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segunda-feira, 5 de março de 2018

Resenha: "As Fúrias Invisíveis do Coração" (John Boyne)

Tradução Luiz A. de Araújo

Por Sheila: Oi pessoas! Como vocês estão? Trago a vocês hoje a resenha de um autor que - confesso! - se tornou um dos meus queridinhos desde que li "O Menino do Pijama Listrado" (já resenhado pelo blog aqui)

E já adianto que com esse livro não foi diferente! Nele vamos conhecer Ciryl Avery que, por ter nascido nos longínquos 1945, foi acolhido quase como um "projeto de caridade" por uma família em Dublin.

Sua mãe, grávida aos 16, foi expulsa do pequenos vilarejo onde cresceu quando sua condição foi descoberta e, já em Dublin, viu em Charles e Maude Avery a possibilidade de um futuro melhor para seu pequeno filho.

Mas se Avery cresceu tendo as facilidades daqueles que possuíam pouca preocupação com as coisas pequenas da vida, desfrutando de roupas, alimentação, estudos, faltou-lhe um lugar no coração do banqueiro e da escritora que o acolheram.

Eu aceitava que era somente uma criatura viva dividindo a casa com dois adultos na maior parte do tempo alheios um ao outro.

Como se não bastasse o vazio deixado por uma criação sem amor, Ciryl muito cedo descobre que seu interesse por meninos vai além das brincadeiras e amizade fraterna: Ciryl é homossexual, o que é punível com a morte na Irlanda, onde nossa trama se passa. Só isso, já serve para fazer com que Cyril lute contra seus anseios, mesmo que as vezes acabe cedendo.
Uma coisa era certa: aquilo tinha sido o fim. Não haveria mais homens, não haveria mais garotos. Só mulheres dali por diante. Eu ia ser como todo mundo. Eu ia ser um cara normal nem que isso me matasse.
Assim, vamos acompanhar Cyril em sua jornada de desespero e auto-sabotagem, na culpa por ser quem é, tentativa de esconder dos outros o que considera ser uma doença, uma abominação, e a realização de seus desejos, que o coloca em situações difíceis e, algumas vezes, extremadas.

A escrita de Boyne é impecável, vamos caminhar junto ao personagem principal e sentir com ele todas as angústias de Cyril, em sua peregrinação errática pela existência. Os outros personagens também são descritos com uma profundidade e zelo que estão sempre presentes nos livros de Boyne, o que o torna um dos meus escritores favoritos! As personagens femininas são fascinantes, e a própria mãe de Cyril irá reaparecer muitas vezes ainda na trama, influenciando o fio dos acontecimentos.

Além disso, consegue narrar este tema tão atual de uma forma tocante, expondo as mazelas oriundas do preconceito e da homofobia, fazendo com que a leitura, mesmo que em alguns momentos dramática e pesada, faça valer as algumas (ta, ok, confesso, foram muitas) lágrimas derramadas.

Preciso dizer que recomendo? Forte abraço e até a próxima!

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Resenha: “O menino no alto da montanha” (John Boyne)

Tradução de: Henrique de Breia e Szolnoky

*Por Mary*: Olá, pessoinhas! Hoje não vou enrolar, não. Vem comigo, que tem livro bom pra gente conversar.

Meu primeiro – e, até então, único – contato com este autor foi com O Menino do Pijama Listrado, que é um livro que indico para todo mundo. Fiquei impressionada, tocada e sem palavras com a narrativa inteligente, sutil e incisiva de Boyne.

John Boyne, aliás, parece ostentar a habilidade de arrancar distintas emoções de seu leitor. Se, por vezes, a gente sente raiva, em outras somos tomados pela sensação de impotência, para logo depois ficarmos chocados com as ações de seus personagens e, muito frequentemente, sem palavras, olhando para o nada, sem saber como reagir a alguma de suas mais impactantes cenas. 
O que aconteceu com você, Pierrot? Era um menino tão doce quando chegou. É fácil assim corromper os inocentes?
Com O menino no alto da montanha não é diferente.

