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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Vale a Pena Ler de Novo: "Mais Forte do que Nunca" (Brené Brown)


Neste mês de Janeiro estamos em recesso, mas preparamos para você, caro leitor, uma seleção com nossas resenhas mais acessadas de 2017.
Enquanto isso, prepare-se para todas os lançamentos e novidades de 2018.


Tradução de Vera Lucia Ribeiro

Caia. Levante-se. Tente outra vez.


Por Kleris: Em A coragem de ser imperfeito, nos embrenhamos na pesquisa de Brené Brown sobre vínculos e sociedade (reveja resenha aqui), mais precisamente voltada para o estudo da vulnerabilidade – aquele estado de incerteza que nos faz recuar, hesitar, senão paralisar diante de uma perspectiva de medo (antes de começar algo novo, de tentar algo diferente, de enfrentar situações e problemas, dentre outros). Bem ambientados da teoria, de como o ser humano funciona e como reconhecer comportamentos – em sua maioria, destrutivos – Mais forte do que nunca surge no horizonte para trazer um panorama prático. E nem Brené, pesquisadora que comanda o estudo, está isenta destes experimentos.


É uma verdade quase universalmente conhecida que o ser humano, ao ter seu calo pisado, vai ter uma impulsão muito forte de revidar na mesma moeda, senão pior, e no mesmo momento. Cury já pontuara sobre isso (reveja resenha aqui), que nosso primeiro instinto é cultivar os sentimentos ruins (raiva, rancor, preconceito, ressentimento, vergonha, mágoa, sabotagem, compulsão, traição, etc), o que pode se considerar um “caminho fácil”, afinal, é natural.

Mas o ser humano é um ser pensante, ele pode escolher seu caminho. Se atacado, ele pode parar, averiguar o que está sentindo e pensar se vale a pena comprar a briga. No entanto, não somos estimulados o suficiente dentro da sociedade a trabalhar essas emoções, nem para si, tampouco de si para os outros. Infelizmente assistimos séculos a fio as pessoas se destruindo umas às outras em um círculo vicioso – e nocivo. Lá se vão a paz, a alegria, a criatividade, a confiança, o respeito, a fé...


A prática do que Brené chama de “dar a volta por cima” opera justo neste campo, em que se escolhe a verdade, o amor, a aceitação, a coragem, a ousadia... a vulnerabilidade. A gente quebra a cara e está tudo bem. Quando não seguimos o caminho fácil, adentramos a arena. Lá parece uma zona e tudo que a gente quer é fugir. Não é confortável; é, na realidade, extremamente difícil. Por outro lado, extremamente gratificante. É uma batalha diária pelo nosso bem. 
Quando paramos de nos importar com o que os outros pensam, perdemos nossa capacidade de estabelecer vínculos. Mas, quando somos definidos pelo que os demais pensam, perdemos a coragem de ser vulneráveis. A solução está em ter total clareza sobre quem são as pessoas que importam de verdade. 
É impossível dar a volta por cima quando estamos fugindo.

É muito comum ver pessoas com problemas, mas é bem incomum ver pessoas procurando respostas ou mesmo soluções – soluções verdadeiras, não paliativos. Isto porque muito disso envolve vergonha, receio, medo, privação, não compreensão do que está acontecendo. São dificuldades de todos os tipos e áreas (pessoais, familiar, profissionais, amizades). 
Preferimos que as histórias de queda e superação sejam inspiradoras e estéreis, e nossa cultura é repleta de relatos assim. Num discurso de trinta minutos, normalmente trinta segundos são dedicados a algo como “e então batalhei para dar a volta por cima” ou “E então conheci alguém especial”.Gostamos que as histórias de recuperação passem depressa pelas partes sombrias para podermos chegar logo ao final feliz e redentor. [...] Mas abraçar essa ideia sem reconhecer o sofrimento e o medo que isso pode causar, ou a complexa jornada que está por trás da volta por cima, é dourar a pílula, maquiar a dura realidade.

É extraordinário ver alguém dando a cara a tapa como Brené. Em diversos casos discutidos, me identifiquei demais. As autossabotagens, o perfeccionismo, a vergonha, a luta para se desamarrar disso. Ri uns risos nervosos e interessantes diante de situações em que ela não exatamente parava pra entender o que estava acontecendo, mas daí a noção voltava à tona, ela observava qual era sua impulsão e então vinha algum tipo de epifania – porque é esse o processo de dar a volta por cima! – e ela lidava com aquilo. Abraçava a si mesma e acreditava que ia ficar bem.

