sexta-feira, 31 de março de 2017

Projeto Escrevendo Sem Medo (Março) - Um pássaro engaiolado ganhando a liberdade


O Projeto Escrevendo Sem Medo é uma proposta do blog Historiar para exercitar a escrita, abrir os horizontes e escrever sem medo. Acompanhe textos dos participantes do Projeto aqui.   

Tema de Março: Um pássaro engaiolado ganhando a liberdade
Como é se sentir assim?


- Vul, kuelsa, vul!*
Hoje, pelo jeito, era um daqueles dias. Um em que aquela senhora passava para me visitar e fazer uma nova tentativa: me empurrar até o fim da superfície onde eu estava empoleirada, para me ajudar a impulsionar um voo. Não era o melhor incentivo, pelo menos não da maneira que era induzido, pois, pelo contrário, só me alarmava o coração, minhas asas grudavam cada vez mais ao lado do corpo pequenino, e minhas patas saíam arranhando o tabuado. Ah, sim, eu também protestava, aos gritos, como se alguém pudesse entender minhas exatas palavras. Não! Não! Me deixa em paz! Não, de novo não! Para os humanos, não devia passar de algum grunhir esquisito. E desesperado.
Como agora.
Eu também tampouco entendia o que elas diziam, mas sempre soltava o ar quando a moça bondosa vinha me resgatar daqueles ataques. Pra falar a verdade, soltava até ar demais, numa respiração intensa e acelerada, que sempre demorava a se regular. Enquanto tudo era um borrão, trotava de um jeito tortuoso em minhas patas para onde fosse mais seguro. O cantinho de meu lar. Lá eu tentava me convencer de que estava tudo bem. Mas sempre ficava uma pontinha de terror por saber que aquilo ainda voltaria acontecer, de novo e de novo.
O rosto da moça surgiu na entrada de minha casinha, me examinando como sempre. Discutiu algo mais com a senhora e colocou um pedaço de alimento na entrada. Nem por comida valia a pena passar por aquilo.

***

Estava empoleirada no ombro da moça enquanto ela passeava por aquele mundo verde e marrom. Árvores altas, raízes grandes, muitas folhas e terra. Cheiros inebriantes. Vento suave. Do jeito que eu gostava. Ouvia longe outros pássaros muito parecidos comigo, geralmente voando de algum lugar para outro. Cantavam também. Alguns versos eram compreensíveis, outros nem tanto. Já ouvira um pouco de tudo, sem, no entanto, me deter a eles de verdade. Mas as melodias ficavam. Às vezes eu mesma assobiava, para melhorar meu dia.
Gostaria de estar mais perto daqueles bandos, da minha espécie, ouvir, cantar junto. Mas, na minha atual situação, eu não via como. Na minha limitada situação, eu não poderia.
E isso era uma droga.

***

Um barulho ínfimo, mas constante, me fez despertar. Algo arranhava no teto de meu lar. Coloquei a cabeça para fora para tentar ver o que era, ainda amanhecia o dia. Estava muito cedo para ser um humano. Dei passos calculados, pelo tabuado, pra todo caso. Avistei uma ponta de uma asa e ouvi uns grunhidos baixos, grunhidos de quem muito se esforçava em algo. Me afastei mais um pouco para ver melhor. Havia uma criaturinha se debatendo ao alto de minha casa. Era um pouco menor do que eu e parecia presa no patamar de cima do tabuado.
Com cuidado, me enganchei em pontos ali já conhecidos para subir e ir ajudar. O animalzinho percebeu minha presença e se debateu mais ainda. Havia uma gosma branca presa em sua asa e também presa à tábua. Esticava. E não saía da asa.
- Não se aproxime!
Era uma pequena fêmea, tal qual eu, embora bem diferente de mim.
- Argh!
- Deixe-me ajudar.
- Não, eu consigo!
Ela se debateu mais uma vez, com mais força e a gosma só esticou. Eu já tinha visto essa gosma em outros lugares e já tinha pisado também. Pra sair não foi fácil, tive que cortar com o bico. Parte da gosma ainda ficou na minha pata por semanas. Era nojento, mas era o jeito.
Sem atender aos protestos daquela pequena, avancei na gosma para cortar aquele estica-estica. Não foi fácil, tive que colocar um pouco de força, puxar um pouco, até que por fim a gosma se rompeu. Um pouco dela ficou em meu bico e tratei de esfregar a pata lá para tirar tais resquícios. Estava concentrada em tirar aquilo de mim quando ouvi:
- Como você fez isso?
- Isso o quê?
- Como... você...? Como fez isso?
Embasbacada e solta, ela me olhava e olhava pra gosma do outro lado.
- Já tive um problema parecido. Não adianta puxar, tem que...
Antes que eu dissesse algo mais, ela bateu as asas a mil, mesmo com aquele pouco de gosma nas penas, e deu piruetas. Riu alto até.
- Pensei que não iria me soltar mais. Obrigada, obrigada, obrigada!
Era engraçada sua comemoração. Fiquei feliz por ela.
- Já sei como retribuir. Vem comigo!
Se num segundo ela estava agitada ali em cima de minha casa, noutro saíra disparada. Não pude reagir senão continuar no mesmo lugar.
- O que você está esperando? Vem comigo!
Olhei para onde ela estava, olhei ao redor, olhei para onde ela iria. Olhei para baixo também.
- Eu... Eu não posso ir.
- Por que não?
- Eu... Só não posso.
E desci pelos ganchinhos de volta para minha casa.

