segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Resenha: "Pequenos contos para começar o dia" (Leonardo Sakamoto)


Por Kleris: Leonardo escrevia microcontos no Facebook para os amigos e suas historietas – todas inspiradas em alguma experiência jornalística – tiveram incrível repercussão. O livro nasceu daí, uma maneira de registrar histórias do povo, histórias de uma geração, ficção e realidade, e abrir nossa percepção diariamente. 

Primeiro, foram os nomes dos netos. Depois, a literatura que amava. E ela foi se despindo na frente de todos. Foi estranho, mas o Alzheimer lhe concedeu o direito a uma só lembrança. O que é forte o suficiente para vencer o vazio?


As narrativas são variadas, assim como todos os sentimentos envolvidos. Não há um norte, nem um tema direto, senão esse convite a enredos rápidos. É um livreto de doses literárias para serem bebidas pouco a pouco. Leituras pausadas como esta são uma ótima garantia de companhia, seja para começar o dia (como o livro propõe), seja para respirar entre uma e outra coisa da vida corrida.

Nem todos os contos são 10/10. Tem aqueles que te tocam profundamente, tem aqueles que te levam à reflexão imediata e aqueles que “passam passando” – vai da história de vida e da sede de conhecimento do leitor para abraçá-los. 
Quando ficava de cama, seu pai trazia um velho livro cuja últimas três páginas haviam sido arrancadas. Então, ela se aninhava em seus braços para inventarem juntos o final. Na gripe, a princesa fugiu do castelo e foi ser repórter. Perna quebrada: deixou o príncipe em casa cozinhando e saiu com as amigas. Amídalas? Juntou-se a outras e mudaram o mundo. Ontem, já crescida, foi comprar o primeiro livro para a filha. Escolheu com carinho, arrancou as três últimas páginas e, sorrindo, pediu: “para presente”.

Mas é certo que algumas histórias ficam cá conosco e precisam de bandeirinhas para marcar seu lugar no livro. Não à toa as melhores partes ficam exato no meio, pois é comum que Leonardo lance os cenários e nos arrebate nas frases finais, bem centralizadas nas páginas.




É pra você que procura leituras que não precisam de grande imersão, que pode passar dias sem ler e não se perder. Cabe na bolsa e pode ficar bastante tempo na cabeceira. 
Largou tudo. Comprou um sítio. Produz morangos. Tem cachorro. Vive um amor. E perdeu o medo de usar o ponto final. 
E juntos descobriram que, na verdade, os biscoitos não estavam vazios.

O livríneo me lembra bastante de Recorte! da miga Talita Guimarães – quem me presenteou ♥️ Aliás, recomendadíssimo para dar de presente!


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Até a próxima!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Resenha: "O aprendiz de assassino" (Robin Hobb)

Tradução: Orlando Moreira

Neste primeiro livro de uma saga, seremos apresentados ao Bastardo do príncipe Cavalaria. No reino dos Seis Ducados, os nascidos de Sangue Nobre, geralmente são nomeados tendo em vista uma qualidade – apesar de que, ao longo da obra isso nem sempre se sustenta.

Assim, o Bastardo, mais tarde chamado de Fitz (que descobriremos ser apenas uma variação da mesma palavra) é levado ao príncipe Veracidade por seu avô materno quando tem em torno de 05/06 anos, já que o mesmo alega não poder mais prover seu sustento.

– Pai, por favor, eu imploro! Um tremor sacudiu a mão que agarrava a minha, mas se era de ira ou de qualquer outra emoção nunca saberei. Tão veloz quanto um corvo apanhando um pedaço de pão atirado, o velho inclinou-se e agarrou um pedaço de gelo sujo.
Atirou-o sem palavras, com muita força e fúria, e eu me encolhi de medo. Não me lembro de ter chorado. O que me lembro é de como as portas se abriram para fora, de tal forma que o velho teve de se mover depressa para trás, puxando-me com ele.

Já de início a pequena criança, de forma involuntária, causa uma tremenda mudança nas vidas de todas as pessoas do reino: Cavalaria, que seria o próximo na sucessão ao trono, abdica de sua posição e se retira para o interior com sua esposa Paciência, com quem não conseguiu gerar herdeiros legítimos.

O Bastardo é entregue aos cuidados de Bronco, braço direito de Cavalaria, que na abdicação de príncipe passa a cuidar das Cavalarias de Torre do Cervo, local de residência do Rei Sagaz e de toda a corte que o rodeia.

Vamos então acompanhar o Bastardo vivendo como uma criança comum das cavalarias, trabalhando, correndo solto pelas ruas da vila próxima à Torre de Cervo, roubando tanto na vila como dentro da própria Torre. E é justamente num dia em que esta roubando os restos de comida após um banquete  que Fitz acabará sendo pego pelo próprio Rei, que decide que, a partir de então, ficará responsável por sua criação e educação em troca de sua lealdade.

 – Olhe para ele – o velho rei ordenou. Majestoso lançou-me outro olhar furioso, mas não ousei mover uma palha. – O que você vai fazer com ele? Majestoso parecia perplexo.
– Ele? É o Fitz. O bastardo de Cavalaria. Vagando sorrateiramente e afanando coisas por aí, para variar.
– Bobo. – O Rei Sagaz sorriu, mas os seus olhos continuaram firmes. O Bobo, pensando que o rei se referia a ele, sorriu docemente. – Seus ouvidos estão tampados com cera? Não ouve nada do que eu digo? Não te perguntei o que acha dele, mas sim o que vai fazer com ele! Aí está ele, jovem, forte e engenhoso. Os traços do rosto dele são tão reais quanto os do seu, embora tenha nascido no berço errado. Portanto, o que você vai fazer com ele? Vai fazer dele uma ferramenta? Uma arma? Um companheiro? Um inimigo? Ou vai deixá-lo andando por aí, até que outro o pegue e o use contra você?