Uma das coisas mais incríveis, além desta exaustiva prática, é a relação ficção e realidade que Brené explora. Os capítulos em que ela trata com diversos escritores, produtores (nem Shonda Rhimes escapa!) e criadores (da Pixar!), e ainda empreendedores, é de explodir a cabeça. E as expectativas invisíveis? Nussa! É tipo de coisa que tá tão na nossa cara e somos esses cegos! Como é difícil ser... humano! Como é difícil crescer!

E o cerne de tudo é essa famosa vulnerabilidade. 
De repente, quando eu estava na Pixar, enxerguei uma luz. Olhei para Ed e disse:— Ah, meu Deus, já entendi tudo. Vocês não podem pular o segundo dia.[...] O que acho mais chato a respeito do dia dois é exatamente o que Ed e a equipe da Pixar apontaram – é uma parte inegociável do processo. A experiência e o sucesso não oferecem a ninguém uma passagem tranquila pelo espaço intermediário. Proporcionam apenas um pouco de boa vontade, uma boa vontade que sussurra: “Isto faz parte do processo. Aguente firme”. [...] O meio do caminho é confuso, mas é também onde a mágica acontece. 
As pessoas que não permanecem no chão quando caem ou tomam uma rasteira costumam criar problemas. São difíceis de controlar. E esse é o melhor tipo de possível de pessoa perigosa: os artistas, os inovadores, os causadores de mudanças.

Muito do que está por trás de conflitos está relacionado às histórias que contamos a nós mesmos através de pedaços de outras histórias. Ex: ao ver a timeline das redes sociais, criamos uma fantasia absurda sobre quem são aquelas pessoas, como elas estão mais felizes, como estão se divertindo mais, tendo mais conquistas, mais status, mais tudo, independente de conhecer suas histórias de verdade ou não. Ao olhar para nossa vida, a comparação e competição se torna uma coisa acirrada – e estamos, aparentemente, perdendo. Bate um sentimento de insuficiência (não tenho isso, não tenho aquilo, não sou feliz, não sou boa o suficiente, não sou digna disso, não sou digna daquela pessoa), emergência (preciso disso agora, preciso ser essa pessoa, não quero ser eu mesma) e destruição (sou uma droga, não faço nada certo, não ganho isso). Chegamos, meus amigos, às famigeradas bads.

Mas assim como as baratas voadoras têm uma razão de existir sabe-se lá qual, mas, as bads têm sua razão no ciclo da vida – ainda muito mal interpretadas. Jout Jout mesmo já trouxe um tutorial sobre o assunto (vide aqui), uma dor que cura. O desconforto vem para trazer mudanças. Só que nem todos estão dispostos a entrar nessa arena e dar a volta por cima. É mais fácil acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos, não? É preferível nos engalfinhar ao invés de admitir o que estamos sentindo, não é mesmo?

The Arena, da artista Lindsey Stirling, segue uma filosofia muito semelhante de Brené


 No Brasil, Queda Livre, da banda Dead Fish, versa tão igual
que parece ter se inspirado no livro


Quando eu cai e beijei o chão
Vi em seus olhos algum
Brilho de prazer
Rastejei por algum tempo
Entenda isso foi muito
Bom pra mim!
Pude encarar minhas verdades
De frente pude ver
O quanto posso errar
Falhar e ver que pode ser muito natural

Você é covarde demais!
Pra entender
O quanto é intenso!
Agora todos os extremos
Insistir que o erro é dos
Outros!

Quando eu digo versão prática, não quero dizer que o livro traz atividades interativas pra se realizar – não é esse tipo de livro. Mais forte do que nunca traz estudos de casos para se encontrar, entender o processo, espelhar-se neles – se você escolher esse caminho. Brené novamente nos guia pelo mundo desconhecido da arena e nos mostra possíveis saídas para a verdadeira conquista. A nossa, literalmente, jornada de herói. 
Você pode não ter se candidatado à jornada do herói, mas, no instante em que caiu, quebrou a cara, sofreu uma decepção, meteu os pés pelas mãos ou ficou de coração partido, ela começou. Não importa se estamos prontos para uma aventura emocional – as mágoas acontecem. E ninguém está livre delas. Sem exceção. A única decisão que podemos tomar é sobre o papel que vamos desempenhar na própria vida: queremos escrever nossa história ou queremos entregar esse poder a outra pessoa? 
Cresci com um poço emocional seco. Eu não queria aprender mais sobre o assunto porque não sabia que havia mais a saber – não conversávamos sobre sentimentos. Não ficávamos vulneráveis. Se por acaso acontecesse de sermos tomados pela emoção de tal forma que surgisse uma brecha em nossa dura carapaça sob a forma de lágrimas ou uma expressão de medo, éramos prontamente lembrados, sem muita sutileza, de que as emoções não resolviam problemas – apenas faziam com que piorassem. Era ação, não o sentimento, que resolvia as questões.

