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segunda-feira, 23 de março de 2015

Littera Feelings #29 e Clarice Lispector – Entrevista de Leitura #4

OLAAAAAÁ :)

Como estamos nas leituras, hein? Pra quem não era de muitas metas, até que estou conseguindo estabelecer e seguir algumas \o/ Mas vamos ao especial do dia, temos duas convidadas para nossa primeira entrevista de leitura do ano!


Aqui no Littera gosto de, além de trazer temas para discutir com vocês, convidá-los para um papo sobre suas leituras. Dessa maneira, partindo de uma leitura específica, o espaço de entrevista propõe um jogo de perguntas que pretendem trazer à baila perspectivas que nos mostrem os bastidores de uma experiência de leitura.


Já tivemos um encontro com Hemingway, Kafka, Érico Veríssimo e hoje saudamos Clarice Lispector, mais uma modernista brasileira!

De relembrete, vão aí os requisitos para quem gostaria de participar de uma entrevista aqui no Littera:

Leitura de um clássico da literatura (nível mundial)
Leitura recém-finalizada
Não valem releituras


~~~~~~~~~Vamos conhecer mais de nossas convidadas?~~~~~~~~~~~


No microfone de leitor apresento...

  Recém-formada em Letras/Literatura, mãe, blogueira (resenhista/colunista/escritora) e MUITO leitora.

Aos 5 anos aprendi a ler. Aos 10, quando a mamãe não dava conta de comprar livros e gibis infantis que acompanhassem o meu ritmo frenético de leitura, comecei a ler os clássicos que minha avó tinha e que hoje são meus, estão velhos e despencando, mas a memória afetiva neles envolvida não dá pra substituir. A partir daí, virei um caso perdido mesmo. Hoje em dia leio de tudo: clássicos, contemporâneos, estrangeiros e nacionais – de Chico Buarque a Harry Potter... e sinto uma necessidade daquelas de dizer o que penso a respeito do que leio. Sonho em um dia, quem sabe, seguir carreira na área editorial e enfim dizer: - Vivo daquilo que amo.

Busco na leitura diferentes visões de mundo, por isso penso ser tão aberta a diferentes estilos literários, porque enxergo que cada um tem algo a acrescentar, mesmo que seja a leveza da distração momentânea em um dia difícil. E que por mais que determinado segmento literário não faça muito a sua cabeça, ele é a manifestação artística de alguém, e assim deve ser encarado.

E na bancada de leitura encontra-se...

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.



Dados complementares

Edição (editora e ano de publicação): Rocco, 23ª edição, 1993.
Época de enredo: século XX.


~~~~~~~~~~~~~~Eis Milena e Clarice! ~~~~~~~~~~~~~~
meus comentários estão em itálico


Conte para nossos leitores as suas perspectivas iniciais sobre o livro e a história que A Hora da Estrela apresenta.
Bem, esse não é um livro fácil de ler. Em algumas edições há um longo, porém válido, prefácio. E a questão do narrador criado por Clarice Lispector é outro elemento instigante... Rodrigo narra Macabéa e sua vida vazia, mesclando desprezo, indignação e curiosidade, de como alguém consegue viver da forma de Macabéa.
A minha perspectiva inicial foi de que a falta de história pessoal de Macabéa é um grito de alerta para todas as mulheres, para que não acabem como ela. E não é uma obra machista, como já li em algumas críticas.

Uma coisa interessante de fato mesmo é o Rodrigo S.M., o narrador. Acho que ele via a dura realidade de uma pessoa inocente como a Macabéa, que tinha gente que vivia mesmo daquele jeito...