E é então que Fitz, o Bastardo de Cavalaria, vira um aprendiz de Assassino.

Muitas outras coisas são dignas de nota, como a estranha facilidade que Fitz parece ter para se comunicar com  alguns animais e entender seus sentimentos, bem como o que é chamado de Talento, um dom que a realeza possui para se comunicar entre mentes, ou até criar certa confusão na mente de outra pessoa, uma arte que, infelizmente, acabou ficando mal compreendida até mesmo pelos príncipes herdeiros.

Neste primeiro livro, vamos acompanhar o crescimento lento e confuso de Fitz em meio a corte e suas intrigas, jogos de poder, verdades veladas e mentiras descaradas, e sua tentativa de sobreviver a ser um homem do Rei, filho de Cavalaria e amigo daqueles que conhece quando consegue fugir da opressão dos muros do castelo.

"O Aprendiz de Assassino" é uma aventura fantástica fascinante, apesar de ser um livro com quase 400 páginas, li todo em um único dia. Como primeiro volume é um livro excelente, que nos deixa com muitas dúvidas acerca da história como um todo, mas que consegue fechar um ciclo em seu desfecho. Com personagens bem trabalhados, sua continuação é algo que pretendo ler o mais breve possível para continuar acompanhando o desenrolar dos acontecimentos.

Recomendo!

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Resenha: "O Instituto" (Stephen King)

Tradução de Regiane Winarski

Sinopse: O novo livro de Stephen King, o Mestre do Terror, traz uma história inesquecível sobre um grupo de crianças com talentos especiais que precisam se unir para derrubar um grande mal.

No meio da noite, em uma casa no subúrbio de Minneapolis, um grupo de invasores assassina os pais de Luke e sequestra silenciosamente o menino de doze anos. A operação leva menos de dois minutos.

Quando Luke acorda, ele está no Instituto, em um quarto que parece muito o dele, exceto pelo fato de que não tem janela. E do lado de fora tem outras portas, e atrás delas, outras crianças com talentos especiais, que chegaram àquele lugar do mesmo jeito que Luke. O grupo formado por ele, Kalisha, Nick, George, Iris e o caçula, Avery Dixon, de apenas dez anos, está na Parte da Frente. Outros jovens, Luke descobre, foram levados para a Parte de Trás e nunca mais vistos.

Nessa instituição sinistra, a equipe se dedica impiedosamente a extrair dessas crianças toda a força de seus poderes paranormais. Não existem escrúpulos. Conforme cada nova vítima vai desaparecendo para a Parte de Trás, Luke fica mais e mais desesperado para escapar e procurar ajuda. Mas até hoje ninguém nunca conseguiu fugir do Instituto.

Tão aterrorizante quanto A incendiária e tão espetacular quanto It: a Coisa, este novo livro de Stephen King mostra um mundo onde o bem nem sempre vence o mal.

Por Stephanie: O Instituto é um dos últimos livros publicados por Stephen King e, apesar de conter uma atmosfera bastante macabra, não é exatamente um livro de terror. A obra navega entre a ficção científica, aventura e o suspense e entrega uma história rica em detalhes, além de bastante intrigante, como já é típico do autor.

Nos primeiros capítulos, tive um pouco de dificuldade de entrar de cabeça na história; King opta por trazer um background rico e que a princípio não parece ter ligação com o enredo apresentado na sinopse, e isso acabou me deixando meio desanimada. A partir do momento em que o ponto de vista muda e conhecemos o protagonista, Luke, fui fisgada pela obra e senti que a coisa toda estava mesmo começando.

Luke e os personagens infantis são muito bem desenvolvidos e eu adorei ler a jornada deles. Eu sofri e quase chorei por eles em vários momentos, pois as cenas de tortura são bem gráficas e desesperadoras, o que já era de se esperar. Com certeza esses momentos foram os mais aterrorizantes e difíceis de ler.

O elenco adulto é praticamente todo composto pela escória humana; tirando poucas pessoas, como Maureen e Tim (além de outros moradores de DuPray), a obra nos mostra como os seres humanos são capazes das maiores atrocidades quando julgam possuir uma justificativa plausível para tal, por mais absurda que seja.

Acho que o que mais gostei em O Instituto foi o constante clima de conspiração. Como fã de Stranger Things, sou fissurada nesse tipo de assunto e senti que o autor soube explorá-lo bem, principalmente mais para o final, quando somos agraciados com a maioria das respostas.

Sobre o final propriamente dito, eu gostei bastante! Esperava que algumas coisas fossem acontecer mas foi bastante gratificante ver o desenvolvimento e a luta de Luke em busca de seus objetivos.

Minha única crítica diz respeito à quantidade de páginas. King é um autor bastante descritivo, mas em alguns momentos achei que ele se repetiu, principalmente nos momentos em que narra a rotina de Luke e seus amigos dentro do instituto. Fora isso, achei o livro muito competente em todos os aspectos e recomendo a leitura!

Era tão simples, mas era uma revelação: o que você fazia por si mesmo era o que lhe dava o poder.

Até a próxima, pessoal!

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Resenha: "Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia" (Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz)

Por Thaís Inocêncio: As primeiras histórias que li, ainda na infância, se passavam no Sítio do Picapau Amarelo. Foi a partir delas que aprendi a viajar com os livros – sem deixar o quintal da minha casa, conseguia subir em árvores com Pedrinho e sentir o cheio da comida da tia Anastácia, por exemplo. Assim, pela capacidade de inventar um mundo tão fascinante, que me tornou uma leitora voraz, Monteiro Lobato ganhou minha admiração. 

