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terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Resenha: "Gay de Família" (Felipe Fagundes)


Sinopse: Diego espera tudo de ruim dos próprios parentes, mas tudo mesmo. Que o pai tenha uma segunda família. Que a mãe comande um esquema de tráfico humano. Que o irmão lave dinheiro. Por serem versados em todos os crimes do manual da família tóxica, Diego decidiu ser gay bem longe deles. E tudo vai muitíssimo bem, obrigado.

Porém, às vésperas de uma viagem aguardadíssima com amigos, seu irmão aparece implorando por um favor: que Diego seja babá dos três sobrinhos por um final de semana, crianças com as quais ele nunca conviveu. De olho na grana que o irmão promete pagar e acreditando piamente no seu potencial como tio, ele aceita a proposta sem imaginar que os pequenos são, no mínimo, peculiares.


O que a princípio parece moleza, mesmo envolvendo uma gata demoníaca, um amigo imaginário e um porteiro potencialmente sádico, acaba se revelando um desafio quando Diego percebe que terá que revirar seus sentimentos e provar que pode dar conta do recado, sem perder o rebolado que apenas um tio gay é capaz de manter.


Por Stephanie: Gay de família já era um título bem conhecido por mim, muito antes de eu iniciar a leitura. A história foi lançada, inicialmente, em formato de conto, que se expandiu e se tornou um romance depois de ter ganhado um certo hype pelos leitores. Vários amigos meus tinham lido o conto, e foram eles que me fizeram ter vontade de conhecer essa versão “estendida”.


Vou ser bem sincera com vocês: no começo, eu tive muita dificuldade de gostar do Diego. Na verdade, arrisco dizer que o achei bem insuportável, haha. Ele me lembrou de algumas pessoas que eu conheço na vida real, que são meio vazias, fúteis e sem muita personalidade. Até as piadas dele me deixavam desconfortável. Eu não sou o tipo de pessoa que espera sempre se identificar com os protagonistas dos livros, mas poxa, quando a pessoa é tão oposta assim, é puxado, né?


Felizmente, o melhor estava por vir. A chegada das crianças fez tudo valer a pena! Que personagens mais carismáticas, fofas e verossímeis. Já lidei com muita criança na vida e digo que praticamente todas as situações apresentadas pelo autor são totalmente possíveis de acontecer (ainda que com alguns exageros). Me diverti muito com o tom “Sessão da Tarde” das cenas com os sobrinhos de Diego, até porque o autor incluiu até uma pitadinha de mistério sobre um certo assunto que tem tudo a ver com esse tipo de história.


Outra coisa que gostei bastante foi a mensagem/crítica com relação às pessoas que dizem odiar crianças. Quando paramos para pensar, é realmente absurdo vivermos em uma sociedade em que crianças não são vistas como pessoas, a ponto de alguém se achar no direito de odiá-las só por existirem. Felipe Fagundes acertou demais aqui.


O humor de Gay de família sempre foi muito elogiado pelos leitores, e eu até tive momentos de risos sinceros, mas achei que em alguns momentos o tom humorístico se perdia um pouco e beirava o exagero. As referências, apesar de não serem excessivas, ficaram um pouco datadas, na minha opinião. Mas nada que traga um grande impacto para a experiência como um todo.


Os personagens como um todo são bem escritos e suas relações, muito críveis. Consegui imaginar o grupo de amigos de Diego com perfeição, bem como sua (complicada) família. O desfecho também soou muito real pra mim; é uma mistura muito bem feita de final feliz com uma pitada de pé no chão que fez todo o sentido para essa jornada.


Com certeza recomendo essa leitura, principalmente para quem não teve contato com o conto. Felipe Fagundes com certeza é um autor que ficarei de olho e acompanharei seus próximos lançamentos!


Até a próxima, pessoal!

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domingo, 9 de janeiro de 2022

Resenha: Romance gráfico "Grande Sertão: Veredas" (João Guimarães Rosa)

Por Thaís Inocêncio: Grande Sertão: Veredas é considerado uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Publicado em 1956, o livro apresenta mais de 500 páginas sem capítulos e uma linguagem que, até hoje, é vista como inovadora, principalmente pela presença de neologismos (criação de palavras novas formadas por outras já existentes). 

Por isso, muita gente teme enfrentar esse clássico em sua forma original, cuja leitura, apesar de valer a pena, é desafiadora, não posso mentir. Para essas pessoas, a adaptação da obra em romance gráfico é uma excelente alternativa. Roteirizado por Guazzelli e com arte de Rodrigo Rosa, o livro em formato de quadrinhos é super fiel à obra original – isso porque não se pôde alterar nada da narrativa criada por Guimarães Rosa, apenas fazer cortes. 

Para quem não conhece a história, o romance é narrado em primeira pessoa por Riobaldo, um ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos, seus amores e suas dúvidas no sertão. E isso é tudo o que eu posso dizer. Aliás, aconselho àqueles que nunca tiveram contato com a obra e querem se aventurar por ela a não fazer nenhuma busca na internet para não dar de cara com revelações que fazem toda a diferença na experiência de leitura. 

