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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Resenha: "De Espaços Abandonados" (Luisa Geisler)


Por Kleris: Uau. Perplecta estou. Surtada fiquei. E palavras encontrarei, porque preciso falar desse livro.

Conhecido por desafiar os limites da ficção, De Espaços Abandonados nos coloca frente a mais possibilidades de feitura ficcional até então inimagináveis. Luisa tornou possível a formação de um romance em um... romance. E romance esse de formação.

Inception sim. Mas vamos por partes. 
Tudo o que está na terceira pessoa aconteceu. E se sabe que aconteceu porque o(a) narrador(a) é onisciente e confiável. O(a) narrador(a) é sempre confiável. O(a) narrador(a) não mentiria sobre aonde ele vai durante a noite. O(a) narrador(a) pode ver. E tudo o que está na terceira pessoa aconteceu com certeza. Aconteceu porque eu sei que aconteceu.

O enredo retrata a busca de Caio por Maria Alice, sua irmã, que viajou à procura da mãe, Lídia, que fugiu de casa e pelo tempo de desaparecimento, foi dada como morta. Lídia é bipolar, então constantemente Maria Alice e Caio, desde pequenos, assumiram responsabilidades quanto a cuidar da mãe. Ainda nesse papel, Maria Alice jura de pé junto que descobriu o paradeiro de Lídia, em Dublin, e parte nessa viagem.

É pela jornada de Maria Alice que entendemos mais sobre essas buscas, as relações familiares, o que a move (ou não move), seus planos e seu senso quanto ao panorama. Através dela somos levados também a outras pessoas e histórias, já na Irlanda, onde conhece estudantes brasileiros, como Maicou, Bruna e Caetano, com quem divide um apartamento. Todos, pelo jeito, estão tentando dar um jeito na vida. 
Costumava ser a criança que era “uma promessa” e que “tinha futuro” e que “ia dar certo”, mas aí. Sei lá.

O pulo do gato do livro é como o enredo é apresentado ao leitor: são fragmentos que funcionam como pistas para ligarmos os pontos, o que torna a leitura um tanto investigativa e ao mesmo tempo desafiadora, pois esses mesmos fragmentos são pedaços de uma narrativa dentro do próprio livro com múltiplas vozes narrativas. E esses fragmentos são registros e vivências que precisam de nossa costura (como um manuscrito inacabado), algo que não é fácil, mesmo com todas as sugestões no ar e mesmo com o manual que existe dentro do livro. 
“Imigrantes. Todos nós o somos, hoje. Quando a viagem não nos move, é o entorno que nos foge, o que dá no mesmo. Ficamos então parados, com tudo o mais indo, imigrantes a tentar entrar, todos os dias, em nós mesmos.”
Elvira Vigna, O que deu para fazer em matéria de história de amor.

Ler De Espaços Abandonados é se sentir constantemente perdido, bugado (modo HARD), e ainda assim instigado, perguntando-se sobre o que está acontecendo, se o que nos é apresentado vale para todo o contexto, se a narrativa está nos enganando, se a gente está no paralelo certo, qual é o sentido do rolê, e, claro, uma busca alucinada sobre o destino dos personagens. Como já disse a própria autora em entrevistas, é um livro esquisito e de leitura esquisita.

Isso quer dizer que o livro demanda um pouco de seu leitor. Por quebrar e reconstruir o script de um romance, pede-se um leitor mais experiente, mais solto e disposto a sair da zona de conforto. E que saiba inglês também, porque há conversações e referências quando vivemos com os imigrantes. Quem tem alguma experiência com escrita criativa pode ter umas vantagens – vai se situar melhor, entender as razões de algumas coisas e, por que não, se identificar nas mil e umas anotações.
dfghjkl.rtf
O dia em que Brasileiro desembarcou na Irlanda era verde com cheiro de cerveja. As pessoas se abraçavam. As pessoas sorriam muito. Bebia-se muito nas ruas. Cantavam. O rio que cruzava a cidade estava pintado de verde. As pessoas bebiam, lotavam os pubs e celebravam nas ruas. Dublin era o melhor lugar do mundo. 

Sempre que menciono exploração urbana — uma expressão estranha, que me desagrada, que requer explicação —, muita gente fala que gostaria de fazer. Mas nunca chegam a realizar o desejo. Como escrever um livro, todo mundo acha que deveria fazer. Todo mundo acha que tem que fazer. Ou isso ou todo mundo está escondendo lugares bons (na literatura e nos lugares abandonados).



Tal qual um jogo narrativo, nossa percepção é posta à prova. Mesmo com toda a visão privilegiada que Luisa nos permite, esse é um quebra-cabeça em que não conhecemos as “peças da ponta”, pelo menos não até terminar o livro e ficar só BERROS pela ficha que cai. 
O landford não vai aprovar essa merda. Vai sobrar pra mim, pra variar.
Fiz carinho em Taco Cat.
É um gatinho, não um rinoceronte festivo. Como ele vai saber?
Eu me sentiria mal mentindo para ele.
Eu dei uma gargalhada forçada:
Mas moram três pessoas a mais nesse apartamento do que o contrato prevê. E o gato é o que te incomoda?

