Por
Kleris: Quando o livro chegou, eu
não estava tendo uma boa semana (ou mês!). Tinha passado mal por alguma virose
por uns dias, o que interferiu no meu sono, também estava chateada com algumas
pessoas, enquanto tinha que conviver com outras estava metralhando negatividade
pra todo lado. Meu rendimento caiu consideravelmente, minhas atividades estavam
acumulando e isso tudo gerava muita culpa. Cansaço, frustração, mágoas e bads eram tudo que eu tinha. Como
poderia ser ou estargrata?
Este é um livro
especial, porque é sobre uma prática que vai mudar sua vida: a gratidão. É oportunidade de aprender a
se conectar melhor com o mundo exterior e desenvolver sua atenção e sua
respiração para que sua vida se torne mais leve. É, também, a chance de olhar
com mais carinho para os momentos da sua vida e perceber o quanto ela é
incrível – ainda que você, muitas vezes, deixe isso passar batido.
Este é um livro sobre
tudo o que você sente e como reage a cada acontecimento vivido. E ele só estará
pronto quando você preenchê-lo com sua rotina e as suas verdades. Será que você
tem vivenciado a gratidão – não a palavra bonita, conhecida e adorada por tantas
pessoas –, o sentimento real?
Pois
é, fiquei apreensiva logo de cara, mas a curiosidade falou mais alto (ainda
bem!). Baixei minhas expectativas, abri o livro. Quando dei conta, já estava
imersa nas atividades. Até fiz
umas dobraduras de origami! Pensei: é um livro de pequenos exercícios
diários, então tenho que fazê-las mesmo que só pra experimentar e ver no que
vai dar. Só fazer conforme vierem.
Engana-se
quem acha que gratidão é sinônimo de felicidade e que para desfrutar dessa gratidão,
é preciso estar no seu melhor momento. A proposta do #livrodagratidão é
justamente desconstruir essa ideia e trazer o melhor de nós, de dentro pra
fora. Como? Nos colocando a aceitar as sensações, validá-las e praticar o
dinamismo das emoções, colocando tudo isso em perspectiva. É o que se poderia chamar
de um potinho de sentimentos para os bons e maus dias, um potinho particular de
amor que faz a gente se sentir bem com a gente mesmo e com o que possui.
A
propósito, separe seu lápis, borracha, e ative o “modo busca” no departamento
das memórias, que você vai precisar!
Mais
que um livro de exercícios, o livro da gratidão
é um livro de aprendizados – rápidos, diretos, incisivos. Ele só pede um
pouquinho de atenção por dia, para te
acompanhar por todo o ano (!) e retrabalhar nossas percepções (interior e
exterior) das coisas (de si e do mundo). Quem curte escrever – e escrever em
agendas/planners – vai curtir
bastante, pois a maioria das atividades envolve escrita e autoconsciência. Se
você é fã ou não de livros interativos, não importa na verdade, pois a proposta
do livro não é testar conhecimentos, nem testar nossas resistências ou fazer
anotações pela simples anotação. É mais voltado para você reconquistar a si
mesmo; um resgate necessário.
Há,
por exemplo, exercícios que listam nossos valores, qualidades, armaduras
emocionais, coisas que gostamos... São coisas que na correria do dia a dia e no
detrimento de nossos sentimentos, vamos deixando pra lá, sem perceber o quanto
fazem diferença para nossa energia vital. Há também variados exercícios de
respiração (AMEI ESSA PARTE) para achar o seu ideal, origami, playlists do bem, mensagens e palavras
do bem, que vão fazer diferença num despertar pós momento obscuro. Estou até reconsiderando
fazer meditação...
Dá,
aliás, pra aliar certinho com a terapia (se você faz) – algumas coisas cruzaram
com a minha e outras eu já fazia, o que acredito que vá ajudar mais ainda se
você tem dúvidas sobre procurar um profissional. Por via das dúvidas, é um
livro que joga a corda pra te trazer pra cima, e é definitivamente um livro para
ficar muito tempo na sua cabeceira.
