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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Resenha: "Vida Decifrada" (Jam Belfort)

[V]ocê já teve a sensação de que a vida está tentando te dizer algo?
[I]sso pode parecer estranho, mas talvez ela esteja, mesmo.
[D]igo isso porque foi esta a exata sensação que Marcos teve.
[A]pós alguns acontecimentos supostamente banais, ele percebeu que a vida tinha deixado pistas, escondidas nas coisas mais simples que lhe aconteciam.
[D]esde então, ele passou a prestar mais atenção em tudo.
[E]le, porém, não contava com um detalhezinho belo, perfeito e cativante...
[C]erta menina tinha cruzado seu caminho, e ele, claro, se perdeu um pouco.
[I]sso e o fato de sua baixa autoestima teimar em querer sabotar tudo...
[F]elizmente (ou não) ele tinha a ajuda de seu um-pouco-atrapalhado melhor amigo.
[R]esolvi contar a história dele pois ela se parece um pouco com a minha.
[A]credito que também com a sua, pois todos buscamos achar o sentido da vida.
[D]eixo uma dica, caso queira embarcar nessa jornada:
[A]bra bem seus olhos e ouvidos. 
Pode ser que tenha nas estrelas e planetas algum código secreto. Uma combinação. Um ritmo. Um senso de direção.

Por Kleris: Marcos é um jovem estudante gamado em informática e, surpreendentemente, crônicas. Ao descobrir a esteganografia, a arte de esconder mensagens em coisas banais, sua vida se abriu para novos sentidos. Correlacionar fatos e coincidências se tornou seu novo hobby, isso até as coisas fazerem sentido demais. Ele entendeu que precisava seguir as pistas, cada vez mais sutis e claras em sua cabeça.

Foi assim que, durante as férias, conheceu Simone Letícia na biblioteca do bairro. A paixonite somada a seu hobby logo virou uma bola de neve de investigações (e investidas e mentiras) para conquistar a menina. Mas brincar com sentimentos não era o mesmo que brincar com pistas. 
A gente sempre deixa pra depois.
O que será que está nos fazendo deixar pra depois? 
Não costumo também me dar bem nessas coisas de amor. Sou destro e meu coração fica do meu lado esquerdo.

É isso que nosso narrador faz questão de pontuar. Conversador todo, nos entrega também a história de Alex, melhor amigo de Marcos, que, após a perda dos pais, revisita memórias em busca de significados e novos caminhos. Apesar da tragédia, Alex nos parece ser aquele alívio cômico, mas nele encontramos os mais nobres sentimentos e a vontade de abraçá-lo toda vez que aparece. 
— Com certeza não vai faltar inspiração — respondeu, com um tom orgulhoso no olhar e na voz.
— Eu causo isso nas pessoas.
— Não, Alex. Encontrei algo interessantíssimo. 
Alex queria uma cesta para seus pensamentos, que pareciam espalhados feito suas folhas de caderno.
Tem dias que esperamos apenas por um abraço que grampeie nossas folhas soltas.

Mas em @vidadecifrada nada está ali por acaso. Permeado de símbolos, códigos e pistas escondidas, a ficção juvenil fala das conexões que fazemos – desde amigos, família e coração, a pensamentos, objetivos e desafios. Jam faz tudo ser tão quase absolutamente decifrável, o que aguça nossa percepção e nos deixa até paranoicos com tantas correlações. Tem pista espalhada até mesmo pela diagramação para os olhos mais espertos. 

 

 


meu graaande amigo, tal qual a outra obra de jambelfort:


Página 188 com indicação do CVV
(Centro de Valorização da Vida)
  
 

Que oportunidade, guri! Ainda não acredito que você não fez nada para ajudá-la! Mas te entendo. Alguns sorrisos têm a função do controle-remoto de nos pausar... 

Acho que o desânimo do rapaz me atingiu...
Limito-me a narrar que ele ainda estava deitado na cama, seguindo com os olhos um fio que tinha por rumo o teclado do computador. Ao lado, olhou o cartão de Simone. O mouse escapuliu da mesa e ficou pendurado por seu cabo, num movimento hipnotizador.