Dividido em três partes, temos diversos paralelos enquanto a história está sendo construída na nossa frente. Para além de Maria Alice, Maicou e Bruna são dois personagens que facilmente roubam a atenção e Caio é aquele à espreita, com um lugar cativo na narração. Mas o mais curioso é que no meio de tanta voz, Luísa joga umas pistas e depois desfaz, o que quebra umas teorias e nos deixa desconfiados pensando demais.

Já a ambientação e o contexto em que somos inseridos, esses são pontos sensíveis para a compreensão do título. Fala-se muito sobre se perder, se abandonar e as relações que construímos ou desconstruímos no meio do caminho, estando parados ou não. Luisa é maravilhosa em nos mostrar isso.

Obviamente, o tom do texto assume uma melancolia constante para demonstrar essa falta de norte ou foco. A questão da imigração cai como uma luva, mas é interessante que Luisa não se prende a amarras comuns (e quanto a qualquer coisa). Quer dizer, não há qualquer exaltação ou romantização, seja sobre viver fora do país, seja sobre relacionamentos ou aspectos mais pessoais de seus personagens. Essa banalização e desprendimento também revelam um pouco de depreciação, o que não sei dizer se faz parte do estilo da autora ou se é um caso em particular, vez que essa é a primeira obra dela com que tenho contato (e com certeza lerei outros). 
Lembrem que vocês são brasileiros, tá?, eu disse.
Tipo os nossos cuidam dos nossos?, o bosta disse.
Não, eu disse. Vocês são brasileiros. E tem muito brasileiro por aqui. Vocês também são. Só isso. 
Sempre discutiam a respeito do termostato na parede. Matildo queria economizar eletricidade. Caetano achava que não tinha que tremer de noite. Que comprasse um cobertor. Caetano jogou dinheiro na cara de Matildo. Matildo disse que ia usar para pagar a parte do aluguel de Caetano, que sempre estava atrasado. Um dia a capinha do termostato caiu. Ele não estava conectado a nada. 
— Então só sobra uma saída pra você — ela disse. — Cê tá fugindo de algo.
— Se fosse pra fugir, é uma fuga meio cara, não é? Meio playboy magnata cheio da grana que vai desopilar na Europa.
— Vontade de fugir não é um luxo. É uma vontade. Só.

Por vezes o ritmo do livro diminui, e os fragmentos parecem incongruentes, aleatórios e até mornos, mas terminamos a leitura sabendo que estava tudo no lugar. Luisa nos entrega uma obra original, madura, pretensiosa, excepcional e que abre novos precedentes para a ficção e seus experimentalismos. Uma certeza que se tem é que, entendendo ou não entendendo o rumo ficcional, seremos geislerados. Eu estava no caminho certo quando ainda decifrava sua capa. 
Branco no azul no azul no branco com azul sob o azul.
Mas são só cadernos em branco. Sempre é só papel. 
Passei tanto tempo na minha cabeça que tinha desenvolvido um novo nicho/camada de humor que ninguém no mundo real, em que as coisas aconteciam, entendia.

E talvez eu precise reler. Porque perguntas e respostas e novas perguntas continuam ecoando aqui dentro.
Ou isso. 
Ou.

*Não preciso dormir. Preciso de respostas.* 
— Não é estranho como a gente fica constante e continuamente numa conversa mental com a gente mesmo? — Bruna disse para ninguém em específico. E tanto me sentia como ninguém em específico que me apaixonei por ela. 
Mas a verdade é que todos os livros são sobre criação literária, não é mesmo?

Fica ainda a dica de ouvir um episódio do Podcast 30Min dedicado ao livro e uma entrevista da autora no Programa Folhetim, para se embrenhar mais nessa viagem toda que é De Espaços Abandonados.

Recomendadíssimo se esse tipo de proposta também te fascina.

Até a próxima!

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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

#Lançamento: Encontro - Um Conto do Clube do Livro (EBOOK GRATUITO)

Curtaficção de estreia de Kleris Ribeiro será lançada pelas plataformas PagSocial e PayWithATweet

Imagine poder vivenciar um encontro de leitores a qualquer hora. E, além disso, descobrir que uma experiência literária pode ir além do folhear de páginas. É isto que a escritora Kleris Ribeiro nos faz experimentar em Encontro – Um conto do clube do livro, sua curtaficção de estreia, lançada virtualmente neste novembro em formato ebook pelas plataformas PagSocial e PayWithATweet – onde leitores “pagam” com um compartilhamento em suas redes sociais, como Twitter e Facebook, para ter acesso ao conteúdo.

Baseada em experiências dentro do Clube do Livro Maranhão, a história do conto transita entre diversos personagens – clubistas, pessoas que ainda não conhecem o projeto e pessoas que nunca imaginariam ter um contato mais íntimo com a leitura. Cada um deles traz uma vivência singular em um “dia de clube”. O próprio encontro é assim descrito pela autora, que lança mão de sentimentos e emoções para transformar a experiência do clube em palavras.