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

O romance gráfico torna a leitura de Grande Sertão: Veredas mais fácil que a do texto original na íntegra. Isso acontece, sobretudo, pelo auxílio das imagens, que dão ao livro um caráter de obra cinematográfica. É como se o leitor pudesse ver os personagens em ação, o que facilita o entendimento de todo o enredo. As ilustrações são muito bonitas e condizentes com a ambientação da obra. Além disso, os personagens têm traços característicos, o que permite ao leitor diferenciá-los com facilidade. 

O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.

Outro ponto de destaque da adaptação são as cores utilizadas, com predominância de tons amarronzados, que remetem ao sertão, como se pode ver nestes exemplos:



Essa é uma obra riquíssima e inesgotável de sentidos. Sempre que se lê, se descobre um novo caminho, uma estrada não antes navegada. Cada vez que se encontra com esse texto, surge uma nova perspectiva das coisas. Conhecer Guimarães Rosa é conhecer uma parte importante da nossa cultura nacional. 

O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia.

Espero que tenham gostado e até a próxima!

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Resenha: "Conectadas" (Clara Alves)

Sinopse: Raíssa e Ayla se conheceram jogando Feéricos, um dos games mais populares do momento, e não se desgrudaram mais – pelo menos virtualmente. Ayla sente que, com Raíssa, finalmente pode ser ela mesma. Raíssa, por sua vez, encontra em Ayla uma conexão que nunca teve com ninguém. Só tem um “pequeno” problema: Raíssa joga com um avatar masculino, então Ayla não sabe que está conversando com outra menina.

Quanto mais as duas se envolvem, mais culpa Raíssa sente. Só que ela não está pronta para se assumir – muito menos para perder a garota que ama. Então só vai levando a mentira adiante… Afinal, qual é a chance de as duas se conhecerem pessoalmente, morando em cidades diferentes? Bem alta, já que foi anunciada a primeira feira de Feéricos em São Paulo, o evento perfeito para esse encontro acontecer. Em um fim de semana repleto de cosplays, confidências e corações partidos, será que esse romance on-line conseguirá sobreviver à vida real?

"Sabe quando as coisas vão virando uma bola de neve e você não tem chance de voltar atrás?"

Por Thaís Inocêncio: Tudo começa de maneira muito inocente, nada premeditada. Raíssa escolhe um avatar masculino simplesmente para fugir do machismo escancarado do mundo dos games. Um dia, porém, ela encontra Ayla perdida no jogo, pedindo ajuda e sendo ignorada, já que nenhum menino sabichão quer interromper suas jogadas para ajudar uma menina iniciante. Como Raíssa já passou por isso e conhece esse preconceito, ela se dispõe a ajudar, sem, no entanto, se despir da sua capa de personagem masculino. 

A partir desse primeiro contato no jogo, as duas estreitam relações na internet. É aí que as mentiras e confusões têm início e a sensação que temos é exatamente a da quote acima: como é que essa bola de neve vai ser desfeita? As artimanhas de Raíssa para não revelar seu verdadeiro "eu" à Ayla são tão bem construídas que ficamos com a impressão de que, a qualquer momento, ela será engolida pelas próprias mentiras e não conseguirá mais se safar. 

Essa maneira de amarrar a história de modo que as coisas não fiquem muito óbvias ou com pontas soltas foi uma das coisas de que mais gostei no livro. A autora consegue nos convencer tanto de que Ayla realmente nem desconfia que Raíssa é uma menina quanto de que Raíssa tem motivos reais para continuar se escondendo por trás de um avatar masculino. Isso faz com que a gente não julgue (muito) as atitudes de Raíssa, mas a compreenda. Afinal, revelar-se para Ayla é também revelar-se para o mundo, não só o dos games, e é preciso muita coragem pra fazer isso. 

"Eu não estava pronta para admitir ao mundo que gostava de meninas."

Essa história vai muito além de um romance clichê entre duas meninas gamers; ela fala de descobertas, inseguranças, autoconhecimento, amor próprio, amizades e questões familiares. Imagino que quem faz parte da comunidade LGBTQIA+ se identifique com muitos dos caminhos e obstáculos que os personagens percorrem e enfrentam nesse livro, e o melhor é que ele mostra que, no fim, tudo vale a pena. Amei toda a representatividade presente nessa obra e espero que isso seja cada vez mais comum na literatura e na vida. 

Desejo que essa leitura aquela o coração de vocês como fez com o meu. Até a próxima, pessoal!

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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Resenha: “Entre Estantes” & “Pétala” (Olivia Pilar)


Por Kleris: Você curte continhos para os entremeios da vida? Os da Olivia com certeza vão preencher seu momento de leitura! Ambos foram autopublicados e se encontram no Kindle Unlimited :)

A gente nunca tá preparado para as novas fases da vida. Ou pelo menos pra faculdade e o mundo que ela nos abre. 
Sabe quando o que você mais quer é mostrar para o mundo e para você mesma que fez a escolha certa?

Isabel é aquela caloura ansiosa para fazer tudo certinho, sequela clássica do ensino médio. Na primeira atividade do semestre, ela não perde tempo de ir à biblioteca para pegar um livro recomendado pelo professor.

E lá, entre as estantes, alguém chama sua atenção. Mais que isso, mexe com todas as suas perspectivas de vida e identidade.


Entre Estantes é um conto curtito e fofinho sobre quebrar o velho roteiro de vida e encontrar-se em um mar de possibilidades. Olívia tem uma escrita leve e encantadora que entrega uma excelente leiturinha de ponte, seja para mais narrativas lgbt, seja para mais livros longos.







