sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Resenha: "Fraude Legítima" (E. Lockhart)

Tradução de Flávia Souto Maior

Por Stephanie: Fraude Legítima é o último lançamento de E. Lockhart, a mesma autora de Mentirosos. Como eu havia adorado seu livro anterior, as expectativas estavam nas alturas para este thriller. Acho que foram elas que tornaram a minha experiência não tão boa quanto eu esperava.

A obra nos apresenta a história de Jule e Imogen, duas garotas que tem um laço muito forte, que a princípio permanece um mistério mas aos poucos vai sendo explicado ao leitor. Jule é a protagonista, e é pelos olhos dela que a história é contada. Mesmo tendo sua perspectiva durante toda a obra, ainda assim é difícil compreender essa personagem quando terminamos a leitura.


(...) Ela acreditava que a melhor forma de evitar ter o coração partido era fingir não ter coração. (...)

A narrativa de Fraude Legítima é contada de trás para frente, começando do último capítulo e terminando onde a história começa (um pouco confuso, eu sei). Eu achei que fosse ficar perdida e esquecer tudo lá pela metade, mas isso não acontece, porque a leitura é muito fluida e os capítulos voam. Pra mim esse foi o ponto alto da obra.

Tirando este ponto super positivo, tive alguns problemas com a leitura, principalmente em relação aos personagens. Eu entendo que foi proposital incluir pessoas complexas e cheias de defeitos na história, a ponto de serem quase impossíveis de gostar, mas sabe quando ninguém soa real? Fiquei com a sensação de que todos eram fictícios, distantes da nossa realidade. Ou seja, não consegui me importar com ninguém.


(...) Mas acho que você é capaz de entender. Porque você conhece uma parte de mim que ninguém mais é capaz de amar. (...)

Ao contrário de Mentirosos, Fraude Legítima não possui um grande plot twist, e até mesmo o curso narrativo torna isso mais difícil de acontecer, já que conseguimos notar com bastante facilidade o que aconteceu “antes”. Por mais que eu reconheça a versatilidade da autora, acredito que se a história tivesse sido contada de maneira tradicional, poderia ter funcionado melhor e nos surpreendido mais.

No final do livro, a autora nos explica suas inspirações para Fraude Legítima, sendo a principal o filme/livro O Talentoso Ripley, que nunca assisti e nem li, portanto não posso falar sobre as semelhanças.

A escrita de E. Lockhart se mostra mais direta e simples neste livro, porém seus diálogos às vezes soam desconexos. Há um pouco de romance (que na verdade nem sei se posso chamar assim), mas os assuntos abordados com mais profundidade são: vingança, inveja, obsessão e amizades falsas. Portanto, pra quem gosta de uma história cheia de gente com sangue ruim, esse livro é um prato cheio!


O importante é isso: ser capaz a qualquer momento de sacrificar o que somos pelo que poderíamos nos tornar.
Até a próxima, pessoal!
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Resenha: "Só Escute" (Sarah Dessen)

Tradução: Alessandra Esteche


Sinopse: Para encarar a verdade, você precisa estar disposta a ouvi-la.

Ano passado, Annabel era a típica “garota que tem tudo” — inclusive era esse o papel que interpretava no comercial de uma loja de departamentos da cidade. Este ano, porém, ela é a garota que não tem nada: não tem mais a amizade de Sophie; não tem uma família feliz desde a descoberta do distúrbio alimentar de uma de suas irmãs; e não tem ninguém com quem passar a hora do almoço na escola. Até conhecer Owen Armstrong.
Alto, misterioso e obcecado por música, Owen é um garoto que vivia se metendo em brigas, mas agora está tentando mudar. Um de seus novos lemas é sempre falar a verdade, não importa qual seja, e jamais guardar ressentimentos.
Será que com a ajuda desse amigo inesperado Annabel vai conseguir encarar a verdade e enfrentar o que aconteceu na noite em que brigou com Sophie?

Fonte: Skoob

Por Eliel: Annabel estava acostumada a ser a garota que tem tudo. Uma carreira de modelo, uma família dessas de comercial de manteiga, amigos, popularidade etc. Mas esse livro vai além do que as primeiras impressões e as aparências podem revelar. Prepare-se e...