“São pessoas diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas,
curiosas o bastante para ir além da leitura.”

A cada linha e a cada personagem, o leitor é tomado por uma onda de identificação. Talvez ele se veja na Bárbara, mandando mensagens para convidar os amigos para o encontro. Ou quem sabe se identifique com a Petra, mãe de André Paulo, que não resiste à curiosidade e visita o clube pela primeira vez. O André, é claro, acompanha a mãe. E aqui, de forma sutil, a ficção se alinha à realidade e mostra que os clubes de leitura são um espaço para todos.

”Ao levar informações e reflexões, os leitores podem se sentir acolhidos, sabendo que eles também são protagonistas de suas histórias e podem contribuir muito na história de outras pessoas", descreve Kleris, que foi assertiva ao homenagear o Clube (de qual participa) na obra, além de dar holofotes aos clubes de leitura presenciais. ”Saber que esses espaços de troca existem pode incentivar mais a procura e participação de leitores”, completa.

Para clubistas, a curtaficção é uma forma de reviver a mágica do clube a qualquer instante. Para os navegantes que ainda não embarcaram na primeira viagem, o ebook adocica as expectativas e não deixa o leitor perder o navio. E para quem ainda não conhece o Clube do Livro Maranhão, a historieta é uma excelente oportunidade de adentrar a este incrível e extraordinário universo

Encontro - Um conto do clube do livro será disponibilizado exclusivamente entre os dias 14 e 25 de novembro, de forma gratuita no PagSocial e PayWithATweet. Para conferir o lançamento virtual, acesse http://bit.ly/EbookClube


SOBRE A OBRA E A AUTORA

“É envolvente, reflexivo, sensível e muito verdadeiro em retratar as diferentes perspectivas da literatura, da leitura e das relações humanas.” Talita Guimarães – autora de Vila Tulipa e Recorte!

Uma experiência literária pode ir além do folhear de páginas – é o que promete um “dia de clube”. Descubra neste conto como uma simples reunião pode fazer diferença na sua história.
A conversa nunca é só sobre livros, é sobre a vida.

Kleris Ribeiro é beletrista, produtora cultural, redatora, social mídia, leitora e diretora no Clube do Livro Maranhão. Escreve para o blog @dearbookbr e no IG literário @textosdecapa.

LANÇAMENTO
ENCONTRO  UM CONTO DO CLUBE DO LIVRO
Autoria: Kleris Ribeiro
Gênero: Ficção, Conto, Drama, Contemporâneo.
Temáticas: Leitores, leitura, clube de leitura, relacionamentos.
Ebook independente, 32 páginas.


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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Resenha: “Amor próprio” (Camyla Silva)


Por Kleris: Tem um tempo que procurava uma leitura mais relax para uma temporada de ressacas e esse livro, em sua simplicidade, foi determinante para um descanso. Me chamou atenção pelo título e pelas temáticas que a sinopse entregava, embora a capa fosse um pouco contrastante (uma pessoa que demonstra uma “beleza padrão”).

A trama conta a trajetória de vida de Maria Alice, uma garota que passa pelas problemáticas da vida sempre se colocando por último ou não se sentindo suficiente, uma insegurança natural que todos temos. A sinopse apresenta a ideia de pessoas tóxicas, mas não as vi. Pessoas babacas, sim. Pessoas que tiravam proveito e iam embora, mas não seguravam a personagem em relações abusivas (talvez uma personagem, mas tenho algumas dúvidas). 
Letícia. Marisa. Papai.
Para mim, eram como personagens, criaturas distantes e fictícias das quais eu só ouvia falar. 
Sentia-me uma estranha dentro do meu próprio quarto. 
O que esperar de alguém que não te conhece e resolve comprar uma roupa pra você? Um desastre!

Vi também (muita) competição feminina e estereótipos de “vilões”, predominando bastante a ideia de maniqueísmos – ou a pessoa é muito boa, ou a pessoa é muito maldosa. O quanto tinha de pessoas ruins, tinha de pessoas boas ao redor da personagem. 
— Mas você ainda não disse, Alice, você quer ir ou não? 
E eu tinha escolha?

Levada pelas memórias de Alice, não vi um conflito claro na história, apesar das sugestões na sinopse e no próprio título. A personagem não passa a se amar pelo que é ou pelo que tem. Aliás, ela até passa por uma transformação pra se adequar a um padrão, que dizem ser o sonho dela. Ela, literalmente, ganha outra identidade. Ao meu ver, ficavam a questões: Ela queria isso? De verdade? Ou novamente atropelaram suas vontades impondo outras? E sem essa pessoa ou essa oportunidade, ela estaria satisfeita consigo mesma? Onde estavam realmente seus maiores desejos?

