Paiva foi esposa do deputado Rubens Paiva, morto pela Ditadura. Viúva, com cinco filhos, em busca do paradeiro do marido – não obtendo respostas das autoridades, mesmo após o fim da ditadura militar – se formou em Direito, advogou pelos direitos difusos e coletivos – sobretudo indígenas –, circulou pelas altas rodas sociopolíticas e se tornou um grande nome no meio jurídico brasileiro.

Mesmo com todas as dificuldades, as perdas e o silêncio, Eunice Paiva deu a volta por cima, demonstrou uma força impressionante. Nunca chorou diante das câmeras. Em vez disso, lutou. E o reconhecimento da morte de seu marido – considerado “desaparecido” pelos militares – só chegou em 1995. Isso mesmo, somente vinte e cinco anos depois de sua morte. Apenas posso imaginar a dor destas famílias que perderam seus entes queridos para um governo totalitário e pungente. 
Meu pai, um dos homens mais simpáticos e risonhos que Callado conheceu, morria por decreto, graças à Lei dos Desaparecidos, vinte e cinco anos depois de ter morrido por tortura.
Eu poderia dizer que este livro é uma biografia de Eunice Paiva, mãe do escritor e brilhante advogada vítima da ditadura militar que assolou o Brasil nos anos 60 – e perdurou por aí até boa parte da década de 80. Contudo, julgo que não seria inteiramente honesta se assim o fizesse.

É muito mais que isso, pois, com o fim de contar a história de sua mãe, Marcelo Rubens Paiva entranha em sua própria história, na de seu pai e, sobretudo, no lapso histórico que tanto marcou o destino da família Paiva; traçando uma profunda reflexão sobre memória, força e resiliência. 
A tática do desaparecimento político é a mais cruel de todas, pois a vítima permanece viva no dia a dia. Mata-se a vítima e condena-se toda a família a uma tortura psicológica eterna. Fazemos cara de fortes, dizemos que a vida continua, mas não podemos deixar de conviver com esse sentimento de injustiça.
Diante da realidade sociopolítica brasileira, pode-se dizer que Marcelo Rubens Paiva nunca esteve tão atual.

Com uma narrativa bastante envolvente, Ainda estou aqui é muito mais do que um mero livro literário escrito com o objetivo único de entreter o leitor, pois é extremamente rico também do ponto de vista informativo. Para quem se interessa por História, então, nem se fala. Não deixe de conferir esta obra prima da Literatura Brasileira. 
Você vê um quadro hoje. Vê o quadro de novo daqui a dez anos, o revê daqui a vinte, trinta, quarenta... É o mesmo quadro, com a mesma moldura, na mesma parede do mesmo museu, com a mesma luz, é você, mas cada vez será visto de outra forma. Cada vez ele nos conta uma história. O quadro não mudou. Já nós...

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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Resenha: "Não me Abandone Jamais" (Kazuo Ishiguro)

Tradução Beth Vieira

Sinopse: "Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados.No entanto esse internato idílico esconde uma terrível verdade: todos os "alunos" de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição. Assim que atingirem a idade adulta, e depois de cumprido um período como cuidadores, todos terão o mesmo destino - doar seus órgãos até "concluir".Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar."Fonte: Skoob

Por Eliel: Esse livro é um mergulho nas memórias de Kathy H., ela é uma cuidadora e é muito boa no que faz. Por se tratar de memórias, às vezes se tornam muito desconexas, mas juro tudo faz sentido uma hora ou outra. É como aquelas conversas entre amigos que parece ser despretensiosa, porém cheia de significado para os envolvidos.

E tem também a solidão. Você cresce com bandos de gente em volta, é só o que conhece da vida, e, de repente, vira cuidador.

Chegamos como intrusos na vida de Kathy, mas ela vai nos envolvendo de uma forma magnifica que quando menos perceber vai se sentir como um dos alunos de Hailsham, aquelas memórias não serão somente dela, passam a ser suas também, você viu, você estava lá.

O foco, além de Kathy, caí sobre Ruth e Tommy, seus melhores amigos e companheiros de longa data. Muita coisa gira em volta desse trio, porém sempre sob a ótica de Kathy, a mais calma e analítica do trio.