O narrador, claro, é o condutor que faz toda a diferença. Prático e não menos carismático, ele nos envolve fácil nas tramas de maneira a trabalhar a identificação, senão a empatia. Em algum momento da vida já fomos Marcos, Alex, Helena, Simone e até Ricardo. Mas Jam é o engenhoso que prende nossa atenção e faz desta uma deliciosa leitura, de infinitas sacadas e infinitas epifanias. Aliás, conversar com o autor garante sempre uma nova descoberta. 
O livro só fará sentido se lido até o final. E quando relido, feito mágica cada detalhe se iluminará. 
Talvez o segredo por trás do sabiá na lápide seja o próprio sabiá na lápide. Talvez o sentido seja as próprias coisas. Não o que elas podem nos oferecer, mas simplesmente o que elas são.

E sua ousadia ainda vai muito além quando nos deparamos com tantas homenagens maranhenses embrenhadas ao enredo. Passam por aqui João do Vale, Ferreira Gullar, Maria Firmina dos Reis, Josué Montello, Gonçalves Dias, Nauro Machado e Cecília Leite. Não deixam de aparecer outros nacionais, como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, e além-mar, como Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.

É por certo um livro multiliterário, pois além de misturar linguagens (romance, crônicas, poesias, java script, html, diagramas, rimas de ideias), traz aspectos transmídias, transmutando partes da narrativa para perfis do instagram como @marcronicas e @musicadomar. Tudo isso sem deixar de ser leve, interessante e genial (meu tipo de livro e com certeza um dos melhores do ano). Recomendadíssimo! 
Eram janelas criptografadas. Dois universos diferentes, sem naves intergalácticas com propulsão suficiente para uma visita pacífica. Por vezes as palavras de um soavam como agroglifos, aqueles gigantescos círculos atribuídos a alienígenas que aparecem em plantações.
Eram um mistério um para o outro.

Meu exemplar faz parte dos raros livros impressos com bordas coloridas (opções de amarelo e azul), mas você encontra tanto o livro físico quanto o digital na loja Amazon. Muito mais curiosidades você também pode ver no site www.vidadecifrada.com.br (aba de conteúdo exclusivo). A senha? Está no livro. 
O que se vê nas ruas, afinal, rostos ou máscaras? 
A vida é boa em inventar enredos, coincidências e reviravoltas. Tenho certo fascínio pelo imprevisto, pela chuva em dia de casamento, pelas coisas inexplicáveis. Deixa tudo excitante e peculiar.

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Resenha: "Crônicas de Espada e Feitiçaria" (Vários Autores edt. Gardner Dozois)

Tradução: Alexandre Martins, Maria Helena Rouanet e Paulo Afonso

Sinopse: Uma antologia com o melhor do gênero de histórias conhecido como “espada e feitiçaria”, incluindo uma novela inédita de George R.R. Martin passada no universo de “As Crônicas de Gelo e Fogo” o aclamado editor e autor best-seller Gardner Dozois apresenta uma antologia com contos épicos originais escritos por um grupo de autores de elite. Junte-se aos melhores contadores de histórias do mundo da fantasia como George R.R. Martin – e uma novela inédita ambientada em Westeros, muito antes dos eventos passados em a guerra dos tronos –, Scott Lynch, Robin Hobb e Walter Jon Williams, e mergulhe em jornadas cheias de ação, universos encantados ou sombrios, acompanhando espadachins e aventureiros destemidos. Uma verdadeira homenagem ao gênero considerado o precursor da fantasia épica.

Fonte: Amazon

Por Eliel: O gênero conhecido como Espada e Fantasia é um dos meus favoritos. Me apaixonei quando tive contato com o Senhor dos Anéis de Tolkien e desde então conheci autores como C. S. Lewis, George Martin, Robin Hobb. O editor desse livro, Gardner Dozois, reuniu grandes nomes do gênero e a editora LeYa fez uma grande escolha ao apresentar ao público brasileiro esses mesmos nomes.

Dozois é um apaixonado desse gênero literário e grande amigo de muitos dos autores dessa antologia. Inclusive tem parceria em algumas obras com titio Martin. Dá para perceber todo esse amor através da introdução que ele escreveu. Simplesmente tocante.

