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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Resenha: "O que será: a história de um defensor dos direitos humanos no Brasil" (Jean Wyllys e Adriana Abujamra)

Por Thaís Inocêncio: Em pouco mais de uma década, Jean Wyllys passou de uma das pessoas mais amadas para uma das mais odiadas do país. Em 2005, o então professor universitário participou da quinta edição Big Brother Brasil e foi escolhido pelo público como o grande vencedor do reality show, desbancando Grazi Massafera e levando para casa o prêmio de um milhão de reais. Treze anos depois, em 2018, após dois mandatos como deputado federal, decidiu deixar o Brasil devido às recorrentes e cada vez mais graves ameaças de morte. 

Neste livro, Jean apresenta sua trajetória em três partes, e em todas elas ele demonstra não só com opiniões, mas também com fatos, o quanto a homofobia influenciou sua vida e afetou suas decisões, inclusive e principalmente a de sair do país. 
"Homossexualidade não é crime nem pecado, tampouco doença, é apenas uma expressão do amor e da sexualidade, como qualquer outra. Assim como ter cabelo preto ou loiro, liso ou crespo, ser baixo ou alto. Somos diversos, essa é a beleza da vida."
Na primeira parte, ele fala da infância na periferia rural de Alagoinhas, cidade localizada no interior da Bahia, e conta como são suas relações familiares. Nesse trecho, ele revela que era desprezado pelo pai por causa do seu "jeitinho" e que foi chamado de "viado" pela primeira vez aos 6 anos de idade.

Na segunda parte, a maior do livro, Jean fala sobre sua carreira política. Ele foi eleito pela primeira vez para a Câmara dos Deputados em 2010. Em seguida, foi reeleito como o sétimo mais votado entre os candidatos do Rio de Janeiro. Mesmo com essa popularidade nas ruas, ele enfrentou muitas barreiras dentro do plenário, ocupado majoritariamente por homens brancos, declarados héteros e fortemente ligados à religião. 

Durante os dois mandatos, Jean priorizou os interesses dos pobres, dos negros, da população LGBT e das mulheres, defendendo pautas como as cotas raciais, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização do aborto. Tudo isso, somado ao preconceito, rendeu-lhe alguns inimigos, que tentaram desacreditá-lo com fake news, alegando que ele era intolerante religioso e até mesmo pedófilo. 

Ao longo dos oito anos como deputado federal, Jean lutou contra essas mentiras, levando muitos casos à justiça, até que suas forças se esgotaram. O estopim foi o assassinato da vereadora Marielle Franco, companheira de partido e amiga do deputado. Diante desse fato e das crescentes ameaças que recebia em nome dele e da família, Jean passou a andar sob escolta policial. Em 2018, ele foi reeleito para o terceiro mandato como deputado, mas decidiu não tomar posse e ir morar na Alemanha, o que ele explica com detalhes na última parte do livro. 

Quem já ouviu entrevistas e discursos de Jean, conseguirá reconhecê-lo facilmente nessa obra. Ele fala com orgulho de sua orientação sexual, não poupa nomes nem adjetivos ao se referir a seus adversários e defende suas ideias com veemência. Em determinados trechos dessa autobiografia, ele pode soar arrogante, mas essa é apenas a postura adotada por alguém que sofre ataques cotidianos. Embora não seja mais um representante da sociedade no Congresso, onde quer que esteja vivendo, Jean segue como uma referência na luta pelos direitos humanos.
"Minha presença no Congresso era importante porque representava setores da sociedade que não têm voz, mas minha intervenção política não depende disso, nunca esteve restrita a esse lugar." 
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Resenha: "Velhice transviada: memórias e reflexões" (João W. Nery)

Por Thaís Inocêncio: Quando nascemos, nos é atribuído um dos dois gêneros: feminino ou masculino. No entanto, o modo como nos identificamos pode ou não concordar com essa atribuição. Hoje em dia, as pessoas que se identificam com o gênero atribuído no nascimento são chamadas de cisgêneros; já as que assumem uma identidade oposta ao gênero de nascimento são chamadas de transgêneros. Vale ressaltar que essa identificação em nada tem a ver com nossos aspectos físicos, por isso uma pessoa trans pode ou não passar por cirurgia de redesignação sexual, por exemplo. 