***

Na manhã seguinte, ainda sem propriamente ter amanhecido, acordei com novos arranhões sobre o teto. Será que...? De novo?
Fiz meu caminho e encontrei a pequena ali, arranhando o teto sem estar presa. Assim que me viu, ela voou para o tabuado que ficava um pouco acima dali. De novo, me enganchei em pontos estratégicos e a alcancei. Ela trazia algo ao bico. Pôs na superfície e disse:
- Trouxe pra você. É bom. Acho que você vai gostar.
Avaliei. Parecia uma frutinha. Tinha cheiro de fruta. Não a conhecia, mas parecia boa. Abocanhei e provei. Era diferente das que a humana me trazia, não tinha experimentado nada parecido até então.
- Posso conseguir mais se quiser. Ou você pode vir comigo. Te mostro onde fica.
- Eu não posso sair.
- Por que não?
- Não posso.
Ia virar e tomar rumo de casa de novo, quando ela disse:
- Tudo bem, eu pego pra você.
E saiu mais uma vez em disparada.

***

Um pouco mais tarde naquele dia, eu me alimentava quando senti um cheiro esquisito. Geralmente sentia quando certa humana aparecia para me perturbar. Levantei a cabeça e não a vi.
Dessa vez ela não me pegaria, estava na entrada de minha casinha, ela não ousari...
Antes que completasse o pensamento, algo me interpelou pelo pescoço e fui puxada pelo ar. Meu coração foi pra boca em um segundo e me debati. Não conseguia ver nada. Não conseguia respirar. E então fui jogada ao tabuado de volta aos gritos de uma humana. Aquela senhora humana.
Tonta do atentado, não via bem o que estava acontecendo. A humana também se debatia. Havia algo a cutucando ao ar, girando, tão rápido, que a coloca pra correr. E então a pequena passarinha se materializa a minha frente, as asas batendo a mil.
- Você está bem? A humana te machucou?
Mas não estava em condições de falar de tão paralisada que me sentia.
- Como você consegue viver aqui? Temos que sair daqui.
Só engoli a seco e tentei me levantar.
- Você me ouviu? Ela pode voltar aqui.
- Eu sei. Mas eu não posso sair daqui.
- Por que n...? O que te prende aqui?
- Eu.
E saí mancando de volta para minha casa.

***

À meia luz ao céu, luz forte e clareadora, ouvi velhos arranhões no meu teto. Após o incidente de mais cedo, a humana bondosa parece ter tido conhecimento do ocorrido, pois parecia preocupada comigo. Falou coisas que não compreendi, claro, mas seu tom doído dava sinais de que era algo assim. Ela fez um pouco mais de carinho, me deu mais frutas e passou mais tempo comigo do que outras vezes. Com seu cuidado e algumas melodias, fui me acalmando. Mas não estava tão bem assim para sair de meu ninho.
Os arranhões continuaram por mais uns minutos. De repente, cessaram. As coisas ficaram quietas por um segundo ou dois. No meu canto, me encolhi mais. Desgastada pelo que acontecera, triste por... tudo.
- Oi!
A pequena passarinha se materializou na minha porta me dando um leve susto.
- O-oi.
- Trouxe mais frutinhas. Vem aqui fora pra eu te mostrar.
- Eu não tô muito afim agora. Mas obrigada.
- Tem certeza?
Ela parecia ansiosa, mas... Assenti.
- Tudo bem.
Pensei que ela iria embora depois disso. Pelo contrário, andou até próximo de mim e se sentou sobre as patas. Ficamos em silêncio por um tempo. Então ela começou a cantarolar baixo, assobiando algo. Era bonito o som. Reconfortante.
Dormi tranquila.