A
mistura dos conteúdos é maravilhosa, ao modo passo a passo com práticas fáceis,
e acho que posso dizer que as definições de potinho de âncoras* estão
atualizadas. Trata-se assim de uma experiência que, quando realizada com
regularidade, só traz a paz, segurança e serenidade tão procurada no mundão de
hoje. O que me faz lembrar os livros da Brené Brown, sobre se sentir capaz, suficiente
e merecedor de amor. Aliás, uma das coisas mais incríveis desse livro é que ele
reflete bem o perfil (do insta!) de se cuidar um
tantinho por dia. Foi algo excelente por parte das autoras e da editora. E por
isso mesmo, já quero a coleção completa do bem <3
A
vocês, leitores, um último recado: só vão, abram o livro, e deixem a magia do
amor-próprio, da compaixão, da gratidão,
acontecer.
*âncoras
– algo que você foca para se manter bem ou algo que você gosta te faz sentir
bem e é mantido por perto. Auxilia durante a meditação ou processos de
relaxamento.
Tenham todos uma boa jornada!
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Neste mês de Janeiro estamos em recesso, mas preparamos para você, caro leitor, uma seleção com nossas resenhas mais acessadas de 2017.
Enquanto isso, prepare-se para todas os lançamentos e novidades de 2018.
Tradução de Vera Lucia Ribeiro
Caia. Levante-se. Tente outra vez.
Por Kleris: Em A coragem de ser imperfeito, nos embrenhamos na pesquisa de Brené Brown sobre vínculos e sociedade (reveja resenha aqui), mais precisamente voltada para o estudo da vulnerabilidade – aquele estado de incerteza que nos faz recuar, hesitar, senão paralisar diante de uma perspectiva de medo (antes de começar algo novo, de tentar algo diferente, de enfrentar situações e problemas, dentre outros). Bem ambientados da teoria, de como o ser humano funciona e como reconhecer comportamentos – em sua maioria, destrutivos – Mais forte do que nunca surge no horizonte para trazer um panorama prático. E nem Brené, pesquisadora que comanda o estudo, está isenta destes experimentos.
É uma verdade quase universalmente conhecida que o ser humano, ao ter seu calo pisado, vai ter uma impulsão muito forte de revidar na mesma moeda, senão pior, e no mesmo momento. Cury já pontuara sobre isso (reveja resenha aqui), que nosso primeiro instinto é cultivar os sentimentos ruins (raiva, rancor, preconceito, ressentimento, vergonha, mágoa, sabotagem, compulsão, traição, etc), o que pode se considerar um “caminho fácil”, afinal, é natural.
Mas o ser humano é um ser pensante, ele pode escolher seu caminho. Se atacado, ele pode parar, averiguar o que está sentindo e pensar se vale a pena comprar a briga. No entanto, não somos estimulados o suficiente dentro da sociedade a trabalhar essas emoções, nem para si, tampouco de si para os outros. Infelizmente assistimos séculos a fio as pessoas se destruindo umas às outras em um círculo vicioso – e nocivo. Lá se vão a paz, a alegria, a criatividade, a confiança, o respeito, a fé...
A prática do que Brené chama de “dar a volta por cima” opera justo neste campo, em que se escolhe a verdade, o amor, a aceitação, a coragem, a ousadia... a vulnerabilidade. A gente quebra a cara e está tudo bem. Quando não seguimos o caminho fácil, adentramos a arena. Lá parece uma zona e tudo que a gente quer é fugir. Não é confortável; é, na realidade, extremamente difícil. Por outro lado, extremamente gratificante. É uma batalha diária pelo nosso bem.
Quando paramos de nos importar com o que os outros pensam, perdemos nossa capacidade de estabelecer vínculos. Mas, quando somos definidos pelo que os demais pensam, perdemos a coragem de ser vulneráveis. A solução está em ter total clareza sobre quem são as pessoas que importam de verdade.
É impossível dar a volta por cima quando estamos fugindo.
É muito comum ver pessoas com problemas, mas é bem incomum ver pessoas procurando respostas ou mesmo soluções – soluções verdadeiras, não paliativos. Isto porque muito disso envolve vergonha, receio, medo, privação, não compreensão do que está acontecendo. São dificuldades de todos os tipos e áreas (pessoais, familiar, profissionais, amizades).
Preferimos que as histórias de queda e superação sejam inspiradoras e estéreis, e nossa cultura é repleta de relatos assim. Num discurso de trinta minutos, normalmente trinta segundos são dedicados a algo como “e então batalhei para dar a volta por cima” ou “E então conheci alguém especial”.Gostamos que as histórias de recuperação passem depressa pelas partes sombrias para podermos chegar logo ao final feliz e redentor. [...] Mas abraçar essa ideia sem reconhecer o sofrimento e o medo que isso pode causar, ou a complexa jornada que está por trás da volta por cima, é dourar a pílula, maquiar a dura realidade.