Dito isso, surge uma pergunta: você já parou para pensar que a velhice é um privilégio das pessoas cisgêneras? Já percebeu que, por conta do mundo preconceituoso e intolerante em que vivemos, as pessoas trans não tem direito à longevidade? Abrir os nossos olhos para essa realidade é o objetivo do livro Velhice transviada, de João W. Nery. 
"Dedico este livro às pessoas trans, sem voz, às mais invisíveis para a sociedade [...], sobretudo, às que não tem direito à insolência da longevidade, por morrerem assassinadas, ainda prematuramente."
O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor fala brevemente sobre a sua vida e experiência como o que ele chama de "transvelho", já que ele escreveu a obra aos 68 anos de idade (informações mais detalhadas sobre a sua trajetória podem ser encontradas na autobiografia Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois). João Nery é considerado o primeiro transgênero masculino a passar por cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos, em plena ditadura militar, quando esse procedimento ainda era proibido. Para isso, ele precisou passar por uma "morte social" e iniciar uma nova vida, com outro nome e documentos, perdendo seus registros anteriores, como seu diploma de psicólogo. 

Ao ler sobre essa experiência, percebemos como o machismo existe em todos os espaços, inclusive entre a população trans. Se uma pessoa nasce "mulher", mas se identifica como homem, a partir do momento em que ela tira a mama e os hormônios lhe garantem barba e voz grossa, por exemplo, ela consegue se camuflar na sociedade, ainda que também enfrente muita dificuldade no caminho. Porém, uma travesti ou mulher trans não consegue essa invisibilidade e carrega consigo grandes marcas físicas e psicológicas da violência e do sofrimento. Ainda assim, é graças às pessoas que se expõem e se rebelam que houve algum avanço na conquista de direitos para essa comunidade. 
"A gente escondida não muda nem transforma nada, não abre caminho para ninguém".
Para comprovar a ideia de que os transvelhos são uma raridade, o autor traz dados alarmantes. Um deles é de que a média de vida de uma travesti é de 35 anos de idade. Além disso, em números absolutos, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo – e mata três vezes mais que o segundo colocado, que é o México. Quando não são assassinadas, o preconceito, o afastamento da família e a falta de espaços levam as pessoas trans a tirarem a própria vida. 
"Quando alguém transiciona, a família também passa a ser cobrada, questionada pelos parentes, vizinhos. Muitas não suportam a pressão e acabam expulsando seus filhos e filhas de casa. [...] A rua é o maior sofrimento para qualquer pessoa."
Na segunda parte do livro, o autor transcreve entrevistas com os poucos transvelhos que conhece. São relatos crus e impressionantes da jornada que enfrentaram para chegar à velhice. Nesse ponto, João Nery revela uma realidade que ele diz ser comum e pouco falada (e que me chocou bastante): a destransição na terceira idade. Isso significa que algumas pessoas assumidas trans por anos, quando se tornam idosas, retomam as características físicas do gênero de nascimento para terem direito à tratamentos de saúde, conseguirem empregos formais e até serem novamente aceitas pela família, tendo quem cuide delas nessa fase mais delicada da vida.  
"Pense comigo: veja nossa sociedade, os preconceitos, e imagine um corpo envelhecido de uma travesti, cheio de silicone caído, deformado, vendendo um picolé na rua. [...] Seria uma chacota, seria humilhada. Me desmontar foi uma forma de defesa, de me proteger."
Esse livro é curto (menos de 200 páginas) e tem uma linguagem simples, mas apresenta realidades cruéis, questões necessárias e nos faz refletir muito. É um soco no estômago, principalmente, de quem não ocupa o lugar das pessoas trans e, por isso, não costuma pensar sobre a dificuldade que é viver de acordo com a sua verdade só porque ela não é socialmente aceita. Nessa obra, João Nery nos mostra, com muita sensibilidade, que a diversidade existe e nosso único dever é respeitá-la. 
"Todos nós nascemos gente, o resto são rótulos."

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Resenha: "Minha História" (Michelle Obama)

Tradução de Débora Landsberg, Denise Bottman e Renato Marques

Por Stephanie: Minha História é o livro de memórias escrito por Michelle Obama, ex-primeira dama dos EUA e esposa do primeiro presidente negro da história desse país. Por meio de uma narrativa leve e poderosa, Michelle nos conta sua trajetória desde a infância até os dias vividos na Casa Branca, entre os anos de 2009 e 2017.