O que te levou a A Hora da Estrela por agora? Já havia lido algo de Clarice Lispector antes?
Eu já havia lido faz um tempo, mas fora no primeiro período da faculdade para uma disciplina chamada Modernidade e Literatura Brasileira. Achei confuso, porém muito original. Daí no último período foi solicitada a leitura para outra disciplina, Literatura Comparada, e a impressão que tive da obra foi tão além da que tive na primeira leitura.
Um novo olhar, sabe, as questões filosóficas propostas por Rodrigo já não me soaram tão sem pé nem cabeça. Senti juntamente com ele as agonias pela ingenuidade excessiva de Macabéa e a indignação pela falta de atitude.
Foi a primeira obra da Clarice que li, mas quero ler outras. Só que são daqueles livros para se ler com calma, degustando, voltando as folhas em alguns momentos.
Professores diferentes solicitaram a mesma leitura, numa diferença de três anos. E eu resolvi reler, porque imaginei que me “diria” coisas diferentes.

Nesse momento percebemos as duas (eu e Milena) que estávamos falando já de uma releitura, que, segundo os requisitos da coluna, não vale hahaha Mas sem problema, embora a Milena tivesse outro livro de primeira viagem para propor, abri essa exceção porque estava curiosa sobre essa experiência de leitura, afinal, Clarice é Clarice, a chamada esfinge divide opiniões... Por que não, né?

O que diria sobre seu avanço na leitura? De que maneira a escrita ou a narrativa da autora influenciou nesse quesito?
Eu sou uma pessoa que lê rápido, dificilmente demoro lendo uma obra, mas esse... rsrs Me desconcertou. Demorei porque tinha momentos em que eu lia e refletia, e não conseguia chegar a uma conclusão. Daí eu voltava a página e lia novamente.
Acho o traço estilístico da Clarice muito particular e a narração de Rodrigo não nos esclarece muito, fora os momentos do choque pela rispidez dele ao falar de Macabéa... Tinha horas que eu sentia tanto pela ela. Pensava nos “e se...”. E se Macabéa tivesse encontrado uma única pessoa em seu caminho que a esclarecesse. E se não tivesse sido criada da maneira que foi, imersa na ignorância e no desamor, e se não tivesse ido à cartomante.

Acho que principalmente pela desconstrução narrativa da Clarice as pessoas sentem essa dificuldade. Você chegou a ver o filme? Já não lembro muito, mas dava essa empatia pela Macabéa. A ingenuidade dela ficava bem à mostra.

Sim, eu vi... Fiquei angustiada. E o mais engraçado, a história não saía da minha cabeça (rsrs) Lembro que eu fazia um curso na área nobre da minha cidade e na hora que eu fui atravessar a rua, uma Mercedes estava parada no sinal (rsrsrs) Ri sozinha e esperei a Mercedes passar, preferi não correr o risco.

Hahahahahahaha entendedores entenderão XD
Tem uma cena que ela está muito perto do metrô, se não me engano, aí um policial pede pra ela se afastar, pra evitar uma queda, e ela diz “o senhor me desculpe”. Ela falou isso outras vezes mais no filme, era outra marca dessa ingenuidade dela, que baixava a cabeça e acatava simplesmente o que lhe diziam. E de alguma forma era feliz.

Pois é... Rodrigo a chamava de “doce obediente”.

E sobre a história, o que você achou do desenvolvimento? Personalidades, ações, ideais?
Tem uma parte que me deixou bem chocada: “Essa moça não sabia que ela era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz”. Vejo como uma obra que tem por fio condutor as questões filosóficas individuais, que refletem e determinam a forma como o coletivo vê a cada um de nós.
Porém, as misérias dos demais personagens não são diferentes da miséria de Macabéa. Olímpico de Jesus era tão alheio a alguns saberes quanto ela, porém, a postura que ele tinha mediante as situações e a forma como nutria ambições faziam dele uma pessoa que, apesar de tão miserável quanto Macabéa, era muito mais autônoma.

É chocante a descrição do Rodrigo, e ao mesmo tempo verdadeira.
Lembro do Olímpico como alguém da mesma situação da dela, mas alguém que tinha ambições mais. Macabéa era bem conformada com o que tinha, apesar de seus sonhos.

