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domingo, 9 de janeiro de 2022

Resenha: "Pequena coreografia do adeus" (Aline Bei)


Sinopse: Julia é filha de pais separados: sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto seu pai não suporta a ideia de ter sido casado. Sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e falta de afeto, a jovem escritora tenta reconhecer sua individualidade e dar sentido à sua história, tentando se desvencilhar dos traumas familiares.

Entre lembranças da infância e da adolescência, e sonhos para o futuro, Julia encontra personagens essenciais para enfrentar a solidão ao mesmo tempo que ensaia sua própria coreografia, numa sequência de movimentos de aproximação e afastamento de seus pais que lhe traz marcas indeléveis.

Escrito com a prosa original que fez de Aline Bei uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea, Pequena coreografia do adeus é um romance emocionante que mostra como nossas relações moldam quem somos.

Por Stephanie: Pequena coreografia do adeus é o segundo livro da autora Aline Bei, que conquistou crítica e público com seu primeiro trabalho, O peso do pássaro morto. Eu já estava completamente convencida do talento de Aline quando li O peso, mas, ao finalizar Pequena coreografia, tive ainda mais certeza de que essa autora é uma das vozes literárias mais importantes de sua geração.

Escrevo esta resenha ouvindo Spit of you, de Sam Fender, um cantor pelo qual sou apaixonada e estou obcecada nos últimos dias. A canção fala sobre a dificuldade que o eu lírico tem de se comunicar com seu pai, ainda que o ame muito. E, por mais que o foco de Aline não seja exatamente essa relação em sua obra, e sim a de mãe e filha, acho que esse livro tem a mesma melancolia da música e ambos se complementam de alguma forma. Recomendo ouvirem e assistirem ao clipe, que é maravilhoso.

Agora, focando mais na minha opinião sobre a obra de Aline, é impossível não destacar a sensibilidade que permeia as páginas do começo ao fim. Em O peso, me lembro de sentir cada parágrafo como um soco, pesado e seco. Aqui, mesmo ainda abordando temas difíceis como abandono parental e violência doméstica, Aline parece quase fazer um carinho no leitor com sua prosa (que é quase verso, devido à sua estrutura diferenciada). E esse mesmo carinho se estende, de alguma forma, à protagonista Julia, uma jovem que está passando pelo momento mais conturbado de sua vida enquanto tenta se encontrar num mundo que também não é muito gentil com ela.

Em vários momentos eu me vi em Julia. Assim como ela, sou filha de pais separados, e por mais que eu (felizmente) nunca tenha passado pela maioria das situações que ela passou e tenha uma relação saudável com os meus pais, consegui entender perfeitamente suas dúvidas e anseios ao longo da leitura. A sensação de abandono emocional, as tentativas de aproximação, os dilemas… todas as reflexões dela me soaram muito críveis e condizentes com o que ela estava vivenciando.

A mãe de Julia certamente é a personagem mais enigmática e tridimensional da obra: uma mulher fria que definitivamente não deveria ter se tornado esposa e nem muito menos mãe, mas que mesmo com tantas atitudes odiosas acaba nos despertando empatia em certos momentos. Eu senti tanta raiva e desprezo por ela, mas ainda assim consegui entender um pouco como ela se tornou aquela pessoa.

Já o pai foi um personagem que me causou muita raiva também, mas por motivos diferentes. A apatia dele em relação à Julia me deu vontade de gritar em diversos momentos e mostrou como muitos homens ainda não se sentem tão responsáveis por seus filhos como as mulheres/mães. E esse pensamento claramente é fruto de uma sociedade sexista que sempre coloca nos ombros das mulheres um peso muito maior do que o considerado justo.

Acho que deu pra perceber o quanto eu gostei desse livro, né? Tanto que se tornou um dos meus livros favoritos de 2021. Recomendo muito, desde que o leitor se atente aos gatilhos. Não vejo a hora de poder ler mais trabalhos da Aline.

a gente pensa que conhece as pessoas

a gente se apega ao que imaginamos que conhecemos delas

mas no fim o que cada um constrói com o outro

 quando não estamos no recinto

é um Mistério.

Confira também a resenha da Thaís, colaboradora do DB que também adorou o livro, clicando aqui!

Até a próxima, pessoal!

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sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Resenha: "Pequena coreografia do adeus" (Aline Bei)

Por Thaís Inocêncio: Em abril, tive o prazer de participar do evento virtual "Cabine de leitura", promovido pela Companhia das Letras, sobre o livro Pequena coreografia do adeus, com a presença de Aline Bei. 