Eu conhecia muito pouco sobre Michelle, só aquilo que ouvia na mídia mesmo. Sabia que ela era uma mulher forte e determinada, mas ao ler seu relato, pude ver que sua personalidade distinta já se mostrava desde pequena, quando morava na região de South Side, em Chicago. Apesar de não ter passado por dificuldades financeiras, ela morava com a família em um bairro de classe média que ao longo dos anos foi se tornando predominantemente negro (e pobre).

O início do livro foi a parte mais arrastada para mim; a autora nos conta em detalhes como era a dinâmica familiar com seus pais e irmão mais velho, que moravam na casa acima de seus rígidos tios. A disciplina sempre fez parte da vida de Michelle, mas percebi também que ela viveu em um lar muito unido e amoroso.

Depois, somos apresentados à vida adulta e à carreira de Michelle, que eu nem sabia que era advogada (!). Adorei os tópicos abordados por ela durante essa parte, porque vemos claramente o racismo e machismo velado que existia nos anos 80 nas faculdades de renome (Michelle se formou em Princeton e Harvard).

"(...) Tentava não me intimidar quando a conversa em sala era dominada pelos alunos homens, o que era bastante comum. Ao escutá-los, me dei conta de que não eram mais inteligentes do que nós. Eram apenas mais incentivados a falar, navegando na maré ancestral da superioridade e estimulados pelo fato de que a história nunca lhes dissera o contrário."

Ao falar sobre sua carreira, a autora acaba entrando em uma parte muito relevante e conhecida para a maioria do público: seu relacionamento com Barack. Como eles se conheceram no ambiente de trabalho, Michelle traça diversos paralelos entre sua vida profissional e pessoal, como a ascensão de sua carreira e algumas das decisões difíceis que precisou tomar em prol do sucesso de Barack. Acho que essa foi minha parte favorita do livro; o relacionamento deles é muito maduro e repleto de momentos fofos. Adorei ver Barack como um rapaz sonhador e romântico e Michelle como uma mulher que se apaixonou mas nunca abriu mão de sua independência por amor.

"Nunca fui de ficar presa aos aspectos mais desmoralizantes de ser afro-americano. Fui criada para pensar positivo. (...) Mas, ouvindo Barack, comecei a entender que sua versão de esperança era bem mais ampla: eu me dei conta de que uma coisa era sair de um lugar empacado; outra, totalmente diferente, era tentar desempacar o lugar."
"O que acontece quando um individualista que gosta de solidão se casa com uma mulher sociável e extrovertida que detesta solidão? A resposta, imagino eu, é provavelmente a melhor e mais sólida dr todas para qualquer pergunta que surge num casamento, para qualquer pessoa e qualquer questão: você dá um jeito de se adaptar. Se o casamento é para sempre, não tem escolha."

Por fim, vemos a carreira de Barack até a chegada à presidência e como foram os anos da família Obama na Casa Branca. É muito interessante conhecer mais sobre esse mundo da política pelos olhos de Michelle; ela é uma mulher muito pé no chão e sempre fez questão de passar isso para suas filhas (por exemplo, as camareiras foram avisadas por Michelle que as meninas tinham que fazer a própria cama), sem permitir muito deslumbramento, afinal, aquela era uma residência apenas temporária.

Passei a admirar muito Michelle após ler seus feitos durante o período em que foi primeira-dama. Ela sempre quis fazer a diferença e aproximar a Casa Branca da população, organizando eventos abertos ao público e criando projetos para melhorar a saúde e a vida como um todo dos norte-americanos. E em meio a isso, teve de lutar contra o machismo e a futilidade da mídia (e da oposição), que julgava seu corpo, suas atitudes e suas palavras sempre que possível.

"A forma mais fácil de desmerecer a voz de uma mulher é resumi-la a uma pessoa rabugenta."
"O poder de uma primeira-dama é uma coisa curiosa – suave e indefinido como o próprio papel. (...) A tradição mandava que eu emanasse uma luz suave, agradando ao presidente com minha devoção, agradando à nação sobretudo ao evitar confrontos. Mas eu começava a ver que essa luz, se usada com cuidado, tinha um poder maior (...)."

Michelle é uma mulher corajosa e por mais classe que possua, deixa seu posicionamento bem claro ao falar sobre a posse de Trump. Confesso que senti um aperto muito grande no peito ao ler seu depoimento sobre o dia da posse e foi inevitável enxergar as semelhanças com a nossa situação política atual.

