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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Resenha: "Codinome Villanelle - Killing Eve #1" (Luke Jennings)

Tradução de Leonardo Alves

Sinopse: O surpreendente thriller que deu origem à série de sucesso Killing Eve, um drama de espionagem diferente de tudo o que você já viu.

Villanelle (um codinome, é claro) é uma das assassinas mais habilidosas do mundo. Uma psicopata hedonista, que ama sua vida de luxo acima de quase qualquer coisa... menos a emoção da caçada. Especializada em matar as pessoas mais ricas e poderosas do mundo, Villanelle é encarregada de aniquilar um influente político russo, e acaba com uma inimiga determinada em seu encalço.
Eve Polastri é uma ex-funcionária do serviço secreto inglês, agora contratada pela agência de segurança nacional para uma tarefa peculiar: identificar e capturar a assassina responsável e aqueles que a contrataram. Apesar de levar uma vida tranquila e comum, Eve possui uma inteligência rápida e aguçada – e aceita a missão.
Assim começa uma perseguição através do globo, cruzando com governos corruptos e poderosas organizações criminosas, para culminar em um confronto do qual nenhuma das duas poderá sair ilesa. Codinome Villanelle é um thriller veloz, sensual e emocionante, que traz uma nova voz à ficção internacional.

Por Stephanie: Me interessei por Codinome Villanelle por ser a obra que deu origem à aclamada série Killing Eve (inclusive fiquei surpresa quando soube que o programa não era um roteiro original). Ainda não tive a oportunidade de assistir, mas posso afirmar que o livro sozinho não teria conseguido despertar meu interesse pela série, caso já não existisse antes.

O enredo é bastante simples: acompanhamos a caçada de uma investigadora britânica que tenta capturar uma assassina de aluguel. Os crimes cometidos por Villanelle envolvem pessoas do alto escalão mundial, e por isso o livro tem um tom muito presente de espionagem durante todo o seu desenvolvimento – o que surpreendentemente me agradou, já que não sou muito fã dessa temática.

A narrativa de Luke Jennings é bem direta, sem muitas firulas e bastante fria. O ponto de vista é em terceira pessoas e há algumas descrições breves de locais e de sentimentos dos personagens, mas curiosamente e sem motivo aparente o autor foca bastante a descrição de roupas, principalmente as de Villanelle, que praticamente só usa looks de grife. Achei o excesso dessas descrições muito cansativo.

Villanelle está usando um vestido Valentino de seda e luvas de gala Frateli Orsini que cobre até o cotovelo. O vestido é vermelho, mas de um tom tão escuro que quase parece preto. Uma bolsa Fendi espaçosa está pendurada em seu ombro por uma corrente fina.

O livro é dividido em apenas quatro capítulos, que chegam a ser quase independentes. Como Villanelle viaja bastante, cada parte se passa em um local diferente e tem um “alvo” distinto; por isso, é como se, ao final de cada capítulo, houvesse uma conclusão para o crime que a assassina cometeu. Não costumo gostar de livros com poucos capítulos mas a leitura flui bem e o livro é curto, então até que isso não me incomodou tanto.

Meus maiores problemas têm relação com a escrita do autor, que achei um tanto amadora. Como esse não é o livro de estreia de Jennings, não consigo achar uma justificativa para uma escrita tão pouco inspirada, que diz muito mas mostra pouco. Villanelle e Eve são sempre descritas como arqui inimigas, porém, na prática, não conseguimos ver todo o ódio que o autor descreve que há entre elas. Na verdade, os personagens como um todo são bastante frios e não conseguem convencer como pessoas reais.

De pé ali no terraço, em sua jaula de neve, Villanelle sente a ansiada onda de poder. A sensação de invencibilidade que o sexo promete, mas só um assassinato bem-sucedido proporciona de fato.