Aliás, o livro é um desafio para o próprio (pré)conceito de livros autoajuda. A escrita da autora é audaciosa, e ao mesmo tempo fluída, gostosa e convidativa. Acredito ser o estudo mais completo e acessível até então. Você pode rir (e rir alto) sobre um tópico, ficar mais pensativa em outros e despertar gatilhos em tantos acolá. Pode ser sofrível, pode ser intenso. E ainda assim maravilhoso. É uma catarse atrás da outra. É... uma verdadeira redenção. 
O vínculo não existe sem o ato de dar e receber. Precisamos dar e precisamos precisar. 
Creio que o que mais lamentamos é a nossa falta de coragem – seja a coragem de ser mais bondosos, de nos mostrar, de dizer o que sentimos, de estabelecer limites, de ser generosos com nós mesmos. Por essa razão, o arrependimento pode ser o berço da empatia. Quando penso nas ocasiões em que não fui bondosa ou generosa, em que preferi ser aceita a defender alguém ou algo que merecia ser defendido, sinto profundo arrependimento.

Brené me faz desejar viver nesse mundo em que se exercitam constantemente as emoções, de maneira a acertar nossas arestas e fazer o melhor quanto aos nossos vínculos. Um mundo consciente, de si e dos outros, que aceita o desconfortável a fim de melhorá-lo, não de fugir. Fico imensamente feliz que esse mundo exista – apesar de um tanto longe – e que espalhe sua palavra de esperança de pouquinho a pouquinho através dos livros. Gostaria de vê-lo mais em discussão. 

OBRIGADA, SEXTANTE, POR TRAZER ESSE LIVRO MARAVILHOSO. 
OBRIGADA A TODOS OS ENVOLVIDOS <3

Não há maior ameaça para os críticos, os céticos e os disseminadores do medo do que aqueles que estão dispostos a cair porque aprenderam a se reerguer.
É bom saber que existem usos construtivos para todas aquelas conversas e planos de vingança que repito na minha cabeça ao deitar à noite.

Recomendo iniciar a leitura de A coragem de ser imperfeito antes de Mais forte do que nunca, só para se ambientar melhor nos temas abordados, porém, não vejo problema nenhum em inverter a ordem (até porque ao final de Mais forte..., há destaques de A coragem... como um fichamento, assim como outras tantas alusões conforme tópicos). Ambos são livros para estar na estante para qualquer momento de procura. Vale a leitura por mera curiosidade, vale pra vida. 
Aos corajosos e inconsoláveis que nos ensinaram a levantar depois da queda. A sua coragem é contagiante. 
Isso parece fácil, mas você se surpreenderia ao saber quantos nunca reconhecem os próprios sentimentos e emoções – apenas os descarregam. [...] A ironia é que, ao mesmo tempo que criamos distância entre nós e as pessoas ao redor, descontando tudo nos outros, ansiamos por laços afetivos mais profundos e por uma vida emocional mais rica.

Talvez a Brené seja a nossa Jout Jout versão acadêmica ^^ Maravilhosa assim.
Deixe uma leitora confabular...


Até a próxima!


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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Resenha: “Escola de Sabores” (Erica Bauermestier)


O Eliel também já resenhou este livro! (veja aqui)

Tradução por Fernanda Abreu
Por Kleris: Costumo dizer que não gosto de ir a casamentos, mas gosto das histórias; não gosto de aventuras, mas sim das histórias de aventuras. Acho que seria como o Hobbit quando o Gandalf oferece uma jornada: teria uma admiração, mas não a pré-disposição de embarcar de fato em uma. Escola de Sabores não é um livro de receitas e nem propõe que você vá se aventurar na cozinha. Talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto dele. Foi um doce achado.