Me pareceu que todo o amor sempre dependia de algo ou alguém, menos dela própria, e esse amor resolvia as coisas. Em dados momentos, até lembra um pouco a história da Cinderela – a falta de um pai, duas irmãs detestáveis e um príncipe para torná-la a princesa que “nasceu pra ser”. O momento da extreme makeover, por exemplo, é uma tortura para a personagem, ela mesma não se vê ali, mas se outra pessoa diz que é bom para ela, ela aceita e acredita que aquele é o padrão para se definir. E não é essa a mensagem do amor próprio, da compaixão, empatia ou mesmo do empoderamento. 
Havia entendido a estratégia de Stela e Peter, eles tinham criado a minha identidade, eu estava feliz com o resultado; sentia-me orgulhosa. [...] Não eram apenas as mudanças na minha aparência. Meus cabelos, minhas roupas, eram diferentes, mas não só isso, eu me sentia diferente. 
— Nunca mais repete isso, Darling. Você sabe muito bem que imagem é tudo.
Revirei os olhos, sim eu sabia, tinha que me acostumar com isso.

Por outro lado, Camila tem boa escrita, que te leva fácil e te deixa curiosa pelos fatos. Tem potencial. Leria algo seu novamente. 
— Sejam quais forem suas escolhas, brilhe. Você é iluminada, menina!
Iluminada.
Nunca tinha ouvido algo assim.

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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Resenha: Céu Sem Estrelas (Iris Figueiredo)

Por Stephanie: Eu acompanho a Iris Figueiredo há alguns anos, desde quando ela tinha um blog chamado Literalmente Falando. À época, não cheguei a ler seus livros lançados até então, mas quando soube do lançamento de Céu Sem Estrelas, esse ano, fiquei na ansiedade para poder conhecer logo essa história. E a recompensa pela espera valeu a pena.

Céu Sem Estrelas nos apresenta a história de Cecília, uma menina de 18 anos que acabou de entrar na faculdade e está passando por alguns problemas em sua vida: a relação com a mãe não anda boa, ela não sabe se escolheu o curso certo e ainda precisa lidar com a sua mente, que ultimamente parece não estar em seus melhores dias. Lidar com tudo isso já não seria fácil, mas e quando envolve uma paixonite de infância que parece estar virando algo a mais? As coisas podem ficar ainda mais complicadas.

Desde o início do livro, fui fisgada pela escrita da Iris. Ela tem um jeito tão simples e gostoso de descrever as cenas e os sentimentos dos personagens que não dá vontade de largar a leitura nunca. 

E por falar em personagens, eu amei cada um deles (tirando os propositalmente babacas, claro). Cecília é uma linda que dá vontade de colocar num potinho, Yasmin e Rachel são amigas incríveis e Bernardo é um fofo; nenhum deles é perfeito, são pessoas reais que fazem e dizem coisas erradas de vez em quando, mas que sabem admitir seus erros e buscam melhorar sempre que possível.
Pela primeira vez em dezoito anos, me senti completamente sozinha. Então lembrei que não precisava ser assim. Ainda tinha algumas pessoas que sempre estariam ali por mim.
A obra aborda diversos temas relevantes e até pesados, como saúde mental, relações familiares, preconceito (de diversas formas), relacionamento abusivo e machismo. Mais uma vez, a escrita da autora foi o que conseguiu dar um tom um pouco mais leve para os acontecimentos, mesmo aqueles mais difíceis e tristes. Iris me deu vários tapas durante a leitura, mas mesmo assim eu não me senti angustiada em nenhum momento, só impactada com a força das palavras dela.

A ambientação de Céu Sem Estrelas é um de seus pontos mais altos; a história se passa no Rio de Janeiro, e as características da paisagem são tipicamente brasileiras, sem parecer regionalistas ao extremo. É possível se identificar com os locais mesmo sem nunca ter ido ao Rio. Isso também ocorre com os conflitos de alguns personagens, principalmente em relação à escolha de curso e às expectativas que temos no começo da vida adulta. É tudo tipicamente brasileiro.

Agora, sobre o romance: meu Deus, que fofura! Eu simplesmente amei tudo em relação ao casal protagonista. Amei como a Cecília, que é gorda, é representada como uma menina bonita e atraente pelo seu par romântico. Ela é uma garota comum, com uma característica física marcante, mas que não a define. Iris claramente quis transmitir a mensagem de que todos nós merecemos ser amados, e que nossa beleza não depende do formato do nosso corpo.

Para encerrar, já que a resenha está ficando imensa: a representação de homens babacas nesse livro foi certeira. Eu consegui enxergar perfeitamente cada personagem masculino dizendo exatamente as frases descritas pela autora. Inclusive, identifiquei alguns conhecidos meus que agem da mesma maneira que alguns deles. É lamentável.

Eu poderia falar muito mais desse livro; poderia dizer o quão incríveis são as relações de amizade representadas nele, ou como a família de Cecília tem mulheres maravilhosas e fortes (com algumas exceções), ou poderia falar até mesmo da perfeita imagem que temos de uma pessoa que convive diariamente com algum transtorno mental. Mas eu vou deixar para você, leitor, conhecer e aproveitar tudo isso e muito mais que o livro tem para oferecer. 
— Não existe um céu sem estrelas, Cecília. Mesmo quando estão cobertas pelas nuvens, ainda estão lá. A gente só não consegue enxergar.