A única exceção é a própria Villanelle, que nitidamente é a personagem a quem o autor dá mais atenção e desenvolve melhor. Ela é bissexual e acho que nesse ponto foi bem desenvolvida, com naturalidade (um ponto a ressaltar é que o livro possui diversas cenas de sexo protagonizadas por ela). Villanelle é descrita como sociopata em várias passagens e o autor repete em muitas ocasiões que a assassina sabe imitar as emoções humanas com perfeição. Toda essa repetição, mais uma vez, soou bastante cansativa. Acredito que esses problemas se resolveriam com uma boa mão de um editor.

É difícil dizer se recomendo ou não essa leitura. Acho que os fãs do seriado podem ter uma experiência positiva, afinal, é sempre bom ter materiais inéditos sobre algo que gostamos, mas aqueles que como eu nunca assistiram Killing Eve provavelmente terão alguns dos problemas que tive com a obra. Ainda assim, verei a série assim que possível, porque parece ser superior ao livro (que é o primeiro de uma trilogia).

Até a próxima, pessoal!

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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Resenha: "O Clube dos Oito" (Daniel Handler)

Tradução de Fabricio Waltrick

Aviso de gatilho: este livro possui cenas de estupro e violência explícita.

Por Stephanie: O gênero (ou classificação comercial) Young Adult, também conhecido como YA, é um dos mais populares hoje em dia. Mas lá em 1999, ano de publicação de O Clube dos Oito, a coisa era bem diferente. Claro que a literatura infanto-juvenil sempre existiu, mas não com as características específicas que aproximam a obra de um público-alvo adolescente. E é por isso que arrisco afirmar que a estreia de Daniel Handler foi um dos precursores dos livros contemporâneos para jovens adultos.

O livro conta a história de Flannery Culp, uma garota acusada de cometer um assassinato quando estava em seu último ano do Ensino Médio. O crime teria sido motivado por um suposto culto satânico envolvendo seu grupo de amigos denominado Clube dos Oito, além de outros fatores ocultistas e bizarros.

Através de seu diário, Flannery nos conta (com muito sarcasmo) os acontecimentos dos dias anteriores ao assassinato e um pouco sobre sua vida atualmente, agora já condenada e encarcerada. Esse modelo de narrativa hoje em dia já é bem comum, mas acredito que contar a história através de um diário foi um dos pontos diferenciais da obra de Handler na época de seu lançamento.

Flannery é a típica narradora não-confiável e difícil de gostar. No começo eu tive muita dificuldade no andamento dos capítulos, já que a voz da protagonista me incomodava muito. A garota quase chega a ser intragável, de tão fútil e reclamona. Aos poucos foi ficando mais tranquilo, mas não por conta de Flannery, que continuou chata, e sim por causa da dinâmica entre os amigos do Clube dos Oito que, apesar de bizarra, me entreteve bastante.

É necessário ter em mente durante toda a leitura o fato de que a obra foi escrita no final dos anos 90, ou seja, não se pode criticar o livro se baseando em YA’s contemporâneos atuais. É difícil exigir representatividade e diversidade em uma época em que isso era pouco debatido em livros para jovens. Não estou dizendo que é motivo para perdoarmos qualquer preconceito, mas eu tive que relevar algumas coisinhas em relação aos conflitos do livro para que a experiência fosse a mais positiva possível.
(...) Talvez os jovens de gerações anteriores se rebelassem por algum motivo mais óbvio, mas hoje sabemos que estamos simplesmente nos rebelando. Entre filmes para adolescentes e livros de educação sexual, estamos tão ansiosos pela nossa fase rebelde que é inevitável sentir que ela é segura, controlada. Tudo vai acabar bem, apesar dos riscos, aconchegados dentro da proteção da narrativa rebelde. (...)
Explicando melhor o que eu quis dizer no parágrafo anterior: Flannery é uma garota extremamente preocupada com sua aparência; ela afirma diversas vezes que é gorda (o que provavelmente é mentira, visto os comentários de seus amigos) e chega a ficar sem comer em várias passagens do livro, mesmo sentindo fome. Ela também xinga outras garotas de coisas como “vaca gorda”, que é algo bem gordofóbico. Não consegui entender até que ponto esses eram pensamentos apenas da personagem ou que também refletem a opinião do autor. Por isso foi um pouco difícil analisar de maneira neutra.