É extraordinário ver alguém dando a cara a tapa como Brené. Em diversos casos discutidos, me identifiquei demais. As autossabotagens, o perfeccionismo, a vergonha, a luta para se desamarrar disso. Ri uns risos nervosos e interessantes diante de situações em que ela não exatamente parava pra entender o que estava acontecendo, mas daí a noção voltava à tona, ela observava qual era sua impulsão e então vinha algum tipo de epifania – porque é esse o processo de dar a volta por cima! – e ela lidava com aquilo. Abraçava a si mesma e acreditava que ia ficar bem.
Uma das coisas mais incríveis, além desta exaustiva prática, é a relação ficção e realidade que Brené explora. Os capítulos em que ela trata com diversos escritores, produtores (nem Shonda Rhimes escapa!) e criadores (da Pixar!), e ainda empreendedores, é de explodir a cabeça. E as expectativas invisíveis? Nussa! É tipo de coisa que tá tão na nossa cara e somos esses cegos! Como é difícil ser... humano! Como é difícil crescer!
E o cerne de tudo é essa famosa vulnerabilidade.
De repente, quando eu estava na Pixar, enxerguei uma luz. Olhei para Ed e disse:— Ah, meu Deus, já entendi tudo. Vocês não podem pular o segundo dia.[...] O que acho mais chato a respeito do dia dois é exatamente o que Ed e a equipe da Pixar apontaram – é uma parte inegociável do processo. A experiência e o sucesso não oferecem a ninguém uma passagem tranquila pelo espaço intermediário. Proporcionam apenas um pouco de boa vontade, uma boa vontade que sussurra: “Isto faz parte do processo. Aguente firme”. [...] O meio do caminho é confuso, mas é também onde a mágica acontece.
As pessoas que não permanecem no chão quando caem ou tomam uma rasteira costumam criar problemas. São difíceis de controlar. E esse é o melhor tipo de possível de pessoa perigosa: os artistas, os inovadores, os causadores de mudanças.
Muito do que está por trás de conflitos está relacionado às histórias que contamos a nós mesmos através de pedaços de outras histórias. Ex: ao ver a timeline das redes sociais, criamos uma fantasia absurda sobre quem são aquelas pessoas, como elas estão mais felizes, como estão se divertindo mais, tendo mais conquistas, mais status, mais tudo, independente de conhecer suas histórias de verdade ou não. Ao olhar para nossa vida, a comparação e competição se torna uma coisa acirrada – e estamos, aparentemente, perdendo. Bate um sentimento de insuficiência (não tenho isso, não tenho aquilo, não sou feliz, não sou boa o suficiente, não sou digna disso, não sou digna daquela pessoa), emergência (preciso disso agora, preciso ser essa pessoa, não quero ser eu mesma) e destruição (sou uma droga, não faço nada certo, não ganho isso). Chegamos, meus amigos, às famigeradas bads.
Mas assim como as baratas voadoras têm uma razão de existir sabe-se lá qual, mas, as bads têm sua razão no ciclo da vida – ainda muito mal interpretadas. Jout Jout mesmo já trouxe um tutorial sobre o assunto (vide aqui), uma dor que cura. O desconforto vem para trazer mudanças. Só que nem todos estão dispostos a entrar nessa arena e dar a volta por cima. É mais fácil acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos, não? É preferível nos engalfinhar ao invés de admitir o que estamos sentindo, não é mesmo?
The Arena, da artista Lindsey Stirling, segue uma filosofia muito semelhante de Brené
No Brasil, Queda Livre, da banda Dead Fish, versa tão igual
que parece ter se inspirado no livro
Quando eu cai e beijei o chão
Vi em seus olhos algum
Brilho de prazer
Rastejei por algum tempo
Entenda isso foi muito
Bom pra mim!
Pude encarar minhas verdades
De frente pude ver
O quanto posso errar
Falhar e ver que pode ser muito natural
Você é covarde demais!
Pra entender
O quanto é intenso!
Agora todos os extremos
Insistir que o erro é dos
Outros!