Você já teve a sensação de estar apenas indo, sem sair do lugar? 
Eu escolhia as opções seguras e ela fazia as escolhas arriscadas.

Bruna estava incomodada, mas também ansiosa com a perspectiva de sair da sua zona de conforto. Só que, se era pra se sentir justa com os próprios sentimentos e em sintonia com a sua relação, não poderia se resignar mais a se entregar pela metade ou mesmo de qualquer jeito.

Foi assim que marcou um encontro com Pétala, quem pensava ser só mais um encontro no point. Para Bruna, no entanto, era o dia de mudar o rumo das coisas e o dia de respeitar o que verdadeiramente sentia.

Nos envolvemos na história através de uma DR que há muito tempo espreitava o relacionamento das duas. Entremeado às memórias de Bruna, o encontro mostra como a resposta pode estar na nossa frente, mas, por influências externas, postergamos dar o primeiro passo.

É um curtaconto sobre entregas e sobre tomar decisões em respeito aos próprios sentimentos, acima de qualquer opinião. Olívia nos entrega uma narrativa leve e dinâmica, ótima para curar ressacas literárias!



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sexta-feira, 24 de julho de 2020

Resenha: "Os Blues Que Não Dançamos" (Franck Santos)


Por Kleris: 
“Será que inventei você? Será que inventei esta história? [...] Sinto-me uma ilha dentro desta Ilha onde moro. Contudo, sei que somos raros. Raros.”

Os Blues Que Não Dançamos é uma noveleta de inquietações que nos envolve no romance à distância de Bento e Pedro. Eles se conheceram em aplicativo de relacionamento e estenderam a relação para troca de e-mails. Pedro dizia que era por ser avesso a redes sociais. Bento, por outro lado, sempre sonhador e esperançoso, fica a mercê das escolhas do outro e de suas escassas informações. 
Estou aqui nesta casa em obras, mas me vejo caminhando pelas ruas noturnas e despertas da sua cidade; da sua cidade, Pedro, da metrópole onde moras. Você me compreende? Diga que sim, abra espaço em você para o meu desejo.

Adentramos na história pelo ponto de vista de Bento, através de seu fluxo de pensamento, sempre carregado de devaneios, fantasias, planos e expectativas. A narrativa, porém, se guia por recortes temporais: um “antes” e um “depois” de uma viagem combinada para se encontrarem em Goiás, numa cidade no meio do caminho de suas residências (Bento, da grande ilha de São Luís, e Pedro, de São Paulo).

Entre lacunas e delírios, o enredo vai costurando seus mistérios e nos agraciando com crônicas poéticas desse amor sempre à espera de mais. É inevitável torcer por Bento e seus anseios; bate forte a questão da responsabilidade afetiva. Mas quando conhecemos o outro lado da história, repensamos todos nossos julgamentos. Ainda mais quando a significância do título se faz valer.

Este é meu primeiro livro do Franck Santos e com certeza a porta de entrada para muitos ♥️ Sua escrita flui maravilhosamente bem, envolve bem, cativa.

As referências de músicas e livros são um encanto à parte. Vamos de Clarice, Guimarães Rosa e Caio Fernando de Abreu a Gal Costa, Marina Lima, Nina Simone, dentre outros. 
Este disco me transporta para uma época em que se acreditava num futuro, futuro esse que acho que chegou conosco. A música tem esse poder, essa magia de máquina do tempo. Infelizmente, ela não transporta corpos, apenas a mente viaja.

A leitura traz muito da nossa realidade, de romances virtuais, de escapes, de resistência. É um livro curto, porém, para ser sorvido como quem aprecia um bom vinho: no seu tempo. Ótimo para você que busca uma história despretensiosa, mas que arrebata e que deixa uma ressaca gostosa com dignos blues.

De bônus, tem um posfácio da Lindevânia Martins que, junto à edição maravilinda da Editoria Moinhos, é um presente ao leitor *---* O colofão, então, inesquecível! 
Quanto tempo dura uma lembrança?

Fica o convite, tanto pelos blues em vinis, quanto pela história de um grande amor!




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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Resenha: “Enfim, Capivaras” (Luísa Geisler)


Por Kleris: Se prepare para a caçada mais épica desse Brasil! 
Porque se você mora na Chapada do Pytuna, precisa tomar a iniciativa e criar a aventura.

Em Enfim, Capivaras, uma turma de garotos e garotas se unem para pegar o mentiroso da escola no pulo. No caso, Dênis – também conhecido como Binho. Não importa a situação ou contexto, Binho tem essa mania de grandeza e de mentiras sobre coisas que ele tem, conhece ou já viu. Até então era difícil comprovar informações soltas ou pouco palpáveis (como ter conhecido o Faustão), mas quando ele diz que tem uma capivara de estimação, a galera se reúne pra ir lá visitar o animal. Assim, só aparecer na porta da casa dele e ver até aonde essa lombra iria. 
Porque, como nossas próprias mentiras, a gente quer que seja verdade.

