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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Resenha: “Beije-me Onde o Sol Não Alcança” (Mary Del Priore)

*Por Mary*: Olha eu!

Este livro chamou minha atenção por muitos e diversos motivos, tendo me superado absolutamente todas as expectativas. Claro que a obra esteve longe do que pensei que fosse, mas por excelentes razões – conforme vocês irão entender mais à frente.

O currículo da minha chará Mary é de cair o queixo: ex-professora titular de História da USP e PUC-Rio, pós-doutora, mais de 40 livros publicados, premiações literárias nacionais e internacionais são apenas parte dos diversos feitos dessa autora incrível.

Ficaram curiosos para saber mais sobre Beije-me Onde o Sol Não Alcança? Então sigam em frente!

E uma das coisas que mais me deixou encantada foi poder jogar o nome dos personagens e lugares no Google e encontrá-los. São todos personagens reais. Por exemplo, pesquisei “Fazenda Bela Aliança” e olha só o que apareceu:


O Conde Maurice Haritoff foi um aristocrata russo que chegou ao Brasil em meados de 1864 com grandes expectativas de enriquecimento, casando-se com uma herdeira de família cafeicultora abastada para, assim, tornar-se fazendeiro, exportador e dono de muitos escravos. A escolhida foi Ana Clara Breves, Nicota, neta do Barão de Piraí, herdeira de terras que iam de Piraí a Vassouras. Com seu dote, veio a Fazenda Bela Aliança e alguns outros sítios, integrantes do Vale do Café, que, até então, como diria a minha amiga Alice “bombava naquela época por causa do café” vivia seu apogeu. 
Aqui não há liberdades. Os pais ou seus substitutos discutem as futuras alianças em segredo. E uma vez passado o ar gélido das negociações, a moça é avisada. Ou melhor, cai o veredicto sem discussões. Ela é convencida de que a promessa do amor surgirá com o passar dos anos. Não há nada de clandestino ou de cínico nesse tipo de decisão prática. Todos precisam ter garantia de um seguro financeiro. Trata-se de uma fusão de fundos, não de corações.
Surge nesse quadro aparentemente simples a figura de Regina Angelorum, ex-escrava, descendente de negros e índios, dotada de uma beleza exótica capaz de despertar muitas paixões e que encanta o Conde Russo. Forma-se, então, um triângulo amoroso incrivelmente original e tocante, em um cenário real e impressionantemente detalhado que vai te arrebatar do início ao fim.

Sempre em primeira pessoa, Mary Del Priore utiliza cartas e escritos em diários pessoais – com trechos por vezes originais, extraídos de documentos autênticos – para narrar a trama do Conde Russo casado com a Baronesa do Café, mas apaixonado por uma ex-escrava, filha da casa.

Não costumo comentar capa, layout e essas coisas, mas é IM-POS-SÍ-VEL não falar dessa edição linda, cheia de detalhes. Tudo parece pensado minuciosamente para casar com a história, o contexto e a ambientação. Sem dúvida, a equipe de arte da Editora Planeta merece ser aplaudida de pé pela demonstração de cuidado com suas publicações. Acabei me arriscando em um vídeo rapidinho para tentar mostrar a vocês a riqueza de minúcias desse livro:


O vocabulário segue o formalismo da época, com adaptações. Eu, que tenho um fraco por clássicos nacionais, me vi reportada a Alencar e Machado – meus prediletos! – em seu modo polido de narrar fatos e descrever as ambientações. Talvez para quem não tem experiência com esse tipo de literatura sinta um pouco de dificuldade em compreender alguns termos. Creio, todavia, que Beije-me Onde o Sol Não Alcança seja uma excelente oportunidade de enriquecimento do vocabulário. Vale a pena. Leia com um dicionário do lado, se for preciso.

E por falar em reporte a clássicos, há muito tempo eu não via livros literários com notas finais e referências bibliográficas. Muito além de entretenimento, este livro garante um imenso aprendizado histórico. Extremamente didática, a minha chará se vale de um aprofundamento científico que só mesmo uma pós-doutora em História poderia nos fornecer. 
Ontem, enquanto Luís César apresentava Vera à família, tentei caminhar pelo que chamam aqui de “centro”. Fui recepcionado por uma multidão de pretos e mulatos que, num vozerio ensurdecedor, oferecem seus serviços. Eles têm um aspecto embrutecido. Soube que, há pouco mais de vinte anos, o Rio ainda tinha um mercado onde os africanos eram expostos como carne humana. Hoje são vendidos em leilões domésticos, anunciados nos jornais. Espétaculo revoltante, sem dúvida, mas que me fez refletir sobre a miséria que vi em nosso imenso império. [...]
Mas não se precipite em concluir que se trata de um livro meramente didático. Calma aí, companheiro! A primorosidade desta obra vai muito além disso. Estamos falando de uma trama completamente pautada em pessoas reais, oriunda de profundas pesquisas em documentos históricos da época. O didatismo – mesmo que riquíssimo! – é secundário, apesar de roubar a cena em muitos momentos.