Na ocasião, ouvi de Aline que, se o verbo que permeia seu primeiro livro, O peso do pássaro morto, é “perder”, o que envolve Pequena coreografia do adeus é “sonhar”. E a única coisa de que Júlia precisa para realizar seu sonho é ela mesma.⁣

⁣Criada em uma família disfuncional, Júlia Terra vive uma infância marcada por traumas e violências que a fazem querer desaparecer, como uma música que deixa de tocar. Sem conseguir estabelecer laços afetivos nem mesmo com os pais, Júlia é constantemente silenciada e empurrada para a solidão. No entanto, ao iniciar um diário, ela encontra na escrita seu lugar de fala, sua voz, o que alimenta o sonho de se tornar escritora.⁣

as surras que eu levava

eram as surras que a minha mãe levou em looping

na minha pele, na pele dos filhos que ainda não tenho

O ciclo de abandono começa a se romper quando Júlia, já crescida, passa a trabalhar em um café e deixa a casa da mãe. Ela vai morar em uma pensão que tem uma história de resistência e foi salva por uma mulher, a viúva Argentina. A conexão com o próprio local, sua dona e seus hóspedes mostra à Júlia que, se quiser, ela pode flutuar ou ser qualquer coisa sem pés no chão.⁣

os estranhos não nos doem porque ainda não nos decepcionaram

e se mantivermos tudo a uma boa distância: seguirão sendo

essa doce incógnita.

⁣Acompanhar a coreografia do amadurecimento de Júlia é tão emocionante quanto apreciar a dança das palavras de Aline Bei. Em seu novo livro, ela mantém a prosa estruturada em versos, como no “pássaro”, mas aqui ela acrescenta um ingrediente novo: a esperança. Recomendo que a leitura seja feita na versão física, porque a distribuição das palavras na página fazem toda a diferença. A escrita tão próxima e sensível dessa autora-artista provoca em mim uma vastidão de sentimentos, nem todos decifráveis.⁣

sabíamos que a vida

ainda que fosse a nossa maior ruína era também a nossa única salvação.

⁣Cinco estrelas cheias de brilho pra essa obra.

Até a próxima, pessoal!


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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Resenha: “Entre Estantes” & “Pétala” (Olivia Pilar)


Por Kleris: Você curte continhos para os entremeios da vida? Os da Olivia com certeza vão preencher seu momento de leitura! Ambos foram autopublicados e se encontram no Kindle Unlimited :)

A gente nunca tá preparado para as novas fases da vida. Ou pelo menos pra faculdade e o mundo que ela nos abre. 
Sabe quando o que você mais quer é mostrar para o mundo e para você mesma que fez a escolha certa?

Isabel é aquela caloura ansiosa para fazer tudo certinho, sequela clássica do ensino médio. Na primeira atividade do semestre, ela não perde tempo de ir à biblioteca para pegar um livro recomendado pelo professor.

E lá, entre as estantes, alguém chama sua atenção. Mais que isso, mexe com todas as suas perspectivas de vida e identidade.


Entre Estantes é um conto curtito e fofinho sobre quebrar o velho roteiro de vida e encontrar-se em um mar de possibilidades. Olívia tem uma escrita leve e encantadora que entrega uma excelente leiturinha de ponte, seja para mais narrativas lgbt, seja para mais livros longos.







Você já teve a sensação de estar apenas indo, sem sair do lugar? 
Eu escolhia as opções seguras e ela fazia as escolhas arriscadas.

Bruna estava incomodada, mas também ansiosa com a perspectiva de sair da sua zona de conforto. Só que, se era pra se sentir justa com os próprios sentimentos e em sintonia com a sua relação, não poderia se resignar mais a se entregar pela metade ou mesmo de qualquer jeito.

Foi assim que marcou um encontro com Pétala, quem pensava ser só mais um encontro no point. Para Bruna, no entanto, era o dia de mudar o rumo das coisas e o dia de respeitar o que verdadeiramente sentia.

Nos envolvemos na história através de uma DR que há muito tempo espreitava o relacionamento das duas. Entremeado às memórias de Bruna, o encontro mostra como a resposta pode estar na nossa frente, mas, por influências externas, postergamos dar o primeiro passo.

É um curtaconto sobre entregas e sobre tomar decisões em respeito aos próprios sentimentos, acima de qualquer opinião. Olívia nos entrega uma narrativa leve e dinâmica, ótima para curar ressacas literárias!



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sexta-feira, 24 de julho de 2020

Resenha: "Os Blues Que Não Dançamos" (Franck Santos)


Por Kleris: 
“Será que inventei você? Será que inventei esta história? [...] Sinto-me uma ilha dentro desta Ilha onde moro. Contudo, sei que somos raros. Raros.”