É que a ingenuidade de Macabéa veio do vazio, da ignorância com a qual foi alimentada. Já Olímpico teve um padrasto, que no livro fala, que lhe ensinara boas maneiras para poder enganar as pessoas e para pegar mulher (rs).

Houve algum momento marcante entre você e a leitura? O que diria ser uma repercussão positiva e uma repercussão negativa em A Hora da Estrela?
Muito marcante pra mim é a questão dessa ausência emocional da Macabéa. Essa coisa de viver sem saber pra quê. Penso que é porque entra em conflito diretamente com a minha personalidade. Desde muito nova busco construir minha identidade. Não aceito muitas coisas e já perdi por isso. Mas também adquiri valores que são as diretrizes da minha vida. E confesso que quando me deparo com algum(a) Macabáa, fico aflita por ele(a). Nada pior do que não saber quem somos.
A positiva sem dúvidas é o convite à reflexão que a obra em si traz para o leitor, tanto nas questões filosóficas quanto na questão de estrutura sintática e semântica da escrita da autora. A negativa é que tamanha densidade faz com que muitos desistam da leitura, infelizmente... E acho bastante difícil que se consiga compreender a obra sem uma bagagem de leitura prévia. Alguns leitores vão persistir nele, enquanto outros vão colocá-lo na prateleira dos “confusos demais” e vão perder uma leitura única. Que nem sempre agrada, mas, é válida.

É mais ou menos nisso que fica minha relação com Clarice. Fico tentando entendê-la como a esfinge que dizem, e ela não me dá muita brecha (rs http://www.dear-book.net/2013/11/littera-feelings-5-unnamed-feeling.html). Tenho admiração por ela, mas é como gostar da ideia dos livros, só não da maneira como leva.

Você consegue imaginar como a protagonista seria se ela vivesse o nosso tempo? O que seria de Macabéa nesse mundão da internet?
Acho que das duas uma, 8 ou 80: ou a Macabéa seria engolida ou então seria uma dessas que causam muito na internet pela total falta de noção. Porque no livro ela se esconde, mas a internet dá voz pra quem quiser, sem dar a cara a tapa de verdade.
Já pensou a Maca fazendo aqueles virais? (rsrs)

Bem capaz!

Se você pudesse entrar no universo da trama, quem você gostaria de ser (não necessariamente um personagem da Clarice) e o que faria por lá?
Ai, que pergunta difícil! O livro é o que é porque não é mais e nem menos... Mas também não iria ver Macabéa passar por mim sem que ao menos tentasse ensiná-la algumas coisas (rsrs). Assim, eu gostaria de ser uma colega de trabalho que a consolaria por causa de Olímpico. Aproveitava e dava uma bela sacudida na Macabéa... E consequentemente acabaria com a razão de ser do livro (rsrs).

Hahahaha ou daria chance para ser outra estrela... Outro tipo de estrela.
(Novamente, entendedores entenderão XD).

Nem tinha pensado nessa possibilidade!

Há alguma música (ou banda) que venha à mente quando você pensa na história, na Clarice ou mesmo no universo da Estrela?
Só a Rádio Relógio (citada no livro). Acho que o mundo da Macabéa era sem som.

Tadinha.

Pois é, me dava uma pena, mas...

Tem algum trecho que te conquistou bastante e queira dividir conosco?

“Ela me incomoda tanto que fiquei oco. Estou oco dessa moça... Como me compensar? Já sei: amando meu cão que tem mais comida do que a moça. Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? Não, ela é doce obediente.”

“... ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando... O seu viver é ralo.”

Esses dois para mim foram os mais marcantes porque me chocam.

Para finalizar: o livro é legal, mas...?
É só para os fortes, principalmente os de estômago, porque a inércia de Macabéa chega a ser nauseante.

Hahaha melhor definição!
Eu brigava com Rodrigo, com Macabéa. Ou com Clarice.
Encarar Clarice não é para qualquer um.