Porém, o autor é uma figura polêmica e não é possível dissociá-lo de sua criação. Então, por que seria possível dissociá-lo de sua época? Na minha concepção, em seus livros, Lobato apresenta retratos da sociedade de um século atrás, em que era comum caçar animais e usar adjetivos como "negra beiçuda". Incomoda? Que bom! Felizmente, aprendemos e evoluímos. Mas não fizemos isso apagando os rastros de nossa história, e sim falando sobre ela! Foi isso o que fizeram as autoras Marisa Lajolo e Lilia Schwarcz em Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia

O livro, destinado às crianças, é narrado em primeira pessoa pelo próprio Lobato. É como se ele vivesse entre nós e tivesse a possibilidade de olhar pra trás e analisar seus comportamentos e pensamentos hoje considerados retrógrados e preconceituosos. Portanto, embora o foco seja a história de vida do escritor, ele não deixa de lado polêmicas como a desvalorização dos camponeses e o racismo. 

“O Brasil em que nasci e vivi era outro. Nesse Brasil de antigamente, prolongavam-se o preconceito e o racismo construídos ao longo dos muitos séculos de escravidão. Éramos, sempre fomos - e talvez nesse tempo seu a gente ainda seja -, uma cultura racista, preconceituosa. Eu não percebia isso naquele momento.” 

Além disso, o livro apresenta curiosidades muito interessantes, como o fato de Monteiro Lobato ter reprovado em um processo seletivo, ter sido preso e ter perdido dois filhos para a tuberculose. A diagramação da obra é um show à parte. O livro é todo ilustrado e ainda traz fotos e reproduções de documentos reais, como cartas que Lobato escrevia para os amigos. As páginas também incluem uma espécie de glossário que relaciona a história do escritor a fatos históricos do Brasil e do mundo.




Estando Lobato, em algum plano, arrependido ou não de suas atitudes e opiniões, para mim, o valor de suas obras, sobretudo as infantis, segue sendo inestimável. 

“De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo [...] Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.”


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Resenha: "Sessão da meia-noite com Rayne e Delilah" (Jeff Zentner)

Tradução de Guilherme Miranda

Por Stephanie: Sessão da meia-noite com Rayne e Delilah é o mais novo lançamento de Jeff Zentner, autor de Dias de Despedida e Juntos Somos Eternos, dois livros que eu já li e gostei muito (confira as resenhas de ambos aqui e aqui). A obra acompanha a história de Josie e Delia, duas melhores amigas que juntas apresentam um programa de televisão sobre filmes de terror de qualidade duvidosa. Josie está passando por um momento de indecisão na vida, pois não sabe se deseja ingressar na faculdade ou seguir carreira na TV, enquanto Delilah vive uma situação delicada com uma mãe mentalmente instável e um pai ausente, que abandonou a família e a quem ela deseja reencontrar. As amigas irão embarcar em uma jornada para uma convenção do universo do terror que pode (ou não) mudar suas vidas.

Quando comecei a leitura de Sessão da meia-noite, confesso que estranhei um pouco o tom da obra e a escrita, que diferem do que encontrei nos livros anteriores do autor. Cheguei até a comparar com a escrita de John Green, principalmente por causa dos diálogos “cabeça” e meio esquisitos entre as duas protagonistas. Passado esse estranhamento, consegui me conectar com a história e sentir empatia pelos personagens, em especial pela Delia.

Acredito que cada pessoa tem direito a cinco ou seis dias perfeitos na vida. Dias sem nenhuma nota fora do tom nem incômodos, dias que vão amadurecendo como um pêssego na memória com o passar dos anos. Sempre que você o morde, ele é doce e suculento.

Toda a história que envolve o programa de TV é muito divertida de acompanhar; eu me lembrei de experiências semelhantes que tive durante a faculdade e foi bem nostálgico. Toda a preparação para o programa, o amadorismo envolvido, as cartas dos espectadores… tudo isso me deixou bastante entretida e arrancou sorrisos.

Porém, como era de se esperar, Sessão da meia-noite não é apenas divertido; há muitas partes tristes e reflexivas, que tratam principalmente de relações familiares. Ainda que esse seja o livro mais leve do autor, ele conseguiu trabalhar os dramas dos personagens (mais precisamente, da Delia) de maneira sensível e verossímil. Josie também tem seus problemas pessoais, mas que achei bem menos impactantes; em alguns momentos, senti que eram meio white people problems, sabe? Mas nada que me desagradasse tanto.

Agora, sobre algo que não me agradou mesmo: a viagem para a ShiverCon. Parece que Jeff Zentner deu uma escorregada nessa parte, inserindo situações bem desconfortáveis de ler e que chegaram a soar muito irreais. Achei desnecessário.

Há um romance que se desenvolve desde o início da história e que, apesar de ser fofo, não faria falta se não existisse. Eu teria gostado mais se todos fossem amigos, mas não acho que que vá incomodar os leitores em geral.

De qualquer forma, eu recomendo a leitura pra quem deseja se aventurar em um livro rápido e fluido, só para espairecer. Não acho que é a melhor opção para quem nunca leu nada do autor, mas, se a sinopse te interessou, pode apostar sem medo!

(...) Seria muito fácil pensar que dá para se proteger de se magoar simplesmente não amando ninguém. Meio como dá para evitar ser atropelado por um ônibus se você nunca sair de casa. Mas isso não é jeito de viver. É melhor amar as pessoas e se magoar. Ninguém nunca diz no leito de morte que gostaria de ter amado menos gente.

PS.: Há um easter egg que coloca esse livro no mesmo universo de Dias de Despedida! Meu coração se aqueceu e fiquei toda feliz quando li :)

Até a próxima, pessoal!