Os Blues Que Não Dançamos é uma noveleta de inquietações que nos envolve no romance à distância de Bento e Pedro. Eles se conheceram em aplicativo de relacionamento e estenderam a relação para troca de e-mails. Pedro dizia que era por ser avesso a redes sociais. Bento, por outro lado, sempre sonhador e esperançoso, fica a mercê das escolhas do outro e de suas escassas informações. 
Estou aqui nesta casa em obras, mas me vejo caminhando pelas ruas noturnas e despertas da sua cidade; da sua cidade, Pedro, da metrópole onde moras. Você me compreende? Diga que sim, abra espaço em você para o meu desejo.

Adentramos na história pelo ponto de vista de Bento, através de seu fluxo de pensamento, sempre carregado de devaneios, fantasias, planos e expectativas. A narrativa, porém, se guia por recortes temporais: um “antes” e um “depois” de uma viagem combinada para se encontrarem em Goiás, numa cidade no meio do caminho de suas residências (Bento, da grande ilha de São Luís, e Pedro, de São Paulo).

Entre lacunas e delírios, o enredo vai costurando seus mistérios e nos agraciando com crônicas poéticas desse amor sempre à espera de mais. É inevitável torcer por Bento e seus anseios; bate forte a questão da responsabilidade afetiva. Mas quando conhecemos o outro lado da história, repensamos todos nossos julgamentos. Ainda mais quando a significância do título se faz valer.

Este é meu primeiro livro do Franck Santos e com certeza a porta de entrada para muitos ♥️ Sua escrita flui maravilhosamente bem, envolve bem, cativa.

As referências de músicas e livros são um encanto à parte. Vamos de Clarice, Guimarães Rosa e Caio Fernando de Abreu a Gal Costa, Marina Lima, Nina Simone, dentre outros. 
Este disco me transporta para uma época em que se acreditava num futuro, futuro esse que acho que chegou conosco. A música tem esse poder, essa magia de máquina do tempo. Infelizmente, ela não transporta corpos, apenas a mente viaja.

A leitura traz muito da nossa realidade, de romances virtuais, de escapes, de resistência. É um livro curto, porém, para ser sorvido como quem aprecia um bom vinho: no seu tempo. Ótimo para você que busca uma história despretensiosa, mas que arrebata e que deixa uma ressaca gostosa com dignos blues.

De bônus, tem um posfácio da Lindevânia Martins que, junto à edição maravilinda da Editoria Moinhos, é um presente ao leitor *---* O colofão, então, inesquecível! 
Quanto tempo dura uma lembrança?

Fica o convite, tanto pelos blues em vinis, quanto pela história de um grande amor!




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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Resenha: “Enfim, Capivaras” (Luísa Geisler)


Por Kleris: Se prepare para a caçada mais épica desse Brasil! 
Porque se você mora na Chapada do Pytuna, precisa tomar a iniciativa e criar a aventura.

Em Enfim, Capivaras, uma turma de garotos e garotas se unem para pegar o mentiroso da escola no pulo. No caso, Dênis – também conhecido como Binho. Não importa a situação ou contexto, Binho tem essa mania de grandeza e de mentiras sobre coisas que ele tem, conhece ou já viu. Até então era difícil comprovar informações soltas ou pouco palpáveis (como ter conhecido o Faustão), mas quando ele diz que tem uma capivara de estimação, a galera se reúne pra ir lá visitar o animal. Assim, só aparecer na porta da casa dele e ver até aonde essa lombra iria. 
Porque, como nossas próprias mentiras, a gente quer que seja verdade.

Para a surpresa de zero pessoas, Dênis conta que Capi, a capivara, fugiu. Surge a ideia então de ir atrás dela, afinal, não deve ter ido muito longe. Até porque a cidade, Chapada do Pytuna, no interior de Minas, também não era muito grande. E assim, com o carro de Léo, munidos de salgadinhos, bolos e bebidas, eles seguem à procura de Capi. Ou da verdade. Ou da justiça pelas merdas que Binho dizia por aí, interferindo na vida de tantas outras pessoas sem qualquer responsabilidade. 
Olhamos pra Vanessa e erguemos o mapa de leve. Ela faz que não com a cabeça (acelerado, vídeo acelerado), enquanto Nick dobra o papel e enfia no bolso. Vamos entrar no mato atrás de uma capivara potencialmente roubada, vamos no sentido contrário da civilização, que na verdade não é civilização, às dez da noite. Nenhuma ideia parece boa e essa é a pior de todas. Abro um sorriso.

Esse é um livro que você não vai querer largar até encontrar todas as respostas. É também um livro bem vapt-vupt, de uma sentada só, sincerão. Embora curto e rápido, é hiper rico de histórias, detalhes, identidades. E uma das coisas mais legais – além de sua premissa – é como a história é contada.