Pierrot é um garotinho parisiense de sete anos, filho de mãe francesa e pai alemão, que tem como melhor amigo Anshel – um judeu com deficiência auditiva – e vive a efervescência do nazismo. Após a perda dos pais e uma temporada no orfanato das irmãs Durand, Pierrot se muda para Berghof, onde mora a tia Beatrix, em uma bela mansão no alto de uma montanha alemã próxima à divisa com a Áustria.

O senhor de Berghof é Adolf Hitler, líder do Partido Nacional-Socialista e fundador do crescente movimento nazista; um homem sisudo, de bigode estreito e com ideias distorcidas sobre as coisas, que logo se torna seu protetor. Constantemente vítima das piadas e violência dos mais fortes, Pierrot experimenta pela primeira vez, ao lado do Führer, o viciante sabor do poder. Seduzido pelo futuro glorioso vislumbrado para o Reich, Pierrot trai não apenas as pessoas que ama, mas, principalmente, a si mesmo. 
Me apavora pensar no tipo de homem que ele vai se tornar, se isso continuar – disse Breatrix. – Alguma coisa precisa ser feita. Não só por ele, mas por todos os meninos como ele no mundo. Se não for impedido, o Führer vai destruir o país todo. A Europa toda. Ele diz que está iluminando a mente do povo alemão, mas é mentira. Hitler é a própria escuridão.
Com uma narração em terceira pessoa, John Boyne desenha de modo muito delicado os fatos que compõem sua trama, impondo em sua escrita impressões e marcas tão sutis que somente um leitor mais atento não deixará passar despercebido. Não é nenhum demérito, muito pelo contrário, porque o leitor desatento, apesar de perder parte da maestria deste grande escritor, ainda poderá se deliciar com uma história bem contada, envolvente e fundamentada com uma pesquisa minuciosa acerca do corte histórico a que se propõe contar.

E por falar em leitores atentos, aposto que estes terão notado breves participações literárias, já conhecidas, entre as páginas de O menino no alto da montanha. Mas não posso contar o que é, afinal, estragar a surpresa não tem graça nenhuma.

É muito difícil não encarar O menino no alto da montanha de uma tacada só – eu mesma não consegui fazer isso. Contudo, eu aconselho uma leitura com calma, pois, francamente, Boyne é uma leitura que precisa ser apreciada, curtida, refletida. Sabem como é, façam o que eu digo e não o que eu faço. Embora nada os impeça de ler várias vezes, claro. 
[...] Sempre odiara qualquer forma de violência, e se afastava instintivamente de conflitos. Alguns meninos na escola de Paris começavam uma briga por qualquer provocação – e pareciam gostar daquilo. [...] Pierrot nunca via; não entendia o prazer que certas pessoas tinham em machucar os outros.
Merece um adendo o desfecho desta história, que foi escrito no curso de uma disciplina de escrita criativa ministrada pelo autor a mestrandos da Universidade de East Anglia, Norwich. Já queremos cursar escrita criativa com o John Boyne pra ontem? Queremos! Urgentemente!

Enfim, vou ficar por aqui deixando a minha mais sincera indicação aos leitores que se interessam por temas históricos, especialmente a Segunda Guerra Mundial. Portanto, se você deseja um romance interessante, uma trama envolvente e reflexiva, inteligente, bem amarrada e com mil outras qualidades, não deixe de conhecer Pierrot, O menino no alto da montanha.
- Olhe para mim, Pieter. Olhe para mim.
Ele levantou os olhos cheios de lágrimas.
- Não finja que não sabia o que estava acontecendo aqui – disse Herta. – Você tem olhos, tem orelhas. E esteve naquele escritório inúmeras vezes, tomando notas. Você ouviu tudo. Viu tudo. Sabia de tudo. E sabe também das coisas pelas quais foi responsável. – Herta hesitou, mas era algo que precisava ser dito. – As mortes que carrega na consciência. Você ainda é jovem, tem só dezesseis anos. Tem muitos anos pela frente para ficar em paz com sua cumplicidade no que foi feito. Mas jamais convença a si mesmo de que não sabia. – Ela soltou o rosto dele. – Seria o pior crime de todos.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Resenha: Uma história de solidão (John Boyne)

Tradução: Henrique de Breia e Szolnoky

Por Marianne: John Boyne é meu queridinho de outros carnavais. Acolhido e adorado pelos leitores pelo seu sucesso O menino do pijama listrado, Boyne já nos mostrou que essa foi apenas a porta de entrada pra sua imaginação incrível e sua criatividade que vem conquistando cada vez mais leitores. Dessa vez John Boyne volta a abordar temas polêmicos e toca sem medo na ferida da igreja católica falando sobre a pedofilia dentro da igreja no seu mais recente romance Uma história de solidão.