Para a surpresa de zero pessoas, Dênis conta que Capi, a capivara, fugiu. Surge a ideia então de ir atrás dela, afinal, não deve ter ido muito longe. Até porque a cidade, Chapada do Pytuna, no interior de Minas, também não era muito grande. E assim, com o carro de Léo, munidos de salgadinhos, bolos e bebidas, eles seguem à procura de Capi. Ou da verdade. Ou da justiça pelas merdas que Binho dizia por aí, interferindo na vida de tantas outras pessoas sem qualquer responsabilidade. 
Olhamos pra Vanessa e erguemos o mapa de leve. Ela faz que não com a cabeça (acelerado, vídeo acelerado), enquanto Nick dobra o papel e enfia no bolso. Vamos entrar no mato atrás de uma capivara potencialmente roubada, vamos no sentido contrário da civilização, que na verdade não é civilização, às dez da noite. Nenhuma ideia parece boa e essa é a pior de todas. Abro um sorriso.

Esse é um livro que você não vai querer largar até encontrar todas as respostas. É também um livro bem vapt-vupt, de uma sentada só, sincerão. Embora curto e rápido, é hiper rico de histórias, detalhes, identidades. E uma das coisas mais legais – além de sua premissa – é como a história é contada.

Acompanhamos a empreitada em um espaço de 12 horas e em tempo real com vários pontos de vista: de Vanessa, a garota da cidade grande que se mudou recentemente para o interior; Nick, a garota de um espírito aventuresco que luta para encontrar um encaixe no mundo; Léo, o garoto de pai fazendeiro (e rico), que deveria andar na linha; e Zé Luís, o filho da empregada da casa de Léo, um companheiro que vive à sombra do amigo. 
A gente está assim. A gente é assim. Neste momento.

Cada um tem motivações, vivências e segredos que marcam a experiência confusa da adolescência. Isso facilmente nos lembra do clássico Clube dos Cinco que repercute até hoje em diversas séries e filmes, mas o plus aqui é que a gente se conecta à trama de uma maneira nada americanizada. É aquela cidade pacata, pequena, buraco de meteoro, quente pra dedéu, sem vento algum e bem comum dessa terra e de muitos brasileiros. Ao retratar o ambiente interiorano, nossa linguagem e nossas peculiaridades, sentimos o quanto a história é crível. Aliás, é ótimo ler algo assim, tão nosso, tão a gente, tão verdadeiro. 
— Não sei se é seguro ficar parado aqui na estrada — diz Nick, enquanto olhamos para Dênis.
— É — diz Zé Luís. — Alguém pode querer nosso minduim.
— Sei lá — ela diz —, é que escureceu. 
— Outro Gusmão que não bate bem é aquele primo dele — digo —, que tem a esposa alcoólatra, que bebia até perfume, lembra?
— É — Nick começa a sentar no chão —, mas isso foi depois que o pai dela teve um AVC e tal, não dá pra dizer que...
— Posso terminar minha história? — interrompe Dênis.
— Ah — eu rio. — É mesmo.

O que move a narrativa (e faz suas páginas voarem) são os diálogos; as interações são tão naturais que podemos nos ver ali, reconhecer outras pessoas e voltar alguns anos de nossa própria história de crescimento. Eu, pelo menos, revivi um pouco dos anos 2000, as picuinhas de turma, as modinhas, os privilégios sobressaltados, lembrar das companhias, da conveniência escolar, e ver um pouco da porra da vida de todo mundo. Todos tivemos um amigo x, y, z da trama, e todos guardamos histórias escabrosas da época da escola. É a temporada mais traumática da vida, mas é um tempo que a gente não pira sozinho. 
— Acho que tá na hora de ir pra casa.
— Espera — diz Nessa. — A gente não vai resgatar o tamanduá?
— Resgatar o quê? — digo. — A gente sai pra catar uma capivara e quando vê tá cagando com a vida de outro bicho da fauna brasileira. Deixa pra lá.
— “Outro bicho da fauna brasileira...” — Léo diz, rindo.

Nesse contexto, Luísa lança as cagadas dos personagens ao leitor para que tire suas conclusões. Identidade, percepção de realidade e refúgio são temas fortes e que incitam conversas importantes, assim como quebras de tabus. Para tal, ela se utiliza de muitas conversas do grupo e conversas internas para mostrar as situações e acho que essa foi uma das melhores escolhas de como nos presentear a história. Sua intervenção entre os capítulos, com listas regressivas paralelas à trama, também se revela um grande acerto para a narrativa. 
11 motivos pelos quais Zé Luís está junto nessa bagunça11. Porque, por algum motivo, ele sempre está junto nessa bagunça. Por ser o Filho da Empregada, cargo oficial, sempre tem que ajudar. Ele ajuda a mãe a terminar mais rápido, a secar a louça, a dobrar a roupa. Ajudou com a mudança entre os apartamentos caros da família, ouvindo sobre como cada custava dois milhões. Ele ajuda Léo com os deveres de casa desde suas primeiras dificuldades com frações.

E assim ela vai do humor ao drama, do simples ao complexo e do banal ao pesado em poucas linhas – palavras até. Nelas, trabalha-se bastante esse senso de liberdade, de ser e apenas ser, de sair da linha, de fazer merdas, de se procurar, de encontrar apoio no outro, tudo junto e misturado. A sensação que fica é que precisamos de mais livros verdadeiros e sincerões como esse. 
Por mais que seja extrovertida — voltada para fora —, se sente mais introvertida — voltada para dentro. Ela se sente uma silêncio-vertida. E precisa esconder isso. 
— A gente vai trocar um lugar real, que a gente tá vendo por uma fazenda imaginária onde tem capivaras? — diz Dênis. — Vocês tão bêbados?