A rivalidade feminina também existe em grande quantidade em O Clube dos Oito. As meninas brigam bastante por conta de ciúmes de seus pretendentes, e chega até a ser cansativo. Mais uma vez, esse tipo de conflito pode até ser aceitável lá em 1999, mas hoje em dia é algo pouco verossímil.

O Clube dos Oito também debate a liberdade e rebeldia de adolescentes ricos e com pouca supervisão de adultos, algo que até mesmo nos dias de hoje é um assunto relevante. É fácil perceber a ironia do autor em representar a ausência dos pais de todos os adolescentes, tal como a presença constante e às vezes um pouco invasiva da escola e de seus professores.

Por fim, outro assunto importante que ganha destaque na obra é a distorção dos fatos pela mídia. Vemos diversas passagens de programas de TV, livros e jornais que fizeram a cobertura do caso e como é fácil canonizar a vítima e demonizar o criminoso da forma mais exagerada possível. Lendo o relato de Flannery é possível enxergar a discrepância entre os fatos e o que é exposto para o público.

O desfecho de O Clube dos Oito tem uma reviravolta que me pegou de surpresa; Daniel Handler não fez muito esforço para esconder a revelação mas acho que eu estava tão curiosa pra saber como o assassinato tinha acontecido que deixei passar várias dicas. Os mais atentos vão conseguir sacar com muita facilidade.
(...) A verdade se escondia em mim como um peixe cauteloso, suspeitando que qualquer sombra é uma rede que vai capturá-lo e trazê-lo à luz. (...)
Recomendo a leitura para quem curte humor negro, sarcasmo e personagens repletos de defeitos. Depois da metade é uma leitura bem fluida e que entretém o leitor, e que com sorte, pode conseguir surpreender no final.

Até a próxima, pessoal!
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segunda-feira, 19 de março de 2018

Resenha: "Os Criadores de Coincidências" (Yoav Blum)

Tradução: Fal Azevedo

Sinopse: E se o trem que você perdeu, o café que derrubou, o bilhete que encontrou não forem eventos aleatórios? E se o destino do mundo estiver sendo manipulado por pessoas especializadas em criar acasos?
Neste romance best-seller do israelense Yoav Blum, o destino é o protagonista – mas ele não depende de sorte ou intervenção divina.
Emily, Eric e Guy trabalham numa espécie sobrenatural de organização secreta há alguns anos. Eles estudaram disciplinas como interferências em sonhos, distribuição de sorte e como ser amigos imaginários, até se tornarem criadores de coincidências. Agora, de tempos em tempos, recebem complexas missões a serem executadas. Seu trabalho é permanecer na área cinzenta entre destino e livre arbítrio, onde eles criam situações que criam situações que criam mais situações que darão origem a pensamentos e decisões, gerando os mais diversos resultados: o encontro de almas gêmeas, invenções que podem mudar o mundo, a inspiração que dará origem a obras-primas.
Mas, quando Guy recebe uma missão especial, que vai além daquilo que ele acredita poder fazer, as coisas começam a se mover de forma a mudar tudo o que os criadores de coincidências entendem sobre a vida e a verdadeira natureza do amor.
Um thriller improvável sobre os operários invisíveis que mantêm girando as engrenagens do acaso.

Fonte: Skoob

Por Eliel: Uma narrativa leve dessas que em uma tarde chuvosa com um bom café pode ser devorada em um fôlego só. Aparentemente, é apenas uma coletânea de pequenas histórias de coincidências cotidianas onde o fio que as liga é um desses funcionários sobrenaturais dessa organização secreta que arquiteta todas essas pequenas brincadeiras do destino.

Entretanto, além de um romance bem arquitetado é um thriller surpreendente. Se você gosta de plot twist, aqui vai encontrar uma enxurrada deles. Quando estiver entendendo a narrativa ela vai se virar e mostrar que ainda tem muito para entender, e assim vai até os últimos 4 primeiros capítulos (só vai entender quem ler).