Precursor da Ficção, esse gênero tem o poder de nos transportar para mundos fantásticos, nos apresentar personagens incríveis e histórias envolventes. Gardner Dozois escolheu 16 contos para compor esse épico, eu diria que ele foi um curador, pois cada conto é uma verdadeira obra de arte. Todos compartilham de um mesmo gênero, porém cada um é uma aventura única e diferente.

Os autores escolhidos para essa antologia são muito importantes para o desenvolvimento do gênero, porém me entristece um pouco a maioria deles nunca ter sido publicado em nosso país. Acredito que coletâneas como essa são uma abertura de mercado para a chegada de autores de renome fora e um incentivo para nossos autores experimentarem um gênero não tão novo, porém pouco explorado/conhecido.

É um livro para fãs de fantasia épicas, aliás o próprio volume é um épico de mais de 500 páginas com autores conhecidos e já queridos por nós e também autores que nunca foram publicados por aqui. Essa obra é um belo encerramento para a carreira de Dozois (1947-2018). Recomendo para quem quer conhecer ainda mais esse gênero e para quem já é fã e quer ter contato com autores menos conhecidos.

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segunda-feira, 25 de março de 2019

Resenha: “Dose de Quinta - O livro” (Bruno Magno)

Por Kleris: Adoro um livro de crônicas quando tô bloqueada nas leituras – crônicas salvam vidas, gente! Dose de Quinta estava na estante tem um tempão tempinho, e se você também é de vibes, vai entender o que é esperar pelo momento certo. Coloquei o DQ num desafio de leitura (você pode conferir aqui) e foi de um respiro muito bom. 
Sabe quando um cientista erra uma das substâncias e acaba criando algo mágico? Às vezes o nosso maior acerto é apenas errar na hora certa.

Pra quem não conhece, o Dose de Quinta começou como blog, com grande atuação no instagram. A ideia era de postar “textos de quinta” e todas as quintas-feiras – coisa que rola até hoje (acompanhe  aqui). O Bruno é de São Luís, minha cidade, e atua em diversos projetos culturais. Acredito que seu livro é um dos mais conhecidos por aqui. 
Foi, então, que eu entreguei você a Deus, para, finalmente, conseguir lhe dizer adeus. 
Você simplesmente coleciona os momentos bons e volta e meia os revive em segredo, porque eles realmente valeram a pena.



Com textos nada pretensiosos, mas nem por todo de “quinta categoria”, o livro é o que nasceu pra ser – falar com simplicidade de como a banda toca quando se trata de amor. Temos desabafos honestos, melindres, idealizações e “fics” que acometem os apaixonados – ou os românticos, como diz. O ar, como fica sugerido pela ideia do DQ, é de tomar doses de amor. 




Escrever para você esse adeus, me fez entender que existe um espaço reservado no peito, só para guardar as relíquias. 
Dar gelo para provocar saudades pode parecer tentador, mas é assinar um atestado de óbito. Esse coração é um verão jamais visto, pede calor e jamais, frio. 
Estou precisando de alguém que me convença a banhar na chuva, e a não pensar que isso pode me render uma boa gripe no dia seguinte.

São pouco mais de 50 crônicas, textos bem rapidinhos, todos em diferentes fases de relacionamentos, tal qual a gente se encontra no mundo – todo mundo no seu tempo, no seu espaço, sem que ninguém precise estar em sintonia. 
Não sei se digo que te amo agora ou espero mais um pouco. É muito cedo pra dizer isso? Há tempo certo? [...] Talvez, o mais importante seja viver e não descobrir. 
Servi para você se sentir servido, mas só isso pra mim não serve.

Tem hora que parece que estamos em diversas cabeças, como quando a gente assiste variadas séries duma vez e acompanha o desenrolar daqueles relacionamentos todos. A propósito, acho que encontrei cartas da Robin e do Ted de How I Met Your Mother haha 
A verdade é que você não é obrigado a encontrar ninguém, assim como ninguém é obrigado a encontrar você. 
Você apoderou o amor, colocando-o num arquétipo que não lhe cabe. Laços líquidos e nós frouxos amarram essa fantasia de que você está amando (ou é amado). 
Saudade é como fermento. 
É estranho olhar distante quem já foi de dentro. E mais estranho ainda é saber que somos estranhos, mesmo nos conhecendo tanto.