***

Jadé aparecera mais uma vez ao anoitecer. Mais cedo ela viera trazer mais frutinhas e me disse seu nome. Repetiu o meu até aprender. Líris. Quando conseguiu, se despediu. E então retornara. Sem arranhar meu teto, ela foi logo entrando na minha casinha.
- Trouxe mais uma leva de frutinhas.
- Por que você traz?
- Porque sim.
Ela foi tão direta e enfática, que pisquei aturdida.
- Porque sim?!
Sem jeito, seus olhinhos saltaram.
- Você não quer... companhia?
- Bem, não é isso. Só não entendo porque você sempre volta.
- Você é minha amiga, ué.
- Sou?!
- É. Anda, trouxe o bastante para nós duas.
E saiu porta afora, afoita.
Dessa vez a segui.

***

- Como é lá no alto?
- É incrív... Você nunca foi?
Jadé me observou por um instante, curiosa e espantada ao mesmo tempo.
- Faz um tempo que não. Já não lembro bem.
Agora ela aparecia com mais frequência. Às vezes conversávamos, às vezes ela cantava, às vezes só ficava ali. Também dividia minhas frutas com ela.
Jadé ficou em silêncio por um momento. Parecia titubear algo. Então disse:
- Eu já fui presa por humanos.
Apenas levantei o olhar pra ela. Pequena daquele jeito e já com muitas vivências.
- Eles também me alimentavam e me davam água. Mas não me davam liberdade.
Liberdade. Senti aquela pontadinha do que ela queria dizer. Eu tinha aquela liberdade. E ao mesmo tempo não a tinha de verdade.
- Sinto muito.
- Daí um dia vi uma saída e... Nem olhei pra trás. Mas ainda sonho com aquelas barras.
Para aliviar o clima pesaroso que ficara por ela mencionar barras, perguntei:
- Como foi sair?
- Foi assustador, mas... Bom. Era o que eu queria há muito tempo, mas exige muito da gente. O gosto da liberdade é um esquisito bom. Gosto de conquista.
Gosto de conquista.
Aquilo ficou em minha mente.

***

Um dia estávamos empoleiradas no alto de minha casinha. Eu ainda limpava meu bico da última frutinha quando Jadé virou pra mim e disse simplesmente:
- Você não voa.
Levantei a cabeça, mas não olhei para o seu lado. Ao meu silêncio, ela continuou.
- É que nunca te vi voar. Você sempre tá se apoiando em algo pra subir ou descer. E acho que não está machucada.
Ainda constrangida, não respondi. Nesse momento ela se aproximou, colocou a asa às minhas costas e disse:
- Eu só queria dizer que tá tudo bem.
Mal engolindo a seco, perguntei:
- Tá?!
- Tá.
Esperei que ela fizesse mais perguntas. Felizmente, elas não vieram.

***

Era noite e estava mais escuro que de outras vezes. Ouvi uns movimentos bruscos, algo se debatia, arrastava, não sei. Tentei enxergar além daquele manto noturno. Daí ouvi uns resmungos, uns gemidos de quem lutava sem sair do lugar. Era Jadé ali no canto, tendo algum sonho ruim.
Ela vinha cada vez mais ficando por ali. A humana bondosa deixou ela ficar. Na verdade, adorou que ficara também. Trazia mais frutas, deixava mais água, sorria para nossa amizade. Era bom ter alguém ali. E não falo só por defesa – até porque a senhora humana nunca mais apareceu. Era... a companhia.
Já estava a meio passo de ajudar Jadé quando ela despertou num átimo e gritou:
- Barras!
E saiu voando em desespero.
Fui até a porta de casa para ver onde iria. Ela rodopiou por uns instantes, nervosa, agoniada, se debateu em alguns cantos dali da árvore, até que finalmente pousou no tabuado. Chorava baixinho.
- Tá tudo bem.
- Eu vi... As barras... Elas... Eles... Eu não...!
- Tá tudo bem. Vai passar.
E fiquei ali com ela até que de fato aquele susto passara.