Uma coisa que me incomodou foi que algumas histórias ficam sem final para o leitor. Mas, esse incomodo logo passou ao entender que esse livro não é sobre essas histórias e assim como na vida real não sabemos o final de um encontro de um casal na mesa do lado, será que viveram felizes? Será que aquele foi o último encontro? Isso na verdade não nos interessa, afinal a narrativa que ansiamos em desvendar é a nossa própria.

Guy, Emily e Eric são nossos protagonistas, é neles que temos que prestar a atenção. Eles se formaram juntos na turma de Criadores de Coincidências e se tornaram amigos inseparáveis. Todos são muito eficientes no que fazem.

Emily tem uma paixão platônica por Guy, e ele é apegado a um amor antigo por Cassandra, uma mulher que ele conheceu quando trabalhava como amigo imaginário de um menino. Desde o primeiro momento, Guy e Cassandra tiveram uma ligação que iria além de suas próprias existências. Emily sabia que jamais haveria lugar para ela no coração de Guy.

- Então o que eles dizem parece ser verdade. Quando a pessoa certa está ao seu lado, você tem uma sensação de pertencimento, onde quer que esteja.

Com um ritmo frenético somos apresentados a questões de cunho filosófico sobre questionamentos comuns da humanidade. A leitura pode até ser rápida, mas o efeito que ela causa pode ser comparado ao Efeito Borboleta (parte da Teoria do Caos), onde o simples bater de asas de uma borboleta em uma parte do planeta poderia causar um furacão do outro lado dele.

A estrutura organizacional dessa "empresa" é abalada quando Guy recebe uma missão que ele tem certeza que não poderá cumprir. Somente quando o envelope passa por baixo da sua porta com as instruções para o seu próximo trabalho é que sentimos que a aventura realmente começa (e não para).

Um romance bem original, envolto em mistério que vai fazer você querer que todos leiam para poder discutir um milhão de teorias na mesa do bar, no café ou onde o destino te levar. Após ler esse livro as coincidências não vão te parecer apenas o que parecem ser.

P.S.: Estou tentando digerir o final até agora, sensacional.


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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Resenha: "Fraude Legítima" (E. Lockhart)

Tradução de Flávia Souto Maior

Por Stephanie: Fraude Legítima é o último lançamento de E. Lockhart, a mesma autora de Mentirosos. Como eu havia adorado seu livro anterior, as expectativas estavam nas alturas para este thriller. Acho que foram elas que tornaram a minha experiência não tão boa quanto eu esperava.

A obra nos apresenta a história de Jule e Imogen, duas garotas que tem um laço muito forte, que a princípio permanece um mistério mas aos poucos vai sendo explicado ao leitor. Jule é a protagonista, e é pelos olhos dela que a história é contada. Mesmo tendo sua perspectiva durante toda a obra, ainda assim é difícil compreender essa personagem quando terminamos a leitura.


(...) Ela acreditava que a melhor forma de evitar ter o coração partido era fingir não ter coração. (...)

A narrativa de Fraude Legítima é contada de trás para frente, começando do último capítulo e terminando onde a história começa (um pouco confuso, eu sei). Eu achei que fosse ficar perdida e esquecer tudo lá pela metade, mas isso não acontece, porque a leitura é muito fluida e os capítulos voam. Pra mim esse foi o ponto alto da obra.

Tirando este ponto super positivo, tive alguns problemas com a leitura, principalmente em relação aos personagens. Eu entendo que foi proposital incluir pessoas complexas e cheias de defeitos na história, a ponto de serem quase impossíveis de gostar, mas sabe quando ninguém soa real? Fiquei com a sensação de que todos eram fictícios, distantes da nossa realidade. Ou seja, não consegui me importar com ninguém.


(...) Mas acho que você é capaz de entender. Porque você conhece uma parte de mim que ninguém mais é capaz de amar. (...)