Acompanhamos a empreitada em um espaço de 12 horas e em tempo real com vários pontos de vista: de Vanessa, a garota da cidade grande que se mudou recentemente para o interior; Nick, a garota de um espírito aventuresco que luta para encontrar um encaixe no mundo; Léo, o garoto de pai fazendeiro (e rico), que deveria andar na linha; e Zé Luís, o filho da empregada da casa de Léo, um companheiro que vive à sombra do amigo. 
A gente está assim. A gente é assim. Neste momento.

Cada um tem motivações, vivências e segredos que marcam a experiência confusa da adolescência. Isso facilmente nos lembra do clássico Clube dos Cinco que repercute até hoje em diversas séries e filmes, mas o plus aqui é que a gente se conecta à trama de uma maneira nada americanizada. É aquela cidade pacata, pequena, buraco de meteoro, quente pra dedéu, sem vento algum e bem comum dessa terra e de muitos brasileiros. Ao retratar o ambiente interiorano, nossa linguagem e nossas peculiaridades, sentimos o quanto a história é crível. Aliás, é ótimo ler algo assim, tão nosso, tão a gente, tão verdadeiro. 
— Não sei se é seguro ficar parado aqui na estrada — diz Nick, enquanto olhamos para Dênis.
— É — diz Zé Luís. — Alguém pode querer nosso minduim.
— Sei lá — ela diz —, é que escureceu. 
— Outro Gusmão que não bate bem é aquele primo dele — digo —, que tem a esposa alcoólatra, que bebia até perfume, lembra?
— É — Nick começa a sentar no chão —, mas isso foi depois que o pai dela teve um AVC e tal, não dá pra dizer que...
— Posso terminar minha história? — interrompe Dênis.
— Ah — eu rio. — É mesmo.

O que move a narrativa (e faz suas páginas voarem) são os diálogos; as interações são tão naturais que podemos nos ver ali, reconhecer outras pessoas e voltar alguns anos de nossa própria história de crescimento. Eu, pelo menos, revivi um pouco dos anos 2000, as picuinhas de turma, as modinhas, os privilégios sobressaltados, lembrar das companhias, da conveniência escolar, e ver um pouco da porra da vida de todo mundo. Todos tivemos um amigo x, y, z da trama, e todos guardamos histórias escabrosas da época da escola. É a temporada mais traumática da vida, mas é um tempo que a gente não pira sozinho. 
— Acho que tá na hora de ir pra casa.
— Espera — diz Nessa. — A gente não vai resgatar o tamanduá?
— Resgatar o quê? — digo. — A gente sai pra catar uma capivara e quando vê tá cagando com a vida de outro bicho da fauna brasileira. Deixa pra lá.
— “Outro bicho da fauna brasileira...” — Léo diz, rindo.

Nesse contexto, Luísa lança as cagadas dos personagens ao leitor para que tire suas conclusões. Identidade, percepção de realidade e refúgio são temas fortes e que incitam conversas importantes, assim como quebras de tabus. Para tal, ela se utiliza de muitas conversas do grupo e conversas internas para mostrar as situações e acho que essa foi uma das melhores escolhas de como nos presentear a história. Sua intervenção entre os capítulos, com listas regressivas paralelas à trama, também se revela um grande acerto para a narrativa. 
11 motivos pelos quais Zé Luís está junto nessa bagunça11. Porque, por algum motivo, ele sempre está junto nessa bagunça. Por ser o Filho da Empregada, cargo oficial, sempre tem que ajudar. Ele ajuda a mãe a terminar mais rápido, a secar a louça, a dobrar a roupa. Ajudou com a mudança entre os apartamentos caros da família, ouvindo sobre como cada custava dois milhões. Ele ajuda Léo com os deveres de casa desde suas primeiras dificuldades com frações.

E assim ela vai do humor ao drama, do simples ao complexo e do banal ao pesado em poucas linhas – palavras até. Nelas, trabalha-se bastante esse senso de liberdade, de ser e apenas ser, de sair da linha, de fazer merdas, de se procurar, de encontrar apoio no outro, tudo junto e misturado. A sensação que fica é que precisamos de mais livros verdadeiros e sincerões como esse. 
Por mais que seja extrovertida — voltada para fora —, se sente mais introvertida — voltada para dentro. Ela se sente uma silêncio-vertida. E precisa esconder isso. 
— A gente vai trocar um lugar real, que a gente tá vendo por uma fazenda imaginária onde tem capivaras? — diz Dênis. — Vocês tão bêbados?

Enfim, Capivaras é assim uma leitura certeira para aquela viagem de busão ou trem rumo ao interior. É criar a aventura quando a aventura não vem até você. E é excelente para curtir tardes chuvosas, aproveitar intervalinhos de aula, curar ressacas literárias e mandar a censura ir à merda por querer abafar uma preciosidade dessas (reveja o caso aqui). Vale lembrar também de ler a entrevista com a autora no final, uma novidade da editora Seguinte para os seus últimos lançamentos <3

E, claro, recomendadíssimo!