É impossível resumir em apenas alguns parágrafos a história tão grandiosa de uma mulher como Michelle Obama. São quase 500 páginas de um relato muito verdadeiro, inspirador e emocionante, que mostram ao leitor a força e persistência de uma mulher que nunca se contentou em ser mediana e lutou para não ser resumida apenas à sua aparência ou suas fraquezas.

A edição da obra está muito bem feita, com uma parte dedicada a fotos em alta qualidade de momentos marcantes da vida da autora. Só acho que essas imagens poderiam ter ficado como um adendo ao final do livro, em vez de no meio de um capítulo.

No mais, é uma super indicação para qualquer pessoa que goste de biografias e livros de memórias e queiram conhecer mais sobre a vida dessa mulher que junto à seu marido e família, marcou a história dos EUA e do mundo (e continuará marcando, com certeza). Acredito que vá entrar para os meus favoritos de 2019 com facilidade!

Até a próxima, pessoal!

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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Resenha: “Dom Casmurro” (Machado de Assis)



Por Kleris: Tudo começou com um meme (disponível no fim deste post). Quer dizer, no ano passado, durante a época da votação do cronograma de leitura do Clube que participo, uma amiga fez campanha para Dom Casmurro (e o resultado acabou por ser A hora da estrela). Daí recentemente, numa conversa com leitores, reavivou-se um meme literário que sugeria mais que um bromance entre Bentinho e Escobar. Encucada com umas impressões mais, resolvi tirar a prova – reli Dom Casmurro.

Pra quem ainda tá por fora desse clássico nacional, te deixo a par da trama: Bento Santiago é um cara solitário que então conta sua história de vida. O cara é tão fechado em si que um moço do bairro o apelidou de “Dom Casmurro”. Mas nem sempre ele foi assim. Ele era alegre, espevitado e tinha uma paixão desde menino que passou por muitos percalços porque a mãe fez uma promessa para que ele fosse padre. É no seminário onde se prepararia para a batina que conheceu Escobar. Ambos conseguem se safar do destino religioso.

Bento casa com Capitu, Escobar com Sancha, melhor amiga de Capitu. Aí que eles viram amigos inseparáveis. Tem seus filhos e se aproximam ainda mais. Um dia, Bento diz que percebe que Sancha deu em cima dele. Logo, traços de seu filho começam a ficar muito parecidos com de Escobar. Os ciúmes que Bento tinha entram em ebulição e paranoia. Sobram por fim só suas tormentas e dúvidas, estas que lhe afetaram sua vida e devem justificar a alcunha de “Casmurro”.

Minha primeira leitura foi há pouco mais de 5 anos, na faculdade, muito guiada pela pergunta clássica – a suposta traição de Capitu. Desta vez, preferi deixar isso de lado e só segui com as impressões. Interessante é que havia notinhas minhas da leitura anterior no meu exemplar e isso ajudou bastante na hora confrontá-las. Considerei, claro, a época de publicação de Machado. Não tem como fugir do realismo do autor. Aliás, o texto revela que tem coisinhas que até Machado deixou passar, porque sua época de vivência tinha uma compreensão bem limitada (machista e patriarcal).

Dom Casmurro é um excelente livro – mas com um século de interpretações questionáveis. A premissa que todos conhecemos (e nos foi repassada por gerações) é sobre uma dúvida quanto a uma suposta traição, e não sobre um cara amargurado falando de seu objeto de afeição que não atendeu suas expectativas (que é o que me parece ser). E, traindo ou não traindo, Capitu é crucificada – dissimulada em seus “olhos oblíquos e de ressaca”. Não há vez para a mocinha. Mas e Bentinho? Alguém alguma vez questiona Bentinho?

Bento é um exímio narrador, isso é inegável. Te enrola tão bem que é fácil cair em sua paranoia. Isso se você estiver procurando respostas pra pergunta que acompanha a reputação deste livro. Mas se você para pra “ouvir” Bentinho, pensa na sua mágoa, e como pessoas se comportam quando assim estão, isso muda o quadro geral. 
Ficando só, refleti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta casa de Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavalos... A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida [...]

Fato é que somos levados a cair no papo de um desvairado (ele vê o que quer ver), o que nos leva a mais um caso de romantização de abuso. Isso se prova pelo fato de que não haveria história se fosse o inverso. 