O que estou querendo dizer é que estávamos lutando para nos ajustara nossa nova vida e imagino que todos nós fizemos coisas das quais mais tarde nos arrependemos. Na época eu fiquei realmente chateada com o comentário de Ruth, mas não faz o menor sentido tentar julgá-la agora, ou qualquer outra pessoa.

Dentro de toda a narrativa acompanhamos o amadurecimento dos jovens alunos que tem suas próprias questões, um tanto infantis à principio, porém algumas só serão respondidas lá no último capítulo. Quando saem da escola para a próxima fase da vida, novas questões se colocam à frente de seus caminhos. O tema geral do livro é bem pesado, porém é feito com tal leveza que nem se percebe.

Revisitar a memória é um exercício que creio que todos deveríamos fazer ao menos uma vez na vida. Esse livro trata das relações humanas, sobre os nossos relacionamentos, sonhos, ambições entre outras coisas mais profundas. A grande pergunta desse romance é, para mim, o que nos torna humanos? O que nos diferencia dos outros seres?

Conversando com um doador meu, outro dia, ele se queixou de que as nossas lembranças, até mesmo as mais queridas, desaparecem espantosamente depressa.

Prepare-se para ter muitos questionamentos durante a leitura, e isso é extremamente bom. Afinal, a leitura é para isso mesmo, nos tirar do lugar comum e nos levar um andar acima sempre. Kazuo é um autor que tem me surpreendido nisso, ele não se preocupa em fazer uma história magnífica cheia de reviravoltas e surpresas a cada página. A narrativa é leve, as vezes fica tensa, é simples porém complexa, eu diria que é como a vida, nunca saberemos o que tem ali logo virando a esquina.

Livro cativante, sem mais.

P.s.: Assistam o filme baseado, outra obra de arte.

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sexta-feira, 8 de julho de 2016

Resenha: “Fração de Segundo, Encruzilhada Vol. 2” (Kasie West)

Tradução de: Flávia Souto Maior

*Por Mary*: Vocês sabem aquela sensação de acabar de ler um livro e imediatamente querer relê-lo para ter certeza de que não deixou passar nada? Pois é. <3

Caramba, faz tempo que eu não fazia uma leitura tão frenética, com aquele frio na barriga, sem conseguir desgrudar os olhos do livro.

Antes de darmos início a esta resenha, aviso aos navegantes que ainda não leram Encruzilhada de que esta resenha poderá conter *spoilers* relacionados ao primeiro volume da duologia. Sendo assim, você decide se segue em frente ou para por aqui, tá?

Em Encruzilhada vimos que Addie precisou abrir mão da sua vida no mundo Normal para salvar sua melhor amiga Laila e, para conseguir isso, pediu que esta Apagasse sua memória relacionada às suas Investigações. No entanto, Addie havia prometido a Trevor que não o esqueceria e, disposta a cumprir sua promessa, deixou com Laila um bilhete a si mesma, lembrando-a de dizer a Laila que esta poderia aprender a Restaurar memórias.

Temos aí alguns problemas: 1) Addie, obviamente, não se lembrava de ter deixado o bilhete; 2) Laila ainda se sentia culpada pelo desfecho do volume anterior; e, 3) coisas estranhas começaram a acontecer com a Habilidade de Addie.

Em Fração de Segundo, Kasie West fez jus ao livro e não nos deixou respirar nem por um instante. Se piscasse, já perdia uma emoção. Nem me lembro da última vez que li um livro com tantas surpresas. De verdade, difícil explicar. 
O olhar confuso de Trevor foi rapidamente substituído por um de muita dor. Demorei demais para perceber o que Connor estava fazendo. Ele estava Curando o ombro de Trevor. Addie deve ter percebido também, porque suas lágrimas voltaram com força total. O orgulho tomou conta do meu peito. Algo que tinha sido retirado por uma habilidade agora era restituído por outra. Sem mais palavras, Connor o soltou e entrou na picape.
Como nós aqui somos amigos chegados, posso confessar que Encruzilhada foi o primeiro YA que li em muito tempo. Acontece que este livro, que de início escolhi por mera curiosidade, me surpreendeu de inúmeras maneiras pela qualidade. A autora sabe dosar muito bem os recursos escolhidos a dedo para a trama. Tudo parece na medida certa, minuciosamente adequada para o enredo.

