sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Resenha: “Que ninguém nos ouça” (Cris Guerra e Leila Ferreira)

Por Kleris: Tudo começou quando Cris leu o livro Viver não dói da Leila e enviou um e-mail para contar a avalanche catártica por qual passou. Leila respondeu e os e-mails então não pararam mais, viraram um tipo de terapia virtual – algo que a Cris batizou lindamente de “terapia da delicadeza”, pois ao invés de esbravejar o que estavam sentindo aos quatro cantos do mundo, elas concentram tudo nas palavras que trocavam nas mensagens. 
Escrevo para dizer que você me levou a uma avalanche necessária. Me fez ter mais vontade de escrever, ler, viver, sorrir, chorar. Cris. 
Em vez de vociferar com raiva, preferi escrever pra você. Espécie de terapia da delicadeza. Cris.

Em Que ninguém nos ouça, temos uma correspondência (de e-mails) entre duas amigas que têm um encontro de alma. Ambas falam e desconstroem as agouras da vida, procuram seu lugar, e uma na outra encontram a amizade, a família, o zelo. Escritoras em outros trabalhos, Cris e Leila aqui reúnem o melhor de suas palavras para confessar, afagar e lavar a alma. Preparem os marcadores adesivados, vocês vão precisar de muitos (MUITOS) deles! 
Parece que viemos ao mundo para sofrer, porque sempre haverá um motivo para a não aceitação. No fim das contas, a gente entende que o outro normalmente não está nem aí pra nossa felicidade, e nesse tempo todo prestamos mais atenção nele do que em nós mesmas. Cris. 
Mas tem a pessoa que usa xampu sem sal, toma café sem açúcar, como pão sem glúten e toma leite sem lactose, só pra viver mais. Uma vida que, diga-se de passagem, é que nem café sem cafeína: desprovida de vida. E eu pergunto: vale a pena? Leila. 
Eu tinha sempre os olhos na janela em busca de alguém. Quem sabe voltando os olhos pra mim alguém espia da janela e me acha. Cris.

Conforme seguem, os e-mails trazem verdadeiros desabafos. O diferencial neles é a percepção de mundo. Cris e Leila carregam o peso do mundo e nem por isso deixam de ser incríveis, cada uma a sua maneira. São carismáticas, zelosas, e donas de palavras que transmitem simpatia, humanidade e, acima de tudo, delicadeza. Quem não se identifica, de alguma maneira ativa o seu mode empatia. Aliás, assistir essa troca, o que Martha Medeiros chamou de “voyeurismo consentido” (no prefácio), é exercitar a identificação e empatia, ora na Cris, ora na Leila. 
Muitas vezes a gente ama as pessoas, mas não ama a festa, o encontro de muitos, o jantar de muitos decibéis. Leila. 
Talvez seja hora de ser simpática comigo mesma. Enquanto é tempo. Vai que um dia eu descubro que merecia... Leila.

“Transmimento de pensação” é uma expressão certeira para descrever esse processo, assim como a própria relação das duas. Várias vezes me peguei trocando os nomes, porque nem todas as vezes são e-mails intercalados e as vozes delas são muito parecidas. Quando achava que era a Leila, era a Cris e vice-versa. Como elas mesmo afirmam, são do “mesmo planeta”.

Enquanto Cris e Leila trocam e-mails – e constroem um livro e fazem dele sua terapia pessoal – nós leitores simplesmente adotamos essas duas pessoinhas. As autoras são gente como gente, intensas, maravilhosas, guerreiras. Leila, jornalista, gosta de viajar, de conversar, de ouvir histórias, e Cris, publicitária, faz da moda sua poesia, das letras uma terapia (veja aqui resenha de Moda Intuitiva). Elas abrem o verbo para as muitas emoções que carregam dentro de si, refletem suas memórias, seus aprendizados, e libertam-se, em alta catarse, com compaixão e generosidade. O livro é, enfim, uma ode à amizade. Não tem serumaninho esse que não quer abraçar e guardar as duas num potinho a cada correspondência! 
Amizade é relação nobre que não se alimenta de presenças. Pede apenas amor sincero e altruísta. Não há posse, ciúme ou insegurança. Fazer um amigo feliz é ser feliz também. Cris. 
Nada me tira da cabeça, Cris, que metade das mulheres que está se tratando de depressão na verdade está é com fome. Muita fome. Antiga, acumulada, crônica. Se os psiquiatras começarem a prescrever arroz, batata, picanha, lasanha, queijos fantásticos, molhos bem temperados, pratos que dão sustança (voltando aos antigos) e sobremesas, garanto que muitas mulheres vão se livrar da tarja preta. Concorda comigo?
 Beijos doces (acabei de comer um chocolate com avelã) de sua amiga de manequim 41. Ligeiramente sem cintura, mas satisfeita. Leila.

Acho que o que mais gostei no livro, além de todo o mencionado exercício de reflexão e das doces palavras, é como elas se abrem e ao mesmo tempo guardam os sentimentos que borbulham dentro de si. Que ninguém nos ouça é, assim, um título perfeito, ele exprime o feeling exato: muitas de nós nos encontramos embaralhadas pelas coisas que guardamos e muitas vezes isso envolve medo por parte do que as pessoas vão achar vez que contarmos que não somos exatamente aquilo que pensam.

Isso está tão enraizado em nossa sociedade/cultura que falar sobre é tratado como um grande segredo – e não a toa Cury afirma ser o mal do século (reveja aqui). Às vezes a gente só quer falar pra desabafar, pra limpar a mente, pra seguir em frente, e que ninguém nos ouça, pois é um momento de grande vulnerabilidade. Não é fácil se expor dessa maneira. Felizmente aos poucos isso tem sido mais debatido, tem tido seu espaço. Acho um passo interessante para o que é a representatividade e emponderamento hoje, pois ainda tem muita gente presa aos ideais toscos e tortos de uma sociedade que não mais existe. 
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura. (Sejamos todos feministas, Chimamanda N. Adichie, resenha aqui).
 
Que ninguém nos ouça é um livro para não entrar docemente. Mas ao tão logo abri-lo, sente-se, tome um chá, um vinho, sinta-se parte do “segredo”, ele também é seu. Como disse minha amiga Talita, “recomendo como recomendo abraços” (aqui) – pois abraços são onde tudo, em silêncio e ao mesmo tempo, se desmantela e encontra seu lugar. 
Estamos muito mais ligados ao lado negativo das coisas. Quando saio de casa acontece o mesmo. Volto pra casa sem lembrar o rosto de quem sorriu pra mim, mas com a memória bem viva de uma indelicadeza que alguém me fez. E não deveria ser assim. Cris. 
Em pleno século XXI, as mulheres continuam vivendo em função da aprovação alheia. Não todas, claro. Mas muitas, eu diria, e estou entre elas. A gente faz tudo (e mais um pouco) pra tirar nota boa em estética, economia doméstica, criação de filhos, vida conjugal, profissional – e depois morremos na praia, esgotadas, frustradas, insatisfeitas. Porque o preço dessa autocobrança implacável é a eterna insatisfação. Nunca seremos capazes de atender nossas próprias expectativas, que, ironicamente, criamos a partir do que a gente imagina que seja a expectativa alheia. Leila.

Re-co-men-do.

Até a próxima!

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