- Só escute - li em voz alta.
- É. Não pense ou julgue. Só escute.
- E depois?
- E depois - ele disse - você pode chegar a uma conclusão. É justo, não acha?
Realmente parecia. Fosse uma música, uma pessoa ou uma história, havia muitas coisas que a gente não tinha como avaliar com um único trecho ou uma olhada rápida.
- Acho - respondi, colocando o CD de volta no fundo da pilha.
- Tá certo.

O livro é narrado por Annabel e trata de temas como dificuldades na comunicação entre familiares, distúrbios alimentares, depressão, bullying, amizades verdadeiras e principalmente sobre a resolução desses e outros problemas decorrentes do dia-a-dia de uma adolescente.

É bom estar preparado, também, para ter sua caixinha de sentimentos revirados. Sarah tem uma forma de contar histórias que falam diretamente ao coração e vai ao âmago do seu sentimento. Lágrimas, posso dizer que serão inevitáveis.

O ponto alto é descobrir o que aconteceu com Annabel no verão passado. Um acontecimento que acabou com sua amizade com Sophie e destruiu sua vida desde então. Alternando entre o passado e o presente, onde Annabel está se reconstruindo, iremos descobrir aos poucos toda a densidade dessa narrativa.

Owen foi muito importante para dar mais peso por ser um amigo improvável para Annabel. Misterioso, quieto e fissurado em música ele vai apresentar um mundo novo e cheio de possibilidades para ela. É claro, que vai ter romance, mas isso nem chega a ser spoiler porque o interessante é como essa trama vai se desenrolar.

- Não pense nem julgue - eu disse. - Só escute.



Um adendo pessoal, as cenas que envolvem comida ou gastronomia e todo enredo social em torno de uma mesa ou refeição são as minhas favoritas desse livro. Eu recomendo com toda certeza esse livro e já vai para a prateleira do coração.

- Estava delicioso - Kirsten disse, me entregando uma panela ensaboada para que eu enxaguasse. - O molho era demais.- Também achei - minha mãe disse, sentada à mesa com uma xícara de café sem conseguir reprimir um bocejo. - Seu pai repetiu duas vezes. Espero que Whitney tenha percebido. É o melhor elogio que um cozinheiro pode receber.

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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Resenha: "Tash e Tolstói" (Kathryn Ormsbee)

Tradução de Lígia Azevedo

Por Stephanie: Como é bom quando a gente encontra um livro levinho e gostoso de ler, né? Tash e Tolstói é exatamente o que eu estava precisando no momento: uma história sem muita pretensão, com personagens apaixonantes e um enredo simples, porém envolvente. Além de ser super atual, sem passar aquela sensação de que a história só é relevante agora. Um YA contemporâneo do melhor tipo.
A primeira coisa que você precisa saber sobre mim é: eu, Tash Zelenka, estou apaixonada pelo conde Liev Nikoláievitch Tolstói. Esse é o nome oficial dele, mas, como somos próximos, gosto de chamá-lo de Leo.
A obra nos apresenta a história de Natasha Zelenka, mais conhecida como Tash (lê-se Tásh e não Tésh). Ela é uma adolescente prestes a sair do Ensino Médio, apaixonada por literatura clássica (principalmente Tolstói) e que se considera uma assexual heterorromântica. Em parceria com sua amiga Jack, Tash produz uma websérie baseada em Anna Kariênina, uma das obras mais famosas de seu escritor favorito. E quando, de uma hora pra outra, a websérie viraliza, as amigas se veem em um mundo totalmente novo e empolgante, e precisam lidar com as reações positivas e negativas que se somam à fama repentina. Além disso, Tash precisa lidar com seus amigos e possíveis pretendentes (que ela não cobiça sexualmente).

Ufa, parece muita coisa, né? Mas eu juro pra vocês que na verdade é tudo bem mais simples do que você pensa. A escrita de Kathryn Ormsbee é uma delícia, super fluida e com diálogos rápidos, além de algumas trocas de mensagens que fazem as páginas passarem ainda mais rapidamente. Mesmo citando as obras de Tolstói, não senti que a escrita se tornou pedante ou muito explicativa; a autora não subestima a inteligência do leitor. Mas já adianto: há uns bons spoilers sobre Anna Kariênina, então, esteja preparado.