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Resenha: "O que será: a história de um defensor dos direitos humanos no Brasil" (Jean Wyllys e Adriana Abujamra)

Por Thaís Inocêncio: Em pouco mais de uma década, Jean Wyllys passou de uma das pessoas mais amadas para uma das mais odiadas do país. Em 2005, o então professor universitário participou da quinta edição Big Brother Brasil e foi escolhido pelo público como o grande vencedor do reality show, desbancando Grazi Massafera e levando para casa o prêmio de um milhão de reais. Treze anos depois, em 2018, após dois mandatos como deputado federal, decidiu deixar o Brasil devido às recorrentes e cada vez mais graves ameaças de morte. 

Neste livro, Jean apresenta sua trajetória em três partes, e em todas elas ele demonstra não só com opiniões, mas também com fatos, o quanto a homofobia influenciou sua vida e afetou suas decisões, inclusive e principalmente a de sair do país. 
"Homossexualidade não é crime nem pecado, tampouco doença, é apenas uma expressão do amor e da sexualidade, como qualquer outra. Assim como ter cabelo preto ou loiro, liso ou crespo, ser baixo ou alto. Somos diversos, essa é a beleza da vida."
Na primeira parte, ele fala da infância na periferia rural de Alagoinhas, cidade localizada no interior da Bahia, e conta como são suas relações familiares. Nesse trecho, ele revela que era desprezado pelo pai por causa do seu "jeitinho" e que foi chamado de "viado" pela primeira vez aos 6 anos de idade.

Na segunda parte, a maior do livro, Jean fala sobre sua carreira política. Ele foi eleito pela primeira vez para a Câmara dos Deputados em 2010. Em seguida, foi reeleito como o sétimo mais votado entre os candidatos do Rio de Janeiro. Mesmo com essa popularidade nas ruas, ele enfrentou muitas barreiras dentro do plenário, ocupado majoritariamente por homens brancos, declarados héteros e fortemente ligados à religião. 

Durante os dois mandatos, Jean priorizou os interesses dos pobres, dos negros, da população LGBT e das mulheres, defendendo pautas como as cotas raciais, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização do aborto. Tudo isso, somado ao preconceito, rendeu-lhe alguns inimigos, que tentaram desacreditá-lo com fake news, alegando que ele era intolerante religioso e até mesmo pedófilo. 

Ao longo dos oito anos como deputado federal, Jean lutou contra essas mentiras, levando muitos casos à justiça, até que suas forças se esgotaram. O estopim foi o assassinato da vereadora Marielle Franco, companheira de partido e amiga do deputado. Diante desse fato e das crescentes ameaças que recebia em nome dele e da família, Jean passou a andar sob escolta policial. Em 2018, ele foi reeleito para o terceiro mandato como deputado, mas decidiu não tomar posse e ir morar na Alemanha, o que ele explica com detalhes na última parte do livro. 

Quem já ouviu entrevistas e discursos de Jean, conseguirá reconhecê-lo facilmente nessa obra. Ele fala com orgulho de sua orientação sexual, não poupa nomes nem adjetivos ao se referir a seus adversários e defende suas ideias com veemência. Em determinados trechos dessa autobiografia, ele pode soar arrogante, mas essa é apenas a postura adotada por alguém que sofre ataques cotidianos. Embora não seja mais um representante da sociedade no Congresso, onde quer que esteja vivendo, Jean segue como uma referência na luta pelos direitos humanos.
"Minha presença no Congresso era importante porque representava setores da sociedade que não têm voz, mas minha intervenção política não depende disso, nunca esteve restrita a esse lugar." 
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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Resenha: "Nocturna - Nocturna #1" (Maya Motayne)

Tradução de Flávia Souto Maior

Sinopse: No primeiro volume de uma trilogia de fantasia inspirada na cultura latina, uma ladra capaz de mudar de aparência e um príncipe herdeiro se unem para proteger o reino de uma magia perversa.

Depois de se libertar da dominação dos inglésios, o reino de Castallan não esperava passar por mais nenhuma crise. Mas Dez, o herdeiro, foi assassinado, e agora nobres e plebeus precisam aceitar que o destino do reino está nas mãos do príncipe Alfie, que passou meses fugindo de suas obrigações enquanto bebia tequila em alto-mar.

De volta a Castallan, Alfie não consegue acreditar que seu irmão morreu e, tentando provar o contrário, se depara com Finn Voy. Graças a sua habilidade de assumir a aparência de qualquer pessoa, Finn está sempre usando um disfarce para se proteger dos traumas de seu passado e de qualquer um que se meter em seu caminho.

Quando os destinos de Alfie e Finn se cruzam, eles acidentalmente libertam uma magia poderosa e antiga que, se não for detida, vai mergulhar o mundo em escuridão. Com o futuro de Castallan em suas mãos, o príncipe e a ladra terão de aprisionar essa magia obscura a qualquer custo, mesmo que, no caminho, precisem confrontar seus segredos mais sombrios.

Por Stephanie: Nocturna é um lançamento de 2019 da Editora Seguinte que recebeu bastante atenção desde antes de sua publicação lá fora, graças à promessa de ser uma fantasia com inspiração na cultura latina. Eu me interessei pela capa e pela sinopse da história e fiz questão de entrar em contato com a obra o quanto antes. Porém, fico triste em dizer que esta não foi uma experiência tão boa quanto eu esperava.

Primeiramente, os pontos positivos: Maya Motayne constrói um típico ambiente fantástico, com um mundo repleto de magia e bastante imersivo. A língua de Castallan possui muitas influências do espanhol e os termos aparecem com bastante frequência ao longo da leitura. O desenvolvimento é coeso e dinâmico, e a interação entre os personagens é crível e bem construída.