Ao contrário de Mentirosos, Fraude Legítima não possui um grande plot twist, e até mesmo o curso narrativo torna isso mais difícil de acontecer, já que conseguimos notar com bastante facilidade o que aconteceu “antes”. Por mais que eu reconheça a versatilidade da autora, acredito que se a história tivesse sido contada de maneira tradicional, poderia ter funcionado melhor e nos surpreendido mais.

No final do livro, a autora nos explica suas inspirações para Fraude Legítima, sendo a principal o filme/livro O Talentoso Ripley, que nunca assisti e nem li, portanto não posso falar sobre as semelhanças.

A escrita de E. Lockhart se mostra mais direta e simples neste livro, porém seus diálogos às vezes soam desconexos. Há um pouco de romance (que na verdade nem sei se posso chamar assim), mas os assuntos abordados com mais profundidade são: vingança, inveja, obsessão e amizades falsas. Portanto, pra quem gosta de uma história cheia de gente com sangue ruim, esse livro é um prato cheio!


O importante é isso: ser capaz a qualquer momento de sacrificar o que somos pelo que poderíamos nos tornar.
Até a próxima, pessoal!
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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Resenha: "O Pálido Olho Azul" (Louis Bayard)

Tradução por: Lea Zylberlicht

“E agora, Leitor, uma história!”


Por Marii: E que história! Terminei o livro surpresíssima, mas, principalmente, e certamente, satisfeita.

Eu já nem mais esperava terminá-lo, já que estava na minha estante há um tempão e devo ter tentado terminar por duas ou três vezes. Entretanto, meu desinteresse pela leitura, em geral, não me permitiu passar nem das primeiras páginas. Abri o livro por esses dias e ali estava a marca do tempo em que havia abandonado o prazer ávido e visceral que eu tinha por livros, três anos. Determinada a  lê-lo ate a ultima página tomasse o tempo que fosse, os três anos foram esquecidos em três dias.

Um bom leitor sabe o quanto é prazeroso entrar pelas madrugadas acompanhado de uma boa história. E O pálido olho azul que me tomou algumas noites, pois tinha essa história extremamente intrigante. Além, de personagens extremamente envolventes.

Mas vamos por parte, o livro se passa mais ou menos no século XVI em uma academia militar americana para cadetes. E um dos pontos positivos do livro foi o quanto o autor foi cuidadoso com a linguagem rebuscada remetendo ao tempo da história. E mesmo assim, essa linguagem ainda permitiu um tom mais intimista dos personagens com o Leitor (com quem Gus Landor dialoga por toda historia). Os capítulos são em primeira pessoa, e há alternância de personagens entre os capítulos, e eu percebi que essa alternância servia para nos lembrar, como leitores, que não se tratava de um narrador onisciente e também que poderíamos pensar e julgar cada ponto de vista. 
“Fico embaraçado em dizer que, naquele momento, fui tomado por uma conjetura – do tipo que, normalmente, Leitor, eu não o aborreceria com ela. Parecia-me que a única coisa que sobrara de Leroy Fry era uma pergunta. Uma simples questão, colocada pelo enrijecimento dos membros, pelo tom esverdeado da sua pele pálida e sem pelo...
Quem?
E pela palpitação que experimentava, eu soube que era uma questão que eu devia responder. Não importava se fosse perigoso para mim, eu tinha que saber quem havia tirado o coração de Leroy Fry.”
O personagem principal é o Gus Landor, quem descreve a maior parte do livro em uma quantidade de detalhes impressionantes, ate mesmo os anatômicos.  Ele é o detetive chamado para resolver o caso de um cadete que havia se suicidado e teve o seu coração, literalmente, roubado na mesma noite. 