Escola de Sabores é como um ponto de encontro de histórias e pequenas glórias. Não há muito enredo e nem muita ação, então não esperem isso da Erica. É mais para aquele livro sutil, de humor bonito e delicado, como observar um pôr-do-sol e se deixar levar pelo efeito poético. Nuança, doçura e delicadeza são então as palavras certas para o romance. 
Quando estava com ela, ele via que mesmo as experiências cotidianas eram mais profundas, mais cheias de nuances, descobria que a satisfação e a atenção permeavam as camadas da vida como bilhetes de amor escondidos entre as páginas de um livro.

Lilian recebe os alunos toda primeira segunda-feira do mês para lições de culinária. Mais que apenas aguçar o paladar deles ou abrir seus horizontes quando se trata de comida, Lilian quer dar seu toque para fazer a diferença, ela quer transpor isso para o momento do preparo gastronômico. Aqui encontramos o fascínio, a paixão, a dedicação.

Acho engraçado como às vezes, como leitora, eu admiro esse prazer em ler, e admiro mais quando ouço/leio sobre esses pequenos prazeres que a mim são desconhecidos, como o de simplesmente apreciar uma refeição ou descobrir como funciona um motor de... sei lá, um ventilador (quem sabe?). Quer dizer, a harmonia que isso pode oferecer a uma pessoa e como isso a deslumbra tão fácil.

Isso é visto nas passagens que relatam a relação de Lilian com a mãe, uma compulsiva leitora, que não soube passar sua paixão à filha. Lilian acabou descobrindo por si mesma (e pela força da situação em que a mãe se encontrava) que cozinhar era o clic dava sentido à sua vida. Na verdade, foi uma tentativa dela, ainda menina, em trazer sua mãe de volta: cozinhar era sua esperança. 
As pessoas sorriam ao ver aquela mãe estimulando a imaginação literária da filha, mas Lilian sabia que não se tratava disso. Em sua mente, a mãe era um museu de palavras, e ela, um anexo, necessário quando o espaço no prédio principal estava acabando. [...] Talvez, pensava Lilian, os aromas fossem para ela o que as palavras impressas eram para as outras pessoas – algo vivo que crescia e se modificava.

Para o curso da vez, estavam inscritos oito pessoas: Claire, Cloe, Tom, Antonia, Ian, Carl, Helen e Isabelle, cada um procurando um sentido das coisas sem ao menos estarem mais conscientes disso. Gostei muito sobre com a autora segurou cada persona, apresentando-os conforme seus núcleos. Cada capítulo trata sobre um personagem e a maneira como a Erica fez isso me lembrou muito a Lisa Jewell, em Tempo de Mudanças (resenha aqui). A autora foi muito engenhosa nesse sentido, pois os capítulos amarram, em conjunto ao enredo de aulas, recortes das histórias pessoais, fazendo as aulas mexerem nos cotidianos e isso com uma narração muuuito segura.

A escrita é assim carregada de suaves descrições, comparações e vez e outra se utiliza de umas metáforas que envolvem a vida e o próprio ato de cozinhar. Mexe muito com as sensações, as lembranças, as essências... a magia da coisa toda. E não é forçado, é bem fluente. 
Sovar a massa é como nadar ou caminhar: parte da sua mente se mantém ocupada, enquanto o restante fica livre para ir aonde quiser ou precisar.

A edição traz também umas imagens a cada entrada de capítulo, sempre muito a ver ou com a personagem apresentada, com sua história de vida ou como um ingrediente fazia tanta diferença nesse recorte. Como a capa, fica tudo muito fofo. As orelhas são beeeeem confiáveis e se eu pudesse, copiaria o texto da contracapa, porque é tudo verdade hahaha.

Como a própria sinestesia que reviva nas páginas, o livro é um sussurro de noz-moscada com raspas de chocolate que fazem poeira aveludada. Não a toa essa aura me lembrou bastante os filmes Simplesmente Irresistível e Julie & Julia e... ah, the joy <3

Recomendado àqueles que querem desacelerar o tempo e se perder no fitar de uma gota de chuva que desliza no vidro da janela. 
Nem sempre é fácil diminuir o ritmo de nossas vidas. Mas, se precisarmos de ajuda, temos uma oportunidade natural de reaprender a lição três vezes ao dia.

Até a próxima!

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segunda-feira, 6 de março de 2017

Resenha: “Mais Forte do que Nunca” (Brené Brown)

Tradução de Vera Lucia Ribeiro


Caia. Levante-se. Tente outra vez.