Me recuso a comparar esta duologia com as tramas bobinhas dos YA’s que encontramos no mercado. Kasie West sabe ser romântica sem ser piegas; ela sabe abordar temas adolescentes sem se limitar; sabe entrar em uma categoria literária sem cair na mesmice; sabe prender o leitor sem cansá-lo; e, sim, meus caros, a mulher sabe, como ninguém, descrever uma cena tão bem, que parece que estamos vendo um filme.

Além disso, a abordagem da autora me parece muito fácil de aplicar à realidade. É como se ela utilizasse a realidade fantástica para criar alegorias perfeitamente apropriadas para as vidas de seus leitores, independentemente da idade que eles têm.
- Quando sua habilidade se manifestou?
- Quando eu tinha doze anos. Foi o pior dia da vida do meu pai. Ele queria um Telecinético. E teve que se contentar comigo.
Eu não era o tipo de pessoa que se abria, então não soube direito o que fazer com aquela informação.
- Choramingar te deixa menos atraente. Não faça mais isso.
No primeiro volume dessa duologia, Kasie West conseguiu a difícil tarefa de manter seus leitores com um pé no mundo Normal e outro no Complexo Paranormal a partir da alternação entre as Investigações de nossa protagonista Addie. O recurso foi muito bem utilizado, porque deu agilidade à trama e relacionou uma história complicada de narrar. O leitor não fica perdido, não consegue largar o livro – por conta daqueles ganchos maravilhosos dela – e mantém aquele suspense gostoso para saber o que vai acontecer a seguir.

E não é que a danadinha conseguiu repetir a dose? Só que dessa vez nós ficamos meio lá e meio cá em decorrência da alternação de perspectivas entre Addie e Laila, sua melhor amiga. E aí a Kasie matou dois coelhos com um só tiro: manteve um recurso adequadíssimo para a sua história e, ainda por cima, deu mais destaque para uma coadjuvante que rouba a cena sempre que aparece. A sensação que a gente tem é que a Laila realmente merecia aparecer mais. É uma personagem apaixonante.
- Oi. – eu disse.
- Ei. Ele está bem?
- Melhor. – Limpei a garganta. – Obrigada.
- Que gosto sentiu ao dizer essa palavra?
- Um gosto terrível.
Se em seu debut Kasie West já mostrou a que veio, dando show de talento e mostrando que um YA pode – e deve – ser muito bem escrito, na sequência de sua duologia o leitor não ficará decepcionado. Tem uma trama eletrizante, convincente e bem fundamentada; tem romance, amor impossível e todas essas baboseiras que a gente ama; tem muita cultura nerd, conspirações e desfecho nota dez. Fração de Segundo, bem como Encruzilhada, é livro para ser lido de uma tacada só. É simplesmente impossível não ler tudo de uma vez (aqui o bagulho é frenético 😅).

Tenho certeza absoluta de que, muito em breve, irei reler ambos os livros, porque, como eu disse, quero ter a certeza de não ter deixado nada passar.
- Me conte três coisas.
Eu sorri. Adorava esse jogo. Me deixava feliz.
- Uma vez ficamos presos no carro do diretor depois de perder uma aposta. Tínhamos que roubar um boneco que estava lá dentro. Só que o Rowan, que deveria distrair o diretor, não fez seu papel muito bem, e o alarme disparou.
- O que fizemos?
- Conversamos até o Rowan conseguir as chaves e nos soltar.
- Parece interessante.
- Ah, e teve uma vez que você tentou provar como era forte e me carregou. Isso foi muito antes de ficarmos juntos, por sinal.
- Quando você ainda achava que eu deveria ser seu melhor amigo?
- É.
- E eu te levantei. Como?
- Foi rápido. Você me puxou para perto e sem perceber eu já estava no ar, com você me segurando pela perna.
- E ainda achava que eu queria ser seu amigo?

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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Resenha: "Só por hoje e para sempre" (Renato Russo)



No fundo achava muito romântico e até heroico estar me destruindo assim.