Sério (rs). Achei meio clichê, mas não consegui pensar em outra coisa (rsrs) E de verdade, tinha hora que esse livro me irritava tanto que me dava vontade de dar uma cusparada daquelas bem feia nele haha. O prefácio dizia “alguns têm pobreza de dinheiro e outros de caráter” – (rsrs) sente o drama. Mas bom também, fala que a nossa consciência ao mesmo passo que é fator de libertação também é de aprisionamento, e fala muito do ato de escrever.

~~~~~~~~~~~//~~~~~~~~~~~

E aí, o que vocês dizem da tia Clarice? Ou mesmo do livro da entrevista?

Conhecida como aquela que dá atenção ao íntimo do ser (através do fluxo de consciência) para dar a sensação de que podemos acompanhar exatamente o passo a passo da cabeça do personagem, não à toa viraliza fácil com outros memes que focam nos pensamentos ligeiros nossos dos dia a dia. Epifanias (momentos de revelação) então, nem se fala!


Dona de muitas frases espalhadas pela internet (e até das que não lhes pertence na realidade...), Clarice foi um dos destaques do terceiro momento do Modernismo Brasileiro. Nessa fase tivemos um desapego às circunstâncias exteriores e uma valorização da palavra e do texto, o que contribuiu para tornar alguns escritos difíceis de serem compreendidos. Lispector, nesse sentido, tem seus lovers, tem seus haters, e tem seus meios termos. É, por certo, uma escritora inquietante.

Além de crônicas e livros infantis, escreveu

(romances)

Perto do coração selvagem (1944); O lustre (1946); A cidade sitiada (1949); A maçã no escuro (1961); A paixão segundo G. H. (1964); Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969); Água viva (1973); A hora da estrela (1977).

(contos)

Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); Imitação da rosa (1973); A via-crúcis do corpo (1974).

A Hora da Estrela é um dos livros mais conhecidos e foi o último escrito antes de morrer. O livro teve doze outros títulos até se firmar em A Hora da Estrela. (leia mais sobre isso neste artigo, página 2).


Habemus Filme! E Habemus Série!


De 1985, o filme tem no elenco Marcélia Cartaxo, José Dumont, Fernanda Montenegro e Tamara Taxman. Sobre ele que comentamos nesta entrevista. O trailer vocês podem ver aqui e há um canal do Youtube que disponibiliza filmes antigos brasileiros :)

Nossa tv também fez especiais. Em 2003, Regina Casé e Wagner Moura apresentaram uma pequena série chamada Cena Aberta que focava em desconstruir uma história e mostrá-la de maneira mais panorâmica, como um documentário que enfatiza testes, produção, pesquisa e roteiro literário. O episódio sobre A Hora da Estrela vocês podem ver aqui (contém spoilers!).

Já em 2013 tivemos um quadro no programa Fantástico da Tv Globo, uma série inspirada nas crônicas da autora. No elenco de “Correio Feminino”, estão as atrizes Maria Fernanda Cândido, Luiza Brunet, Alessandra Maestrini e a top model Cintia Dicker. Para acompanhar episódios e extras, só clicar aqui.

Espero que os leitores tenham gostado. Eu e a Milena curtimos muito esse bate-papo!
A propósito, obrigada pela participação, Milena!


Interessados em participar de uma entrevista, dentro dos citados requisitos, só mandar nome, um contato de rede social (FB ou twitter), o nome do livro e do autor para marykleris@hotmail.com, assunto Littera Feelings.


Até o próximo post,

Kleris Ribeiro.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Littera Feelings #24 e Érico Veríssimo – Entrevista de Leitura #3

Oi, pessoal! Estão sentindo esse cheirinho de férias próximas? Eu não... Ainda tem muito pra estudar XD Mas não resisto de vir aqui e dizer um Oi.

Mais que isso, hoje tem Entrevista de Leitura!


Bom, recapitulando, aqui no Littera, além de sempre abordar questões ligadas diretamente ao leitor (revisite posts aqui), também proponho uma conversa com vocês sobre uma leitura específica. Na verdade, sobre a experiência de vocês com determinada leitura. Nas edições passadas, tivemos um encontro com Hemingway e Kafka. Neste post, voltamos ao modernismo, dessa vez, porém, ao brasileiro :)

Para participar, é fácil.
São apenas três requisitos

1.      Leitura de um clássico da literatura (nível mundial)
2.      Leitura recém-finalizada
3.      Não valem releituras