Por Kleris: Em A coragem de ser imperfeito, nos embrenhamos na pesquisa de Brené Brown sobre vínculos e sociedade (reveja resenha aqui), mais precisamente voltada para o estudo da vulnerabilidade – aquele estado de incerteza que nos faz recuar, hesitar, senão paralisar diante de uma perspectiva de medo (antes de começar algo novo, de tentar algo diferente, de enfrentar situações e problemas, dentre outros). Bem ambientados da teoria, de como o ser humano funciona e como reconhecer comportamentos – em sua maioria, destrutivos – Mais forte do que nunca surge no horizonte para trazer um panorama prático. E nem Brené, pesquisadora que comanda o estudo, está isenta destes experimentos.


É uma verdade quase universalmente conhecida que o ser humano, ao ter seu calo pisado, vai ter uma impulsão muito forte de revidar na mesma moeda, senão pior, e no mesmo momento. Cury já pontuara sobre isso (reveja resenha aqui), que nosso primeiro instinto é cultivar os sentimentos ruins (raiva, rancor, preconceito, ressentimento, vergonha, mágoa, sabotagem, compulsão, traição, etc), o que pode se considerar um “caminho fácil”, afinal, é natural.

Mas o ser humano é um ser pensante, ele pode escolher seu caminho. Se atacado, ele pode parar, averiguar o que está sentindo e pensar se vale a pena comprar a briga. No entanto, não somos estimulados o suficiente dentro da sociedade a trabalhar essas emoções, nem para si, tampouco de si para os outros. Infelizmente assistimos séculos a fio as pessoas se destruindo umas às outras em um círculo vicioso – e nocivo. Lá se vão a paz, a alegria, a criatividade, a confiança, o respeito, a fé...


A prática do que Brené chama de “dar a volta por cima” opera justo neste campo, em que se escolhe a verdade, o amor, a aceitação, a coragem, a ousadia... a vulnerabilidade. A gente quebra a cara e está tudo bem. Quando não seguimos o caminho fácil, adentramos a arena. Lá parece uma zona e tudo que a gente quer é fugir. Não é confortável; é, na realidade, extremamente difícil. Por outro lado, extremamente gratificante. É uma batalha diária pelo nosso bem. 
Quando paramos de nos importar com o que os outros pensam, perdemos nossa capacidade de estabelecer vínculos. Mas, quando somos definidos pelo que os demais pensam, perdemos a coragem de ser vulneráveis. A solução está em ter total clareza sobre quem são as pessoas que importam de verdade. 
É impossível dar a volta por cima quando estamos fugindo.

É muito comum ver pessoas com problemas, mas é bem incomum ver pessoas procurando respostas ou mesmo soluções – soluções verdadeiras, não paliativos. Isto porque muito disso envolve vergonha, receio, medo, privação, não compreensão do que está acontecendo. São dificuldades de todos os tipos e áreas (pessoais, familiar, profissionais, amizades). 
Preferimos que as histórias de queda e superação sejam inspiradoras e estéreis, e nossa cultura é repleta de relatos assim. Num discurso de trinta minutos, normalmente trinta segundos são dedicados a algo como “e então batalhei para dar a volta por cima” ou “E então conheci alguém especial”.
Gostamos que as histórias de recuperação passem depressa pelas partes sombrias para podermos chegar logo ao final feliz e redentor. [...] Mas abraçar essa ideia sem reconhecer o sofrimento e o medo que isso pode causar, ou a complexa jornada que está por trás da volta por cima, é dourar a pílula, maquiar a dura realidade.

É extraordinário ver alguém dando a cara a tapa como Brené. Em diversos casos discutidos, me identifiquei demais. As autossabotagens, o perfeccionismo, a vergonha, a luta para se desamarrar disso. Ri uns risos nervosos e interessantes diante de situações em que ela não exatamente parava pra entender o que estava acontecendo, mas daí a noção voltava à tona, ela observava qual era sua impulsão e então vinha algum tipo de epifania – porque é esse o processo de dar a volta por cima! – e ela lidava com aquilo. Abraçava a si mesma e acreditava que ia ficar bem.

Uma das coisas mais incríveis, além desta exaustiva prática, é a relação ficção e realidade que Brené explora. Os capítulos em que ela trata com diversos escritores, produtores (nem Shonda Rhimes escapa!) e criadores (da Pixar!), e ainda empreendedores, é de explodir a cabeça. E as expectativas invisíveis? Nussa! É tipo de coisa que tá tão na nossa cara e somos esses cegos! Como é difícil ser... humano! Como é difícil crescer!