O personagem de José Dias também contribui muito para essa percepção torpe de Bento. Quase um tutor ao garoto/homem, o agregado não era das pessoas mais recomendadas para cuidar de Bentinho. Ele mesmo tinha umas rixas com o pai de Capitu, o Pádua. Há quem diga que isso não passava das denúncias sobre os comportamentos questionáveis da sociedade e toda uma hipocrisia, mas aqui vou além. O cara era abusivo, do tipo narcisista mesmo. Plantava a discórdia e saía correndo. Era o perfeito embuste.  
— [...] Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados...
— Perdão – interrompi suspendendo o passo –; nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrário, um dia, não há muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha presença, que o senhor era “um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras”.
José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:
— Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me têm feito o favor de juízos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.

Capitu me parece apenas uma personagem imperfeita, que tem sua personalidade, mas sem malícias, sem interesses de intrigas. Ela merecia mais. Escobar era outro que merecia mais também. Tinha ele mais respeito pelo bromance que Bentinho nem um dia podia imaginar. Acho que as consequentes críticas do livro preferiram rotular isso como mera “ambivalência psicológica”. E acho que Bento (ou Machado) que não entendeu sobre certas investidas. 
Capitu era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem. 
Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? 
Um amigo supria assim um defunto, e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não visse desde longos meses.
— Você janta comigo, Escobar?
— Vim para isto mesmo. 
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É ilusão, decerto, se não é efeito das longas que tenho estado a escrever sem parar.

Isso tudo, no entanto, nada fere o mérito de Machado de Assis. Ele foi brilhante. O modo como conduziu e fez muitos caírem na história de Bento, como reproduziu nas linhas a revolta, a amargura, a obsessão de um sujeito comum, assim como seu apego às memórias e às idealizações... Acho que é porque é tão natural confiarmos e torcermos pelo narrador.

O fato de Machado jogar a bola pra gente, de fazer a interpretação do caso, também é impressionante. Mas às vezes não deixo de pensar que pintam o autor mais do que ele foi... Nesse caso, tenho que ler outros de seus trabalhos para averiguar melhor isso. Quem sabe? 
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim, preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.

Há ainda muitas referências universais da época. Indico que você tenha um exemplar com notas de rodapé e textos extras para te auxiliar um pouco na compreensão da época – cotidiano, hábitos, expressões. A edição da L&PM, de 2008, tem todo um aparato.

Dom Casmurro é assim um livro sobre um cara que não sabe perder, culpa tudo e todos ao redor e tampouco é humilde de assumir o que fizera. É a típica pessoa que coloca no outro uma responsabilidade absurda por tudo o que faz. Queria uma felicidade que só competia a ele ser feliz, queria um casamento que seguisse seus preceitos. É sobre alguém que não aprendeu a dar espaço, nem a respeitar a mulher, e preferiu seguir uma vida amargurada. Suas lembranças, claro, são bem seletivas em demonstrar o “pior” do outro, mas esquece (sempre) de olhar para si. Reconsiderem isso numa próxima leitura ;)

Fiquei puto porque não consegui controlar o seu pensamento
Mas amei você, amei você, mas amei você
Mas amei você, amei você, mas amei você
Pode agradecer



Até a próxima!

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Resenha: Autobiografia Interativa (Neil Patrick Harris)

Tradução de Juliana Cunha e Guilherme Miranda

Organizado de modo que faça sentido por David Javerbaum

Por Kleris: A biografia mais legendária EVER! Quando você acha que já ama o Neil, ele te prova que dá pra amar muito mais. Sabe aquela sensação de querer colocar a pessoa num potinho e apenas guardar com amor? É esse livro, é essa pessoa.

Nesta biografia, ele te faz sentar e te dá o console do videogame que ele chama de vida. De verdade. Não só somos colocados diretamente na pele de Neil conforme essa vida começa a passar, como somos nós quem determina pra onde seguir pelos capítulos, ao melhor estilo de livro-jogo. Assim, Autobiografia interativa é um título que entrega tudo em duas palavras e não poderia imprimir o Neil melhor. A criatividade, humor, sagacidade e amor transbordam das páginas conforme as viramos. 
Se quiser participar de um outro truque de mágica, vá para a página 174. Se quer ser enfeitiçado de uma maneira mais romântica, vá para a página 116. Ou, dê uma olhada no capítulo que começa na página 258. Ele não é de fato uma continuação deste capítulo, mas é ótimo. Tem, tipo, um iate e tudo.