Falando agora sobre o aspecto LGBT de Tash e Tolstói, achei bem tranquilo. Como a orientação sexual de Tash não é muito comum, há uma boa quantidade de informações sobre como é ser assexual e o que isto significa. A autora mostra as diversas reações que as pessoas podem ter ao se depararem com um assexual, então há um debate mesmo que leve sobre preconceito e aceitação, sobre se encontrar e se entender em um mundo onde há tantas expectativas sobre como devemos nos sentir e quem devemos amar. Tudo de maneira bem informativa, sem ser didático demais. É um livro extremamente apropriado para adolescentes que estão em fase de descoberta.
Cheguei à seguinte conclusão: minha falta de desejo não se deve à falta de esforço. Tentei mais que o suficiente sozinha. Não odeio o sentimento. É bom, até satisfatório, chegar a esse ponto de libertação. Mas não é como eu deveria me sentir. (...) Eu deveria sentir mais. Deveria querer como eles querem. Ou isso, ou todo mundo à minha volta está fingindo. Às vezes gostaria que estivessem. Seria uma desilusão, mas pelo menos eu não ia me sentir a mais estranha das pessoas.
Os personagens são todos muito queridos; até aqueles com jeitinho de vilão conseguiram ganhar minha simpatia em algum momento. São adolescentes críveis, que tem seus surtos e momentos idiotas, mas que se mostram amigos leais e companheiros nas horas mais difíceis. Por falar em amigos, a amizade de Tash e Jack é uma das representações mais fiéis que li nos últimos tempos. Elas brigam, mas não competem, não tem aquela inveja boba uma da outra e falam a verdade quando necessário. Sem manipulação, sem atitudes duvidosas… só a pura amizade verdadeira entre duas adolescentes.

Outros assuntos relevantes também são abordados em Tash e Tolstói, tais como: religião, bullying virtual, relações familiares, drogas e doenças terminais. Como já falei, tudo é tratado com leveza e fluidez, de maneira que as páginas voam e a gente nem percebe que leu tanto. Também existe bastante diversidade e dá pra ver que a autora não inseriu certas coisas apenas para cumprir uma “cota”.

Adorei o tempo que passei na companhia de Tash, com seus devaneios, suas dúvidas, suas vitórias e derrotas. Por vezes me irritei um pouquinho com ela, mas senti empatia também. Tash é a personificação da descoberta adolescente, com todas as dores e delícias que vem no pacote desta fase da vida.
Não importa o que aconteça no futuro, temos isto: contamos uma história que não poderíamos ter contado sem a ajuda um do outro.
Duas curiosidades: 01 - este é o primeiro livro com uma protagonista assexual a ser lançado no Brasil e 02 - as cores da capa são as cores da bandeira assexual :)

Até a próxima, pessoal!


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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Resenha: “Minha Vez de Brilhar” (Erin E. Moulton)



Tradução de Bianca Bold

Por Kleris: Que amorzinho de livro <3 Uma das leiturinhas mais amor deste ano!

Indie perdeu a irmã e melhor amiga Bibi para a adolescência e logo depois sua lagosta de estimação, Monty, em uma confusão na escola. Então ela fez um pedido às estrelas, de ser uma pessoa melhor para reaver esses pedacinhos de vida que ela vinha perdendo... Enquanto sai à caçada de Monty e tenta se reaproximar da irmã, Indie se vê em cenários maldosos do bullying e não deixa de perseguir seus sonhos. Acompanhada de Owen, garoto que conhece nos bastidores do teatro da peça de verão, a amizade vem a mostrar grandes lições sobre crescer, sobre respeitar o outro e sobre ser feliz à sua maneira.

Minha vez de brilhar nos coloca nas férias de verão com a peixólatra Indie, apaixonada por tudo que envolve os seres do mundo marinho. Essa sua paixão já fora algo que compartilhara com a irmã Bibi, mas que agora é motivo de chacota pela escola, encarada como a esquisitona que se deve ter distância. Mesmo perdendo a companhia de Bibi, então “crescida” demais para as brincadeiras juvenis de Indie, Indie não abandona o que ama para satisfazer o senso de ninguém. Mas quando perde Monty, sua lagosta de estimação, no mar após uma confusão, o coração da menina fica vulnerável. Ainda assim, a personalidade de Indie mostra que ingenuidade ou integridade não devem ser encaradas como fraquezas. Na verdade, pode ser o melhor que temos a oferecer em ambientes com pessoas tóxicas.