***

Um dia Jadé estava brincando com as patas na borda de um galho dali perto até que pisou de mau jeito e escorregou. Não foi nada demais, ela riu até. Bateu as asinhas, pôs-se a voo, rodopiou e fez que ia cair, mas não caiu. Ria pela travessura.
Depois de tantas conversas, por alguma razão, resolvi falar:
- Não sei por que eu não voo. Só sei que não voo. Não consigo mais.
Agitada, porém pausando ali perto, ela perguntou.
- Mas você já voou?
- Já. Não tão alto, acho. Não sei dizer.
- E você quer? Voar?
- Não sei se posso.
- Mas você quer?
- Não sei.
E foi tudo o que pude falar naquele momento.

***

- Daí o Lico foi até a última folha, pra pegar a semente, mas a chuva era de vento, forte, e... era tão bobo ele querer provar aquilo. Sumiu na madrugada. Não o vi até de manhã, quando voltou com a semente pra gente.
Jadé contava uma de suas histórias. Geralmente travessuras. Lico era um passarinho que encontrara na vida e morava num cantinho de árvore perto dali – perto pra ela, longe pra mim. Acho que já ouvira um de seus cantos. Como Jadé dizia, ele era muito desritmado.
Pensativa sobre o contava, ela acrescenta:
- Apesar dos apesares, acho que entendo o que ele quis fazer.
- Tipo o quê?
- Encarar o perigo e ir com toda a força, sabe? Sem olhar pra trás.
Gosto de liberdade.

***

- Líris!
Eu tinha capotado no tabuado após uma pequena queda. O gancho que eu tinha me apoiado estava desregular e, eu não sei, acho que tropecei. Não foi nada demais, porém, meu coração tava ali, a mil.
- Você tá legal?
- Tô. Foi só...
- Você podia ter voad... ! Você...! É que...
Embaralhada no que ela mesma dizia, eu apenas sentei sobre as patas e esperei passar. Ao ver que eu não diria nada mais sobre aquilo, ela suspirou, ainda ao ar.
- Ah, Líris.
- Você sabe que não voo.
- Tudo bem.
Às vezes ela mesma tentava me impulsionar. Não com brusquidão, claro. Nem como uma leviana brincadeira. Ela tinha esperanças de algo. E eu sentia por estar a decepcionando daquela maneira por não conseguir. Queria deixar as coisas bem claras.
- Será, Jadé? Tá tudo bem?
- Por que não estaria?
- Eu não vou voar!
- E eu não quero que voe sem querer voar.
- Mas você tá esperando que eu voe!
- E qual o problema nisso?
- Eu posso... Posso nunca mais voar!
- Tudo bem.
O jeito displicente dela me enervou.
- Como... tudo...? Como tudo bem?!
- Tudo bem, não precisa voar. Não quero que voe sem querer voar. Mesmo. Vou ficar aqui com você.
- Mas é possível que eu nunca... !
- Ainda assim, estarei aqui. Não me importo de esperar. Mesmo que nunca aconteça.
- Jadé...
Ela planou para mais próximo. Logo se sentou sobre as patas tal como eu estava e, determinada, não arredava dali. Não arredava do que me dizia.
- Tudo tem seu tempo, Líris.
E, claro, eu não disse mais nada.

***

Jadé me contava sobre como eram as barras que lhe prenderam uma vez. Era uma coisa dura, que não dava espaço pra ela sair. Pareciam portas que ela não conseguia ultrapassar. Estavam abertas, todas abertas, mas nenhuma a deixava passar. Só havia uma porta maior, que era por onde o humano entrava para deixar água e comida. Ela já tinha tentado passar por lá, porém, ninguém deixava. Mas houve um dia que a porta ficou aberta e não havia nenhum humano por perto. Foi a chance dela.
Jadé tivera mais outro pesadelo, por isso contava essa história.
- E você, Líris?
- Eu o quê?
- Já pensou sobre sua chance?
É claro que já pensei. Mas...
- E se as barras não ficam só do lado de fora, Jadé? E se algumas barras... ficam do lado de dentro da gente também? O que se faz nesse caso?
Ela demorou pensando numa resposta. E então me disse:
- A gente espera uma oportunidade com a porta maior.
Mais uma vez, com o aperto que me dava ao falar sobre aquilo, eu nada respondi. Mas Jadé continuou assim mesmo:
- A gente senta e observa a paisagem, Líris. Não precisa ser agora e pode ser nunca. Mas estarei aqui, não importa o que aconteça. Eu espero contigo.
Algo, não sei, mudou. Olhei ao redor, como costumava, e também olhei para baixo. Acho que foi a primeira vez, depois de tanto tempo, que eu considerei voltar a voar. Considerei apenas e já me pareceu muito. Olhei de volta para Jadé e sentei. Observei a paisagem.
Não precisa ser agora e pode ser nunca.
Isso me bastava.