O livro foca bem na experiência – e experiência completa! Neil não está ali pra contar sua história, ele quer a gente a viva. Ao ser Neil, vemos que desde cedo ele nasceu para ser essa pessoa espirituosa. E encontrou caminhos awesome que lhe deram a oportunidade de brilhar de fora pra dentro, de dentro pra fora. Claro que não foi fácil, que nem sempre as coisas saíam do jeito que era pra sair, mas, pensando bem, cada caminho foi importante para levá-lo para onde ele queria estar, para quem ele queria ser. Aceitar-se como se é não é mera jogada, é crucial para nossa felicidade. 
Coragem, Neil. Não se assuste. A vida é uma aventura. Talvez nunca surja outra oportunidade como esta que está tendo agora, ao menos não neste livro.
Claro que você está temeroso agora. A coisa/atividade/escolha profissional que você está considerando agora parece um pouco assustadora. Mas ela é também o caminho para o crescimento e para o autoconhecimento. [...]Agora volte à página onde você estava e diga sim à aventura!

Aliás, Neil não usa sua história para qualquer drama, ele a apresenta de uma maneira tão incrível que até nas horas difíceis ele nos envolve, nos faz sentir tão bem quanto ele está agora olhando para seu passado. Não só podemos imaginar satisfação e orgulho, como senti-los, já que, bem, somos Neil Patrick Harris. 
Cada qual tem sua história. Cada um tem seus próprios preconceitos, criados por nossas famílias, círculos sociais e, sobretudo, por nós mesmos. É difícil enfrentar aquela parte de você que você mesmo teme. No seu caso, vai levar tempo e experiência. Vai precisar viver um pouco, olhar ao redor e ver o exemplo de espíritos livres que lidam melhor com suas próprias questões.
Mas você vai chegar lá.

Uma das coisas que mais me encantou foi essa visão de brilho nos olhos que Neil traz. Sabe uma paixão pelas pessoas? Pelo trabalho? Pela arte? Esse é o tipo de pessoa que move outras milhares. O maior medo de artistas como Neil é justamente ser rejeitado pelo que ama, pois o preconceito é o que os barram de mostrar quão maravilhosos são. Mas o fascínio seu falou mais alto e suas excentricidades fazem toda a diferença. Neil hoje inspira arte e expira amor.  Ele merece palmas calorosas de seu público.

A autobiografia é, assim, por si, um instigante modelo e um instigante estilo sobre uma instigante pessoa. E, ah! Tem uma página escondida. Não há um caminho certo sobre como parar lá, mas espero que você ache, pois o Neil tem um segredinho ao estilo entendedores entenderão.


Até a próxima!

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Resenha: “Minha vida dava um livro” (Guilherme Cepeda & Larissa Azevedo)

Por Kleris: Minha vida dava um livro... Quantas vezes não pensamos, escrevemos, declaramos alto o bastante isso?! Provavelmente a cada peripécia da vida, mas aqui com os blogueiros do Burn Book, Guilherme e Larissa, trata-se de nossa vida literária. Minha vida dava um livro é um livro interativo para preencher e guardar nossas impressões, colecionando e rememorando detalhes que acumulamos após tantas leituras – vide esse post.
                                     
Esse livrinho me chamou atenção em alguma passagem rápida pelo skoob e quando tive a oportunidade, lá estava no carrinho de compras ^.^ Não costumo trazer a sinopse nas minhas resenhas, mas dessa vez é excepcional, pra vocês serem igualmente capturados :)

Ei, aqui! Isso mesmo, estou falando com você. Você que anda pela livraria e muitas vezes perde a noção do tempo. Você, que distraidamente passa os olhos por pilhas de livros e lombadas coloridas e sempre compra mais edições do que pode ler no espaço de uma vida. Você, que agora parou para analisar esta capa entre tantas outras. Este livro é para você. A vida muitas vezes é tão maluca que chegamos a nos questionar se o que vivemos é realidade ou ficção. Experimentamos momentos e construímos enredos com tanta frequência que não surpreende pensarmos que nossa vida dava um livro. 
E dava mesmo! Que tal, então, escrevê-lo aqui? Se você é louco por livros tanto quanto nós, se perde o ponto e dorme tarde porque simplesmente não consegue deixar de terminar pelo menos mais um capítulo ou se já não sabe mais quantos livros leu e quantas vezes teve a vida salva por uma história, aqui estão as páginas que o aceitam e compreendem. Transforme seus sonhos, citações, lembranças e, principalmente, palavras na narrativa mais empolgante e emocionante que existe: a sua vida! E, claro, não se esqueça de compartilhar. Acompanhe a #SerieMinhaVida e divida conosco sua história. Sua vida dava um livro, é só virar a primeira página. Comece.