Na Academia ele conhece Edgar A. Por, ou cadete Poe, o mesmo famoso poeta e escritor americano, quem mais tarde vai ajudar o detetive na resolução do caso. A referência ao famoso poeta também é perceptível pela esfera de poesia, misticismo e mistério. A personagem feminina Lea também deve ser destacada, pois além de ser responsável pelo romance no livro, demonstra sua posição como mulher na sociedade e auxilia na ambientação militar e antiga. 
“Não gritei. Duvido que tenha me mexido. O púnico sentimento que me lembro de ter tido era o de uma mera curiosidade, do tipo, suponho, que um homem da infantaria deve sentir quando contempla abala de um canhão que está prestes a encontrar sua cabeça. Fiquei parado no meio do quarto e olhei outra mão – a gêmea da primeira – agarrar o parapeito. (...). Seguido por uma franja suada de cabelo preto e dois grandes olhos cinzentos, fixos e tensos, e duas narinas dilatadas pelo esforço. E  oh, sim, duas encantadoras fileiras de dentes, rangendo fortemente.
Cadete Poe, do primeiro ano, ao meu dispor.”
Praticamente todos os personagens são bens construídos e tem sua relevância. Não existe um para apenas preencher espaço. Aliás, as informações que são dadas tem sua importância e vão se entrelaçando na historia. No decorrer do livro, não muito tarde, o autor para de nos apresentar personagens, ou suspeitos, e na gama que ele nos deu, imaginar o "quem, como e porquê".

E, apesar de tudo, o final não é tão previsível e se apresentou como uma excelente saída para a trama.
O narrador é bem comparativo e detalhista sobre os acontecimentos ou ambientes. E, para mim, acabou deixando o inicio um pouco lento e, em alguns momentos a investigação também. Porém todos os fatos são bem amarrados e justificados, já que praticamente não ocorrem sem propósitos. 
“Quão repentina chega, essa benção do amor! E como nos desconcerta até no momento de seu nascimento! Embora possamos isolar o próprio céu para alcança-lo, não podemos envolvê-lo. Não, não, ele deve sempre nos escapar. Precisamos fracassar – CAIR.”
Por fim, achei a obra pra lá de inteligente por todos os seus detalhes; o início lento, a consciência de um Leitor e até a consciência da manipulação da mente de um Leitor.  Recomendo esse livro, principalmente para quem hosta de um bom romance investigativo e não esteja procurando algo que fuja das resoluções óbvias. Adverto só um pouco de força de vontade no início. De resto, como diria minha professora de literatura, deleitem-se.
Você pode encontrar o livro aqui na Folha.



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domingo, 25 de maio de 2014

Resenha: "Encontre-me" (Romily Bernard)

Por Sheila: Oi pessoas! Como vão todos e tod@s! Eu escrevo no feriadão de páscoa, apesar de que sei que provavelmente a resenha só vai ser postada bem depois. Mas mesmo assim, Feliz Páscoa! Comeram muito chocolate? Eu estou de dieta permanente! Então não pude aproveitar muito... 

Mas, deixando minhas frustrações alimentares de lado, vamos à resenha! “Encontre-me” é o primeiro livro de uma trilogia de Romily Bernard, que será publicada pela Globo livros. Romily já havia sido considerada autora Best seller pelo The New York Times, por seu livro “Os 13 porquês”, que eu não li e não faço idéia do que se trata! Mas “Encontre-me” venceu em 2012 o prêmio Golden Heart Contest, na categoria Young Adult, o que despertou consideravelmente meu interesse.

Pois bem, Wick e Lily Tate são duas órfãs de mãe. Seu pai, é um traficante de anfetaminas foragido, uma sombra na vida das duas filhas pois, no fundo, elas sabem: ele vai voltar. Ele sempre acaba voltando. E foi o ciclo de violência ao qual elas e a mãe ficaram submetidas, que levou a mãe das duas meninas ao suicídio, e as duas à lares adotivos.

Neste último, estão vivendo com Bren e Todd, um casal suburbano que parece dar a elas uma vida perfeita. Mas Wick sabe que tudo isso não passa de fachada. Além da sombra constante do medo pelo retorno de seu pai – não se, mas quando ele voltar – está sendo perseguida por um detetive da polícia, Carson. Ou, pelo menos, é isso que Wick acha.
É estúpido ficar com medo. Ele não pode mais me pegar. Não agora que tenho essa vida nova e dourada. Meus pais adotivos parecem saídos de um conto de fadas. Minha irmã e eu vivemos na parte rica da cidade. Não sou mais a menina que Carson encaminhou ao serviço social.
Pelo menos é isso que digo e repito para mim mesma.
Além do mais, são muitas as razões que o trariam até aqui. Pode não ter nada a ver comigo. Talvez por que essa é a área que tem que vigiar. Ou por que mora perto.
Mas Wick sabe que as coisas geralmente são bem piores do que parecem – bem pelo menos tem sido assim a sua vida toda. Afinal, Carson tem motivos para achar que o pai vai contatá-la mais cedo ou mais tarde. Por que Wick não é apenas sua filha; é sua parceira. 