Semelhante à obra anterior de Luísa (De espaços abandonados; reveja resenha aqui), perguntas ecoam. A diferença é que um livro nos deixa aos berros alucinada e o outro rindo loucamente. Deixo com você pra descobrir essa. 
— Eu nunca moraria num lugar sem McDonald’s — digo. — Não por não poder ir ao McDonald’s, mas pelo que isso significa, sabe? Se não chegou McDonald’s, o que mais não chegou?

Até a próxima!



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Resenha: "Pequenos contos para começar o dia" (Leonardo Sakamoto)


Por Kleris: Leonardo escrevia microcontos no Facebook para os amigos e suas historietas – todas inspiradas em alguma experiência jornalística – tiveram incrível repercussão. O livro nasceu daí, uma maneira de registrar histórias do povo, histórias de uma geração, ficção e realidade, e abrir nossa percepção diariamente. 

Primeiro, foram os nomes dos netos. Depois, a literatura que amava. E ela foi se despindo na frente de todos. Foi estranho, mas o Alzheimer lhe concedeu o direito a uma só lembrança. O que é forte o suficiente para vencer o vazio?


As narrativas são variadas, assim como todos os sentimentos envolvidos. Não há um norte, nem um tema direto, senão esse convite a enredos rápidos. É um livreto de doses literárias para serem bebidas pouco a pouco. Leituras pausadas como esta são uma ótima garantia de companhia, seja para começar o dia (como o livro propõe), seja para respirar entre uma e outra coisa da vida corrida.

Nem todos os contos são 10/10. Tem aqueles que te tocam profundamente, tem aqueles que te levam à reflexão imediata e aqueles que “passam passando” – vai da história de vida e da sede de conhecimento do leitor para abraçá-los. 
Quando ficava de cama, seu pai trazia um velho livro cuja últimas três páginas haviam sido arrancadas. Então, ela se aninhava em seus braços para inventarem juntos o final. Na gripe, a princesa fugiu do castelo e foi ser repórter. Perna quebrada: deixou o príncipe em casa cozinhando e saiu com as amigas. Amídalas? Juntou-se a outras e mudaram o mundo. Ontem, já crescida, foi comprar o primeiro livro para a filha. Escolheu com carinho, arrancou as três últimas páginas e, sorrindo, pediu: “para presente”.

Mas é certo que algumas histórias ficam cá conosco e precisam de bandeirinhas para marcar seu lugar no livro. Não à toa as melhores partes ficam exato no meio, pois é comum que Leonardo lance os cenários e nos arrebate nas frases finais, bem centralizadas nas páginas.




É pra você que procura leituras que não precisam de grande imersão, que pode passar dias sem ler e não se perder. Cabe na bolsa e pode ficar bastante tempo na cabeceira. 
Largou tudo. Comprou um sítio. Produz morangos. Tem cachorro. Vive um amor. E perdeu o medo de usar o ponto final. 
E juntos descobriram que, na verdade, os biscoitos não estavam vazios.

O livríneo me lembra bastante de Recorte! da miga Talita Guimarães – quem me presenteou ♥️ Aliás, recomendadíssimo para dar de presente!


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Até a próxima!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Resenha: "Vida Decifrada" (Jam Belfort)

[V]ocê já teve a sensação de que a vida está tentando te dizer algo?
[I]sso pode parecer estranho, mas talvez ela esteja, mesmo.
[D]igo isso porque foi esta a exata sensação que Marcos teve.
[A]pós alguns acontecimentos supostamente banais, ele percebeu que a vida tinha deixado pistas, escondidas nas coisas mais simples que lhe aconteciam.
[D]esde então, ele passou a prestar mais atenção em tudo.
[E]le, porém, não contava com um detalhezinho belo, perfeito e cativante...
[C]erta menina tinha cruzado seu caminho, e ele, claro, se perdeu um pouco.
[I]sso e o fato de sua baixa autoestima teimar em querer sabotar tudo...
[F]elizmente (ou não) ele tinha a ajuda de seu um-pouco-atrapalhado melhor amigo.
[R]esolvi contar a história dele pois ela se parece um pouco com a minha.
[A]credito que também com a sua, pois todos buscamos achar o sentido da vida.
[D]eixo uma dica, caso queira embarcar nessa jornada:
[A]bra bem seus olhos e ouvidos. 
Pode ser que tenha nas estrelas e planetas algum código secreto. Uma combinação. Um ritmo. Um senso de direção.