Apesar de bem curtinho (160 páginas), você não simplesmente preenche num sopro. Não, é mais para quando você quer se reorganizar nas suas leituras, parar e respirar sobre o que está sendo lido, o que tem mudado ao passar do tempo e possivelmente a cada página escrita, você vai sentir isso. Vai resgatar o nome do livro que fez você conhecer aquele amigo, listar os livros que te fizeram chorar, aqueles que você precisa anotar para não esquecer, reconhecer aprendizados, o que trouxe de bom, de ruim, enfim, ele trabalha bem com a memória ;)

 

Veja resenhas dos livros citados:

Ele também trabalha com essa de dividir os momentos, como contar a um amigo sobre aqueeeeeeele livro que te derrubou – é, afinal, um diário. Quando nos propomos de escrever cada anotação, além de remexer e exercer a memória, estamos exteriorizando pensamentos, ideias, considerações que podem ser lidos e compartilhados – inclusive, o livro incentiva muito que se poste a respeito, reunindo as propostas com a hash #SerieMinhaVida.

  

(Coloque uma citação favorita e termine dedicando o livro para uma pessoa especial)
Veja mais resenhas dos livros citados:

Minha Vida foi um dos primeiros livros interativos brasileiros a chegar nas prateleiras e tocar em diversos pontos da vida literária, desde as considerações mais intrínsecas de um leitor, sobre os personagens mais corajosos e medrosos ou sobre se imaginar numa ilha deserta com um livro, às extrínsecas situações, em que podemos nos envolver com opiniões de outros leitores e deles capturar umas boas ideias. É um verdadeiro livro de pequenos desafios para serem preenchidos ao longo de nossas leituras.

  

Para além da experiência mais individual, acho que ele é interessante para realizar atividades em grupo. Arrisco dizer até que, vez que estiver efetivamente completo (e talvez demore um pouco pra isso), é possível trocar com um amigo e resenhar a vida literária um ao outro, já que, no fim das contas, nossa vida dá um livro e um livro está aí, para ser lido e apreciado - bom, eu gostaria de conhecer mais da vida literária dos amigos haha


Digam lá o que vocês acham de livros desse estilo e da proposta das atividades ;) 
Até a próxima o/

Não tentem ler meu segredo!

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Resenha: “Ansiedade – como enfrentar o mal do século” (Augusto Cury)

Por Kleris: Sabe quando o celular começa a travar tudo e você é obrigado a fazer uma limpeza, senão reiniciar o aparelho? Ou mesmo com um computador ou notebook, em que você se vê na necessidade de parar um minuto e otimizar sua máquina? Se for esperto, vai saber evitar novos acúmulos, senão, evitar encher a máquina tão rápido quanto da última vez.

A cabeça do ser humano funciona de maneira bem semelhante: ela acumula “lixo”, e, como as máquinas, nos notifica com sintomas, manda alertas, e, se preciso, vai te bloquear a ponto de você não conseguir acompanhar mais nada – até mesmo paralisar. Só que, diferentemente de máquinas e aparelhos, o ser humano não pode eliminar esse lixo – a não ser em casos especiais de acidentes bruscos – pois nada se perde. Então como otimizar nosso próprio cérebro pra não nos detonar?

A ansiedade vital torna-se uma ansiedade doentia quando contrai o prazer de viver, a criatividade, a generosidade, a afetividade, a capacidade de pensar antes de reagir, a habilidade de se reinventar, o raciocínio multifocal, entre outros. Um dos mecanismos psíquicos que mais transformam essa ansiedade vital numa ansiedade asfixiante é a hiperconstrução de pensamentos. 

Em Ansiedade – como enfrentar o mal do século, Cury é esse guia nos caminhos “desconhecidos” da nossa mente. A partir do estudo psiquiátrico e psicoterápico, de sua Teoria da Inteligência Multifocal (TIM), ele nos apresenta ao quadro contemporâneo da saúde mental e nos inteira sobre o funcionamento da mente humana. Mais que isso, ele demonstra como nossas mentes têm entrado em pane e como a sociedade tem respondido – com níveis e mais níveis de ansiedade generalizada sem a devida atenção.

As pessoas que têm SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado) são frágeis? De modo algum! São elas desinteligentes? Em hipótese alguma! Elas têm habilidades como qualquer Homo sapiens, mas lhes falta a capacidade de proteger sua emoção e gerenciar seus pensamentos.