Fonte de imagem: @_poematizar (aqui)

Vul, kuelsa, vul!*: “Voe, coisa, voe!”



Kleris Ribeiro é beletrista, produtora e agente cultural. Garota dos bastidores, se joga em marketing digital, comunicação e, recentemente, zines. Fascinada pelos mistérios do universo do livro, é administradora do blog Dear Book e diretora do Clube do Livro Maranhão. Fangirl, diz que mantém a cabeça nas nuvens e os pés no chão. 


Até a próxima!
#blogdearbook #projetoesm #empatia

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Resenha: "Jantar Secreto" (Raphael Montes)



Por Sheila: Oi pessoas! Tudo tranquilo? Resenha de nacional hoje e que nacional! Povo tupiniquim arrasando e mostrando que best seller não é coisa só de gringo não.

Mesmo suspense, terror e horror sendo os meu gêneros favoritos, e eu já tendo ouvido falar bastante no Raphael Monte, nunca havia tido a oportunidade de ler nenhum dos seus livros até estar com "Jantar Secreto" em mãos.

Pois bem, o livro irá narrar a história de quatro jovens, Dante, Hugo, Leitão (sobrenome, mas que no livro terá duplo sentido) e Miguel. Vindos do interior do Paraná  para o Rio de Janeiro para tentar uma vida de independência e sucesso nas carreiras que escolheram, eles logo descobrem que a vida na cidade grande, mesmo com um diploma universitário, não é tão fácil assim.

Mas me adiantei um pouco. Para que vocês possam entender um pouco como toda a confusão começou, vocês precisam saber que a peregrinação por um lugar para ficar que fosse agradável e acessível foi bastante árdua.

Era incrível a quantidade de imóveis velhos, decrépitos, fedidos e quase contaminados que as pessoas ofereciam para alugar. Em quatro dias na cidade, visitamos muquifos inimagináveis. Enquanto os blocos de Carnaval lotavam as ruas de alegria e barulho, nós murchávamos de desgosto. Morar na Zona Sul do Rio de Janeiro era como morar num castelo europeu ou num resort nos lagos andinos: estava fora de nossa realidade.

O narrador desta história é Dante, um futuro graduado em administração que acreditou que seu trabalho em uma livraria era temporário, mas que não contava com a crise, ou com outros problemas no caminho que o impediriam de ser um sucesso em sua carreira - o que os inúmeros livros de auto ajuda que lera esqueceram de contar.

O mesmo acaba morando com seus amigos de infância e, agora, colegas de apartamento, todos com as mesmas dificuldades, claro que com algumas nuances: Hugo é um excelente chefe de cozinha, mas parece que é principalmente sua arrogância o que lhe impediu de ascender na carreira; Miguel é médico, fazendo residência, ou seja, se a coisa toda tivesse estourado em dois ou três anos talvez o desfecho dessa história teria sido diferente. E Leitão ... bom, Leitão faz jus a seu nome, obeso, hacker, desistiu  da faculdade e passa o dia todo vendo pornô, comendo e aplicando golpes na internet.

O problema realmente começa quando os amigos resolvem fazer uma aparente "boa ação" para Leitão em seu aniversário: contratar uma prostituta, já que acreditam que ele ainda seja Virgem. Acontece que, devido a obesidade de Leitão, isso não foi fácil de encontrar, cabendo  a Dante realizar uma peregrinação atrás de uma mulher disposta a aceitar a tarefa.

Tudo parecia ir bem, sendo que as "visitas" de Cora à Leitão passaram a ser frequentes. O que ninguém se perguntou, foi de onde Leitão estava tirando tanto dinheiro para sustentar esse estilo de vida e, para o leitor atento, faz todo o sentido que a imobiliária ligue para Dante cobrando seis meses de aluguel atrasado.

Acabamos descobrindo que Leitão tem um passado obscuro e uma dificuldade de aceitação da realidade, o que explica por que os amigos relevam seu estilo de vida nada convencional e prático, bem como mais essa grande "mancada" e tentam se organizar para pagar a dívida com a imobiliária para não precisarem abrir mão do apartamento.

É aqui que as coisas começam a ficar surreais ... pensando em copiar iniciativa que existe nos países gringos, de abrir a casa à estrangeiros e pessoas que queiram provar a comida local, eles se inscrevem em um site que propicia este tipo de experiência, cabendo a Hugo preparar a comida, Dante recepcionar, Miguel comprar os ingredientes e Leitão - mais uma vez Leitão - lidar com tudo que dissesse repeito à área da informática.