Enfim, Capivaras é assim uma leitura certeira para aquela viagem de busão ou trem rumo ao interior. É criar a aventura quando a aventura não vem até você. E é excelente para curtir tardes chuvosas, aproveitar intervalinhos de aula, curar ressacas literárias e mandar a censura ir à merda por querer abafar uma preciosidade dessas (reveja o caso aqui). Vale lembrar também de ler a entrevista com a autora no final, uma novidade da editora Seguinte para os seus últimos lançamentos <3

E, claro, recomendadíssimo!

Semelhante à obra anterior de Luísa (De espaços abandonados; reveja resenha aqui), perguntas ecoam. A diferença é que um livro nos deixa aos berros alucinada e o outro rindo loucamente. Deixo com você pra descobrir essa. 
— Eu nunca moraria num lugar sem McDonald’s — digo. — Não por não poder ir ao McDonald’s, mas pelo que isso significa, sabe? Se não chegou McDonald’s, o que mais não chegou?

Até a próxima!



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Resenha: "Pequenos contos para começar o dia" (Leonardo Sakamoto)


Por Kleris: Leonardo escrevia microcontos no Facebook para os amigos e suas historietas – todas inspiradas em alguma experiência jornalística – tiveram incrível repercussão. O livro nasceu daí, uma maneira de registrar histórias do povo, histórias de uma geração, ficção e realidade, e abrir nossa percepção diariamente. 

Primeiro, foram os nomes dos netos. Depois, a literatura que amava. E ela foi se despindo na frente de todos. Foi estranho, mas o Alzheimer lhe concedeu o direito a uma só lembrança. O que é forte o suficiente para vencer o vazio?


As narrativas são variadas, assim como todos os sentimentos envolvidos. Não há um norte, nem um tema direto, senão esse convite a enredos rápidos. É um livreto de doses literárias para serem bebidas pouco a pouco. Leituras pausadas como esta são uma ótima garantia de companhia, seja para começar o dia (como o livro propõe), seja para respirar entre uma e outra coisa da vida corrida.

Nem todos os contos são 10/10. Tem aqueles que te tocam profundamente, tem aqueles que te levam à reflexão imediata e aqueles que “passam passando” – vai da história de vida e da sede de conhecimento do leitor para abraçá-los. 
Quando ficava de cama, seu pai trazia um velho livro cuja últimas três páginas haviam sido arrancadas. Então, ela se aninhava em seus braços para inventarem juntos o final. Na gripe, a princesa fugiu do castelo e foi ser repórter. Perna quebrada: deixou o príncipe em casa cozinhando e saiu com as amigas. Amídalas? Juntou-se a outras e mudaram o mundo. Ontem, já crescida, foi comprar o primeiro livro para a filha. Escolheu com carinho, arrancou as três últimas páginas e, sorrindo, pediu: “para presente”.

Mas é certo que algumas histórias ficam cá conosco e precisam de bandeirinhas para marcar seu lugar no livro. Não à toa as melhores partes ficam exato no meio, pois é comum que Leonardo lance os cenários e nos arrebate nas frases finais, bem centralizadas nas páginas.




É pra você que procura leituras que não precisam de grande imersão, que pode passar dias sem ler e não se perder. Cabe na bolsa e pode ficar bastante tempo na cabeceira. 
Largou tudo. Comprou um sítio. Produz morangos. Tem cachorro. Vive um amor. E perdeu o medo de usar o ponto final. 
E juntos descobriram que, na verdade, os biscoitos não estavam vazios.

O livríneo me lembra bastante de Recorte! da miga Talita Guimarães – quem me presenteou ♥️ Aliás, recomendadíssimo para dar de presente!


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Até a próxima!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Resenha: "O que será: a história de um defensor dos direitos humanos no Brasil" (Jean Wyllys e Adriana Abujamra)

Por Thaís Inocêncio: Em pouco mais de uma década, Jean Wyllys passou de uma das pessoas mais amadas para uma das mais odiadas do país. Em 2005, o então professor universitário participou da quinta edição Big Brother Brasil e foi escolhido pelo público como o grande vencedor do reality show, desbancando Grazi Massafera e levando para casa o prêmio de um milhão de reais. Treze anos depois, em 2018, após dois mandatos como deputado federal, decidiu deixar o Brasil devido às recorrentes e cada vez mais graves ameaças de morte. 

Neste livro, Jean apresenta sua trajetória em três partes, e em todas elas ele demonstra não só com opiniões, mas também com fatos, o quanto a homofobia influenciou sua vida e afetou suas decisões, inclusive e principalmente a de sair do país. 
"Homossexualidade não é crime nem pecado, tampouco doença, é apenas uma expressão do amor e da sexualidade, como qualquer outra. Assim como ter cabelo preto ou loiro, liso ou crespo, ser baixo ou alto. Somos diversos, essa é a beleza da vida."
Na primeira parte, ele fala da infância na periferia rural de Alagoinhas, cidade localizada no interior da Bahia, e conta como são suas relações familiares. Nesse trecho, ele revela que era desprezado pelo pai por causa do seu "jeitinho" e que foi chamado de "viado" pela primeira vez aos 6 anos de idade.