Não é difícil encontrar pessoas que sofram desse mal. Elas estão por todos os lados, cada uma com suas angústias, escondendo do mundo, escondendo, inclusive, de si mesmas. Você pode neste minuto fazer uma busca rápida numa rede social e assistir em tempo real pessoas comentando sobre a claustrofobia que é esse tipo de sofrimento (veja aqui um exemplo).

Acho que tranquiliza saber que há outros milhões sendo atacados no mesmo segundo que a gente, dá uma sensação de “não é só comigo” misturado ao “eu não pirando não”. A da bem verdade é que há (ainda) muito preconceito por trás dos problemas de saúde mental, e por conta dessa pressão, casos e mais casos estão aí trilhando caminhos cada vez mais difíceis. Não há loucura, apenas incompreensão.

Nesse meio tempo, nossa paz de espírito é, assim, roubada. Entre taquicardias, queda considerável de cabelos, fortes pesos de consciência, insônias, déficit de memória, sensações incompreensíveis, pânicos e outros tanto sintomas... todos são pedidos de socorro! É o seu corpo pedindo um stop de algo excessivo.

É ser asfixiado por dentro e não reagir. É ser aterrorizado em sua própria mente e ficar calado.

Nesse sentido, a abordagem do autor é de uma natureza informativa ao mesmo tempo que de autoajuda, pois nada melhor que estar esclarecido sobre o que está acontecendo, como acontece, por quê acontece ou o que podemos enfim fazer a respeito. Não sei vocês, mas se tratando de algo que pode nos sufocar assim, de uma hora para outra, “aparentemente sem razão”, eu não gostaria de ficar no escuro. Além disso, Cury nos traz técnicas embasadas e de fácil aplicação. Em um primeiro momento, elas podem parecer muito simples e algo que qualquer pessoa pensaria em realizar, porém, não é que costumamos fazer totalmente o contrário? 

É surpreendente a enorme facilidade que o ser humano tem para criar fantasmas e fazer o velório antes do tempo.

O que Augusto Cury propõe no livro é que há maneiras de burlar esse sistema, até então descontrolado, que é a nossa cabeça. Embora não possamos apagar todas as situações ruins, que nos levam aos ciclos de ansiedade, tampouco eliminar todo o lixo que se acumula na nossa cabeça, podemos reeditar tudo que é registrado. Podemos gerenciar toda essa configuração!

É na verdade uma questão de hábito... de otimização até. Vez que dominamos o controle de volta para gerenciar e balancear nossa mente, seremos nós que ditaremos a nossa história. Talvez soe como “conversa pra boi dormir”, como espalham uns ditos populares, mas... quando algo faz tanto sentido assim e possui mais cases de acertos do que de erros, não é algo para se deixar pra lá.

A linguagem do livro é de fácil compreensão se você tem certo costume com pesquisas e teorias. Toca-se em questões de memória, personalidade, comportamento, gatilhos e controle emocional. Por mais que o assunto seja um tanto complicado, ele procura diferentes abordagens e modos para explicar o conteúdo, com exemplos da sua vida privada, social e profissional, a fim de melhor se fazer entendido (como fiz ao equiparar a mente humana com o celular lotado). Cury, assim, equilibra os tópicos sem mergulhar tanto na psiquiatria, nem pretende ser leigo demais.

É direcionado desde os profissionais de saúde mental a qualquer interessado em conhecer mais da Síndrome do Pensamento Acelerado (Ansiedade). É esclarecedor tanto para quem sofre quanto para sente que não tem maneiras de lidar com uma pessoa neste estado. Aliás, pode ser o primeiro passo de um tratamento – por uma busca pela informação certa – e/ou de aceitar que se precisa de um, afinal, o livro não dispensa o acompanhamento de um profissional.

Recomendo!

P.S.: Em função desse livro, o escritor lançou o livro Gestão da Emoção, no qual explora mais das técnicas, coaching (treinamento) e aplicabilidades.
Ter coragem para velejar para dentro de nós mesmos, reconhecer nossas fragilidades, admitir nossas loucuras, corrigir rotas e nos educar para sermos autores de nossa própria história é, acima de tudo, ter um caso de amor com a vida.
E ninguém pode fazer essa tarefa por você – nem filhos, parceiro(a), amigos, neurologista, psiquiatra, psicólogo ou livros. Só você mesmo... Não traia o que você tem de melhor!
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Ana Liberato