No entanto, mesmo com as coisas positivas, fiquei bastante incomodada com as semelhanças da obra com o livro "Um Tom Mais Escuro de Magia", da autora V. E. Schwab. Sou muito fã dessa trilogia e foi muito difícil não perceber os diversos aspectos parecidos entre esses livros iniciais. Por exemplo: em Nocturna, temos dois personagens principais (Alfie e Finn) que, além de suas personalidades, possuem uma dinâmica que se assemelha bastante aos protagonistas criados por Schwab.

Infelizmente, as semelhanças também continuam ao longo do enredo. Ainda que o sistema de magia das duas obras seja diferente, as soluções encontradas por Motayne para resolver seus conflitos foram praticamente as mesmas da obra de Schwab.

É claro que para quem nunca leu a trilogia Tons de Magia ou não liga para livros com enredos parecidos, nada do que citei pode ter importância. Porém, como esse não é o meu caso, acho importante expor meus sentimentos ao longo da leitura para que o leitor saiba com o que pode se deparar ao decidir ler Nocturna.

De qualquer forma, Motayne tem uma escrita interessante e vejo potencial para futuros livros escritos por ela. Recomendo a leitura de Nocturna para qualquer pessoa que goste de fantasia e histórias de aventura! Basta se atentar aos pontos que destaquei e se jogar nessa que pode sim ser uma experiência positiva.

"E, lembrem: não importa o quanto nos afundemos na escuridão, nunca é tarde demais para procurar a luz."

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Até a próxima, pessoal!

Resenha: "Os sete maridos de Evelyn Hugo" (Taylor Jenkins Reid)

Tradução de Alexandre Boide

Por Thaís Inocêncio: Evelyn Hugo foi uma das mais belas e famosas atrizes de Hollywood na segunda metade do século XX. Iniciou sua carreira na década de 1950 e permaneceu em evidência até o início dos anos 1990, fosse por sua atuação em alguma produção de sucesso ou pelas fofocas envolvendo seus sete casamentos. Agora, chegando aos 80 anos de idade e reclusa em uma mansão de Nova York, ela decide contar sua verdadeira história, mas com uma condição: a de que a escritora de sua biografia seja a jornalista Monique Grant. 

A princípio, não há ligação alguma entre essas personagens. Apesar de trabalhar em uma grande revista, Monique é iniciante e não entende a exigência da atriz. Mas quem é que perderia a chance de revelar ao mundo a trajetória dessa lenda do cinema? Assim, elas passam a se encontrar diariamente para que Evelyn Hugo conte, com detalhes, tudo o que fez para alcançar o sucesso e, sobretudo, para manter a fama. Ao final, ela promete, Monique entenderá porque foi escolhida para essa missão.
"A vida em Hollywood tem uma curva de subida acentuada e queda brusca. Fiz tudo o que pude para continuar no topo o máximo possível." 
No livro, há uma parte reservada para cada marido, iniciada com seu respectivo nome, como se fosse a abertura de um capítulo. Porém, essa estrutura e até o título do livro enganam: ambos dão a entender que o tema central são os casamentos da protagonista, quando, na verdade, eles só determinaram fases diferentes da vida de Evelyn Hugo – o foco é a personalidade dela.

A trajetória da atriz é narrada por ela em 1ª pessoa, como se fosse uma autobiografia, nos fazendo mergulhar nos detalhes do seu passado. As descrições, tanto de ambientes quanto de sentimentos, são tão precisas que nos colocam dentro da história e nos fazem questionar se Hollywood, no século passado, não era exatamente como é retratada no livro. À medida que os acontecimentos da vida de Evelyn Hugo são revelados por ela, também somos apresentados a reportagens da época, evidenciando o quanto a mídia de entretenimento sempre teve um caráter invasivo e pouco comprometido com a verdade.
"Obviamente, as pessoas entenderam tudo errado. E nunca se preocuparam em esclarecer. A mídia só conta aquilo que quer contar. Sempre foi assim. E sempre vai ser."   
Intercalando-se com a narração de Evelyn, temos o ponto de vista de Monique. Ao descrever, no tempo presente, como tem sido sua relação com a atriz, ela também revela informações sobre a própria vida profissional, amorosa e familiar e, aos poucos, percebemos o quanto esses campos passam a ser influenciados pela história da protagonista, principalmente quando ela descobre porque foi escolhida para escrever essa biografia.

Esse livro tem sido muito elogiado, e com razão! Para mim, o sucesso da obra está ancorado em três fatos principais: a escrita da autora, que é bastante fluida; o modo como ela consegue inserir na obra assuntos polêmicos e necessários, como violência doméstica, homossexualidade e suicídio, nos fazendo refletir sobre eles; e a construção dos personagens, especialmente de Evelyn Hugo, que é complexa e real, com defeitos, incertezas, mágoas, qualidades, desejos e sonhos. 

A atriz é ambiciosa e manipuladora, mas também é determinada, inteligente e sensível. Ao mesmo tempo em que discorda de normas e padrões estabelecidos pela sociedade da época, tem medo de não ser socialmente aceita e busca caminhos para, ao menos, fingir que é adequada, ainda que a realidade por trás da fama seja outra. Em diversas ocasiões, ela toma atitudes consideradas imorais em nome das aparências e do sucesso. Mas, em determinado momento, ela percebe que nem toda a aprovação do mundo pode suprir a falta de amor. E é aí que ela decide se abrir para o mundo. 
"Eu não sou uma boa pessoa, Monique. Mostre isso claramente no livro. Não tenho a menor intenção de dizer que sou boa. Fiz uma porção de coisas que magoaram muita gente, e faria de novo se fosse necessário." 
A Stephanie já fez uma resenha desse mesmo livro para o Dear Book. Se você quiser uma segunda opinião sobre a obra (não tão diferente da minha), clique aqui.