Quando eu digo versão prática, não quero dizer que o livro traz atividades interativas pra se realizar – não é esse tipo de livro. Mais forte do que nunca traz estudos de casos para se encontrar, entender o processo, espelhar-se neles – se você escolher esse caminho. Brené novamente nos guia pelo mundo desconhecido da arena e nos mostra possíveis saídas para a verdadeira conquista. A nossa, literalmente, jornada de herói.
Você pode não ter se candidatado à jornada do herói, mas, no instante em que caiu, quebrou a cara, sofreu uma decepção, meteu os pés pelas mãos ou ficou de coração partido, ela começou. Não importa se estamos prontos para uma aventura emocional – as mágoas acontecem. E ninguém está livre delas. Sem exceção. A única decisão que podemos tomar é sobre o papel que vamos desempenhar na própria vida: queremos escrever nossa história ou queremos entregar esse poder a outra pessoa?
Cresci com um poço emocional seco. Eu não queria aprender mais sobre o assunto porque não sabia que havia mais a saber – não conversávamos sobre sentimentos. Não ficávamos vulneráveis. Se por acaso acontecesse de sermos tomados pela emoção de tal forma que surgisse uma brecha em nossa dura carapaça sob a forma de lágrimas ou uma expressão de medo, éramos prontamente lembrados, sem muita sutileza, de que as emoções não resolviam problemas – apenas faziam com que piorassem. Era ação, não o sentimento, que resolvia as questões.
Aliás, o livro é um desafio para o próprio (pré)conceito de livros autoajuda. A escrita da autora é audaciosa, e ao mesmo tempo fluída, gostosa e convidativa. Acredito ser o estudo mais completo e acessível até então. Você pode rir (e rir alto) sobre um tópico, ficar mais pensativa em outros e despertar gatilhos em tantos acolá. Pode ser sofrível, pode ser intenso. E ainda assim maravilhoso. É uma catarse atrás da outra. É... uma verdadeira redenção.
O vínculo não existe sem o ato de dar e receber. Precisamos dar e precisamos precisar.
Creio que o que mais lamentamos é a nossa falta de coragem – seja a coragem de ser mais bondosos, de nos mostrar, de dizer o que sentimos, de estabelecer limites, de ser generosos com nós mesmos. Por essa razão, o arrependimento pode ser o berço da empatia. Quando penso nas ocasiões em que não fui bondosa ou generosa, em que preferi ser aceita a defender alguém ou algo que merecia ser defendido, sinto profundo arrependimento.
Brené me faz desejar viver nesse mundo em que se exercitam constantemente as emoções, de maneira a acertar nossas arestas e fazer o melhor quanto aos nossos vínculos. Um mundo consciente, de si e dos outros, que aceita o desconfortável a fim de melhorá-lo, não de fugir. Fico imensamente feliz que esse mundo exista – apesar de um tanto longe – e que espalhe sua palavra de esperança de pouquinho a pouquinho através dos livros. Gostaria de vê-lo mais em discussão.
OBRIGADA, SEXTANTE, POR TRAZER ESSE LIVRO MARAVILHOSO.
OBRIGADA A TODOS OS ENVOLVIDOS <3
Não há maior ameaça para os críticos, os céticos e os disseminadores do medo do que aqueles que estão dispostos a cair porque aprenderam a se reerguer.
É bom saber que existem usos construtivos para todas aquelas conversas e planos de vingança que repito na minha cabeça ao deitar à noite.
Recomendo iniciar a leitura de A coragem de ser imperfeito antes de Mais forte do que nunca, só para se ambientar melhor nos temas abordados, porém, não vejo problema nenhum em inverter a ordem (até porque ao final de Mais forte..., há destaques de A coragem... como um fichamento, assim como outras tantas alusões conforme tópicos). Ambos são livros para estar na estante para qualquer momento de procura. Vale a leitura por mera curiosidade, vale pra vida.
Aos corajosos e inconsoláveis que nos ensinaram a levantar depois da queda. A sua coragem é contagiante.
Isso parece fácil, mas você se surpreenderia ao saber quantos nunca reconhecem os próprios sentimentos e emoções – apenas os descarregam. [...] A ironia é que, ao mesmo tempo que criamos distância entre nós e as pessoas ao redor, descontando tudo nos outros, ansiamos por laços afetivos mais profundos e por uma vida emocional mais rica.