Na Irlanda dos anos setenta somos apresentados a Odran Yates. Conhecemos a história de Odran desde a sua infância que foi marcada por um acontecimento trágico na sua família e que fez com que a mãe de Odran se transformasse numa fanática religiosa. Ainda quando era criança, sua mãe determinou que seu destino era ser padre e ele entrou no seminário assim que alcançou a idade adequada. 
‘Você é um homem mau, não é, Odran?’, ele perguntou baixinho. ‘Esse seu rosto’, ele acrescentou com um suspiro e sua mão se levantou para me tocar, os dedos acariciando minha bochecha com delicadeza. ‘Eu sei que você sofre. Todos nós sofremos. Mas estou aqui para ajuda-lo com seu sofrimento, menino adorável.

Apesar de a escolha pelo seminário ter sido algo imposto pela mãe, o rapaz aceitou com naturalidade a vida de sacerdócio e encarnou a ideia de que sua vocação era mesmo ser padre. Dentro do seminário Odran fez seu primeiro amigo, Tom Cardle. Tom também entrou para o seminário por uma imposição do pai, mas ao contrário de Odran, Tom vivia totalmente infeliz com a perspectiva de dedicar sua vida a igreja e não escondia a insatisfação de ninguém. Mesmo com suas diferenças os dois se tornaram grandes amigos e mesmo após o seminário — cada um seguiu seu caminho para cumprir suas obrigações com a igreja — eles mantiveram a amizade.

O personagem não é representado nem como herói ou mocinho da história. Odran é apenas um bom rapaz que faz o seu trabalho sem olhar pros lados. E talvez seja esse seu maior problema. A quietude por parte dos envolvidos —diretos ou não— resultou nos milhares de casos de pedofilia envolvendo membros da igreja e numa desmoralização geral dos padres com a população.

O protagonista vive essa oscilação no comportamento das pessoas e sofre as consequências da desconfiança que paira sobre a Irlanda em relação aos padres. O livro critica fortemente a vista grossa que a igreja católica fez/faz pros casos de pedofilia e Odran é a personificação da negligencia cometida pela igreja. 
’É um monte de asneira’, ele disse, reclinando-se na poltrona e jogando as mãos para cima. ‘Um moleque falando umas coisas, inventando umas histórias. Quer aparecer nos jornais, só isso’.‘Do que ele foi acusado?’‘Eu não preciso soletrar pra você, Odra, preciso? Pelo amor de Deus, você é um homem inteligente.’

É incômodo, e acho que essa foi a intenção do autor, a quantidade de situações que acontecem bem na cara do Odran e que ele percebe e ignora de uma maneira bem sutil, alegando pra si mesmo que nada aconteceu. E como Odran poderia levantar suspeitas de uma situação tão grave baseado apenas nos seus achismos?

Há uma crítica forte também, ainda que não tão descarada, em relação ao endeusamento que os fiéis da igreja católica atribuem? atribuíam aos padres. Como se estes fossem criaturas divinas enviadas diretamente dos céus. Aos olhos de John Boyne fica clara a intenção de mostrar que padres são pessoas comuns como todos nós, podendo ser criminosos ou não, o fato de serem pessoas que dedicam sua vida a igreja não os isenta das falhas que atormentam a todos os seres humanos.


Espero que tenham gostado da resenha e até a próxima!