Vontade também não me faltou de chegar em algumas pessoinhas e dizer um “lerigou, my friend” ou um “que tal conversar isso com uma terapeuta e investigar essas sabotagens todas? Vai ser ótimo!” – mas é aquele lance: a gente respeita o que o outro tá sentindo. Daí rola uns textos bem autoconsciência que dão uma folga dos “muito idealizadores”. 
Mas só insista em derreter um coração gelado se a sua intenção é mantê-lo aquecido. 
Você merece muito mais. E eu vou continuar aqui, amando-a mais do que você se ama. Esperando, enfim, o dia em que vai parar de querer o que já tem e vai desejar o que já possui.

Magno traz uma escrita de quem está se lançando, tateando as palavras, descobrindo seu ritmo. Então você pode encontrar uns textos um pouco incertos, mais crus, que, na real, é a intenção do livro.

O livro é totalmente independente – sem intervenção de editora – e nem por isso deixa a desejar na edição, que, aliás, é linda, toda trabalhada na ideia de um bar, onde você vai, senta e toma. Melhor menu/índice de pedidos. Ao fim, Magno deixa a sugestão de que vai ter outro livríneo. Será?



Aos traços de poesia, jogos de palavras, drops de respiro e pequenas doses, dá pra ler num sopro, dá pra ler em doses homeopáticas. É ideal para você que busca algo breve e leve, suave na nave. Só garanta suas bandeirinhas pra marcar as páginas, porque livro de crônicas não é livro de crônicas sem você guardar umas palavras pra vida. 


O que eu não digo é mais forte do que qualquer palavra. [...] Eu escrevo pra que você sorria, pra que você chore, pra que você sinta que as mesmas palavras que podem ferir, também podem curar. Eu escrevo pra que você leia sobre amor, pra que você sinta e se lembre do que passou.

Não sei como o livro está de tiragem, mas se você tiver interesse pode contatar o Bruno lá no @dosedequinta. Deixo aqui meu recomendo :) 
É que nós fazemos planos. E, na maioria das vezes, eles dão errados.

Até a próxima!

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Resenha: “Por Onde Andam As Pessoas Interessantes?” (Daniel Bovolento)


Por Kleris: Fiz o caminho inverso – li primeiro Depois do Fim (reveja resenha aqui) – o que se revelou uma experiência interessante, ver o Dan mais “novinho”, mais incerto, à procura do tom ou do caminho a seguir, mas já mostrando de cara seu ouro: a escrita

Despretensiosa, fui saboreando-a devagar no dia a dia – aliás, vou sentir falta da acolhida após minhas caminhadas – de maneira seus pequenos textos foram trabalhando diversas de minhas acepções. Acho que é esse o ritmo natural das crônicas na rotina: um dia de cada vez, alguns textos por vez, uma boa companhia para pausar um pouquinho e ir além da realidade sem sair totalmente dela. 

Prepare os marcadores adesivados (de novo) – você vai precisar de muitos deles.
Se você reparar bem nas ruas, em toda multidão, os rostos que você não conhece, um dia, poderão fazer parte do seu mundo. São todos estranhos procurando uma chance pra deixarem de ser, pra tomarem função e papel na vida de alguém, às vezes até na própria. [...] Nós, os estranhos, só queremos deixar esse vício de anda-pra-lá-anda-pra-cá, para finalmente conhecer alguém que nos dê nome.


Fora de um roteiro manjado, as 45 crônicas traçam umas perfeitas histórias imperfeitas. São relatos, intervalos, fluxos de pensamentos, confissões, conversas... Vários deles carregados de platonismos, autossabotagens diárias, algumas bads, e, sim, aprendizados. Diria que o livro não se pauta tanto pelo cotidiano, mas pela zona de conforto. Na verdade, uma busca de conexões frente à nossa zona de conforto. É nessa forte resistência ou mesmo na falta dessa desejada ligação, que muitas vezes deixamos o imaginário tomar conta, seja para o bem, seja para o mal. 