Obrigada, Iris, por nos presentear com uma história tão linda e tocante. Que ela fale com todos os jovens que precisam reconhecer sua importância no mundo, mesmo quando tudo à volta deles apontar o contrário.

Até a próxima, pessoal!
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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Resenha: "Laços de Amor" (Josiane Veiga)



Sinopse: Ele era um homem cruel...

Alex Grassi estava a um passo da presidência na Rozzi Empreendimentos quando seu caminho cruzou com uma jovem inocente e solitária que lhe despertou diversas emoções. 
Contudo, no auge de sua carreira, ele não tinha tempo para viver um amor avassalador como aquele. 
Alex tinha seus demônios e a segurança profissional se mostrou mais importante que a presença que parecia acalentar sua alma.

E ela sofreu por isso...
Liliana dos Santos tinha um histórico de rejeição que nunca a abandonou. Deixada ainda bebê em um orfanato, excluída até mesmo do convívio com as outras crianças por conta da dislexia, ela se tornou uma adulta insegura e medrosa até seu caminho cruzar com Alex.
Ele parecia o homem perfeito. Forte e seguro. E ela escondeu-se atrás de sua personalidade intensa. Todavia, quando se descobriu grávida, percebeu que precisava lutar sozinha.
Liliana soube, assim, que havia uma força imensurável em sua alma feminina. Ser mãe lhe deu coragem de lutar contra tudo e todos pelo seu bebê. E isso incluía Alex.


Por Jayne Cordeiro: Este romance nacional, escrito pela autora Josiane Veiga, trás uma protagonista bem interessante e fora dos padrões normais. Liliana é uma mulher pobre (até aí normal), faxineira, que viveu em um orfanato a vida inteira, onde foi molestada e ainda por cima nunca aprendeu a ler por causa de sua dislexia. Mas a pesar de tudo isso, e de sua inocência sobre a vida, ela se mostra uma mulher doce e direita, que acaba se envolvendo com um homem completamente diferente do mundo dela. 

Assim, ela entendeu que jamais devia abrir o coração novamente. Amar era enfraquecer suas defesas. E quando vinha a decepção, o sofrimento era tão inesgotável que não valia os poucos momentos felizes que viveu ao seu lado.

Para mim, ela foi uma protagonista bem especial, por não se deixar abater pelos problemas da vida, e mostrar depois, quando reencontra Alex, uma força única. Alex é um personagem que gostei e não gostei ao mesmo tempo, porque ele podia ser romântico (porque ele realmente teve sentimentos por ela), mas também acabava sendo muito esnobe e preconceituoso as vezes. Mas é claro, que ele amadurece muito em relação a esses pensamentos, e isso é legal de acompanhar.

- Saía daqui - ordenou, a voz franca e direta.
- Eu soube que deu à luz.
- Não graças a você - ela despejou.
E ele sentiu a mágoa crescente, enorme, envolta entre eles.

A história de Laços de Amor está rodeada de alguns clichês, mas eu particularmente adoro clichês, então a mim não incomodou em nada. A história é bem escrita, prendendo o leitor, e o livro é curto e dinâmico. A leitura é fácil e bem rápida, e ótima para aquele fim de noite, em que você quer uma leitura boa para relaxar. É uma boa opção para quem gosta de um romance simples. 


- Hoje vamos fazer amor - ele afirmou. - E nunca mais em sua mente vai se recordar das coisas ruins. Quando pensar em sexo, sempre se lembrará de nós dois, nessa cama, entregando-se um ao outro, está bem?
Eles mal se conheciam. Mesmo assim, Liliana confiou inteiramente naquele homem.





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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Resenha: “Dom Casmurro” (Machado de Assis)



Por Kleris: Tudo começou com um meme (disponível no fim deste post). Quer dizer, no ano passado, durante a época da votação do cronograma de leitura do Clube que participo, uma amiga fez campanha para Dom Casmurro (e o resultado acabou por ser A hora da estrela). Daí recentemente, numa conversa com leitores, reavivou-se um meme literário que sugeria mais que um bromance entre Bentinho e Escobar. Encucada com umas impressões mais, resolvi tirar a prova – reli Dom Casmurro.

Pra quem ainda tá por fora desse clássico nacional, te deixo a par da trama: Bento Santiago é um cara solitário que então conta sua história de vida. O cara é tão fechado em si que um moço do bairro o apelidou de “Dom Casmurro”. Mas nem sempre ele foi assim. Ele era alegre, espevitado e tinha uma paixão desde menino que passou por muitos percalços porque a mãe fez uma promessa para que ele fosse padre. É no seminário onde se prepararia para a batina que conheceu Escobar. Ambos conseguem se safar do destino religioso.

Bento casa com Capitu, Escobar com Sancha, melhor amiga de Capitu. Aí que eles viram amigos inseparáveis. Tem seus filhos e se aproximam ainda mais. Um dia, Bento diz que percebe que Sancha deu em cima dele. Logo, traços de seu filho começam a ficar muito parecidos com de Escobar. Os ciúmes que Bento tinha entram em ebulição e paranoia. Sobram por fim só suas tormentas e dúvidas, estas que lhe afetaram sua vida e devem justificar a alcunha de “Casmurro”.