Digamos que Leitão resolve oferecer um prato um tanto quanto exótico no primeiro jantar. Aliás, exótico demais. A forma como os amigos acabam embarcando por este caminho, e enveredando por um mundo de drogas, crimes, corrupção e degradação moral, é o que compõe o restante da narrativa deste Thriller psicológico repleto de humor negro e ironia.
Na madrugada do dia 18 de junho de 2016, um homem entra na 15ª DP do Rio de Janeiro, no bairro do Jardim Botânico, e pede para falar com o delegado de plantão. Suas mãos tremem, mas ele mantém o olhar firme. Veste um smoking ensopado de sangue."Você está bem?", perguntam os policiais. "Esta ferido?"O homem insiste em conversar com o delegado de plantão."Senhor, o que aconteceu? Vou chamar uma ambulancia.""Vim confessar o que fizemos."

É interessante que o horror presente nas descrições vem justamente de percebermos o quanto o ser humano pode mergulhar no crime e degradação moral quando a questão é dinheiro, e como coisas consideradas imorais e indefensáveis podem se tornar aceitáveis quando nos cobrimos com um discurso de negação e racionalização dos fatos.

Dante é meu nome. Preciso que não se esqueça disso. Mesmo quando chegar à metade dessa história, quando souber o que aconteceu e concluir que sou um filho da puta, um monstro sem coração, preciso que não se esqueça: meu nome é Dante e eu era um cara legal. Você provavelmente quer saber como tudo começou. Se não for o tipo de pessoa que se impressiona à toa, posso te contar os detalhes.

Um livro para ser lido todo de uma vez, cheio de aventura, suspense, cenas e situações inusitadas e, se você não é um sociopata, asco, mas muito asco mesmo. Cenas fortes e muito bem descritas que podem causar muito incômodo. Uma dica: não leia antes das refeições, principalmente se você pretender comer carne.

Recomendo! Abraços e até a próxima!

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segunda-feira, 27 de março de 2017

Resenha: "A Rebelde do Deserto" (Alwyn Hamilton)

Tradução de Eric Novello

Sinopse: O deserto de Miraji é governado por mortais, mas criaturas míticas rondam as áreas mais selvagens e remotas, e há boatos de que, em algum lugar, os djinnis ainda praticam magia. De toda maneira, para os humanos o deserto é um lugar impiedoso, principalmente se você é pobre, órfão ou mulher. 
Amani Al’Hiza é as três coisas. Apesar de ser uma atiradora talentosa, dona de uma mira perfeita, ela não consegue escapar da Vila da Poeira, uma cidadezinha isolada que lhe oferece como futuro um casamento forçado e a vida submissa que virá depois dele. 
Para Amani, ir embora dali é mais do que um desejo — é uma necessidade. Mas ela nunca imaginou que fugiria galopando num cavalo mágico com o exército do sultão na sua cola, nem que um forasteiro misterioso seria responsável por lhe revelar o deserto que ela achava que conhecia e uma força que ela nem imaginava possuir.
Fonte: Skoob

A areia entra fundo na alma depois de um tempo

Por Eliel: Alguns temas que eu gosto e que estão nesse livro: mitologia, fantasia, comida, cultura árabe, aventura e mistério. Se com isso não aticei sua curiosidade para esse livro basta dar uma boa olhada na arte dessa capa. Muito rica e cheia de ouro. Insha'Allah.


Amani é a heroína dessa aventura no deserto. Ela vive em um lugar onde o fato dela ser mulher já a coloca em desvantagem em relação aos outros. Embora, eu ache que eles não deveriam subestimar a melhor atiradora de todo o deserto. Seu dom é o que a leva a participar de um concurso para levantar dinheiro para sua fuga. Disfarçada de O Bandido dos Olhos Azuis é que ela se arrisca para seguir seu sonho.

Eu estava tentando ser corajosa. Mas era palavra de Fazim contra a minha. Sempre acreditariam no homem, não na mulher.

Nesse concurso é que ela conhece o misterioso Jin. Após o encontro com esse rapaz a vida de Amani jamais será a mesma. Fugir da Vila da Poeira se torna ainda mais necessário, afinal o deserto esconde mais mistérios do que se pode imaginar.