Na segunda parte, a maior do livro, Jean fala sobre sua carreira política. Ele foi eleito pela primeira vez para a Câmara dos Deputados em 2010. Em seguida, foi reeleito como o sétimo mais votado entre os candidatos do Rio de Janeiro. Mesmo com essa popularidade nas ruas, ele enfrentou muitas barreiras dentro do plenário, ocupado majoritariamente por homens brancos, declarados héteros e fortemente ligados à religião. 

Durante os dois mandatos, Jean priorizou os interesses dos pobres, dos negros, da população LGBT e das mulheres, defendendo pautas como as cotas raciais, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização do aborto. Tudo isso, somado ao preconceito, rendeu-lhe alguns inimigos, que tentaram desacreditá-lo com fake news, alegando que ele era intolerante religioso e até mesmo pedófilo. 

Ao longo dos oito anos como deputado federal, Jean lutou contra essas mentiras, levando muitos casos à justiça, até que suas forças se esgotaram. O estopim foi o assassinato da vereadora Marielle Franco, companheira de partido e amiga do deputado. Diante desse fato e das crescentes ameaças que recebia em nome dele e da família, Jean passou a andar sob escolta policial. Em 2018, ele foi reeleito para o terceiro mandato como deputado, mas decidiu não tomar posse e ir morar na Alemanha, o que ele explica com detalhes na última parte do livro. 

Quem já ouviu entrevistas e discursos de Jean, conseguirá reconhecê-lo facilmente nessa obra. Ele fala com orgulho de sua orientação sexual, não poupa nomes nem adjetivos ao se referir a seus adversários e defende suas ideias com veemência. Em determinados trechos dessa autobiografia, ele pode soar arrogante, mas essa é apenas a postura adotada por alguém que sofre ataques cotidianos. Embora não seja mais um representante da sociedade no Congresso, onde quer que esteja vivendo, Jean segue como uma referência na luta pelos direitos humanos.
"Minha presença no Congresso era importante porque representava setores da sociedade que não têm voz, mas minha intervenção política não depende disso, nunca esteve restrita a esse lugar." 
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Resenha: "Velhice transviada: memórias e reflexões" (João W. Nery)

Por Thaís Inocêncio: Quando nascemos, nos é atribuído um dos dois gêneros: feminino ou masculino. No entanto, o modo como nos identificamos pode ou não concordar com essa atribuição. Hoje em dia, as pessoas que se identificam com o gênero atribuído no nascimento são chamadas de cisgêneros; já as que assumem uma identidade oposta ao gênero de nascimento são chamadas de transgêneros. Vale ressaltar que essa identificação em nada tem a ver com nossos aspectos físicos, por isso uma pessoa trans pode ou não passar por cirurgia de redesignação sexual, por exemplo. 

Dito isso, surge uma pergunta: você já parou para pensar que a velhice é um privilégio das pessoas cisgêneras? Já percebeu que, por conta do mundo preconceituoso e intolerante em que vivemos, as pessoas trans não tem direito à longevidade? Abrir os nossos olhos para essa realidade é o objetivo do livro Velhice transviada, de João W. Nery. 
"Dedico este livro às pessoas trans, sem voz, às mais invisíveis para a sociedade [...], sobretudo, às que não tem direito à insolência da longevidade, por morrerem assassinadas, ainda prematuramente."
O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor fala brevemente sobre a sua vida e experiência como o que ele chama de "transvelho", já que ele escreveu a obra aos 68 anos de idade (informações mais detalhadas sobre a sua trajetória podem ser encontradas na autobiografia Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois). João Nery é considerado o primeiro transgênero masculino a passar por cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos, em plena ditadura militar, quando esse procedimento ainda era proibido. Para isso, ele precisou passar por uma "morte social" e iniciar uma nova vida, com outro nome e documentos, perdendo seus registros anteriores, como seu diploma de psicólogo. 

Ao ler sobre essa experiência, percebemos como o machismo existe em todos os espaços, inclusive entre a população trans. Se uma pessoa nasce "mulher", mas se identifica como homem, a partir do momento em que ela tira a mama e os hormônios lhe garantem barba e voz grossa, por exemplo, ela consegue se camuflar na sociedade, ainda que também enfrente muita dificuldade no caminho. Porém, uma travesti ou mulher trans não consegue essa invisibilidade e carrega consigo grandes marcas físicas e psicológicas da violência e do sofrimento. Ainda assim, é graças às pessoas que se expõem e se rebelam que houve algum avanço na conquista de direitos para essa comunidade. 
"A gente escondida não muda nem transforma nada, não abre caminho para ninguém".
Para comprovar a ideia de que os transvelhos são uma raridade, o autor traz dados alarmantes. Um deles é de que a média de vida de uma travesti é de 35 anos de idade. Além disso, em números absolutos, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo – e mata três vezes mais que o segundo colocado, que é o México. Quando não são assassinadas, o preconceito, o afastamento da família e a falta de espaços levam as pessoas trans a tirarem a própria vida. 
"Quando alguém transiciona, a família também passa a ser cobrada, questionada pelos parentes, vizinhos. Muitas não suportam a pressão e acabam expulsando seus filhos e filhas de casa. [...] A rua é o maior sofrimento para qualquer pessoa."
Na segunda parte do livro, o autor transcreve entrevistas com os poucos transvelhos que conhece. São relatos crus e impressionantes da jornada que enfrentaram para chegar à velhice. Nesse ponto, João Nery revela uma realidade que ele diz ser comum e pouco falada (e que me chocou bastante): a destransição na terceira idade. Isso significa que algumas pessoas assumidas trans por anos, quando se tornam idosas, retomam as características físicas do gênero de nascimento para terem direito à tratamentos de saúde, conseguirem empregos formais e até serem novamente aceitas pela família, tendo quem cuide delas nessa fase mais delicada da vida.  
"Pense comigo: veja nossa sociedade, os preconceitos, e imagine um corpo envelhecido de uma travesti, cheio de silicone caído, deformado, vendendo um picolé na rua. [...] Seria uma chacota, seria humilhada. Me desmontar foi uma forma de defesa, de me proteger."
Esse livro é curto (menos de 200 páginas) e tem uma linguagem simples, mas apresenta realidades cruéis, questões necessárias e nos faz refletir muito. É um soco no estômago, principalmente, de quem não ocupa o lugar das pessoas trans e, por isso, não costuma pensar sobre a dificuldade que é viver de acordo com a sua verdade só porque ela não é socialmente aceita. Nessa obra, João Nery nos mostra, com muita sensibilidade, que a diversidade existe e nosso único dever é respeitá-la. 
"Todos nós nascemos gente, o resto são rótulos."