Minha primeira leitura foi há pouco mais de 5 anos, na faculdade, muito guiada pela pergunta clássica – a suposta traição de Capitu. Desta vez, preferi deixar isso de lado e só segui com as impressões. Interessante é que havia notinhas minhas da leitura anterior no meu exemplar e isso ajudou bastante na hora confrontá-las. Considerei, claro, a época de publicação de Machado. Não tem como fugir do realismo do autor. Aliás, o texto revela que tem coisinhas que até Machado deixou passar, porque sua época de vivência tinha uma compreensão bem limitada (machista e patriarcal).

Dom Casmurro é um excelente livro – mas com um século de interpretações questionáveis. A premissa que todos conhecemos (e nos foi repassada por gerações) é sobre uma dúvida quanto a uma suposta traição, e não sobre um cara amargurado falando de seu objeto de afeição que não atendeu suas expectativas (que é o que me parece ser). E, traindo ou não traindo, Capitu é crucificada – dissimulada em seus “olhos oblíquos e de ressaca”. Não há vez para a mocinha. Mas e Bentinho? Alguém alguma vez questiona Bentinho?

Bento é um exímio narrador, isso é inegável. Te enrola tão bem que é fácil cair em sua paranoia. Isso se você estiver procurando respostas pra pergunta que acompanha a reputação deste livro. Mas se você para pra “ouvir” Bentinho, pensa na sua mágoa, e como pessoas se comportam quando assim estão, isso muda o quadro geral. 
Ficando só, refleti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta casa de Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavalos... A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida [...]

Fato é que somos levados a cair no papo de um desvairado (ele vê o que quer ver), o que nos leva a mais um caso de romantização de abuso. Isso se prova pelo fato de que não haveria história se fosse o inverso. 

O personagem de José Dias também contribui muito para essa percepção torpe de Bento. Quase um tutor ao garoto/homem, o agregado não era das pessoas mais recomendadas para cuidar de Bentinho. Ele mesmo tinha umas rixas com o pai de Capitu, o Pádua. Há quem diga que isso não passava das denúncias sobre os comportamentos questionáveis da sociedade e toda uma hipocrisia, mas aqui vou além. O cara era abusivo, do tipo narcisista mesmo. Plantava a discórdia e saía correndo. Era o perfeito embuste.  
— [...] Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados...
— Perdão – interrompi suspendendo o passo –; nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrário, um dia, não há muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha presença, que o senhor era “um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras”.
José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:
— Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me têm feito o favor de juízos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.

Capitu me parece apenas uma personagem imperfeita, que tem sua personalidade, mas sem malícias, sem interesses de intrigas. Ela merecia mais. Escobar era outro que merecia mais também. Tinha ele mais respeito pelo bromance que Bentinho nem um dia podia imaginar. Acho que as consequentes críticas do livro preferiram rotular isso como mera “ambivalência psicológica”. E acho que Bento (ou Machado) que não entendeu sobre certas investidas. 
Capitu era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem. 
Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? 
Um amigo supria assim um defunto, e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não visse desde longos meses.
— Você janta comigo, Escobar?
— Vim para isto mesmo. 
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É ilusão, decerto, se não é efeito das longas que tenho estado a escrever sem parar.

Isso tudo, no entanto, nada fere o mérito de Machado de Assis. Ele foi brilhante. O modo como conduziu e fez muitos caírem na história de Bento, como reproduziu nas linhas a revolta, a amargura, a obsessão de um sujeito comum, assim como seu apego às memórias e às idealizações... Acho que é porque é tão natural confiarmos e torcermos pelo narrador.

O fato de Machado jogar a bola pra gente, de fazer a interpretação do caso, também é impressionante. Mas às vezes não deixo de pensar que pintam o autor mais do que ele foi... Nesse caso, tenho que ler outros de seus trabalhos para averiguar melhor isso. Quem sabe? 
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim, preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.

Há ainda muitas referências universais da época. Indico que você tenha um exemplar com notas de rodapé e textos extras para te auxiliar um pouco na compreensão da época – cotidiano, hábitos, expressões. A edição da L&PM, de 2008, tem todo um aparato.

Dom Casmurro é assim um livro sobre um cara que não sabe perder, culpa tudo e todos ao redor e tampouco é humilde de assumir o que fizera. É a típica pessoa que coloca no outro uma responsabilidade absurda por tudo o que faz. Queria uma felicidade que só competia a ele ser feliz, queria um casamento que seguisse seus preceitos. É sobre alguém que não aprendeu a dar espaço, nem a respeitar a mulher, e preferiu seguir uma vida amargurada. Suas lembranças, claro, são bem seletivas em demonstrar o “pior” do outro, mas esquece (sempre) de olhar para si. Reconsiderem isso numa próxima leitura ;)

Fiquei puto porque não consegui controlar o seu pensamento
Mas amei você, amei você, mas amei você
Mas amei você, amei você, mas amei você
Pode agradecer



Até a próxima!