Por Kleris: Marcos é um jovem estudante gamado em informática e, surpreendentemente, crônicas. Ao descobrir a esteganografia, a arte de esconder mensagens em coisas banais, sua vida se abriu para novos sentidos. Correlacionar fatos e coincidências se tornou seu novo hobby, isso até as coisas fazerem sentido demais. Ele entendeu que precisava seguir as pistas, cada vez mais sutis e claras em sua cabeça.

Foi assim que, durante as férias, conheceu Simone Letícia na biblioteca do bairro. A paixonite somada a seu hobby logo virou uma bola de neve de investigações (e investidas e mentiras) para conquistar a menina. Mas brincar com sentimentos não era o mesmo que brincar com pistas. 
A gente sempre deixa pra depois.
O que será que está nos fazendo deixar pra depois? 
Não costumo também me dar bem nessas coisas de amor. Sou destro e meu coração fica do meu lado esquerdo.

É isso que nosso narrador faz questão de pontuar. Conversador todo, nos entrega também a história de Alex, melhor amigo de Marcos, que, após a perda dos pais, revisita memórias em busca de significados e novos caminhos. Apesar da tragédia, Alex nos parece ser aquele alívio cômico, mas nele encontramos os mais nobres sentimentos e a vontade de abraçá-lo toda vez que aparece. 
— Com certeza não vai faltar inspiração — respondeu, com um tom orgulhoso no olhar e na voz.
— Eu causo isso nas pessoas.
— Não, Alex. Encontrei algo interessantíssimo. 
Alex queria uma cesta para seus pensamentos, que pareciam espalhados feito suas folhas de caderno.
Tem dias que esperamos apenas por um abraço que grampeie nossas folhas soltas.

Mas em @vidadecifrada nada está ali por acaso. Permeado de símbolos, códigos e pistas escondidas, a ficção juvenil fala das conexões que fazemos – desde amigos, família e coração, a pensamentos, objetivos e desafios. Jam faz tudo ser tão quase absolutamente decifrável, o que aguça nossa percepção e nos deixa até paranoicos com tantas correlações. Tem pista espalhada até mesmo pela diagramação para os olhos mais espertos. 

 

 


meu graaande amigo, tal qual a outra obra de jambelfort:


Página 188 com indicação do CVV
(Centro de Valorização da Vida)
  
 

Que oportunidade, guri! Ainda não acredito que você não fez nada para ajudá-la! Mas te entendo. Alguns sorrisos têm a função do controle-remoto de nos pausar... 

Acho que o desânimo do rapaz me atingiu...
Limito-me a narrar que ele ainda estava deitado na cama, seguindo com os olhos um fio que tinha por rumo o teclado do computador. Ao lado, olhou o cartão de Simone. O mouse escapuliu da mesa e ficou pendurado por seu cabo, num movimento hipnotizador.

O narrador, claro, é o condutor que faz toda a diferença. Prático e não menos carismático, ele nos envolve fácil nas tramas de maneira a trabalhar a identificação, senão a empatia. Em algum momento da vida já fomos Marcos, Alex, Helena, Simone e até Ricardo. Mas Jam é o engenhoso que prende nossa atenção e faz desta uma deliciosa leitura, de infinitas sacadas e infinitas epifanias. Aliás, conversar com o autor garante sempre uma nova descoberta. 
O livro só fará sentido se lido até o final. E quando relido, feito mágica cada detalhe se iluminará. 
Talvez o segredo por trás do sabiá na lápide seja o próprio sabiá na lápide. Talvez o sentido seja as próprias coisas. Não o que elas podem nos oferecer, mas simplesmente o que elas são.

E sua ousadia ainda vai muito além quando nos deparamos com tantas homenagens maranhenses embrenhadas ao enredo. Passam por aqui João do Vale, Ferreira Gullar, Maria Firmina dos Reis, Josué Montello, Gonçalves Dias, Nauro Machado e Cecília Leite. Não deixam de aparecer outros nacionais, como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, e além-mar, como Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.

É por certo um livro multiliterário, pois além de misturar linguagens (romance, crônicas, poesias, java script, html, diagramas, rimas de ideias), traz aspectos transmídias, transmutando partes da narrativa para perfis do instagram como @marcronicas e @musicadomar. Tudo isso sem deixar de ser leve, interessante e genial (meu tipo de livro e com certeza um dos melhores do ano). Recomendadíssimo! 
Eram janelas criptografadas. Dois universos diferentes, sem naves intergalácticas com propulsão suficiente para uma visita pacífica. Por vezes as palavras de um soavam como agroglifos, aqueles gigantescos círculos atribuídos a alienígenas que aparecem em plantações.
Eram um mistério um para o outro.