~~~~~~~~~~~~Assim, apresento nossos convidados desta segunda-feira.~~~~~~~~~~~~

No microfone de leitor está...

Advogada, colunista no jornal O Estado (Maranhão), blogueira, leitora. Os estilos de que gosta são variados, destaque para o fantástico. Entre seus escritores favoritos está Anne Rice, Laurel k. Hamilton, Charlaine Harris, André Vianco, Pedro Bandeira e Gabo (Gabriel Garcia Márquez).

E na bancada de leitura ao lado está...
Clarissa, de Érico Veríssimo


Dados complementares
Edição (editora e ano de publicação): Companhia das Letras, 2005.
Época de enredo: 1933, uma realidade bem diferente da nossa, retratando um lirismo latente. 


~~~~~~Eis Fernanda e Veríssimo!~~~~~~


Conforme seu entendimento, apresente-nos a trama geral do livro :)
O livro trata a visão de mundo de Clarissa, em uma época que as meninas ainda eram meninas. O livro é bem doce, bem diferente do que é visto na nossa realidade.

Você conhecia algo sobre Clarissa ou mesmo sobre Érico Veríssimo? Essa prévia foi importante de alguma maneira?
Sobre o Érico, eu já conhecia a fama dele enquanto escritor, mas decidi pegar Clarissa, pois foi uma obra inaugural, quando ele ainda não era a explosão que foi e ainda é hoje. Foi importante, pois consegui captar o início dele como escritor, de forma que o início do livro é algo pausado, como se ele estive com medo e logo em seguida desenvolve, demonstrando que ele já estava mais firme ^^
De Clarissa eu já tinha conhecimento em virtude da minha tia, que praticamente perseguiu a vida literária dessa personagem kkkk Titia leu na juventude, quando tinha uns 20 anos e ficou interessada em saber se Clarissa iria ter algo com Amaro, por isso ela foi procurar ler os outros dois livros. Bom, ela não gostou muito do que leu... Acho que não aconteceu o romance esperado.

Falando na escrita de Veríssimo, o estilo do escritor influenciou de alguma forma no seu ritmo de leitura? Se sim, de um jeito bom ou ruim?
Olha, não vou negar que no início o ritmo de leitura foi bem lento. E quando digo lento, exemplifico: duas páginas por dia, o que é demais pra mim, pois consigo ler até dois livros por dia. Mas, do meio para o final, foi um tapa kkkk Acho que foi justamente quando ele parou de se preocupar com o cenário e focou em Clarissa e Amaro.

Sendo um livro datado de 1933, houve algum embate dos seus princípios para com os do livro? 
No meu caso foi a pureza de Clarissa. Muito difícil ter uma menina com a mentalidade dela hoje. Reflito isso no meu trabalho. Olho meninas com 10 anos grávidas. Só aí você já tem uma noção de como fiquei incrédula com o aspecto de Clarissa nos dias atuais. 

[É quase como um tempo perdido mesmo...]

Você conseguiu se ver em algum personagem?
Sinceramente, não tive identificação com personagens, apenas vi que eles são raras vezes relacionados com pessoas na atualidade, pois os costumes e atitudes são bem diferentes. Até as fofocas.

Acha que há algo no livro que marca para ser lembrado através do tempo?
“Lembrado” acho que a visão ingênua de Clarissa, que com o desenvolver da história percebe que o mundo não é um conto de fadas.

Consegue ver a história se desenvolver em alguma trama televisiva (como novela ou série de tv)?
Hoje em dia não. Acho que não vai ter impacto visual para os mais jovens.

Se o livro tivesse uma trilha sonora, qual seria o artista que daria um bom ritmo ao tom da história?
Carpenters e Roupa Nova (rs).

Há algum trecho (quote) que queira destacar?
Não é um quote, mas a informação do autor no início do livro falando que Clarissa deu tão certo, que ele resolveu colocar esse nome na filha. Foi algo tocante:
Sob os jacarandás floridos da velha praça da Matriz de Porto Alegre, caminhava uma rapariguita metida no seu uniforme de normalista. [...] Tinha eu naquela manhã de setembro exatamente vinte e sete anos, e não sei por que absurda razão a proximidade da casa dos trinta me levava a olhar nostalgicamente para a normalista, já com os olhos de quem sente saudade dum tempo perdido e irrecuperável. (p.11).