Contextualizada à trama, assistimos a diversos acontecimentos que agitaram o Império Brasileiro na segunda metade do Séc. XIX, tais como: movimentos abolicionistas, chegada de imigrantes italianos e alemães, passivismo político, corrupção legislativa (que nem nos é uma questão tão estranha assim ainda nos dias de hoje, convenhamos), alternância parlamentar, hipocrisia social e o auge produtivo dos cafezais, bem como seu consequente declínio. Além disso, a autora traça um panorama bastante fiel aos costumes de época, desde os casamentos arranjados até os cortejos fúnebres. 
Quando sair meu caixão num coche de cavalos com plumas escuras na cabeça, os criados irão apagar os rastros da morte. Minha camisola e roupa de cama serão doadas ou queimadas. A casa será varrida com especial cuidado de empurrar a poeira pela porta da frente, que ficará semicerrada, impedindo o retorno de minha alma. No quintal, jogarão fora a água do último banho e enterrarão meu cabelo e unhas cortadas em algum lugar previamente escolhido por tia Maria Gata. As pistas serão embaralhadas para que eu não volte. Para que eu veja que não há mais lugar para mim. Depois que eu fechar os olhos, meu nome deixará de ser pronunciado. [...]
A sinopse menciona a existência de um triângulo amoroso que eu, particularmente, senti dificuldade de encontrar. Quero dizer, o triângulo está bem claro. Aliás, mais perceptível, impossível. Mas o amor... fiquei procurando. Refleti ao fim, no entanto, que Beije-me Onde o Sol Não Alcança tem um viés muito forte do realismo/naturalismo, me lembrando muito Aluísio Azevedo, de modo que aqui, caro leitor, você não encontrará um amor byroniano, mas sim uma filhadaputagem à Eça de Queiroz.

Sendo assim, se você quer um daqueles romances para suspirar, procure outra coisa para ler. Não obstante, se você deseja um romance histórico real, extremamente bem escrito, bem fundamentado, riquíssimo em detalhes e que traça um quadro impressionante do Brasil Império, não hesite em ler Beije-me Onde o Sol Não Alcança
Sei... Maurice me trai. O amor acabou, mas o casamento, não. Devo achar que ser fiel é ter o uso exclusivo do corpo do outro? Talvez. Mas isso não é essencial. Essencial é saber por que somos um casal. É ter fidelidade a uma história. Podemos esquecer um ao outro sem sermos infiéis. E sermos infiéis, sem nos esquecer. Todo o amor não é fiel, mas a fidelidade é amorosa. Sou fiel a Maurice.

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segunda-feira, 2 de março de 2015

Resenha: "Simplesmente Acontece" (Cecelia Ahern)

*Por Mary*: Pular de Carina Rissi para Cecelia Ahern é como passar do 220v para o 110 (nunca entendi absolutamente nada de física e desconfio de que o que acabei de dizer não tem sentido nenhum, mas tenho certeza de que vocês entenderam).

Em Simplesmente Acontece conhecemos Rosie e Alex, um casal de amigos que se conhece praticamente a vida toda. Após toda a vida escolar estudando juntos – fugindo da escola juntos, bebendo juntos e levando suspensão igualmente juntos –, Alex é obrigado a atravessar o oceano por conta da promoção profissional de seu pai e vai morar em Boston. A separação, porém, não serve para separar os amigos, que continuam se correspondendo e mantendo contato mesmo sob o peso da distância física. Todos que os conhecem - inclusive pais e amigos mais próximos - apostam em um relacionamento amoroso entre os dois. Os anos, contudo, vão se passando, o ocaso, a falta de sorte e uma sucessão de desencontros parece fazer de tudo para separá-los. Chega a hora de decidir: encarar, mergulhar de cabeça e tomar as rédeas da própria vida ou aceitar de uma vez por todas o que a vida lhes reservou. 
“Ela sempre me disse que, quando eu sentisse esse silêncio com alguém, era um sinal de que aquela pessoa seria aquela que ficaria comigo pelo resto da vida.” 

Dividido em cinco partes e cinquenta capítulos, a trama é inteiramente contada por meio de cartas, bilhetes, SMS e mensagens instantâneas trocadas entre os personagens. Talvez pela falta de hábito em ler romances epistolares, estranhei um pouco no início, posto que o ritmo de narração é mais lento do que normalmente é quando narrado em primeira ou terceira pessoa. Mas é apenas uma questão de habituar-se a este tipo de narrativa, que necessita de adaptações e estratégias que, em outras obras, seriam utilizadas de maneira distinta.