Por Marianne: Muita gente tem preguiça de Legião Urbana e Renato Russo por achar over e tal. Eu gosto do cara, gosto das composições, da banda... Foi aos pulinhos de alegria que li o curtinho, mas devastador, relato escrito por Renato Russo nos dias em que ficou internado em uma clinica de reabilitação no Rio de Janeiro.
   O livro alterna entre trechos do diário mantido por Renato durante a internação e trecho das atividades escritas desenvolvidas por ele na clínica para autoavaliação e autoconhecimento, como parte do plano de tratamento.
   A desenvoltura e coesão da escrita de Renato, mesmos quando narra alguns dos momentos mais difíceis de sua vida por consequência de seus vícios, deixam claro o porquê do músico ser tão celebrado até hoje por suas composições.


Na verdade, para mim, o Poder Superior não se explica por palavras. Sua existência é percebida não pelo intelecto, mas sim pelo coração. É como o vento, não se vê o vento, mas vemos as árvores em movimento, ouvimos o som e sentimos o vento no corpo. Só que o vento se explica, e o Poder Superior não. É importante para mim porque minha vida agora depende disso.

   O livro é difícil por ser uma leitura muito forte e em alguns momentos perturbador. Renato era uma pessoa de alma extremamente sensível, que foi dominado por sua dependência química e quase o chegou ao fundo do poço. E ele não faz questão de esconder isso no seu texto. O trecho onde o autor conta que era viciado em ler jornal apenas para acompanhar as tragédias ocorridas e, para logo em seguida, se drogar – heroína e cocaína eram suas preferidas – demonstra a fragilidade consequente de sua sensibilidade e delicadeza na percepção dos eventos da época.
   Acompanhamos as reações e desenvolvimentos físicos e emocionais do músico no decorrer do tratamento e toda a complexidade por trás das etapas de um tratamento para dependentes químicos.
   Nos relatos Renato cita brevemente sua relação com alguns nomes conhecidos do rock nacional da época e, claro, sua relação com os outros membros do Legião Urbana.
   Percebemos todo o impacto que o vício causou não apenas em sua vida pessoal, como também no desenvolvimento do Legião Urbana e sua relação com os músicos.

O comentário típico é: “Mas logo ele, tão talentoso e inteligente, se destruindo desse jeito...” 

   Eu fiquei bastante chocada e emocionada porque vemos a situação de um ângulo completamente diferente do que estamos acostumados, através de noticiários sensacionalistas. Renato cita alguns famosos da época que também sofriam com problemas de dependência química e eram tratados como os “bobos da corte” pela mídia. Todo alvoroço que causavam em suas polêmicas aparições públicas eram mais que bem vindos para um jornalismo cruel e despreparado que não sabia – e ainda não sabe – lidar com a situação.

De dois meses pra cá, qdo. cheguei ao “fundo do poço”, a imprensa começou a acompanhar meu caso com interesse mórbido e sensacionalista próprio dos meios de comunicação de massa, e me dói muito ver meu rosto, nome e vida estampados nos jornais, junto com toda a vergonha e insanidade dos meus atos.

   É triste pensar que mesmo anos depois a situação não tenha mudado. Artistas com problemas de dependência química ainda são um prato cheio na mão de jornalistas, temos a talentosa Amy Winehouse como recente exemplo disso.
   O livro é uma viagem a mente genial de Renato e em determinado momento me serviu quase como auto ajuda. A honestidade nas autoanálises do músico muitas vezes tem a capacidade de nos fazer refletir sobre as nossas formas de encarar a vida.
   O que eu mais gosto em diários e biografias é o paradigma quebrado da imagem montada que temos de alguns famosos, que tem sua vida tão exposta que é quase como se os conhecêssemos intimamente.
   O livro é curtinho, são menos de 200 páginas, e é o primeiro de alguns dos diários de Renato Russo que serão publicados. Recomendo muito, não só por ser uma oportunidade de conhecer melhor um pouquinho do músico, mas por ser um livro tocante que faz o leitor pensar enxergar fora da caixa de conforto um pouquinho.



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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Resenha: "Funny Girl" (Nick Hornby)

Por Marianne: Funny Girl, o novo romance de Hornby, mal foi lançado e eu já estava dando pulinhos de ansiedade querendo colocar as mãos nessa capa linda.

Como em todas as histórias de Hornby (pelo menos as que já li), Funny girl  é situada na Inglaterra, e dessa vez viajamos direto pros anos dourados, na década de sessenta.