[...] só porque acontece dentro da sua cabeça, quer dizer que não seja real? É real pra burro. Você já sentiu isso. E, se não sentiu, paciência. É só questão de tempo. 

A gente acaba se prendendo tanto ao que poderia ter acontecido, que arrasta uma culpa imaginária a toa. E se culpar pelo que não pode ser desfeito é um daqueles errinhos bobos que fazem da gente um pouco infeliz num mundo em que a vida já não está fácil.


O livro segue um caminho natural de fases. Estações conhecidas, agasalhos emocionais, relutâncias (in)voluntárias, que, apesar de nos fazer sentir gente como a gente, estão ali para contribuir para nosso despertar. Nesse processo, assim como a vida, Dan nos dá e nos toma “pessoas”. Da fantasia ao primeiro passo de sair dessa zona confortável – mas já não tão agradável – é que vivemos as possibilidades e nos medimos pelas expectativas. 
A gente sempre abafa o que tenta incomodar a apatia com algum som familiar, com alguma memória preenchida ou com a desculpa de que a gente tá sempre ocupado e não pode prestar atenção. Eu, assim como um monte de gente, não quero sair da inércia, não quero sair daquele limbo sentimental, a menos que alguém me puxe. 
E, de repente, é um fracasso. A gente não entende. Por quê? Tava tudo tão certo, tudo tão exato, a fórmula era aquela, o espetáculo parecia tão atraente no folhetim e fuén. 
No fim do dia, sabe quando você chega em casa, tira os sapatos, bebe um cappuccino quente e sente o corpo todo esquentar? Sou essa sua sensação.

Dose a dose, entre ideais, tantas buscas e esperanças, Dan tem uma escrita sincera que te agarra de pronto. Vai falar daquilo que a gente não admite, daqueles conflitos que a gente tenta se sobrepor, do apego que nos bagunça, de como a gente insiste em agradar pessoas antes de nós mesmos, e dá lição, a sua maneira, como sobre ser inteiro e não metade. A sensação mesmo é de “se dar conta”. É uma leitura que sugere olhar pra si, mesmo depois de olhar pro outro, e se questionar se é ou não pra ser, em um exercício de autoconsciência. Exercício esse que lembra um pouco de Do que eu falo quando falo de corrida (aqui), do Murakami. 
Você nunca quer se molhar; quer sempre se sentir seguro, quer pintar e bordar nessa figura íntegra e imponente de quem não sente nada e tá tudo bem. Tá tudo bem? Tá nada, não adianta mentir pra mim [...] 
A gente é o corredor, não a sala. É a maçaneta ou o corrimão. Somos caminho, nunca o destino final. Tem gente que pira quando percebe isso, porque, ao contrário do que o outro sente, talvez a gente veja nele uma droga de uma porta, um caminho final, uma faixa de chegada. E as expectativas não batem.

Embora muito se queira, também muito nos contentamos, muito tentamos fazer algo dar certo ou fazer algo acontecer sem, na real, pensar sobre o esforço necessário – e um esforço de duas vias. Nesse sentido, alguns textos já se aproximavam do limbo de Depois do Fim, fazendo de Por Onde Andam As Pessoas Interessantes? uma grande e excelente introdução. 
Uma das manias mais dolorosas que a gente tem é de sempre renunciar a uma história inteira por conta da forma como ela acaba. 
Percebi que amor nenhum dá certo quando a gente precisa se esforçar pra fazer acontecer a mágica. 
Só com o tornozelo torcido, na última consequência do acontecido, foi que percebi o que estava na minha cara. Que não adianta insistir quando a forma não cabe na gente. Às vezes até cabe, mas depois de um tempo incomoda.

Recomendadísssssimo! Leitura para revisitar sempre :) Apesar dos comentários sobre a capa do livro ter traços “infantis”, gosto dela. Gosto por inteiro da edição. Já mal posso esperar pelo terceiro livro – em processo de publicação.

Abaixo, a playlist que ambienta todo o livro <3 
Mais importante que isso tudo: que você exista. E que não demore tanto pra chegar à minha vida. 
E aí que mora o problema: quando eu percebo. Depois que a gente percebe, não dá mais pra ignorar, e começa a acontecer de a gente perceber mais ainda.