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Resenha: “Querido Dane-se” (Kéfera Buchmann)


Por Kleris: A gente tenta não ter nenhuma expectativa, mas ler uma ficção da Kéfera é algo bem curioso. Ela já havia mostrado um pouco da sua escrita espevitada no primeiro livro (reveja resenha aqui), o que não apareceu muito no segundo (reveja resenha aqui), e neste Kéfera surpreendeu. 
— Você tem muito ódio no seu coraçãozinho, né?
JURA? SÉRIO MESMO? Gênia. Deveria ganhar um prêmio pela constatação.

Sara não está no seu melhor da vida quanto queria – aliás, para ela o tempo está correndo muito depressa, com prazos por ela determinados prestes a expirar sem “conquista” alguma – no caso, chegar aos 30 sem um relacionamento ou emprego estável. 

Pra piorar, seu namorado termina com ela do nada e assume outra garota, que basicamente é a nova cliente de Sara, uma socialite para a qual ela que vai produzir roupas exclusivas. É nessa bagunça toda que Sara tenta focar na oportunidade de trabalho, seguir em frente sem estragar tudo e ainda tratar do seu déficit de atenção.
Querido diário,
FODEU.
Minha terapeuta quer ler meu diário.


Uma boa sacada do livro é sua narração. Kéfera nos apresenta a história como um diário, onde a personagem escreve coisas que ela deve reconhecer como positivas e negativas, proposta de sua terapeuta, o que acaba por virar uma jornada de autoconhecimento – daquelas com muitas resistências no início, muitas reviravoltas de recheio e grandes escolhas pelo caminho. 

Sara, como muitas pessoas, é uma pessoa de percepção frágil, que se entrega muito às expectativas irreais. Por conta disso, decepciona-se muito. Mas está lá, tentando mais uma vez, mesmo que isso envolva se meter nas mais loucas (e perigosas) situações, mesmo que dê uns closes errado bem errados. Quem equilibra essas doidices é sua amiga Denise, quem tá “na guerra” pra tudo. 

— Não. Se apaixonar é ótimo. Só lembra de não colocar todas as suas expectativas nesse cara! Você tem que conseguir ser feliz mesmo que as coisas não deem certo com ele também.
— Denise, para de querer cortar minha vibe! Você viu como o Tiago me trata, não viu? ele é superamoroso. Some de vez em quando, mas faz parte do jogo.
— Tá, pode ser. Mas lembra o que eu sempre digo? Para ser um bom par, você precisa saber ser um bom ímpar. Então, quando ele sumir, você tem que saber ficar bem consigo mesma. É isso que eu estou tentando...

Em uma primeira impressão, o livro é bem clichê e não traz nada muito novo no meio literário contemporâneo – é como a primeira temporada de Crazy Ex-Girlfriend, misturado com filmes brasileiros babacas (como aquele S.O.S. Mulheres ao Mar), umas romantizações e ganas dos anos 90 (em que mulheres precisam ou definem quem são por ter um homem ao lado), e umas tiradas meio #fail. Mas esse ar tragicômico exagerado é apenas um pano de fundo que vai tirar nossa personagem das órbitas e, durante sua jornada, perceber o que é preciso fazer pelo seu final feliz. 
— Peraí. Se você é frustrado, o problema é seu. Não vem querer dizer que meus sonhos são impossíveis.

Esse ponto de quebrar os tais ideais limitantes que torna o livro interessante. Aliás, passei o livro inteiro torcendo por isso! Queria que Sara não tivesse a Gio (a socialite), como inimiga e sim contasse a verdade sobre o pilantra que só queria tirar vantagem delas #sororidade Queria que a Sara se libertasse dessas noias que diminuem e prendem as mulheres por anos a fio e queria que ela não se contentasse com um amor meio bosta (ou com qualquer coisa mais) #yougogirl Nesse sentido, o livro traz sim algo bom, algo novo, algo verdadeiro, e acho ótimo que isso seja reverberado pela audiência que acompanha a autora. 
Essa pergunta ainda me assombra. Tenho procurado muito de mim por aí.

É um livro curto, super rápido e bem gostosinho de ler, excelente para aqueles momentos de pausa ou quando a gente tá querendo pegar o ritmo de leitura após uma ressaca. Não pense que por ser a Kéfera a autora, é um livro ruim ou sem conteúdo – dê tchau a esse preconceito. Muito pelo contrário, foi uma boa estreia da autora na ficção.

Recomendo!
Até a próxima o/


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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Resenha: "Branca de Neve - Os contos clássicos" (Alexandre Callari)

Por Sheila: Oi pessoas! Como estão todos e tod@s? Trago a vocês hoje a resenha de um livro que eu queria ler a muitooooo tempo! Já confesso que adoooroo esse mundo dos contos de fadas e tudo que a ele se relaciona, e que de todos Branca de Neve é um dos meus favoritos!