“O livro é legal, mas...”?
O livro é legal, mas não tem relação com a sociedade atual.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

E aí, já conheciam algo do Érico?


Por sempre eu confundia Érico com Luís Fernando Veríssimo. Não mais!

Recentemente nossa convidada Fernanda mediou um encontro no Clube de Leitura Penguim-Companhia sobre Clarissa, que num pude ir >.< Mas pude conversar com alguns participantes durante a leitura do mês e o que ficou bem em destaque foi essa meninez e inocência da personagem. 

Hoje Érico é um dos escritores brasileiros mais populares, foi destaque na prosa modernista da segunda fase. Nascido em 1905 no Rio Grande do Sul, ele nos deixou em 1975. Clarissa foi sua estreia em 1933, com continuações em Música ao Longe (1935) e Um Lugar ao Sol (1936), porém, nestes não era a Clarissa a personagem principal. Foi certamente uma fase de tatear o solo literário, como comentou a Fernanda, pois abordou por essas temporadas mais o contemporâneo (da época) e o ambiente urbano.

Um pouco mais à frente em sua carreira, Veríssimo voltou-se para o momento histórico de seu Estado, lançou assim a famosa trilogia O Tempo e o Vento (1949-61), que teve adaptação televisiva e cinematográfica. Esta última que foi passada no comecinho do ano na tv como minissérie, com Thiago Lacerda, Marjorie Estiano, Fernanda Montenegro, Cléo Pires e Igor Rickli. Já nos últimos livros, Veríssimo tomou temas mais políticos, Incidente em Antares (1971) é o mais conhecido.

Obrigada, Fernanda, foi ótimo o papo!

Espero que os leitores também tenham gostado.

Interessados em participar de uma entrevista, dentro dos citados requisitos, só mandar nome, um contato de rede social (FB ou twitter), o nome do livro e do autor para marykleris@hotmail.com, assunto Littera Feelings.

Até o próximo post,


Kleris Ribeiro.
segunda-feira, 7 de julho de 2014

Littera Feelings #17 e Kafka – Entrevista de Leitura #2

MANDA MAIS COPA QUE TÁ POUCA COPA!

Leggo

Olá, amigos leitores, como estão?

No post passado estava eu um pouco incerta sobre as leituras sobreviverem com tanta empolgação sobre o evento da Copa do Mundo, maaaaaaaaaaaaaas, olha, devo dizer, o que não li em meses, li nessas últimas semanas e fiquei muito feliz de ver leitores internet a dentro também se esbaldando em leituras – mesmo que seguisse o movimento de “olho no livro, olho no whatsapp, olho no jogo, olho numa rede social”. Realmente, brasileiro tem uma força de vontade (e criatividade) imensurável XD

Então enquanto estamos nos preparativos para o jogo de amanhã, convido vocês para um "olho no jogo, olho post"!

O que trouxe pra vocês hoje é um post especial da coluna, a Entrevista de Leitura. Para quem não lembra ou perdeu a primeira entrevista (podem ver aqui), relembro que é uma oportunidade de contato mais direto com os leitores, numa entrevista em que o centro das questões é a experiência de leitura - com um livro clássico. Aproveitando o lembrete, aí vão os requisitos para quem gostaria de participar do próximo post dessa seção:

  • Leitura recém-finalizada;
  • Clássico da literatura (nível mundial);
  • Não valem releituras.

Assim, vos apresento os convidados desta entrevista.

No microfone de leitor está...

Luan Queiroz, estudante de Letras, que diz ter um “coração literário onde cabe desde John Green, Suzanne Collins, J. K Rowling até Machado de Assis”, quem gosta e lê de tudo um pouco.

Na bancada de leitura do lado está...

A Metamorfose, de Franz Kafka.
Dados Complementares

Edição (editora e ano de publicação): Companhia das Letras, 1997.
Época de enredo: O ano exato não é informado, mas levando-se em conta os acontecimentos, a história se passa na mesma época em que o livro foi escrito, ou seja, inicio do século XX.