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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Vale a Pena Ler de Novo: “Depois do Fim” (Daniel Bovolento)

Neste mês de Janeiro estamos em recesso, mas preparamos para você, caro leitor, uma seleção com nossas resenhas mais acessadas de 2017.
Enquanto isso, prepare-se para todas os lançamentos e novidades de 2018.

Por Kleris: Sabe aquela expressão de pegar os limões que recebe da vida e fazer uma limonada? É o que Daniel entrega nos 50 textos de Depois do Fim, um livro de crônicas sobre aquele momento difícil de toda relação: o adeus, o fim, o tempo e processo de cura de um coração. E é na rotina – ou quebra de rotina – que tudo se evidencia. 
Você sempre acha que essas coisas nunca vão acontecer com você. 
Quando você achava que nunca aconteceria nada disso com você, quando o fim era uma perspectiva tão imprevisível quanto o início, você acaba tendo uma única certeza: ele ainda está dentro de você. E seu maior problema agora, mais do que qualquer outro, é descobrir como tirá-lo daí. 
As coisas nunca acabam pontualmente. Não existe um determinado dia em que você olha pro calendário, confere as horas no relógio, vira pra alguém e diz: eu não te amo mais. As coisas se arrastam por momentos em que a gente vai identificando o desgaste.

Amores, desamores, luto, apoio e superação são temáticas que constituem o livro, marcado por doses generosas de poesia e empatia. É assim que Daniel nos faz encarar vários estágios do fim. Ele costura historietas, conversações, fluxos de pensamento. Recortes da vida, filmes que transitam no nosso imaginário. Todos permeados de dúvidas, zigue-zagues da consciência e, apesar do que sugere, nem sempre está acompanhado de uma densa nuvem de fossa depressiva. 
Como é que a gente explica prum cachorro que você não iria voltar? Não sei, não consegui explicar nem pra mim. 
Tô te implorando lentamente pra dizer alguma coisa que me pare enquanto eu declaro que tô desistindo de você. Tô levando na mala só o que é meu, e deixo o que era nosso pra você fazer fogueira do passado. [...] Diz e me impede, de uma vez, de desistir de você. 
Cê acha que isso aqui vai demorar muito? Não o filme, mas a gente. Isso aqui que a gente tem e que um dia passa.Acho que sim, acho que não. Não sei. Tempo é relativo. Pra você pode ter sido um ano, pra mim pode ter sido uma vida. A gente nunca sabe quanto tempo o outro vai morar na gente depois da despedida.

Mesmo as experiências mais dolorosas tem sua importância, e não adianta fugir delas. É preciso senti-las em toda sua profundidade – para que passem. Porque uma hora passa. 
“Com Bovolento, mergulhamos na dor e na beleza do encerramento de uma história de amor. E com ele damos a volta completa para finalmente entender que só pode haver vida se houver morte”. – Milly Lacombe, escritora e jornalista (texto de contracapa)

Daniel também traz luz para diversas impressões de relacionamentos que não fazem mais sentido em nossa realidade, como o fato de uma pessoa sentir que deve consertar a outra (não!), que quem sempre termina é o vilão da história (não!), sem falar das expectativas irreais e demais idealizações que produzem aquele choque negativo com a realidade. Nesse sentido, ao retratar as relações, com visões de dentro e de fora, Daniel se mostra muito “pé no chão”. E ainda oferece um ombro amigo. 
E a gente se força a achar que o outro pode ser consertado, mesmo sendo evidentes as rachaduras, suas infiltrações e alguns parafusos meio frouxos que ficam bem na cara. 
Olhamos todos o lado do mocinho depressivo que ficou lamentando por muito tempo a ida da mulher da sua vida, como se ela não tivesse também o direito de ir em busca do homem da vida dela. 
Mais do que isso, tentam me dizer que eu vou nunca conseguir ser feliz sozinha, que não fui feita para ser sozinha. Discordo.