Enquanto as outras crianças brincavam, o parceiro de seu pai, Joe, a ensinou a ser uma Hacker. E seu pai pode precisar de seus serviços mais uma vez. Além disso, Wick continua hackeando escondido, para poder juntar dinheiro, contando com o dia em que ela e a irmã terão de fazer as malas e fugir. E Wick sabe que, se for pega, será enviada para longe da irmã.

Só que Lily ainda é muito nova e, apesar de ter sofrido as mesmas privações que Wick, só quer ter uma vida normal junto aos novos pais adotivos, onde elas finalmente parecem estar se encaixando. Bom, pelo menos Lily esta, e tenta convencer a irmã.
- Wick, o certo é pensar que os policiais são bons.
Claro que são, penso eu. E os pais estão lá quando precisamos deles, os professores d preocupam com você e algum dia seu príncipe encantado vai chegar. Mas Lily conhece todas essas mentiras, então não falo nada. À meia-luz, minha irmã está tremendo. Mais um pouco e ela se estilhaça.
- Ah sim, geralmente são.

Mas esse não é. As palavras não ditas balançam entre nós, suspensas como luzes estroboscópicas.
Acontece que Wick não consegue mais acreditar. E, como se não bastasse a perseguição de Carson, que tem visitado a casa onde agora moram altas horas da madrugada, Wick encontra em frente a porta da frente um diário. Mas esse não é um diário qualquer. É o diário de Tessa Wayne, alguém que, há um bilhão de anos atrás, fora sua amiga – sua melhor amiga – até seu pai estragar tudo indo buscá-la bêbado, e o pai de Tessa proibir que as duas andassem juntas.
Sei de quem é o diário. A escrita é corrida, mas reconheço os contornos gordos das letras mesmo antes de ver o nome escrito no fim da página. Ela costumava escrever em todas as minhas pastas. Parecia que todas as minhas coisas eram dela nunca dei bola. Era como se fosse dela (...) Não sei por que viro outra página, mas faço isso e lá está – um post it amarelo colado sobre um dia qualquer de quarta-feira. Ele diz:
Encontre-me.
Enquanto tenta buscar algum sentido no diário que encontrou, Wick vai para escola e recebe uma notícia aterradora: Tessa, sua antiga amiga, a dona do diário que estava em sua posse, estava morta. Havia cometido suicídio e, aparentemente, ninguém sabia o motivo, já que ela era uma adolescente que tinha a vida perfeita.

Começa então uma caçada por respostas para Wick, e uma série de acontecimentos que deixarão sua vida de ponta cabeça. Quem teria lhe deixado o diário? O que suas páginas lhe revelariam? Em quem confiar em sua jornada em busca do que aconteceu a Tessa – e de que forma isso tudo esta relacionado a ela e sua irmã Lily?

“Encontre-me” é um suspense psicológico muito bem construído, que envolve o leitor da primeira a última página, onde todos os acontecimentos parecem ser essenciais à trama – e onde o que parece nem sempre é.

Narrado em primeira pessoa – o que a princípio me soou como algo negativo – é importante que assim seja, já que toda a trama se desenrola em torno de Wick, seus pensamentos mais íntimos, sentimentos, preocupações.

Apesar de ser uma trilogia, e autora deixar claro nos últimos parágrafos que haverá uma continuação a trama tem um fim em si mesma, e poderia ter acabado neste primeiro livro – você não terá que ler os próximos dois para saber como a história termina. Gostei muito e recomendo!
 
Ana Liberato