E o cerne de tudo é essa famosa vulnerabilidade. 
De repente, quando eu estava na Pixar, enxerguei uma luz. Olhei para Ed e disse:
— Ah, meu Deus, já entendi tudo. Vocês não podem pular o segundo dia.
[...] O que acho mais chato a respeito do dia dois é exatamente o que Ed e a equipe da Pixar apontaram – é uma parte inegociável do processo. A experiência e o sucesso não oferecem a ninguém uma passagem tranquila pelo espaço intermediário. Proporcionam apenas um pouco de boa vontade, uma boa vontade que sussurra: “Isto faz parte do processo. Aguente firme”. [...] O meio do caminho é confuso, mas é também onde a mágica acontece. 
As pessoas que não permanecem no chão quando caem ou tomam uma rasteira costumam criar problemas. São difíceis de controlar. E esse é o melhor tipo de possível de pessoa perigosa: os artistas, os inovadores, os causadores de mudanças.

Muito do que está por trás de conflitos está relacionado às histórias que contamos a nós mesmos através de pedaços de outras histórias. Ex: ao ver a timeline das redes sociais, criamos uma fantasia absurda sobre quem são aquelas pessoas, como elas estão mais felizes, como estão se divertindo mais, tendo mais conquistas, mais status, mais tudo, independente de conhecer suas histórias de verdade ou não. Ao olhar para nossa vida, a comparação e competição se torna uma coisa acirrada – e estamos, aparentemente, perdendo. Bate um sentimento de insuficiência (não tenho isso, não tenho aquilo, não sou feliz, não sou boa o suficiente, não sou digna disso, não sou digna daquela pessoa), emergência (preciso disso agora, preciso ser essa pessoa, não quero ser eu mesma) e destruição (sou uma droga, não faço nada certo, não ganho isso). Chegamos, meus amigos, às famigeradas bads.

Mas assim como as baratas voadoras têm uma razão de existir sabe-se lá qual, mas, as bads têm sua razão no ciclo da vida – ainda muito mal interpretadas. Jout Jout mesmo já trouxe um tutorial sobre o assunto (vide aqui), uma dor que cura. O desconforto vem para trazer mudanças. Só que nem todos estão dispostos a entrar nessa arena e dar a volta por cima. É mais fácil acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos, não? É preferível nos engalfinhar ao invés de admitir o que estamos sentindo, não é mesmo?

The Arena, da artista Lindsey Stirling, segue uma filosofia muito semelhante de Brené


 No Brasil, Queda Livre, da banda Dead Fish, versa tão igual
que parece ter se inspirado no livro


Quando eu cai e beijei o chão
Vi em seus olhos algum
Brilho de prazer
Rastejei por algum tempo
Entenda isso foi muito
Bom pra mim!
Pude encarar minhas verdades
De frente pude ver
O quanto posso errar
Falhar e ver que pode ser muito natural

Você é covarde demais!
Pra entender
O quanto é intenso!
Agora todos os extremos
Insistir que o erro é dos
Outros!

Quando eu digo versão prática, não quero dizer que o livro traz atividades interativas pra se realizar – não é esse tipo de livro. Mais forte do que nunca traz estudos de casos para se encontrar, entender o processo, espelhar-se neles – se você escolher esse caminho. Brené novamente nos guia pelo mundo desconhecido da arena e nos mostra possíveis saídas para a verdadeira conquista. A nossa, literalmente, jornada de herói. 
Você pode não ter se candidatado à jornada do herói, mas, no instante em que caiu, quebrou a cara, sofreu uma decepção, meteu os pés pelas mãos ou ficou de coração partido, ela começou. Não importa se estamos prontos para uma aventura emocional – as mágoas acontecem. E ninguém está livre delas. Sem exceção. A única decisão que podemos tomar é sobre o papel que vamos desempenhar na própria vida: queremos escrever nossa história ou queremos entregar esse poder a outra pessoa? 
Cresci com um poço emocional seco. Eu não queria aprender mais sobre o assunto porque não sabia que havia mais a saber – não conversávamos sobre sentimentos. Não ficávamos vulneráveis. Se por acaso acontecesse de sermos tomados pela emoção de tal forma que surgisse uma brecha em nossa dura carapaça sob a forma de lágrimas ou uma expressão de medo, éramos prontamente lembrados, sem muita sutileza, de que as emoções não resolviam problemas – apenas faziam com que piorassem. Era ação, não o sentimento, que resolvia as questões.