A amizade tem grande destaque do livro, que vem desde o ambiente familiar, o amor pelos animais, às descobertas das pessoas favoritas no mundo e o quanto podemos nos entregar a elas. É ao colocar a confiança em xeque que Erin nos leva para uma trama singela, mas extremamente relevante para o amadurecimento. Com certeza um livro que gostaria de ter lido em meus 10, 11, 12 anos, e ainda tão gostosinho em qualquer idade. 
Eu olho para ele, e ele olha para mim. Ele está com areia no cabelo, seus óculos estão meio de lado, e uma de suas mangas está encolhida, enquanto a outra está lugar onde deveria estar. Estamos numa tremedeira e uma bagunça só. Estamos cobertos de lama e areia e nos escondendo, encostados em um reboque, no meio da noite. Owen começa a rir primeiro, e depois eu entro na onda, porque a situação é simplesmente ridícula.

O toque juvenil, de grandes desejos pueris, espontâneos e sinceros, é o que com certeza faz o encanto acontecer. Com ares de Full House (a série), Erin tem uma escrita relaxada e fluída, que nos coloca exatamente no lugar da história e dos conflitos, e nos leva fácil para as aventuras, as fugas, as reflexões. 
Faço uma careta de peixe-lobo na janela, puxando a boca para baixo para formar uma grande linha de um lado para o outro do queixo. Esbugalho bem os olhos e puxo para baixo as sobrancelhas, na parte do meio, para baixo o máximo que eu consigo e acho que fica um ótimo sorriso de peixe-lobo. Bem ameaçador e nojento.
Indie. — Desvio a vista do meu reflexo e olho para minha irmã mais velha, Bibi, no assento à minha frente. — Pare com isso — diz ela pelo canto da boca. Bibi não gosta mais quando eu faço caretas de peixe, mas antes ela adorava. Agora ela está velha e experiente demais para esse tipo de coisa, e, sempre que faço, ela finge não me conhecer.Eu faço uma truta bocuda, porque é a careta que mais fazia Bibi rir, mas desta vez ela dá um grunhido e olha pela janela.
 
— Peixes, por favor, prometa-me perfeição. Perfeição.
— Você já é perfeita, Bi — disse eu.
Pensei no quanto ela sempre foi organizada e arrumada. Em como ela tinha tantos amigos e um sorriso perfeito. E como ela tinha uma voz que parecia sair direto do mar. Mas, enquanto eu a observava, ela apertava bem os olhos, e suas pálpebras tremiam com a força do pedido. Era um pedido sério de verdade. Como se ela nunca acreditasse, como se ela tivesse muito o que crescer. Olhei para as estrelas de novo e segurei meu pingente. 

Minha vez de brilhar é aquele livro que aperta, que aquece o coração, que cura ressacas. Já com saudades das caras de peixe de Indie, com certeza procurarei outros livros da autora. Recomendadíssssimo! 
O que importava era a diversão. É impossível não sorrir quando alguém faz uma careta de peixe para você. Bem, não é completamente impossível, mas é quase impossível. 
É aí que faço a coisa mais louca do mundo. Eu me levanto no meio do bosque e faço um barulho, meio risada, meio grito de guerra, direto para o céu da noite. Algo parecido com o que ouço nas músicas de Sloth o tempo todo.

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Resenha: "Belas Adormecidas" (Stephen King & Owen King)

Tradução: Regiane Winarski

Por Sheila: Oi pessoas! Como estão? Eu, como boa kingmaníaca que sou, acabei a leitura deste lançamento - que, confesso! comecei a ler um tanto quanto receosa - e estou em êxtase! Isso sempre me coloca num grande conflito: é muito mais fácil escrever uma resenha para um livro que não gostei, do que para um que amei. 

Já o meu receio, totalmente infundado, provinha do fato de termos dois Kings como autores e, como não conheço a escrita de Owen, não sabia muito bem o que esperar. Já eu e o King pai, depois de quase 50 livros lidos, somos quase velhos amigos kkkkkkkkkkk.