- Você tem uma ideia melhor? - Jin acenou para o deserto vazio, como se estivesse me oferecendo um banquete de ilusões

Uma aventura fantástica dentro da cultura árabe tão bem construída e que aborda temas atuais como o preconceito com a mulher é o que Alwyn Hamilton promete para dar o pontapé inicial para essa trilogia sensacional.

Parecia que naquele deserto eu sempre era vista como fraca, simplesmente por não ser homem

A narrativa é tão bem traçada e desenhada que mais parece um tapete persa contando a história da família real de Miraji, e cada fio é de extrema importância para o todo. Esse é daqueles livros que se você piscar perde fatos importantes, leitura de tirar o fôlego sem dúvida.


O segundo livro que em breve estará por aqui é a Traidora do Trono, não perca a oportunidade de se encantar com um deserto cheio de magia.

- Sabe, não acreditava em destino até conhecer você - ele disse, inclinando a cabeça até encostar na parede com um suspiro profundo. - Aí eu comecei a achar que a coincidência jamais teria um senso de humor tão cruel.

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sábado, 25 de março de 2017

#Sorteio Eu amo viajar! 4ª edição

Você ama viajar? Então não pode perder esse sorteio!
Você vai concorrer ao romance "Paris para um e outros contos" (Jojo Moyes) e o guia "Descubra Paris" da Lonely Planet.
Essa promoção esta sendo feita em parceria com o blog Juny pelo Mundo, acesse e conheça!
  a Rafflecopter giveaway

Prêmios:

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Informações:

  • Promoção válida até 30/04/17
  • Se o vencedor não seguir as regras será feito um novo sorteio
  • O prêmio será enviado ao vencedor em até 30 dias
  • Não aceitaremos participações de perfis fakes. Temos como conferir o IP de cada participação, evitando que alguém faça varias participações com nomes diferentes.

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sexta-feira, 24 de março de 2017

Resenha: "Medo de Palhaço" (Marcelo Milici e vários autores)

Por Sheila:  Oi pessoas! Como estão??? Eu estava mega, super, hiper ansiosa com a leitura desse livro! Sim, eu sou meio macabra, eu sei. Mas quando se passa o dia todo tendo de lidar com a sombra do Outro, as vezes essa é a única forma de lidar com toda essa escuridão: transformar o horror em arte. Para aliviar a pressão imposta pelo Real, as vezes é preciso fugir para a fantasia.

E, sendo eu uma aficionada por tudo que diz respeito ao terror e seus subgêneros - do sobrenatural ao psicológico (principalmente esse!) - claaaaro que eu fiquei M-A-L-U-Q-U-I-N-H-A para ler este livro. Afinal, quer personagem mais icônico deste gênero que o palhaço? 

Para quem tem caulrofobia (medo de palhaços) ATENÇÃO!!!! Melhor deixar de ler a resenha por aqui. Aos que quiserem prosseguir, sigam por sua conta e risco HUAHUAHAUAHU (risada maléfica).

Você sabia?: Daniel Radcliffe, ator de Harry Potter, e Johnny Depp são coulrofóbicos.

O livro começa dissecando as origens dos palhaços, tanto na própria etimologia da palavra, como nas suas primeiras aparições. Com variantes, podemos ver os primeiros palhaços já no teatro grego, passando pela idade média como os famosos bobos da corte para, só recentemente, se transformarem no palhaço que conhecemos hoje: rosto pintado, nariz vermelho, roupas largas e coloridas.

Mas quando foi que o palhaço, figura que deveria entreter e divertir, torna-se terrorífico? O livro passa então a narrar as histórias, algumas lendas urbanas, outras verdadeiras, que talvez tenham contribuído para enxergarmos essa figura de forma diferente. A primeira delas, diz respeito a história que teve origem em Osasco, São Paulo, onde na década de 90 um palhaço estaria matando e roubando órgãos de crianças.

Outra história, essa totalmente verídica, seria a do Serial Killer John Wayne Gacy, conhecido como o Palhaço Assassino. Ele matou cerca de 33 jovens ao longo de três décadas e, apesar de nenhuma dessas mortes envolver diretamente suas apresentações como palhaço - Gacy era como nosso querido Dexter para quem acompanhava a série, fazia todo o possível para parecer um cidadão modelo - a associação feita pela imprensa americana se popularizou rapidamente. Gacy foi preso e condenado à morte por injeção letal. Muitos filmes foram produzidos recontando essa história, tanto em estilo documentário como ficcionais.