Até a próxima, galera!

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Resenha: "Velhice transviada: memórias e reflexões" (João W. Nery)

Por Thaís Inocêncio: Quando nascemos, nos é atribuído um dos dois gêneros: feminino ou masculino. No entanto, o modo como nos identificamos pode ou não concordar com essa atribuição. Hoje em dia, as pessoas que se identificam com o gênero atribuído no nascimento são chamadas de cisgêneros; já as que assumem uma identidade oposta ao gênero de nascimento são chamadas de transgêneros. Vale ressaltar que essa identificação em nada tem a ver com nossos aspectos físicos, por isso uma pessoa trans pode ou não passar por cirurgia de redesignação sexual, por exemplo. 

Dito isso, surge uma pergunta: você já parou para pensar que a velhice é um privilégio das pessoas cisgêneras? Já percebeu que, por conta do mundo preconceituoso e intolerante em que vivemos, as pessoas trans não tem direito à longevidade? Abrir os nossos olhos para essa realidade é o objetivo do livro Velhice transviada, de João W. Nery. 
"Dedico este livro às pessoas trans, sem voz, às mais invisíveis para a sociedade [...], sobretudo, às que não tem direito à insolência da longevidade, por morrerem assassinadas, ainda prematuramente."
O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor fala brevemente sobre a sua vida e experiência como o que ele chama de "transvelho", já que ele escreveu a obra aos 68 anos de idade (informações mais detalhadas sobre a sua trajetória podem ser encontradas na autobiografia Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois). João Nery é considerado o primeiro transgênero masculino a passar por cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos, em plena ditadura militar, quando esse procedimento ainda era proibido. Para isso, ele precisou passar por uma "morte social" e iniciar uma nova vida, com outro nome e documentos, perdendo seus registros anteriores, como seu diploma de psicólogo. 

Ao ler sobre essa experiência, percebemos como o machismo existe em todos os espaços, inclusive entre a população trans. Se uma pessoa nasce "mulher", mas se identifica como homem, a partir do momento em que ela tira a mama e os hormônios lhe garantem barba e voz grossa, por exemplo, ela consegue se camuflar na sociedade, ainda que também enfrente muita dificuldade no caminho. Porém, uma travesti ou mulher trans não consegue essa invisibilidade e carrega consigo grandes marcas físicas e psicológicas da violência e do sofrimento. Ainda assim, é graças às pessoas que se expõem e se rebelam que houve algum avanço na conquista de direitos para essa comunidade. 
"A gente escondida não muda nem transforma nada, não abre caminho para ninguém".
Para comprovar a ideia de que os transvelhos são uma raridade, o autor traz dados alarmantes. Um deles é de que a média de vida de uma travesti é de 35 anos de idade. Além disso, em números absolutos, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo – e mata três vezes mais que o segundo colocado, que é o México. Quando não são assassinadas, o preconceito, o afastamento da família e a falta de espaços levam as pessoas trans a tirarem a própria vida. 
"Quando alguém transiciona, a família também passa a ser cobrada, questionada pelos parentes, vizinhos. Muitas não suportam a pressão e acabam expulsando seus filhos e filhas de casa. [...] A rua é o maior sofrimento para qualquer pessoa."
Na segunda parte do livro, o autor transcreve entrevistas com os poucos transvelhos que conhece. São relatos crus e impressionantes da jornada que enfrentaram para chegar à velhice. Nesse ponto, João Nery revela uma realidade que ele diz ser comum e pouco falada (e que me chocou bastante): a destransição na terceira idade. Isso significa que algumas pessoas assumidas trans por anos, quando se tornam idosas, retomam as características físicas do gênero de nascimento para terem direito à tratamentos de saúde, conseguirem empregos formais e até serem novamente aceitas pela família, tendo quem cuide delas nessa fase mais delicada da vida.  
"Pense comigo: veja nossa sociedade, os preconceitos, e imagine um corpo envelhecido de uma travesti, cheio de silicone caído, deformado, vendendo um picolé na rua. [...] Seria uma chacota, seria humilhada. Me desmontar foi uma forma de defesa, de me proteger."
Esse livro é curto (menos de 200 páginas) e tem uma linguagem simples, mas apresenta realidades cruéis, questões necessárias e nos faz refletir muito. É um soco no estômago, principalmente, de quem não ocupa o lugar das pessoas trans e, por isso, não costuma pensar sobre a dificuldade que é viver de acordo com a sua verdade só porque ela não é socialmente aceita. Nessa obra, João Nery nos mostra, com muita sensibilidade, que a diversidade existe e nosso único dever é respeitá-la. 
"Todos nós nascemos gente, o resto são rótulos."

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domingo, 12 de janeiro de 2020

Resenha: "Cinco Júlias" (Matheus Souza)

Por Thaís Inocêncio: Como sua vida ficaria se todas as mensagens que você trocou de maneira anônima nas redes sociais fossem reveladas para o mundo todo? Aquele WhatsApp em que você fala mal da sua amiga, aquele nude que você mandou pro contatinho, aquele e-mail em que você revela que odeia seu chefe. Imaginou a catástrofe? É esse o cenário de Cinco Júlias, o livro mais divertido que li em 2019.⁣⁣

Neste livro, hackers invadem as redes sociais de todas as pessoas e divulgam todo o conteúdo na internet. Para encontrar as mensagens de alguém, basta digitar o nome da pessoa num campo de busca. Fugindo dos conflitos que isso causou, cinco meninas chamadas Júlia decidem sair do Rio de Janeiro e seguir até São Paulo, numa viagem que resulta em muitas descobertas sobre as relações pessoais e, principalmente, sobre si mesmas.⁣

"A partir de hoje a gente não vai depender de mais ninguém pra ser feliz além de nós mesmas. E vamos saber o valor de uma boa parceria apesar disso, porque a vida sozinha é uma bobagem."