Mas vamos à sinopse:
Pelo mundo todo, algo de estranho começa a acontecer quando as mulheres adormecem: elas são imediatamente envoltas em casulos. Se despertadas, se o casulo é rasgado e os corpos expostos, as mulheres se tornam bestiais, reagindo com fúria cega antes de voltar a dormir.
Em poucos dias, quase cem por cento da população mundial feminina pegou no sono. Sozinhos e desesperados, os homens se dividem entre os que fariam de tudo para proteger as mulheres adormecidas e aqueles que querem aproveitar a crise para instaurar o caos. Grupos de homens formam as “Brigadas do Maçarico”, incendeiam em massa casulos, e em diversas partes do mundo guerras parecem prestes a eclodir.
Mas na pequena cidade de Dooling as autoridades locais precisam lidar com o único caso de imunidade à doença do sono: Evie Black, uma mulher misteriosa com poderes inexplicáveis.
Tudo começa com Evie Black. Como a Eva do mito, ela é a Mãe, e é chamada por algo muito maior do que ela mesma, e para a qual não chega a dar uma explicação à cidade atônita que só consegue entender uma coisa: é com ela, por ela, e em razão dela que o sono nos casulos aparece. E é na cidade de Dooling que o que ela traz junto com o sono será decidido.

A mariposa fez Evie rir. Pousa no antebraço exposto, e ela passa o indicador de leve pelas ondas marrons e cinzentas que colorem as asas.
- Oi, lindinha - diz ela para a mariposa. O inseto levanta voo. Subindo, subindo, subindo segue a mariposa, e é engolida por um raio de sol emaranhado nas folhas verdes e brilhantes seis metros acima de onde Evie esta, entre as raízes no chão.
Uma comprida cabeça de cobre sai pelo buraco negro no centro do tronco e desliza entre placas da casca. Evie não confia na cobra, obviamente. Já teve problemas com ela antes.
Sua mariposa e dez mil outras surgem da copa da árvore em uma nuvem crepitante e parda. O enxame rola pelo céu na direção da floresta debilitada de replantio de pinheiros do outro lado da campina. Evie detecta os primeiros odores químicos (amônia, benzeno, petróleo, tantos outros, dez mil cortes em um único pedaço de pele) e abandona a esperança que não tinha percebido que tinha.
Em sua casa, o Dr. Norcross, um psiquiatra da prisão feminina de Dooling, se olha no espelho sentindo o peso dos anos acumulando na cintura, sem saber que está prestes a ter de lidar com o surto de Aurora, como a epidemia de mulheres que não acorda passa a ser chamada; que terá de lidar, muito em breve, com Evie Black, a única mulher a não virar um casulo quando dorme; e com uma crise familiar com sua esposa, a xerife Lila Norcross, que parece ter descoberto algo do passado do marido que a perturbou consideravelmente.

Quando o caos começa, caberá aos homens, e algumas poucas  mulheres que conseguiram continuar acordadas, decidir os rumos que serão tomados pela humanidade. Dooling será palco dessa luta, onde o bem e o mal parecem estar difusos, misturados, sendo uma parte integrante de cada uma das pessoas - com algumas exceções, claro.

Imbuído nas diversas vozes femininas que falam no livro, há uma forte crítica social à sociedade machista, e um constante retorno a como muitos homens - as vezes sem querer, as vezes sendo uns completos babacas escrotos - fazem mal às mulheres e, concomitantemente, à sociedade.

Até aquele ponto, Tiffany tinha suposto que abusadores, gente como seu primo Truman, deviam viver em negação. Se não era assim, como eles podiam viver? Como era possível uma pessoa degradar outra se estivesse totalmente ciente do que estava fazendo? Bom, acontece que era possível, homens como o segurança porco faziam exatamente isso. Foi um choque essa percepção, que explicou abruptamente tanto da vida de merda dela.

Mas, ao mesmo tempo, há a evidenciação de que um mundo só de mulheres também não seria perfeito. E de que,  no próprio discurso feminino há a presença de incongruências, relativizações, que sustentam esse machismo - afinal, todo homem veio de um ventre feminino. Ou seja, não cabe somente aos homens a mudança, mas a TODOS E TODAS NÓS.

Belas Adormecidas pode ser lido como uma alegoria, uma fábula lindíssima a respeito de muitos temas atuais como feminismo, bullying, preconceito racial e social, uso e abuso de drogas, sistema carcerário e brutalidade policial, além da fragilidade das relações advinda da anestesia que o dia-a-dia as vezes impõe às nossas vidas. Nada como um evento cataclísmico para fazer com que as pessoas parem e repensem quem elas realmente são. Quem sabe nos utilizamos desse exemplo dado pela ficção e tentamos fazer algo a respeito de nós mesmos sem que as coisas precisem chegar nesse ponto?

Preciso dizer que recomendo? Forte abraço a todos!

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Ana Liberato