É interessante a construção dos personagens nessa forma de narrativa, porque não há uma descrição clara deles (lembre-se que, aqui, não há um narrador). De certo modo, essa característica acaba por dar ao leitor mais liberdade para construir sua própria imagem mental dos personagens, fazendo-se presentes, entre as cartas, uma ou outra característica física contextualizada à própria mensagem. 
“É estranho ver o quanto ela se parece com você; tem os seus olhos azuis e brilhantes (vejo problemas por aí!), cabelo bem pretinho e um nariz que parece um botão (...).” 

Para que se possa englobar mais adequadamente a história, a troca de mensagens apresentada não é apenas entre os protagonistas Rosie e Alex, incluindo também alguns de seus familiares e amigos. Além de ampliar os horizontes para a trama proposta, a inclusão de outros destinatários serve para tornar possível visualizar de forma mais panorâmica os fatos e os pontos de vista daqueles que convivem com o casal.

Apesar de ser uma grande admiradora da Cecelia Ahern, confesso que não gostei da mensagem que a protagonista Rosie transmite ao leitor. Certamente, esta é uma interpretação pessoal, mas a impressão que dá é a de que podemos ficar sentados esperando as coisas acontecerem, porque o que há de ser nosso nos virá às mãos. E é justo isso que Rosie faz durante boa parte da vida: espera. Além de moldar a si mesma em função das pessoas que a rodeiam, de muitas vezes se anular em nome de quem ama, Rosie também vai se deixando levar pelos acontecimentos cotidianos. Bom, eu discordo desse fatalismo que prega a existência de um destino que comanda nossas vidas e que, independentemente dos nossos atos, será aplicado e executado tal qual suas regras. 
“Almas gêmeas sabem encontrar o caminho que leva uma até a outra.” 

Ah, mas não entremos agora em méritos existenciais. Mesmo porque, se formos analisar pouco a fundo os livros anteriores dessa autora, vamos identificar certo quê de fatalismo, cuja tendência é acreditar no “o que há de ser, será”, no “deixa acontecer” e “deixa a vida me levar”.

Mas não se confunda e pense que é só isso. A coisa é muito mais complexa e paradoxal. A Cecelia, aliás, é uma verdadeira criadora de situações dinâmicas e controversas, colocando em cheque as elaboradas cenas clichê de romance. Trocando em miúdos, Cecelia Ahern, ao mesmo tempo em que relaciona a naturalidade dos fatos, retrata a busca por seus objetivos e ideais. Eu diria que essa é a grande sacada: os personagens verossímeis aliados às situações absolutamente realísticas criam uma tocante história de amor. 
“Ele sempre dá um passo a mais quando sabe que não deveria. Faz isso seja como for e aprende. Acho que nós, adultos, temos muito o que aprender com eles. Para que assim, talvez, não sejamos tão medrosos nem sensatos demais em se tratando de alcançar os nossos objetivos.”

Para encerrar, gostaria de elogiar a equipe de produção da Editora Novo Conceito, que ganhou muitos pontos comigo por conta da “Nota do editor”, inserida logo após a folha de rosto de Simplesmente Acontece. Muitos podem sequer perceber a existência/importância dela, contudo, penso que, além de atencioso, demonstra cuidado e detalhismo com a internalização da obra. Não poderia, também, deixar de elogiar a equipe de tradução do livro, que teve o cuidado de manter características originais, que deixam ainda mais charmosa a história.


*HABEMUS FILME!!!*

Simplesmente Acontece foi adaptado para o cinema, dirigido por Christopher Ditten e interpretado por Lily Collins e Sam Clafflin nos papeis de Rosie e Alex. A estreia aqui no Brasil está prevista para o dia 05 de Março de 2015.



Estou bastante curiosa para ver de que modo adaptaram a obra e como ficou. Vi o trailer e, apesar de ter gostado, tive a impressão de que bastante coisa do livro foi modificada, o que, definitivamente, me dá muito medo. Aguardemos! 
“Ele é o cara mais sortudo do mundo por ter você, Rosie, mas não te merece e você merece algo muito melhor. Merece alguém que te ame com todo o coração, alguém que pense em você a todo momento, alguém que passe cada minuto do dia se perguntando o que você deve estar fazendo, onde você está, com quem está e se está bem. Precisa de alguém que te ajude a realizar os seus sonhos e que possa protegê-la dos próprios medos. Alguém que te trate com respeito, que ame cada parte de você, especialmente os seus defeitos. Você deveria estar com uma pessoa que possa te fazer feliz, muito feliz, andando nas nuvens de tanta felicidade. Alguém que anos atrás deveria ter aproveitado a chance de ficar com você em vez de sentir medo e ficar assustado demais pra poder tentar.



 
Ana Liberato