Cada capítulo é narrado por uma das Júlias, que são nomeadas de 1 a 5. Se alguém me dissesse que cinco autores diferentes escreveram esse livro, eu acreditaria, de tão potente que é a escrita do Matheus Souza. Originalmente, Cinco Júlias foi criado como um musical para o teatro, mas o roteirista conseguiu fazer uma bela adaptação para o livro. Ele consegue criar jovens muito reais e com personalidades bastante diferentes, por isso o fato de os nomes serem iguais não causa nenhuma confusão na leitura. ⁣
Além disso, ele traz inúmeras referências da cultura pop, principalmente dos anos 2000 (a era emo) até agora, citando seriados como Greys Anatomy – e todos os outros criados pela Shonda - e cantoras como Iza, Marília Mendonça e a rainha Taylor Swift. A obra também apresenta muitas músicas que eu, particularmente, não conhecia (a maioria delas indicada pela Júlia 5) e que fizeram da minha leitura uma experiência completa.⁣
Aqui temos um livro que traz muitos e bons ensinamentos para os jovens de hoje. Ele discute sobre amizade, sexualidade, depressão, suicídio, amor-próprio e, sobretudo, a (má) influência da tecnologia na nossa vida. Tudo isso com doses cavalares de humor (sério, eu gargalhei várias vezes). 

"Na vida, a coisa que mais importa são as conexões que a gente faz com as outras pessoas."

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Resenha: "Vida Decifrada" (Jam Belfort)

[V]ocê já teve a sensação de que a vida está tentando te dizer algo?
[I]sso pode parecer estranho, mas talvez ela esteja, mesmo.
[D]igo isso porque foi esta a exata sensação que Marcos teve.
[A]pós alguns acontecimentos supostamente banais, ele percebeu que a vida tinha deixado pistas, escondidas nas coisas mais simples que lhe aconteciam.
[D]esde então, ele passou a prestar mais atenção em tudo.
[E]le, porém, não contava com um detalhezinho belo, perfeito e cativante...
[C]erta menina tinha cruzado seu caminho, e ele, claro, se perdeu um pouco.
[I]sso e o fato de sua baixa autoestima teimar em querer sabotar tudo...
[F]elizmente (ou não) ele tinha a ajuda de seu um-pouco-atrapalhado melhor amigo.
[R]esolvi contar a história dele pois ela se parece um pouco com a minha.
[A]credito que também com a sua, pois todos buscamos achar o sentido da vida.
[D]eixo uma dica, caso queira embarcar nessa jornada:
[A]bra bem seus olhos e ouvidos. 
Pode ser que tenha nas estrelas e planetas algum código secreto. Uma combinação. Um ritmo. Um senso de direção.

Por Kleris: Marcos é um jovem estudante gamado em informática e, surpreendentemente, crônicas. Ao descobrir a esteganografia, a arte de esconder mensagens em coisas banais, sua vida se abriu para novos sentidos. Correlacionar fatos e coincidências se tornou seu novo hobby, isso até as coisas fazerem sentido demais. Ele entendeu que precisava seguir as pistas, cada vez mais sutis e claras em sua cabeça.

Foi assim que, durante as férias, conheceu Simone Letícia na biblioteca do bairro. A paixonite somada a seu hobby logo virou uma bola de neve de investigações (e investidas e mentiras) para conquistar a menina. Mas brincar com sentimentos não era o mesmo que brincar com pistas. 
A gente sempre deixa pra depois.
O que será que está nos fazendo deixar pra depois? 
Não costumo também me dar bem nessas coisas de amor. Sou destro e meu coração fica do meu lado esquerdo.

É isso que nosso narrador faz questão de pontuar. Conversador todo, nos entrega também a história de Alex, melhor amigo de Marcos, que, após a perda dos pais, revisita memórias em busca de significados e novos caminhos. Apesar da tragédia, Alex nos parece ser aquele alívio cômico, mas nele encontramos os mais nobres sentimentos e a vontade de abraçá-lo toda vez que aparece. 
— Com certeza não vai faltar inspiração — respondeu, com um tom orgulhoso no olhar e na voz.
— Eu causo isso nas pessoas.
— Não, Alex. Encontrei algo interessantíssimo. 
Alex queria uma cesta para seus pensamentos, que pareciam espalhados feito suas folhas de caderno.
Tem dias que esperamos apenas por um abraço que grampeie nossas folhas soltas.

Mas em @vidadecifrada nada está ali por acaso. Permeado de símbolos, códigos e pistas escondidas, a ficção juvenil fala das conexões que fazemos – desde amigos, família e coração, a pensamentos, objetivos e desafios. Jam faz tudo ser tão quase absolutamente decifrável, o que aguça nossa percepção e nos deixa até paranoicos com tantas correlações. Tem pista espalhada até mesmo pela diagramação para os olhos mais espertos. 

 

 


meu graaande amigo, tal qual a outra obra de jambelfort:


Página 188 com indicação do CVV
(Centro de Valorização da Vida)
  
 

Que oportunidade, guri! Ainda não acredito que você não fez nada para ajudá-la! Mas te entendo. Alguns sorrisos têm a função do controle-remoto de nos pausar... 

Acho que o desânimo do rapaz me atingiu...
Limito-me a narrar que ele ainda estava deitado na cama, seguindo com os olhos um fio que tinha por rumo o teclado do computador. Ao lado, olhou o cartão de Simone. O mouse escapuliu da mesa e ficou pendurado por seu cabo, num movimento hipnotizador.