Talvez a Brené seja a nossa Jout Jout versão acadêmica ^^ Maravilhosa assim.
Por
Kleris: Em A coragem de ser imperfeito,
nos embrenhamos na pesquisa de Brené Brown sobre vínculos e sociedade (reveja
resenha aqui),
mais precisamente voltada para o estudo da vulnerabilidade – aquele estado de
incerteza que nos faz recuar, hesitar, senão paralisar diante de uma
perspectiva de medo (antes de começar
algo novo, de tentar algo diferente, de enfrentar situações e problemas, dentre
outros). Bem ambientados da teoria, de como o ser humano funciona e como
reconhecer comportamentos – em sua maioria, destrutivos – Mais forte do que nunca
surge no horizonte para trazer um panorama prático. E nem Brené, pesquisadora
que comanda o estudo, está isenta destes experimentos.
É
uma verdade quase universalmente conhecida que o ser humano, ao ter seu calo
pisado, vai ter uma impulsão muito forte de revidar na mesma moeda, senão pior,
e no mesmo momento. Cury já pontuara sobre isso (reveja resenha aqui),
que nosso primeiro instinto é cultivar os sentimentos ruins (raiva, rancor, preconceito, ressentimento, vergonha,
mágoa, sabotagem, compulsão, traição, etc), o que pode se considerar um “caminho
fácil”, afinal, é natural.
Mas
o ser humano é um ser pensante, ele pode escolher seu caminho. Se atacado, ele
pode parar, averiguar o que está sentindo e pensar se vale a pena comprar a
briga. No entanto, não somos estimulados o suficiente dentro da sociedade a
trabalhar essas emoções, nem para si, tampouco de si para os outros.
Infelizmente assistimos séculos a fio as pessoas se destruindo umas às outras
em um círculo vicioso – e nocivo. Lá se vão a paz, a alegria, a criatividade, a
confiança, o respeito, a fé...
A
prática do que Brené chama de “dar a volta por cima” opera justo neste campo, em
que se escolhe a verdade, o amor, a aceitação, a coragem, a ousadia... a
vulnerabilidade. A gente quebra a cara e
está tudo bem. Quando não seguimos o caminho
fácil, adentramos a arena. Lá parece uma zona e tudo que a gente quer é
fugir. Não é confortável; é, na realidade, extremamente difícil. Por outro
lado, extremamente gratificante. É uma batalha diária pelo nosso bem.
Quando paramos de nos
importar com o que os outros pensam, perdemos nossa capacidade de estabelecer
vínculos. Mas, quando somos definidos pelo que os demais pensam, perdemos a
coragem de ser vulneráveis. A solução está em ter total clareza sobre quem são
as pessoas que importam de verdade.
É impossível dar a
volta por cima quando estamos fugindo.
É
muito comum ver pessoas com problemas, mas é bem incomum ver pessoas procurando
respostas ou mesmo soluções – soluções verdadeiras, não paliativos. Isto porque
muito disso envolve vergonha, receio, medo, privação, não compreensão do que
está acontecendo. São dificuldades de todos os tipos e áreas (pessoais,
familiar, profissionais, amizades).
Preferimos que as
histórias de queda e superação sejam inspiradoras e estéreis, e nossa cultura é
repleta de relatos assim. Num discurso de trinta minutos, normalmente trinta
segundos são dedicados a algo como “e então batalhei para dar a volta por cima”
ou “E então conheci alguém especial”. Gostamos que as
histórias de recuperação passem depressa pelas partes sombrias para podermos
chegar logo ao final feliz e redentor. [...] Mas abraçar essa ideia sem
reconhecer o sofrimento e o medo que isso pode causar, ou a complexa jornada
que está por trás da volta por cima, é dourar a pílula, maquiar a dura
realidade.
É
extraordinário ver alguém dando a cara a tapa como Brené. Em diversos casos
discutidos, me identifiquei demais. As autossabotagens, o perfeccionismo, a
vergonha, a luta para se desamarrar disso. Ri uns risos nervosos e interessantes diante de situações em que ela não
exatamente parava pra entender o que estava acontecendo, mas daí a noção
voltava à tona, ela observava qual era sua impulsão e então vinha algum tipo de
epifania – porque é esse o processo de dar a volta por cima! – e ela lidava com
aquilo. Abraçava a si mesma e acreditava que ia ficar bem.