Há crônicas para arranhar, para amainar, para rasgar, para descansar, para rir (de nervoso até); não é uma leitura tão fácil. Apesar de toda poesia em volta, o livro pede (e entende que é preciso) muita calma de seu leitor, assim como o leitor pede calma em favor de seus sentimentos. Isto porque a gente abre sabendo que vai topar com inúmeros gatilhos. Mas vale abrir um a um, respeitando, claro, nosso tempo de cura. Volte sempre que puder. Ao fim você vai se sentir melhor. 
Será que um dia eu voltarei a ser o mesmo? Digo, o cara que era antes de você, sabe? 
Vão bater na tua porta, vão te ligar aos montes, vão ter dó de te deixar sozinho. Vão espantar o escuro, vão decretar estado de alerta e euforia, vão te marcar nas coisas mais engraçadas da internet. Vão descarregar caminhões de felicidade empacotada na tua casa, vão te apresentar amigos e mais amigos, vão comprar passagens de avião pra Indonésia de presente. Vão mover mundos e fundos para que você fique bem. Mas você não reage aos estímulos.

Aliás, com tantas bandeirinhas (marcadores) adesivados no livro, você vai querer voltar sempre sim. Porque Daniel escreve de maneira a nos fazer entender os mais indecifráveis sentimentos. Sério, dá vontade de marcar o livro inteiro, parágrafo a parágrafo. Prepare sua cartelinha, você vai precisar.



De plus, temos um projeto gráfico maravilhoso da Planeta. Trechos (“fotografáveis”) se encontram dispostos como entrada das crônicas e o conjunto de recursos das páginas, pretos, cinzas, amareladas, dão o toque final. Os textos são mega curtos, mas de grande peso. Cercados de um repertório musical pra te colocar e te tirar da fossa, a leitura mostra que não há experiência sem aprendizado.  

Ademais, em diversos momentos, lembrei do livro Que Ninguém Nos Ouça (aqui), pela vibe de lavar a alma, e dos livros da Brené Brown (aqui), quando se fala sobre vínculos, (auto)aceitação e processo de volta por cima. Estar em um relacionamento poder ser muito V1D4 L0K4, mas, no fim das contas, estamos aqui para nos relacionar, cada qual em sua própria jornada. 
Você pode não ter se candidatado à jornada do herói, mas, no instante em que caiu, quebrou a cara, sofreu uma decepção, meteu os pés pelas mãos ou ficou de coração partido, ela começou. Não importa se estamos prontos para uma aventura emocional – as mágoas acontecem. E ninguém está livre delas. Sem exceção. A única decisão que podemos tomar é sobre o papel que vamos desempenhar na própria vida: queremos escrever nossa história ou queremos entregar esse poder a outra pessoa? Mais Forte do Que Nunca – Brené Brown

Depois do Fim é aquele livro que te dá tapinhas no ombro a cada revolver de sentimentos. Espera contigo (vide imagem abaixo). Arde, mas também sabe deixar o coração quentinho como um episódio maravilhoso de Gilmore Girls com junky food. É um mergulho profundo (e às vezes necessário) naquela maratona binge da netflix. Você sai cansado, mas realizado. Pronto pra outra. 
De vez em quando, seremos essas pessoas que deixam pessoas ótimas irem embora porque alguém feriu a gente. Porque alguém quebrou a gente um tempo atrás. Não é culpa de ninguém, só não era o tempo certo, só não estávamos curados.

Fonte de imagem: @_poematizar

A playlist do livro

 

Eu ainda adicionaria as lentas de Alexz Johnson e de Boy (duo) de doida mesmo.
Pois é, deixe uma leitora aloprar...

Até a próxima!

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Resenha: "Caviar é uma ova" (Gregorio Duvivier)


"Minha sorte é que eu escrevo crônicas. Não preciso fingir que sei alguma coisa. Muito pelo contrario: preciso de um exercício diário de ignorância pra nunca deixar de ser leigo. Afinal, o mundo está o tempo todo tentando te empurrar certezas goela abaixo"(Dúvidas de um ignorante)





Por Mari Diniz.   Crônicas não requerem uma linearidade de leitura, não requerem verdades universais, não requerem um tempo para serem lidas e não esquecidas. Para as crônicas tudo que basta é o seu interesse em ler. Caviar é uma ova traz a abordagem de uma diversidade de temas, em que abre espaço até para o Chaves. Possui um humor crítico, mas, principalmente, temas políticos.