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Especial de Halloween - Resenha: "A casa assombrada" (John Boyne)



Olhei para a cama sem acreditar, mas, antes que pudesse organizar meus pensamentos, a porta se abriu e de repente uma luz cortante preencheu o corredor; havia uma figura branca e fantasmagórica a minha frente.
 Por Marianne: Livros de suspense sobrenatural sempre foram maus queridinhos, e pra tristeza das minhas noites de sono e alegria desse meu "eu" que gosta de passar medo a Cia das Letras me enviou o novo romance de John Boyne, A casa assombrada.
   Ok, título bem clichê, concordo. Mas é do Boyne gente, não da pra ser ignorado.
   Eliza Caine é uma jovem professora que vive com o pai em Londres no século dezenove. Depois da morte do pai, com quem tinha um relacionamento de carinho, amizade e cuidado, Eliza decide sair de casa e deixar Londres e suas lembranças e perdas para trás.
   Respondendo com interesse a um anuncio para ser governanta e cuidar de crianças num casarão no condado de Nortfolk, no interior da Inglaterra, Eliza deixa casa e emprego pra trás e segue com entusiasmo para sua nova vida longe dali.
   Ao chegar à estação de trem Eliza quase sofre um acidente grave, alguém a empurra diretamente pra linha do trem no exato momento que um trem está chegando à estação. Mas graças ao Sr. Toxley, médico da cidade que segura Eliza pelo braço bem na hora, a moça não cai. Sem sinal da pessoa que a empurrou, Eliza conclui que deve ter sido o vento.
   Aguardando Eliza na estação está o estranho zelador da mansão. Sem demonstrar nenhuma simpatia e vontade de responder as perguntas da moça sobre as crianças e seus pais, a nova governanta desiste de obter respostas e aguarda para descobrir por seus olhos o que a espera na mansão de Gaudlin Hall.
   Mas ao chegar à mansão Eliza se depara com uma situação inesperada: apenas as crianças, Eustace e Isabela, estão na casa. A antiga governanta se foi assim que Eliza chegou, os pais não estão em casa, e ninguém parece querer responder a suas perguntar ou explicar quais serão suas tarefas.
   Eustace e Isabela têm oito e onze anos. Enquanto o menino parece receoso, mas amável, Isabela fala e age como se fosse adulta, desconfiada e distante de Eliza a todo o tempo.
   O mistério de quem são seus patrões, onde eles estão e por que as crianças estão sozinhas só aumenta quando Eliza vai conhecer a cidade, e nota a mudança de comportamento de todos os moradores assim que ela diz ser a nova governanta de Gaudlin Hall.
   Para piorar tudo, Eliza percebe estranhos e misteriosos acontecimentos pela casa, a maioria deles diretamente relacionados a machucá-la.
   O livro narrado em primeira pessoa e é todo construído na base do suspense, e que suspense meus amigos! A narrativa prende e não da vontade de parar enquanto não deciframos os mistérios da mansão. Boyne monta as peças da história com maestria fazendo nosso medo e irritação pelas respostas vagas e generalizadas que TODO MUNDO parece dar a Eliza, crescerem junto com os sentimentos da personagem.

“Srta. Caine, é mesmo necessário que eu diga?”

“Sim.”

Ele suspirou. “Receio que vá discordar de mim, mas creio que seria verídico dizer que sua sensibilidade, enquanto mulher...”

“Pare, por favor!”, insisti, levantando a voz a ponto de ecoar pelo corredor. Fechei os olhos por um momento, ordenando a mim mesma para controlar meu temperamento, a não permitir que ele me irritasse tanto. “Não diga que sou mais suscetível por causa do meu sexo.”

   A medida que a história se desenrola um cenário de filme de terror e construído, peças vão se encaixando e nosso desespero e o terror da protagonista aumentando.
   Eliza já está guardada com carinho como personagem favorita da vida. Perspicaz, ousada e com ideias consideradas modernas demais para sua época.  A moça é audaciosa e mesmo com medo, e o preconceito de todos que acreditam que por ser do “sexo frágil” ela estaria perturbada pelos acontecimentos na mansão, a governanta segue determinada a descobrir o acontece na mansão, e a proteger as crianças.
Papai me contou que certa vez me perguntou se ela estava ansiosa para que chegasse o dia em que se casaria e, portanto, não precisaria mais trabalhar; a resposta — ela preferiria beber tinta — o escandalizou, mas me deixou instigada.
   O final é sensacional e deixa um gancho para continuação, mas sem parecer que foi “feito pra ganhar dinheiro”, e sim naturalmente nos dando mais desespero pela história que não chegou ao fim
   Pra quem gosta de suspense sobrenatural, A casa assombrada faz jus ao gênero do começo a última página. É um dos livros de Boyne que eu MAIS gostaria que virasse filme, espero que alguém também tenha essa ideia e a coloque em prática.
Espero que tenham gostado da resenha, aproveitem o Halloween e até a próxima!