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domingo, 12 de janeiro de 2020

Resenha: "Cinco Júlias" (Matheus Souza)

Por Thaís Inocêncio: Como sua vida ficaria se todas as mensagens que você trocou de maneira anônima nas redes sociais fossem reveladas para o mundo todo? Aquele WhatsApp em que você fala mal da sua amiga, aquele nude que você mandou pro contatinho, aquele e-mail em que você revela que odeia seu chefe. Imaginou a catástrofe? É esse o cenário de Cinco Júlias, o livro mais divertido que li em 2019.⁣⁣

Neste livro, hackers invadem as redes sociais de todas as pessoas e divulgam todo o conteúdo na internet. Para encontrar as mensagens de alguém, basta digitar o nome da pessoa num campo de busca. Fugindo dos conflitos que isso causou, cinco meninas chamadas Júlia decidem sair do Rio de Janeiro e seguir até São Paulo, numa viagem que resulta em muitas descobertas sobre as relações pessoais e, principalmente, sobre si mesmas.⁣

"A partir de hoje a gente não vai depender de mais ninguém pra ser feliz além de nós mesmas. E vamos saber o valor de uma boa parceria apesar disso, porque a vida sozinha é uma bobagem."

Cada capítulo é narrado por uma das Júlias, que são nomeadas de 1 a 5. Se alguém me dissesse que cinco autores diferentes escreveram esse livro, eu acreditaria, de tão potente que é a escrita do Matheus Souza. Originalmente, Cinco Júlias foi criado como um musical para o teatro, mas o roteirista conseguiu fazer uma bela adaptação para o livro. Ele consegue criar jovens muito reais e com personalidades bastante diferentes, por isso o fato de os nomes serem iguais não causa nenhuma confusão na leitura. ⁣
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Além disso, ele traz inúmeras referências da cultura pop, principalmente dos anos 2000 (a era emo) até agora, citando seriados como Greys Anatomy – e todos os outros criados pela Shonda - e cantoras como Iza, Marília Mendonça e a rainha Taylor Swift. A obra também apresenta muitas músicas que eu, particularmente, não conhecia (a maioria delas indicada pela Júlia 5) e que fizeram da minha leitura uma experiência completa.⁣
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Aqui temos um livro que traz muitos e bons ensinamentos para os jovens de hoje. Ele discute sobre amizade, sexualidade, depressão, suicídio, amor-próprio e, sobretudo, a (má) influência da tecnologia na nossa vida. Tudo isso com doses cavalares de humor (sério, eu gargalhei várias vezes). 

"Na vida, a coisa que mais importa são as conexões que a gente faz com as outras pessoas."

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Resenha: "Vida Decifrada" (Jam Belfort)

[V]ocê já teve a sensação de que a vida está tentando te dizer algo?
[I]sso pode parecer estranho, mas talvez ela esteja, mesmo.
[D]igo isso porque foi esta a exata sensação que Marcos teve.
[A]pós alguns acontecimentos supostamente banais, ele percebeu que a vida tinha deixado pistas, escondidas nas coisas mais simples que lhe aconteciam.
[D]esde então, ele passou a prestar mais atenção em tudo.
[E]le, porém, não contava com um detalhezinho belo, perfeito e cativante...
[C]erta menina tinha cruzado seu caminho, e ele, claro, se perdeu um pouco.
[I]sso e o fato de sua baixa autoestima teimar em querer sabotar tudo...
[F]elizmente (ou não) ele tinha a ajuda de seu um-pouco-atrapalhado melhor amigo.
[R]esolvi contar a história dele pois ela se parece um pouco com a minha.
[A]credito que também com a sua, pois todos buscamos achar o sentido da vida.
[D]eixo uma dica, caso queira embarcar nessa jornada:
[A]bra bem seus olhos e ouvidos. 
Pode ser que tenha nas estrelas e planetas algum código secreto. Uma combinação. Um ritmo. Um senso de direção.