Aliás, o livro é um desafio para o próprio (pré)conceito de livros autoajuda. A escrita da autora é audaciosa, e ao mesmo tempo fluída, gostosa e convidativa. Acredito ser o estudo mais completo e acessível até então. Você pode rir (e rir alto) sobre um tópico, ficar mais pensativa em outros e despertar gatilhos em tantos acolá. Pode ser sofrível, pode ser intenso. E ainda assim maravilhoso. É uma catarse atrás da outra. É... uma verdadeira redenção. 
O vínculo não existe sem o ato de dar e receber. Precisamos dar e precisamos precisar. 
Creio que o que mais lamentamos é a nossa falta de coragem – seja a coragem de ser mais bondosos, de nos mostrar, de dizer o que sentimos, de estabelecer limites, de ser generosos com nós mesmos. Por essa razão, o arrependimento pode ser o berço da empatia. Quando penso nas ocasiões em que não fui bondosa ou generosa, em que preferi ser aceita a defender alguém ou algo que merecia ser defendido, sinto profundo arrependimento.

Brené me faz desejar viver nesse mundo em que se exercitam constantemente as emoções, de maneira a acertar nossas arestas e fazer o melhor quanto aos nossos vínculos. Um mundo consciente, de si e dos outros, que aceita o desconfortável a fim de melhorá-lo, não de fugir. Fico imensamente feliz que esse mundo exista – apesar de um tanto longe – e que espalhe sua palavra de esperança de pouquinho a pouquinho através dos livros. Gostaria de vê-lo mais em discussão. 

OBRIGADA, SEXTANTE, POR TRAZER ESSE LIVRO MARAVILHOSO. 
OBRIGADA A TODOS OS ENVOLVIDOS <3

Não há maior ameaça para os críticos, os céticos e os disseminadores do medo do que aqueles que estão dispostos a cair porque aprenderam a se reerguer.
É bom saber que existem usos construtivos para todas aquelas conversas e planos de vingança que repito na minha cabeça ao deitar à noite.

Recomendo iniciar a leitura de A coragem de ser imperfeito antes de Mais forte do que nunca, só para se ambientar melhor nos temas abordados, porém, não vejo problema nenhum em inverter a ordem (até porque ao final de Mais forte..., há destaques de A coragem... como um fichamento, assim como outras tantas alusões conforme tópicos). Ambos são livros para estar na estante para qualquer momento de procura. Vale a leitura por mera curiosidade, vale pra vida. 
Aos corajosos e inconsoláveis que nos ensinaram a levantar depois da queda. A sua coragem é contagiante. 
Isso parece fácil, mas você se surpreenderia ao saber quantos nunca reconhecem os próprios sentimentos e emoções – apenas os descarregam. [...] A ironia é que, ao mesmo tempo que criamos distância entre nós e as pessoas ao redor, descontando tudo nos outros, ansiamos por laços afetivos mais profundos e por uma vida emocional mais rica.

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sábado, 28 de janeiro de 2017

Retrospectiva Dear Book 2016 – Editoras Sextante, Globo Livros, Saraiva e Idea


Se você está procurando por um livro e não sabe bem qual adequar ao momento – ou mesmo está em dúvida sobre levar ou não um livro a mais no carrinho de compras numa promo, vamos destacar neste post livros e trechos de resenhas da nossa equipe, de 2016. Esperamos que isso ajude nossos caros leitores na hora da compra ;) Acompanhem as retrospectivas!