O foco político do livro poderia até não agradar alguns. Entretanto, no decorrer da leitura, ele me fez pensar no porque não pensamos em política. O intitulado Esquerdista Caviar, Gregorio Duvivier, diferente do que se pode imaginar, não exibe uma argumentação a fim de convencer o leitor de uma certa posição política. Ele não busca provar e deixar a certeza de algum ponto de vista, embora explique com clareza sua opinião. Talvez, Gregorio Duvivier seja um indeciso, cuja sua única certeza seja que algo precisa mudar.  
“Pra começar, caviar não me representa – nunca vi nem comi, só ouço falar. Caviar é uma ova – literalmente. Entendo a metáfora, mas acho que não se aplica a essa nova esquerda hipster que vocês tanto odeiam. Melhor seria Esquerda Maionese Trufada. Esquerda Cerveja Artesanal. Esquerda Bicicleta de Bambu. Aí sim: esse cara sou eu. Ou, pra ser sincero, nem assim. (Serhumaninade)”
Entre os contos, Serhumanidade, seja um dos melhores a fim de entender a mensagem do livro como um todo. Principalmente, por se tratar de uma coleção de crônicas. Serhumanidade busca abordar em uma única crônica temas defendidos por Gregorio contra os absurdos da desigualdade.

Política se torna o tema-estrela do livro e rende boas crônicas e bons sorrisos. A ironia de Gregorio representa aquele Como assim? Ou É isso mesmo? Plantados na nossa cabeça. A sua ironia ajuda um tanto quanto a pensar, a prestar atenção no que está acontecendo. Além de se utilizar de metáforas bem desenvolvidas e argumentadas.

Porém, como já mencionado, a diversidade de temas presente no livro, enriquece ainda mais a coleção. Aliás, crônica é dia a dia. É cotidiano. O humor encontrado em mínimos detalhes que nos parece que apenas cronistas conseguem perceber. 
“Odeio os carros quando tô a pé. Odeio os pedestres quando tô de bicicleta. Odeio os ônibus quando tô de carro. Odeio os ônibus quando tô de ônibus. Odeio todo mundo quando eu acordo. Odeio cigarro. E odeio quem se incomoda com cigarro quando eu tô fumando. Odeio acordar cedo e odeio acordar tarde. Odeio o Brasil, e odeio, ao mesmo tempo as pessoas que odeiam o Brasil.
Tem ódio que não faz o menor sentido. Mas tem ódio que faz. (Que ódio)”
Entre essas crônicas, algumas das minhas preferidas Sábado e O céu fica aqui pertinho, tem uma diferente modalidade de escrita, com uma crônica corrida que tenta seguir ou fluxo de pensamento, ou melhor, seguir as divagações da mente humana. O que, obviamente, diverte o leitor e dá um toque especial a crônica.

Além do simples cotidiano, Gregorio Duvivier ainda dá espaço para permear entre outros assuntos, principalmente quando se fala da própria linguagem, no qual inclusive aborda o tema Palavras. Formação, significados e usos.  

A leitura de Caviar é uma ova é sortida e super agradável. As crônicas muito bem escritas encantam por sua simplicidade e por seu humor inteligente. Mas, como diria minha vó, principalmente por sua personalidade opiniosa. Livro recomendadíssimo.
“Imagine duas vidas paralelas. Numa delas você gosta da Anitta – ou, pelo menos, a existência dela não te incomoda. Na outra, toda vez que você vê a cara da Anitta você tem engulhos, quando ouve a voz da Anitta o estomago revira, você evita ir a festas porque sabe que vai tocar Anitta. O objeto não gostado acaba ocupando um espaço gigantesco de seu tempo – muito maior que os objetos gostados. Aprender a gostar é, sobretudo, perceber que não vale a pena perder tempo com o que você não pode mudar (Haters gonna hate)”
Aproveitem a leitura!
Até a próxima, 
Mariana Diniz 
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Ana Liberato