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Resenha: "Fique onde está e então corra" (John Boyne)



Por Marianne: John Boyne já conquistou um espaço no meu coração e quando eu pego um livro dele eu já sei que vai ser bom.

Fique onde está e então corra segue a linha de O menino do pijama listrado e Tormento, onde a narrativa é feita por uma criança.

Alfie Summerfileld é um garoto de cinco anos que vive com o pai, Georgie, e a mãe, Margie, na Inglaterra de 1914. No seu aniversário de cinco anos ele percebe uma movimentação estranha entre os adultos. Uns olhares preocupados, conversas meio cochichadas, alguém dizendo que tudo teria acabado antes do Natal... Alfie ainda não sabia, mas naquele dia começava a Primeira Guerra Mundial. 

Depois dessa noite esquisita uma estranha sucessão de acontecimentos deixa claro pra Alfie que algo ruim está por vir. Kalena , melhor amiga de Alfie, e seu pai, um imigrante de Praga, foram levados a força pelo exército por serem considerados “pessoas de interesses especiais”. O melhor amigo de Georgie, Joe, está sofrendo repreensão da vizinhança apenas por ter pintado a porta de sua casa de vermelho. E Georgie, pai de Alfie, se alista para ir lutar na guerra, deixando Alfie e a mãe sozinhos.
Margie voltou para o corredor, ofegante, mas Alfie continuou na porta. Ele ficou de olho enquanto os dois soldados seguiam devagar pela rua. Agora todas as portas estavam abertas. E em cada uma havia uma esposa e uma mãe. Algumas choravam, outras rezavam. Algumas sacudiam a cabeça, desejando que aqueles homens não parassem diante delas.
Dois anos depois a guerra ainda não acabou. Georgie ainda não voltou e as cartas que ele enviava para a família deixaram de chegar. Alfie já não é um menininho inocente que não entende as coisas e mesmo quando sua mãe afirma que seu pai não envia mais cartas porque está envolvido numa missão especial, Alfie não consegue deixar de pensar no pior: o pai pode estar morto.

Escondido da mãe Alfie começa a trabalhar como engraxate na estação de King Cross. É ai onde ele ouve conversas sobre a guerra, sobre a preocupação e opinião das pessoas e descobre o mais importante: uma pista de onde esta seu pai.
(...)—Para onde você vai nas férias? Para os Lagos? Gales? Algum lugar ao norte?
Alfie se esforçou para não rir. Os adultos faziam as perguntas mais estúpidas as vezes. Ele nunca teve férias na vida — não tinha nem certeza do que se fazia em uma. Seriam as mesmas coisas que se faz nos outros dias, só que em um lugar diferente? Se sua família tirasse férias, ele engraxaria sapatos em Blackpool? Vovó Summerfield viria conversar em Stonehange? Margie teria dificuldades para pagar as contas na Ilha de Wight?
O livro não vai muito a fundo na questão histórica da guerra, mas John Boyne nos mostra indiretamente como a vida das pessoas foi afetada através de personagens secundários que infelizmente não tiveram muito destaque. O polêmico, e pouco comentado, transtorno de estresse pós-traumático que muitos soldados sofrem após lutarem nas guerras também ganha destaque na história de Boyne, mas menos do que eu esperava...

Existem situações meio absurdas e um desfecho meio Disney. Fique onde está e então corra é o tipo de livro que ou você entra na onda ou você vai achar a história ruim e John Boyne é aquele autor que te faz entrar na onda sem o menor esforço, sem você perceber.