Obs: nem todos os livros são lançamentos de 2016.


~~~~~~~~ EDITORA SEXTANTE~~~~~~~~
Selos: Estação Brasil, Primeira Pessoa, Artes


Um dia “daqueles”
Bradley Trevor Greive
Resenha completa aqui

Uma das coisas que mais encanta no livro é a pureza, como vi em comentários de leitores. É uma edição para mexer silenciosamente com você. A mensagem de Bradley é simples – e para alguns, óbvia. Mas quem disse que não precisamos de um toque do óbvio quando bate a bad? [...] Este é o livro ideal para levar na bolsa em jornadas de trabalho, para assim que bater qualquer desânimo, ele estará lá pra te fazer rir. Duvido passar por suas páginas e não parar um minutinho para ler.


Uma pitada de coragem – palavras de incentivo para enfrentar as dificuldades
Bradley Trevor Greive
Resenha completa aqui

[...] muitas vezes erramos em esperar muito de um livro de autoajuda se não estamos no “recorte emocional” para o qual ele é voltado. [...] Uma pitada de coragem é um livro para manter na estante e buscá-lo naqueles dias que insônias, decepções ou perdas te pegarem de jeito. Que resistir esteja te consumindo. Que desistir pareça uma boa ideia – não é. Uma pitada de coragem é esse tapinha no ombro, um segurar na mão, um assentir de apoio, e uma fé na vida pra quando a gente sentir que tá perdendo o rumo.


A coragem de ser imperfeito
Brené Brown
Resenha completa aqui

Alguns preferem classificar como autoajuda, mas nem parece, vez que Brené escreve de uma maneira tão <333. Ela conversa e se conecta conosco sem trazer aquela impressão de “acredite em si mesmo e seja feliz”. Brown vai mais longe, mais fundo. [...] A coragem de ser imperfeito é uma leitura de tirar o fôlego. Um tapa na cara pra acordar! Também é tiro, porrada e bomba, te deixa no chão. E ainda assim, um abraço. Conforto. Esperança. Aceitação. Gratidão. Tudo isso pra nos mostrar que é preciso encarar a vulnerabilidade, pois ela é chave para tudo nessa vida. Para a coragem, a criatividade, a inovação, a ousadia, a vida plena. É um desafio universal.



~~~~~~~~ EDITORA GLOBO LIVROS ~~~~~~~~
Selos: Biblioteca Azul, Globo Alt, Globo Estilo, Globinho, Principium


Fúria Vermelha
Pierce Brown
Resenha completa aqui

O livro maçante se torna inlargável (nem sei se essa palavra existe, acho que não) e por isso foi tão difícil escrever, pois é um livro que não me cativou que me obrigou a ficar com ele até o fim para depois me apaixonar por esse mundo de palavras e detalhes criado por Pierce Brown.
Tem tudo o que é necessário para ser uma saga inesquecível, que é uma crítica velada à sociedade atual, metáforas, alegorias, sarcasmo e ironia. Leiam livres de preconceitos, não façam como esse que vos fala que se animou com a capa e logo achou tudo muito chato antes da 10ª página, e que depois devorou as 450. Já vão com sede de desvendar o porquê este volume foi comparado com sagas tão intensas.



~~~~~~~~ EDITORA SARAIVA ~~~~~~~~


Ansiedade – como enfrentar o mal do século
Augusto Cury
Resenha completa aqui

O que Augusto Cury propõe no livro é que há maneiras de burlar esse sistema, até então descontrolado, que é a nossa cabeça. Embora não possamos apagar todas as situações ruins, que nos levam aos ciclos de ansiedade, tampouco eliminar todo o lixo que se acumula na nossa cabeça, podemos reeditar tudo que é registrado. [...] Cury, assim, equilibra os tópicos sem mergulhar tanto na psiquiatria, nem pretende ser leigo demais.
É direcionado desde os profissionais de saúde mental a qualquer interessado em conhecer mais da Síndrome do Pensamento Acelerado (Ansiedade). É esclarecedor tanto para quem sofre quanto para sente que não tem maneiras de lidar com uma pessoa neste estado.



~~~~~~~~ EDITORA IDEA ~~~~~~~~
 (nossa parceira <3)

ArteTerapia – livro para colorir
Viviane Mendes
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O Livro para Colorir – Artetarapia é uma boa obra para quem busca diversidade, uma vez que ele não é temático. Você vai encontrar gatos, santos, divindades indianas, abstratos, mandalas e por aí vai.
Mas para quem tem preferência por colorir determinados tipos de desenhos, talvez essa variedade de opções não seja uma boa pedida. Por exemplo, conheço gente que não curte pintar desenhos pequeninhos, enquanto outros se irritam com desenhos que tenham espaços muito grandes. Por outro lado, para quem não gosta de mesmice e/ou desconhece sua preferência, vai adorar esta alternativa.


O céu – Saga Primeira Alvorada (vol.3)
J.H. Paschoal

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Fomos deixados no segundo livro em meio a uma batalha frenética e uma busca empolgante por respostas e, ao abrir o terceiro livro, encontramos toda a trama resolvida nas duas primeiras páginas, resumidas e condensadas. [...] Por isso demorei muitoooo para terminar de ler sobre a tal tempestade do Norte e por isso demorei muitooo para resenhar e, talvez, por isso não encontrei nenhuma outra resenha por aí. Me senti traída pelo autor #prontofalei.



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Ana Liberato