Meu exemplar faz parte dos raros livros impressos com bordas coloridas (opções de amarelo e azul), mas você encontra tanto o livro físico quanto o digital na loja Amazon. Muito mais curiosidades você também pode ver no site www.vidadecifrada.com.br (aba de conteúdo exclusivo). A senha? Está no livro. 
O que se vê nas ruas, afinal, rostos ou máscaras? 
A vida é boa em inventar enredos, coincidências e reviravoltas. Tenho certo fascínio pelo imprevisto, pela chuva em dia de casamento, pelas coisas inexplicáveis. Deixa tudo excitante e peculiar.

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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Resenha: "De Espaços Abandonados" (Luisa Geisler)


Por Kleris: Uau. Perplecta estou. Surtada fiquei. E palavras encontrarei, porque preciso falar desse livro.

Conhecido por desafiar os limites da ficção, De Espaços Abandonados nos coloca frente a mais possibilidades de feitura ficcional até então inimagináveis. Luisa tornou possível a formação de um romance em um... romance. E romance esse de formação.

Inception sim. Mas vamos por partes. 
Tudo o que está na terceira pessoa aconteceu. E se sabe que aconteceu porque o(a) narrador(a) é onisciente e confiável. O(a) narrador(a) é sempre confiável. O(a) narrador(a) não mentiria sobre aonde ele vai durante a noite. O(a) narrador(a) pode ver. E tudo o que está na terceira pessoa aconteceu com certeza. Aconteceu porque eu sei que aconteceu.

O enredo retrata a busca de Caio por Maria Alice, sua irmã, que viajou à procura da mãe, Lídia, que fugiu de casa e pelo tempo de desaparecimento, foi dada como morta. Lídia é bipolar, então constantemente Maria Alice e Caio, desde pequenos, assumiram responsabilidades quanto a cuidar da mãe. Ainda nesse papel, Maria Alice jura de pé junto que descobriu o paradeiro de Lídia, em Dublin, e parte nessa viagem.

É pela jornada de Maria Alice que entendemos mais sobre essas buscas, as relações familiares, o que a move (ou não move), seus planos e seu senso quanto ao panorama. Através dela somos levados também a outras pessoas e histórias, já na Irlanda, onde conhece estudantes brasileiros, como Maicou, Bruna e Caetano, com quem divide um apartamento. Todos, pelo jeito, estão tentando dar um jeito na vida. 
Costumava ser a criança que era “uma promessa” e que “tinha futuro” e que “ia dar certo”, mas aí. Sei lá.

O pulo do gato do livro é como o enredo é apresentado ao leitor: são fragmentos que funcionam como pistas para ligarmos os pontos, o que torna a leitura um tanto investigativa e ao mesmo tempo desafiadora, pois esses mesmos fragmentos são pedaços de uma narrativa dentro do próprio livro com múltiplas vozes narrativas. E esses fragmentos são registros e vivências que precisam de nossa costura (como um manuscrito inacabado), algo que não é fácil, mesmo com todas as sugestões no ar e mesmo com o manual que existe dentro do livro. 
“Imigrantes. Todos nós o somos, hoje. Quando a viagem não nos move, é o entorno que nos foge, o que dá no mesmo. Ficamos então parados, com tudo o mais indo, imigrantes a tentar entrar, todos os dias, em nós mesmos.”
Elvira Vigna, O que deu para fazer em matéria de história de amor.

Ler De Espaços Abandonados é se sentir constantemente perdido, bugado (modo HARD), e ainda assim instigado, perguntando-se sobre o que está acontecendo, se o que nos é apresentado vale para todo o contexto, se a narrativa está nos enganando, se a gente está no paralelo certo, qual é o sentido do rolê, e, claro, uma busca alucinada sobre o destino dos personagens. Como já disse a própria autora em entrevistas, é um livro esquisito e de leitura esquisita.

Isso quer dizer que o livro demanda um pouco de seu leitor. Por quebrar e reconstruir o script de um romance, pede-se um leitor mais experiente, mais solto e disposto a sair da zona de conforto. E que saiba inglês também, porque há conversações e referências quando vivemos com os imigrantes. Quem tem alguma experiência com escrita criativa pode ter umas vantagens – vai se situar melhor, entender as razões de algumas coisas e, por que não, se identificar nas mil e umas anotações.
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O dia em que Brasileiro desembarcou na Irlanda era verde com cheiro de cerveja. As pessoas se abraçavam. As pessoas sorriam muito. Bebia-se muito nas ruas. Cantavam. O rio que cruzava a cidade estava pintado de verde. As pessoas bebiam, lotavam os pubs e celebravam nas ruas. Dublin era o melhor lugar do mundo. 