Barbara Parker é linda e jovem e tem como sua fonte de inspiração a atriz Lucille Ball, estrela do seriado I Love Lucy. Decidida a correr atrás de seu sonho de ser atriz, Barbara deixa pra trás a casa onde vive com o pai na pequena cidade de Blackpool e segue para Londres.
Em Londres, Barbara divide apartamento com uma colega e trabalha na seção de cosméticos de uma loja. Diferente do que ela esperava Londres não é o mundo de oportunidades para uma jovem aspirante a atriz. Mas a sorte de Barbara vira quando ela esbarra sem querer no agente de atores Brian Debenham. Sentindo o potencial de Barbara, Brian a convida pra ser agenciada por ele. Por exigência sugestão do agente, Barbara adota o nome artístico de Sophie Straw e começa sua difícil tarefa de conseguir (e passar!) em um teste.
Tia Marie conseguiu bater o telefone na cara dela antes que a linha caísse. O pânico havia sido substituído por outra coisa, algo entre a náusea e uma intensa tristeza. Sempre suspeitara ser o tipo de garota que não iria para casa visitar o pai doente, caso tivesse uma série de tevê para gravar, mas meio que esperava que isso demorasse certo tempo para acontecer.
Depois de muitas recusas e muito desanimo, Sophie Straw decide fazer o teste de protagonista de um piloto de uma série que, se for aceita pelo público, será a nova atração da BBC. Totalmente desencorajada por Brian, que acredita que Sophie não é adequada para o papel, ela segue em frente e vai participar do teste.

A nova série é escrita pelos autores do Esquadrão Trapalhão, um famoso programa de rádio que Sophie adorava. Ao aparecer para o teste ela se depara com autores e atores totalmente desacreditados do potencial de seu próprio roteiro. Com seu jeito inusitado e empolgado Sophie acaba ajudando os autores a desenvolverem melhor o roteiro e seus personagens, e ganha o papel principal do que será o novo sucesso da BBC: Barbara (e Jim).
“Me liga depois? Vou estar louca para saber como foi.”
Sophie disse que ligaria, e falava com sinceridade. Até ali, não havia realmente lhe ocorrido que, com tantas coisas que agora tinha e jamais antecipara que teria, era uma garota sem amigos.
A série se torna um sucesso por toda a Inglaterra, com Sophie no papel principal interpretando Barbara, personagem quase toda inspirada em sua vida antes de se tornar Sophie Straw.

A história tem um desenvolvimento um pouco diferente dos outros livros que já li de Hornby, o que pode causar certo estranhamento nos que estão acostumados com o estilo do autor (euzinha). Mas as principais características de Hornby ainda estão lá: ironia forte, crítica ao estilo de vida da sociedade conservadora inglesa e personagens principais nada bonzinhos.
“É a porcaria dessa lógica de casais”, disse Bill. “Não importa quem sejam: um homem e uma mulher se conhecem, casam, montam uma casa, têm filhos. É que nem... comida. Pode parecer tudo diferente no prato, mas só tem um lugar por onde descer e, quando sai do outro lado, a aparência e o cheiro são sempre os mesmos. E quem quer escrever sobre isso?”
Sophie, que apesar de argumentar contra todas as “regras” sociais impostas a ela, verbalmente ou não, é bastante manipulada e influenciada pelos personagens masculinos ao seu redor. Apesar de o autor deixar claro que Sophie não é uma personagem caricata loira-bonita-burra-sem-intelecto achei que sua determinação e excentricidade resistindo a sociedade machista inglesa dos anos sessenta foram pouco exploradas. O que me deixou meio decepcionada, a personagem tinha tudo pra ser uma protagonista muito interessante.

Casamentos falidos, traição, homossexuais não assumidos (ser homossexual na época era crime na Inglaterra), relacionamentos de fachada e tudo que rola por trás do mundo do show business está ali, mostrado em sua forma mais crua, bem ao estilo de Hornby.
“Me deixa ver se eu entendi direito”, falou Bill. “Como você não gosta do politicamente correto, quer que a peça tenha algumas piadas homofóbicas. Mas, como sempre quer ser amado, mão gostaria que fosse você a contar as piadas.”
Eu demorei pra me apegar a Funny Girl, encontrei alguns errinhos gráficos pelo livro, mas acredito que é uma obra de Hornby que vale muito a pena de ser lida, apesar de Funny girl não ser a minha preferida dele.
Espero que tenham gostado da resenha, até a próxima!