Uma
das coisas mais incríveis, além desta exaustiva prática, é a relação ficção e
realidade que Brené explora. Os capítulos em que ela trata com diversos escritores,
produtores (nem Shonda Rhimes escapa!) e criadores (da Pixar!), e ainda
empreendedores, é de explodir a cabeça. E as expectativas invisíveis? Nussa! É tipo de coisa que tá tão na
nossa cara e somos esses cegos! Como é difícil ser... humano! Como é difícil
crescer!
E
o cerne de tudo é essa famosa vulnerabilidade.
De repente, quando eu
estava na Pixar, enxerguei uma luz. Olhei para Ed e disse: — Ah, meu Deus, já
entendi tudo. Vocês não podem pular o segundo dia. [...] O que acho mais
chato a respeito do dia dois é exatamente o que Ed e a equipe da Pixar
apontaram – é uma parte inegociável do processo. A experiência e o sucesso não
oferecem a ninguém uma passagem tranquila pelo espaço intermediário.
Proporcionam apenas um pouco de boa vontade, uma boa vontade que sussurra:
“Isto faz parte do processo. Aguente firme”. [...] O meio do caminho é confuso,
mas é também onde a mágica acontece.
As pessoas que não
permanecem no chão quando caem ou tomam uma rasteira costumam criar problemas.
São difíceis de controlar. E esse é o melhor tipo de possível de pessoa
perigosa: os artistas, os inovadores, os causadores de mudanças.
Muito
do que está por trás de conflitos está relacionado às histórias que contamos a
nós mesmos através de pedaços de outras histórias. Ex: ao ver a timeline das
redes sociais, criamos uma fantasia absurda sobre quem são aquelas pessoas,
como elas estão mais felizes, como estão se divertindo mais, tendo mais
conquistas, mais status, mais tudo, independente de conhecer suas histórias de
verdade ou não. Ao olhar para nossa vida, a comparação e competição se torna
uma coisa acirrada – e estamos, aparentemente, perdendo. Bate um sentimento de
insuficiência (não tenho isso, não tenho
aquilo, não sou feliz, não sou boa o suficiente, não sou digna disso, não sou
digna daquela pessoa), emergência (preciso
disso agora, preciso ser essa pessoa, não quero ser eu mesma) e destruição
(sou uma droga, não faço nada certo, não
ganho isso). Chegamos, meus amigos, às famigeradas bads.
Mas
assim como as baratas voadoras têm uma razão de existir sabe-se lá qual,
mas, as bads têm sua razão no
ciclo da vida – ainda muito mal interpretadas. Jout Jout mesmo já trouxe um
tutorial sobre o assunto (vide aqui), uma dor que cura. O desconforto vem para
trazer mudanças. Só que nem todos estão dispostos a entrar nessa arena e dar a
volta por cima. É mais fácil acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos,
não? É preferível nos engalfinhar ao invés de admitir o que estamos sentindo,
não é mesmo?
The
Arena, da artista Lindsey Stirling, segue uma filosofia
muito semelhante de Brené
No Brasil, Queda
Livre, da banda Dead Fish, versa
tão igual
que parece ter se inspirado no livro
Quando
eu cai e beijei o chão
Vi
em seus olhos algum
Brilho
de prazer
Rastejei
por algum tempo
Entenda
isso foi muito
Bom
pra mim!
Pude
encarar minhas verdades
De
frente pude ver
O
quanto posso errar
Falhar
e ver que pode ser muito natural
Você
é covarde demais!
Pra
entender
O
quanto é intenso!
Agora
todos os extremos
Insistir
que o erro é dos
Outros!
Quando
eu digo versão prática, não quero dizer que o livro traz atividades interativas
pra se realizar – não é esse tipo de livro. Mais forte do que nunca
traz estudos de casos para se encontrar, entender o processo, espelhar-se neles
– se você escolher esse caminho. Brené novamente nos guia pelo mundo
desconhecido da arena e nos mostra possíveis saídas para a verdadeira conquista.
A nossa, literalmente, jornada de herói.