Por Kleris: Marcos é um jovem estudante gamado em informática e, surpreendentemente, crônicas. Ao descobrir a esteganografia, a arte de esconder mensagens em coisas banais, sua vida se abriu para novos sentidos. Correlacionar fatos e coincidências se tornou seu novo hobby, isso até as coisas fazerem sentido demais. Ele entendeu que precisava seguir as pistas, cada vez mais sutis e claras em sua cabeça.

Foi assim que, durante as férias, conheceu Simone Letícia na biblioteca do bairro. A paixonite somada a seu hobby logo virou uma bola de neve de investigações (e investidas e mentiras) para conquistar a menina. Mas brincar com sentimentos não era o mesmo que brincar com pistas. 
A gente sempre deixa pra depois.
O que será que está nos fazendo deixar pra depois? 
Não costumo também me dar bem nessas coisas de amor. Sou destro e meu coração fica do meu lado esquerdo.

É isso que nosso narrador faz questão de pontuar. Conversador todo, nos entrega também a história de Alex, melhor amigo de Marcos, que, após a perda dos pais, revisita memórias em busca de significados e novos caminhos. Apesar da tragédia, Alex nos parece ser aquele alívio cômico, mas nele encontramos os mais nobres sentimentos e a vontade de abraçá-lo toda vez que aparece. 
— Com certeza não vai faltar inspiração — respondeu, com um tom orgulhoso no olhar e na voz.
— Eu causo isso nas pessoas.
— Não, Alex. Encontrei algo interessantíssimo. 
Alex queria uma cesta para seus pensamentos, que pareciam espalhados feito suas folhas de caderno.
Tem dias que esperamos apenas por um abraço que grampeie nossas folhas soltas.

Mas em @vidadecifrada nada está ali por acaso. Permeado de símbolos, códigos e pistas escondidas, a ficção juvenil fala das conexões que fazemos – desde amigos, família e coração, a pensamentos, objetivos e desafios. Jam faz tudo ser tão quase absolutamente decifrável, o que aguça nossa percepção e nos deixa até paranoicos com tantas correlações. Tem pista espalhada até mesmo pela diagramação para os olhos mais espertos. 

 

 


meu graaande amigo, tal qual a outra obra de jambelfort:


Página 188 com indicação do CVV
(Centro de Valorização da Vida)
  
 

Que oportunidade, guri! Ainda não acredito que você não fez nada para ajudá-la! Mas te entendo. Alguns sorrisos têm a função do controle-remoto de nos pausar... 

Acho que o desânimo do rapaz me atingiu...
Limito-me a narrar que ele ainda estava deitado na cama, seguindo com os olhos um fio que tinha por rumo o teclado do computador. Ao lado, olhou o cartão de Simone. O mouse escapuliu da mesa e ficou pendurado por seu cabo, num movimento hipnotizador.

O narrador, claro, é o condutor que faz toda a diferença. Prático e não menos carismático, ele nos envolve fácil nas tramas de maneira a trabalhar a identificação, senão a empatia. Em algum momento da vida já fomos Marcos, Alex, Helena, Simone e até Ricardo. Mas Jam é o engenhoso que prende nossa atenção e faz desta uma deliciosa leitura, de infinitas sacadas e infinitas epifanias. Aliás, conversar com o autor garante sempre uma nova descoberta. 
O livro só fará sentido se lido até o final. E quando relido, feito mágica cada detalhe se iluminará. 
Talvez o segredo por trás do sabiá na lápide seja o próprio sabiá na lápide. Talvez o sentido seja as próprias coisas. Não o que elas podem nos oferecer, mas simplesmente o que elas são.

E sua ousadia ainda vai muito além quando nos deparamos com tantas homenagens maranhenses embrenhadas ao enredo. Passam por aqui João do Vale, Ferreira Gullar, Maria Firmina dos Reis, Josué Montello, Gonçalves Dias, Nauro Machado e Cecília Leite. Não deixam de aparecer outros nacionais, como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, e além-mar, como Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.

É por certo um livro multiliterário, pois além de misturar linguagens (romance, crônicas, poesias, java script, html, diagramas, rimas de ideias), traz aspectos transmídias, transmutando partes da narrativa para perfis do instagram como @marcronicas e @musicadomar. Tudo isso sem deixar de ser leve, interessante e genial (meu tipo de livro e com certeza um dos melhores do ano). Recomendadíssimo! 
Eram janelas criptografadas. Dois universos diferentes, sem naves intergalácticas com propulsão suficiente para uma visita pacífica. Por vezes as palavras de um soavam como agroglifos, aqueles gigantescos círculos atribuídos a alienígenas que aparecem em plantações.
Eram um mistério um para o outro.

Meu exemplar faz parte dos raros livros impressos com bordas coloridas (opções de amarelo e azul), mas você encontra tanto o livro físico quanto o digital na loja Amazon. Muito mais curiosidades você também pode ver no site www.vidadecifrada.com.br (aba de conteúdo exclusivo). A senha? Está no livro. 
O que se vê nas ruas, afinal, rostos ou máscaras? 
A vida é boa em inventar enredos, coincidências e reviravoltas. Tenho certo fascínio pelo imprevisto, pela chuva em dia de casamento, pelas coisas inexplicáveis. Deixa tudo excitante e peculiar.

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Até a próxima!

 
Ana Liberato