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segunda-feira, 28 de março de 2016

Resenha: "Os Bons Segredos" (Sarah Dessen)

Tradução por Cristian Clemente
Sinopse: Há segredos muito bons para serem guardados — e livros muito bons para serem esquecidos Sydney sempre viveu à sombra do irmão mais velho, o queridinho da família. Até que ele causa um acidente por dirigir bêbado, deixando um garoto paraplégico, e vai parar na prisão. Sem a referência do irmão, a garota muda de escola e passa a questionar seu papel dentro da família e no mundo. Então ela conhece os Chatham. Inserida no círculo caótico e acolhedor dessa família, Sydney pela primeira vez encontra pessoas que finalmente parecem enxergá-la de verdade. Com uma série de personagens inesquecíveis e descrições gastronômicas de dar água na boca, Os bons segredos conta a história de uma garota que tenta encontrar seu lugar no mundo e acaba descobrindo a amizade, o amor e uma nova família no caminho. Fonte: Skoob

Por Eliel: Você alguma vez na vida se sentiu invisível? Sidney já estava acostumada com isso, seu irmão Peyton era o foco da atenção de todos a sua volta. Não foi fácil para ela crescer sob a sombra do seu irmão mais velho. Porém, ele tem um comportamento autodestrutivo o que lhe garante ainda mais atenção (preocupação) por parte dos seus familiares e algumas temporadas na reabilitação, até que ele causa um acidente grave e deixa um garoto paraplégico. Por mais que os pais não aceitem e não se conformem ele terá que cumprir sua pena na prisão, mesmo de longe a sua sombra continua pairando sobre a cabeça de Sidney.

Eu tinha feito a coisa certa. Eu sempre fazia. Seria bom se alguém notasse.

Ela muda de escola e começa a questionar seu papel na família e no mundo. Quem é Sidney Stanford? O que ela representa para as pessoas a sua volta? Logo no primeiro dia de aula na nova escola, sem muita vontade de voltar para casa ela vai parar em uma pequena pizzaria onde conhece a família Chatham, ou parte dela.


Uma família comum, porém com suas particularidades. Layla, a caçula da família, tem a terrível mania de se apaixonar pelo cara errado e uma paixão incontrolável por batatas fritas – estou falando sério, você nunca mais vai comer batatas da mesma maneira após descobrir as regras e especificações de Layla, aliás não basta que sejam batatas e fritas. Rosie, patinadora e uma ex-causadora de problemas. O Sr. Chatham, que comanda a Pizzaria Seaside e adora músicas ao estilo das montanhas. A Sra. Chatham que compartilha a mesma paixão de Sidney por realities shows e mesmo que esteja doente é o elo que une essa família. E por fim, Mac, que finalmente parece enxergar Sidney como ela realmente é.

Mac me surpreendeu – o que se tornaria algo comum, mas eu ainda não sabia disso.
- Você vestia uma camiseta com estampa de cogumelos; seu cabelo estava preso. Brincos prateados. Pizza de pepperoni. Não quis pirulito.

Me identifiquei e me emocionei bastante em vários momentos desse romance que a principio me fisgou pelo estômago e no fim me conquistou pela verdade das palavras e dos sentimentos contidos em cada capítulo. Enxergamos tudo pelos olhos de Sidney como se fosse uma autobiografia, quase um diário.

- Não dá para mudar o passado. – Isso não quer dizer que você precisa se prender a ele.

Sarah Dessen é um dos maiores destaques da literatura jovem adulta contemporânea e Os Bons Segredos é o seu romance mais profundo e mais tocante (ela tem outros onze publicados nos EUA), isso porque conta com personagens inesquecíveis e referências gastronômicas de deixar qualquer um babando. Basicamente, a narrativa é sobre uma garota procurando seu lugar no mundo, mas nessa jornada ela descobre a amizade, o amor e outras coisas bem legais que você só vai saber se ler esse romance que esbanja jovialidade e descobertas.

O futuro era a única coisa que jamais poderia ser destruída, porque ainda não tivera a chance de existir.


E a Sarah é tão fofa que cedeu uma entrevista para a editora Seguinte e o DB marcou presença, veja a entrevista completa clicando na imagem.



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Ana Liberato