O livro é curtinho, dá pra ler em um dia tranquilamente. A capa é maravilhosa, acho que a capa mais bonita que já vi dos livros de Boyne. Pode ir sem medo, Fique onde está e então corra é uma leitura certeira que não vai decepcionar.
Até a próxima!
;)


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Resenha: "Tormento" (John Boyne)



Por Marianne: John Boyne já é conhecido por O menino do pijama listrado, que virou até filme. Em Tormento, mais uma vez, ele nos mostra tudo a partir da visão de uma criança. O narrador de Tormento é Danny Delaney, uma criança de doze anos que vive com os pais e tem um irmão que faz faculdade e mora em outra cidade 
A rotina de Danny muda no dia em que sua mãe demora mais do que o normal pra chegar em casa. Danny absorve todo o clima de preocupação transparecido pelo comportamento do pai e começa a imaginar o que poderia ter acontecido com a mãe.
Até que finalmente a campainha toca e a mãe aparece escoltada por policiais, mostrando estar completamente em choque.
Depois de uma conversa nada esclarecedora com o pai, Danny descobre o que aconteceu com sua mãe que a deixou tão em choque: ela estava voltando pra casa quando um garotinho entrou na frente do carro e não houve meios de desviar, e agora ele está em coma no hospital.
É óbvio que pra Danny o comportamento da mãe não faz muito sentido, afinal o garotinho nem morreu, está no hospital sendo cuidado por médicos, então por que a mãe se comporta como se nada mais importasse e Danny nem mais existisse
No meio de toda essa confusão de informações — ou falta delas — Danny percebe uma garotinha que desde o acidente parece estar espionando sua casa. E acaba surgindo uma amizade bastante inusitada entre os dois.
— Ele vai acordar.
— Como é que você sabe?
— Eu sei, só isso — eu disse. Ela não pareceu muito feliz com resposta. Na verdade estava até com cara de brava, então mordi o lábio e resolvi que no futuro era melhor refletir antes de sair dizendo coisas por ai.
O livro mostra muito bem uma situação que todo mundo já viveu nessa fase de “preciso me comportar como um adulto mas não tenho maturidade suficiente pros adultos discutirem os problemas comigo”. É nessa circunstância que Danny está dentro de casa. O pai não explica completamente a situação pro garoto e ao mesmo tempo espera que ele entenda o momento difícil pelo qual a mãe está passando. Porém, esquecendo, diante de todos os problemas, que Danny ainda é uma criança amadurecendo ainda seu lado mais emocional (se a mãe está triste por que ele tem que deixá-la em paz ao invés de ir lá abraçá-la e tentar consolá-la dizendo que tudo vai ficar bem?).
Olhando pelo lado do “adulto responsável” que é o pai nós entendemos que afinal o “ser adulto” não existe e na verdade ninguém nunca está preparado pra lidar com o infinito mar de situações que a vida nos coloca. E por isso talvez a dificuldade em explicar pra Danny claramente quais são as consequências do acidente sobre sua mãe (a possibilidade do garotinho em coma morrer, por exemplo).
A imaturidade de Danny vai ficando mais evidente no desenvolver da história, e apesar de na descrição ele ter doze anos, eu achei que o comportamente condiz mais com uma criança de uns dez anos.
Mais tarde fiquei com fome de novo. Fui atrás de outro hambúrguer com fritas, mas dessa vez tomei um sorvete também, e como o sorvete estava muito bom, pedi outro. Só me restavam três libras agora, mas resolvi que ia me esforçar para fazer com que durassem.
Diferente de O menino do pijama listrado que é narrado por uma criança mas não é um livro voltado para o público infantil, Tormento parece ter sido escrito para esse público com suas poucas páginas, fácil leitura e uma identificação sem tamanho com esse universo de criança no lento processo de virar adolescente.
O livro é bem curtinho, aquele tipo perfeito de livro pra carregar numa viagem de algumas horas. John Boyne nos mostra mais uma vez sua capacidade absurda de descrever o mundo pelos olhos de uma criança de um modo que cativa pessoas de todas as idades. Leitura mais que recomendada!

 
Ana Liberato