Lançado pela Editora Generale, eu esperava que este livro fosse apenas uma coletânea dos contos clássicos por detrás do que foi popularizado pelos estúdios da Walt Disney, mas foi uma grata surpresa descobrir que ele vai muito além do esperado.

O livro é dividido em três partes:

Na primeira, vamos adentrar o clássico escrito pelos irmãos Grimm em 1857, intitulado "Pequena Branca de Neve" e que mais se assemelha ao seu tão famoso longa adaptado pelos estúdios Disney em 1937.

Há muito e muito tempo, bem no meio do inverno, quando os flocos de neve caíam do céu leves como plumas, uma rainha estava sentada costurando junto a uma janela com esquadrias de ébano. Costurava distraída, olhando os flocos de neve que caíam lá fora e, por isso, espetou o dedo com a agulha e três gotas de sangue caíram na neve. Aquele vermelho em cima do branco ficou tão bonito que ela pensou: "Eu queria ter um neném assim, que fosse branco como a neve, vermelho como o sangue e negro como a madeira da moldura desta janela."Algum tempo depois, ela teve uma filha, que era branca como a neve, vermelha como o sangue e tinha cabelos negros como o ébano. Deram a ela o nome de Branca de Neve, mas, quando ela nasceu, a rainha morreu.

Além de outras versões - sete no total  - algumas muito semelhantes e, o mais destoante, contado em forma de poema. São elas:  "A Jovem Escrava"; "Árvore-Dourada e Árvore-Prateada"; "Maria, a madrasta má, e os sete ladrões"; "O Caixão de Cristal"; "A Morte dos Sete Anões"; "A Fábula da Princesa Morta e dos Sete Cavaleiros". Há versões em que, inclusive, não é a madrasta, mas a própria mãe que se toma de ciúmes da filha.

Era uma vez um rei que tinha uma esposa, cujo nome era Árvore de Prata, e uma filha, cujo nome era Árvore de Ouro. Num certo dia, entre outros dias, Árvore de Ouro e Árvore de Prata foram a uma ravina em que havia uma fonte, e dentro da fonte havia uma truta.

Árvore de Prata disse:
– Trutinha, minha pequena camarada, não sou a mais bela rainha do mundo?
– Oh! De verdade? Você não é não!
– Mas, quem é então?
– Ora, é Árvore de Ouro, sua filha.
Árvore de Prata foi para casa, cega de raiva.
Deitou-se na cama e jurou que nunca mais ficaria boa se não conseguisse comer o coração e o fígado de Árvore de Ouro, sua filha.

Aqui, além de adentrarmos as diferentes facetas apresentadas à cada história pela cultura da qual se originou, teremos também os comentários de Alexandre Callari, que vão elucidar muitas nuances que, num primeiro momento, podem passar despercebidas do olhar menos atento. Para além da história, há mitos, lendas e toda uma rica simbologia por detrás desse conto.

Na segunda parte do livro, será analisada toda a filmografia dai resultante, indo desde histórias até mesmo pitorescas e curtas passando, obviamente, pelo longa de Walt Disney, e caminhando até algumas adaptações bem recentes, como Espelho Espelho meu que teve Julia Roberts como Rainha Má; e Branca de Neve e o Caçador com Kristen Stewart, a protagonista da famosa saga "Crepúsculo". Também irá abordar algumas adaptações criadas para o teatro que se destacaram e até mesmo HQs.

Já na terceira parte, seremos brindados com conto do próprio Alexandre Callari, que irá fazer uma releitura do clássico, intitulado "Mundo dos Espelhos: Lobos, Sangue e Neve".

O interessante da história de Callari é que, na sua versão, Branca de Neve deixa de ser uma princesa sujeitada à maldade sem explicação de uma Rainha Invejosa e, depois, sujeitada a esperar ser resgata por um príncipe encantado, para verdadeira protagonista de sua história e de sua vida. Não mais mera vítima, mas salvadora de si mesma.

Por mais que alguns dos contos tenham passagens que hoje chocariam nossa sensibilidade - como a punição de dançar em sapatos de ferro até a morte, ou algumas questões claramente incestuosas - é interessante encontrar as origens de uma história que se tornou tão popular em nosso imaginário, bem como também saber de algumas curiosidades.

Por exemplo, vocês sabiam que o orçamento do longa metragem de Walt Disney ultrapassou em DEZ - isso mesmo dez vezes - o orçamento original? E que por muito tempo o filme ficou conhecido como "Loucura Disney"? Claro, que hoje sabemos que Branca de Neve foi o que alçou a Disney como a empresa multimilionária que é, mas na época deve ter sido difícil aos que trabalhavam no projeto.

Por fim, a versão do conto escrita por Callari, muito mais adulta, nos faz re-visitar esse nosso recôndito infantil, redescobri-lo e significá-lo de forma diferente. Também nos faz ver o trabalho de remodelagem por Disney de forma mais aberta e crítica, visto que na realidade, em sua origem, os contos também não seriam recomendados ao público infantil.

Recomendo!

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Ana Liberato