O narrador, claro, é o condutor que faz toda a diferença. Prático e não menos carismático, ele nos envolve fácil nas tramas de maneira a trabalhar a identificação, senão a empatia. Em algum momento da vida já fomos Marcos, Alex, Helena, Simone e até Ricardo. Mas Jam é o engenhoso que prende nossa atenção e faz desta uma deliciosa leitura, de infinitas sacadas e infinitas epifanias. Aliás, conversar com o autor garante sempre uma nova descoberta. 
O livro só fará sentido se lido até o final. E quando relido, feito mágica cada detalhe se iluminará. 
Talvez o segredo por trás do sabiá na lápide seja o próprio sabiá na lápide. Talvez o sentido seja as próprias coisas. Não o que elas podem nos oferecer, mas simplesmente o que elas são.

E sua ousadia ainda vai muito além quando nos deparamos com tantas homenagens maranhenses embrenhadas ao enredo. Passam por aqui João do Vale, Ferreira Gullar, Maria Firmina dos Reis, Josué Montello, Gonçalves Dias, Nauro Machado e Cecília Leite. Não deixam de aparecer outros nacionais, como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, e além-mar, como Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.

É por certo um livro multiliterário, pois além de misturar linguagens (romance, crônicas, poesias, java script, html, diagramas, rimas de ideias), traz aspectos transmídias, transmutando partes da narrativa para perfis do instagram como @marcronicas e @musicadomar. Tudo isso sem deixar de ser leve, interessante e genial (meu tipo de livro e com certeza um dos melhores do ano). Recomendadíssimo! 
Eram janelas criptografadas. Dois universos diferentes, sem naves intergalácticas com propulsão suficiente para uma visita pacífica. Por vezes as palavras de um soavam como agroglifos, aqueles gigantescos círculos atribuídos a alienígenas que aparecem em plantações.
Eram um mistério um para o outro.

Meu exemplar faz parte dos raros livros impressos com bordas coloridas (opções de amarelo e azul), mas você encontra tanto o livro físico quanto o digital na loja Amazon. Muito mais curiosidades você também pode ver no site www.vidadecifrada.com.br (aba de conteúdo exclusivo). A senha? Está no livro. 
O que se vê nas ruas, afinal, rostos ou máscaras? 
A vida é boa em inventar enredos, coincidências e reviravoltas. Tenho certo fascínio pelo imprevisto, pela chuva em dia de casamento, pelas coisas inexplicáveis. Deixa tudo excitante e peculiar.

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Até a próxima!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Resenha: "Uma Proposta e Nada Mais" (Mary Balogh)




Tradução: Livia Almeida

Sinopse: Após ter tido sua cota de sofrimentos na vida, a jovem viúva Gwendoline, lady Muir, estava mais que satisfeita com sua rotina tranquila, e sempre resistiu a se casar novamente. Agora, porém, passou a se sentir solitária e inquieta, e considera a ideia de arranjar um marido calmo, refinado e que não espere muito dela.
Ao conhecer Hugo Emes, o lorde Trentham, logo vê que ele não é nada disso. Grosseirão e carrancudo, Hugo é um cavalheiro apenas no nome: ganhou seu título em reconhecimento a feitos na guerra. Após a morte do pai, um rico negociante, ele se vê responsável pelo bem-estar da madrasta e da meia-irmã, e decide arranjar uma esposa para tornar essa nova fase menos penosa.
Hugo a princípio não quer cortejar Gwen, pois a julga uma típica aristocrata mimada. Mas logo se torna incapaz de resistir a seu jeito inocente e sincero, sua risada contagiante, seu rosto adorável. Ela, por sua vez, começa a experimentar com ele sensações que jamais imaginava sentir novamente. E a cada beijo e cada carícia, Hugo a conquista mais – com seu desejo, seu amor e a promessa de fazê-la feliz para sempre.

Por Jayne Cordeiro: Uma Proposta e Nada Mais é o primeiro livro da série Clube dos Sobreviventes, e o primeiro livro da Mary Balogh que eu tive a oportunidade de ler. E o que achei? Foi um bom livro, mas um dos mais fracos que eu li em um bom tempo. Ele possui diversos pontos positivos, mas não consegui ficar encantada por ele. Primeiramente, gostei dos protagonistas. Não por eles serem maravilhosos, mas porque você tem uma jovem viúva, bem estabelecida e um homem também estabelecido, que precisa se casar. A questão é que apesar de se apaixonarem, os dois são muito maduros e realistas sobre suas vidas e futuros, sendo de classes diferentes. Achei isso bem diferente das histórias anteriores que já li, e ao mesmo tempo causou uma estranheza, por ser algo menos romântico.

Gostei das interações dos dois, e como eles lidavam com a atração um pelo outro, também de forma madura e realista. Também foi possível gostar dos dois protagonistas, que não me fizeram passar muita raiva, como acontece em outros casais de romance de época. Também conhecemos os futuros protagonistas dos próximos livros da série, e foi divertido acompanhar os diálogos entre eles. Já fiquei curiosa pelos próximos livros.

O tema do livro também é legal, com essa questão entre a aristocracia e a classe operária (ou classe comum?). E foi interessante ver uma mulher aristocrata inserida em um universo mais comum, diferente de todos as regras da nobreza. No geral foi um bom livro, que fluiu rápido, e terminei logo. A escrita da autora é boa, e vi muito potencial. Como disse, não entraria no meu Top 10, e já me disseram que esse livro não é melhor da autora, mas vamos continuar a série e ver no que vai dar,



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Ana Liberato