Sempre que menciono exploração urbana — uma expressão estranha, que me desagrada, que requer explicação —, muita gente fala que gostaria de fazer. Mas nunca chegam a realizar o desejo. Como escrever um livro, todo mundo acha que deveria fazer. Todo mundo acha que tem que fazer. Ou isso ou todo mundo está escondendo lugares bons (na literatura e nos lugares abandonados).



Tal qual um jogo narrativo, nossa percepção é posta à prova. Mesmo com toda a visão privilegiada que Luisa nos permite, esse é um quebra-cabeça em que não conhecemos as “peças da ponta”, pelo menos não até terminar o livro e ficar só BERROS pela ficha que cai. 
O landford não vai aprovar essa merda. Vai sobrar pra mim, pra variar.
Fiz carinho em Taco Cat.
É um gatinho, não um rinoceronte festivo. Como ele vai saber?
Eu me sentiria mal mentindo para ele.
Eu dei uma gargalhada forçada:
Mas moram três pessoas a mais nesse apartamento do que o contrato prevê. E o gato é o que te incomoda?

Dividido em três partes, temos diversos paralelos enquanto a história está sendo construída na nossa frente. Para além de Maria Alice, Maicou e Bruna são dois personagens que facilmente roubam a atenção e Caio é aquele à espreita, com um lugar cativo na narração. Mas o mais curioso é que no meio de tanta voz, Luísa joga umas pistas e depois desfaz, o que quebra umas teorias e nos deixa desconfiados pensando demais.

Já a ambientação e o contexto em que somos inseridos, esses são pontos sensíveis para a compreensão do título. Fala-se muito sobre se perder, se abandonar e as relações que construímos ou desconstruímos no meio do caminho, estando parados ou não. Luisa é maravilhosa em nos mostrar isso.

Obviamente, o tom do texto assume uma melancolia constante para demonstrar essa falta de norte ou foco. A questão da imigração cai como uma luva, mas é interessante que Luisa não se prende a amarras comuns (e quanto a qualquer coisa). Quer dizer, não há qualquer exaltação ou romantização, seja sobre viver fora do país, seja sobre relacionamentos ou aspectos mais pessoais de seus personagens. Essa banalização e desprendimento também revelam um pouco de depreciação, o que não sei dizer se faz parte do estilo da autora ou se é um caso em particular, vez que essa é a primeira obra dela com que tenho contato (e com certeza lerei outros). 
Lembrem que vocês são brasileiros, tá?, eu disse.
Tipo os nossos cuidam dos nossos?, o bosta disse.
Não, eu disse. Vocês são brasileiros. E tem muito brasileiro por aqui. Vocês também são. Só isso. 
Sempre discutiam a respeito do termostato na parede. Matildo queria economizar eletricidade. Caetano achava que não tinha que tremer de noite. Que comprasse um cobertor. Caetano jogou dinheiro na cara de Matildo. Matildo disse que ia usar para pagar a parte do aluguel de Caetano, que sempre estava atrasado. Um dia a capinha do termostato caiu. Ele não estava conectado a nada. 
— Então só sobra uma saída pra você — ela disse. — Cê tá fugindo de algo.
— Se fosse pra fugir, é uma fuga meio cara, não é? Meio playboy magnata cheio da grana que vai desopilar na Europa.
— Vontade de fugir não é um luxo. É uma vontade. Só.

Por vezes o ritmo do livro diminui, e os fragmentos parecem incongruentes, aleatórios e até mornos, mas terminamos a leitura sabendo que estava tudo no lugar. Luisa nos entrega uma obra original, madura, pretensiosa, excepcional e que abre novos precedentes para a ficção e seus experimentalismos. Uma certeza que se tem é que, entendendo ou não entendendo o rumo ficcional, seremos geislerados. Eu estava no caminho certo quando ainda decifrava sua capa. 
Branco no azul no azul no branco com azul sob o azul.
Mas são só cadernos em branco. Sempre é só papel. 
Passei tanto tempo na minha cabeça que tinha desenvolvido um novo nicho/camada de humor que ninguém no mundo real, em que as coisas aconteciam, entendia.

E talvez eu precise reler. Porque perguntas e respostas e novas perguntas continuam ecoando aqui dentro.
Ou isso. 
Ou.

*Não preciso dormir. Preciso de respostas.* 
— Não é estranho como a gente fica constante e continuamente numa conversa mental com a gente mesmo? — Bruna disse para ninguém em específico. E tanto me sentia como ninguém em específico que me apaixonei por ela. 
Mas a verdade é que todos os livros são sobre criação literária, não é mesmo?

Fica ainda a dica de ouvir um episódio do Podcast 30Min dedicado ao livro e uma entrevista da autora no Programa Folhetim, para se embrenhar mais nessa viagem toda que é De Espaços Abandonados.

Recomendadíssimo se esse tipo de proposta também te fascina.

Até a próxima!

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Ana Liberato