Você pode não ter se
candidatado à jornada do herói, mas, no instante em que caiu, quebrou a cara,
sofreu uma decepção, meteu os pés pelas mãos ou ficou de coração partido, ela
começou. Não importa se estamos prontos para uma aventura emocional – as mágoas
acontecem. E ninguém está livre delas. Sem exceção. A única decisão que podemos
tomar é sobre o papel que vamos desempenhar na própria vida: queremos escrever
nossa história ou queremos entregar esse poder a outra pessoa?
Cresci com um poço
emocional seco. Eu não queria aprender mais sobre o assunto porque não sabia
que havia mais a saber – não conversávamos sobre sentimentos. Não ficávamos
vulneráveis. Se por acaso acontecesse de sermos tomados pela emoção de tal
forma que surgisse uma brecha em nossa dura carapaça sob a forma de lágrimas ou
uma expressão de medo, éramos prontamente lembrados, sem muita sutileza, de que
as emoções não resolviam problemas – apenas faziam com que piorassem. Era ação,
não o sentimento, que resolvia as questões.
Aliás,
o livro é um desafio para o próprio (pré)conceito de livros autoajuda. A
escrita da autora é audaciosa, e ao mesmo tempo fluída, gostosa e convidativa. Acredito
ser o estudo mais completo e acessível até então. Você pode rir (e rir alto)
sobre um tópico, ficar mais pensativa em outros e despertar gatilhos em tantos acolá. Pode ser
sofrível, pode ser intenso. E ainda assim maravilhoso. É uma catarse atrás da
outra. É... uma verdadeira redenção.
O vínculo não existe
sem o ato de dar e receber. Precisamos dar e precisamos precisar.
Creio que o que mais
lamentamos é a nossa falta de coragem – seja a coragem de ser mais bondosos, de
nos mostrar, de dizer o que sentimos, de estabelecer limites, de ser generosos
com nós mesmos. Por essa razão, o arrependimento pode ser o berço da empatia. Quando
penso nas ocasiões em que não fui bondosa ou generosa, em que preferi ser
aceita a defender alguém ou algo que merecia ser defendido, sinto profundo
arrependimento.
Brené
me faz desejar viver nesse mundo em que se exercitam constantemente as emoções,
de maneira a acertar nossas arestas e fazer o melhor quanto aos nossos vínculos.
Um mundo consciente, de si e dos outros, que aceita o desconfortável a fim de
melhorá-lo, não de fugir. Fico imensamente feliz que esse mundo exista – apesar
de um tanto longe – e que espalhe sua palavra de esperança de pouquinho a
pouquinho através dos livros. Gostaria de vê-lo mais em discussão.
OBRIGADA, SEXTANTE, POR TRAZER ESSE LIVRO
MARAVILHOSO.
OBRIGADA A TODOS OS ENVOLVIDOS <3
Não há maior ameaça para os críticos, os céticos e os disseminadores do medo do que aqueles que estão dispostos a cair porque aprenderam a se reerguer.
É bom saber que existem
usos construtivos para todas aquelas conversas e planos de vingança que repito
na minha cabeça ao deitar à noite.
Recomendo
iniciar a leitura de A coragem de ser imperfeito antes de
Mais
forte do que nunca, só para se ambientar melhor nos temas abordados,
porém, não vejo problema nenhum em inverter a ordem (até porque ao final de Mais forte..., há destaques de A coragem... como um fichamento, assim
como outras tantas alusões conforme tópicos). Ambos são livros para estar na
estante para qualquer momento de procura. Vale a leitura por mera curiosidade,
vale pra vida.
Aos corajosos e
inconsoláveis que nos ensinaram a levantar depois da queda. A sua coragem é
contagiante.
Isso parece fácil, mas
você se surpreenderia ao saber quantos nunca reconhecem os próprios sentimentos
e emoções – apenas os descarregam. [...] A ironia é que, ao mesmo tempo que
criamos distância entre nós e as pessoas ao redor, descontando tudo nos outros,
ansiamos por laços afetivos mais profundos e por uma vida emocional mais rica.
Talvez a Brené seja a nossa Jout Jout versão
acadêmica ^^ Maravilhosa assim.
Juliana Rios Graduada em Administração, aventureira e fundadora dos blogs Dear Book e Juny Pelo Mundo. Apaixonada por viagens, culturas e em descobrir novas possibilidades. Mora em São José dos Campos – SP.
Colaboradores
O blog
O Dear Book é um blog colaborativo destinado a resenhas e indicações, noticias do mundo literário, entre outros.