No restante das páginas - 288 em seu total - iremos nos deparar com mais de cem análises de filmes, séries, desenhos, programas de televisão e afins que trazem em sua temática estes palhaços terroríficos. É claro que separei algumas delas para vocês, de forma totalmente aleatória (mentira, escolhi os que eu gosto/vi).

Falando especificamente de filmes, nossa eles são muitos. Dos clássicos ao toscos - deliciosamente toscos - os filmes de palhaços não-tão-legais-assim conquistaram milhares de fãs nas últimas décadas. E é claro que euzinha estou la, na primeira fila, erguendo a mão o máximo possível para ajudar a engordar essas estatísticas!

Um desses filmes é o "Palhaços Assassinos do Espaço Sideral". Considerado uma comédia de terror, foi lançado em 1988, e trata da queda de uma nave-circo na cidade de Crecente Cove, nos Estados Unidos. Com armas como pistolas de algodão doce e tortas de ácido, os palhaços aterrorizam a pequena cidade, ate serem expulsos, apesar de ficar ambíguo se há possibilidade de retornarem ou não.



Agora, um palhaço icônico para o gênero, e que talvez tenha ajudado a engrossar as estatísticas de pessoas caulrofóbicas foi Pennywise, de IT. Baseado em livro homônimo escrito por Stephen King, It foi considerado uma obra prima do horror e do medo, sendo lançado em 1971 e dirigido por George Lucas.
Pennywise: Venham ver senhoras e senhores! Metade palhaço, metade monstro, sua origem é desconhecida, sua fome é incontrolável. Ele atrai suas presas com sua aparência agradável, e as conduz ao esgoto para se alimentar delas. Não fiquem muito próximos, de sua jaula ... ele é muito rápido e esperto. E estará eternamente em seus pesadelos.
Envolvendo um grupo de amigos, muitas mortes e cenas de puro terror, It é considerado um dos melhores livros de Stephen King, e ganhará um remake a ser lançado ainda agora em 2017. Dividido em duas partes, os longas contarão a história do grupo de garotos na infância na primeira parte, e seu desfecho com eles já adultos na segunda. Confesso que eu estou ansiosíssima por este filme e pretendo estar lá na pré-estreia!

Outro clássico de terror envolvendo palhaços, desta vez incorporado na pele de um nada convidativo boneco de brinquedo foi o filme Poltergeist: o fenômeno. Neste, o palhaço pode não ser a figura central utilizada para causar medo e terror, mesmo assim sua utilização foi marcante.

Uma das diversas aparições sobrenaturais que atormentam a casa dos Freeling, este sinistro boneco costumava ficar ao lado da cama do pequeno Robbie, e mesmo antes de ser possuído pela Besta, já causava desconfiança no garoto.
Assim como It, Poltergeist também teve um remake lançado em 2015 que, infelizmente não agradou o público. Apesar da trama ser praticamente  mesma - família em dificuldades financeiras muda-se para casa mal assombrada, com a caçula sendo sequestrada pelas entidades terroríficas - enquanto a obra original consegue trazer o suspense em um crescente, gerando tensão e medo, o remake fica parecendo quase uma comédia de terror. Virou quase um trash estilo "zé do caixão".

Essa é uma pequena amostra da análise realizada nesta enciclopédia de 288 páginas, que contém um número ainda muito maior de obras, análises e, até mesmo, discussões científicas e psicológicas a respeito deste tipo de fobia e formas de superá-la.


Uma questão não abordada pelo autores e que trago a título de curiosidade foi a aparente "onda" de creepy clows (palhaços assustadores) que surgiram nos EUA agora em 2016. Imagine você estar a rua e um palhaço assustador como esse aqui da esquerda ficar encarando você? Bizarro não?

Algumas pessoas dizem que foi uma reação de fãs ao remake do filme It, e que não havia motivos para alarde. outras, que a grande maioria dos relatos nada mais era do que boatos e sensacionalismo da mídia já que nenhum ataque propriamente dito foi notificado. Pelo sim, pelo não, evite os estados da Carolina do Norte  e do Sul!

E, ainda sobre o livro, o que dizer? Foi uma leitura fascinante, com um conteúdo em que transparece o compromisso dos autores com a fidedignidade da informação e o comprometimento em criar de fato uma enciclopédia completa e de qualidade. A diagramação é perfeita, o acabamento lindo, uma verdadeira obra de arte.


E vocês, já leram "Medo de Palhaço"? O que acharam? Não deixem de comentar, e mais risada maléfica para vocês pelo nosso querido Pennywise! Até a próxima!


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