~~~~~~~~ Eis Luan e Kafka! ~~~~~~~~

Conte-nos sobre o que trata o livro a seu ver. Teria vontade de reler?
Luan: Acho que de alguma forma todos conhecem Kafka (mesmo que nunca tenham lido nenhum livro escrito por ele). Basicamente é sobre um homem, Gregor Samsa, que acorda uma certa manhã e se percebe transformado em inseto. Não nos é revelado o motivo dessa transformação. O que se vê nas páginas seguintes é como o nosso protagonista e sua família encaram essa "mudança".
Minha sensação de estranhamento foi muito grande no inicio. Não é um livro tão fácil de ser digerido assim, mas aos poucos o leitor, assim como o próprio Gregor, vai se acostumando com a nova condição do personagem. Duro é ver a maneira como a família o trata em determinados momentos. Por mais asqueroso que o "inseto" possa parecer, há traços fortes de humanidade nele ainda, o que todos parecem esquecer.
A barata é um símbolo: a vida do Gregor não os satisfaz, mas ele é daqueles que "sofre calado", sabe como é? Um cara que trabalha duro num emprego que ele não suporta para pagar a dívida do pai (que fica em casa sem fazer nada o dia todo) e para no futuro custear os estudos da irmã que ele tanto gosta e que no final é umas das que mais faz pressão para que o "inseto" que era seu irmão vá embora. O interessante é que na pele do inseto é que o Gregor realmente se sente livre: ele sobre pelas paredes, vai aprendendo a usar as patas, e, melhor do que tudo, não tem que trabalhar.
Eu releria pra tirar ainda mais coisa do livro. É uma obra que exige um certo esforço, mas que te permite mil interpretações. Ainda tenho a cisma de que havia uma tensão sexual entre o Gregor e a sua irmã... não sei, mas fiquei com essa impressão. Tenho que reler pra tirar a prova (ou não).

Diante do conhecimento geral sobre o livro, diria que seu pensamento atual sobre A Metamorfose mudou muito após a leitura?
Luan: Sim, antes da leitura, eu achava que era um daqueles livros clássicos em que o autor misturava filosofia com ficção e acabava rendendo um caldo sujo e incompreensível. No final das contas, não é nada disso. "A Metamorfose" é um livro sensível, indispensável e o mais interessante de tudo, plurissignificativo. Não é uma leitura fácil (a Literatura em geral nunca é), mas vale muito a pena ser lido.

Quanto à sensação de estranhamento que mencionou, foi uma dificuldade em que sentido? Por enredo, escrita, ambientação (ou outro)? O livro chegou a bater de frente com algum ideal seu? Isso interferiu durante sua leitura?
Luan: Os próprios acontecimentos do enredo já causam esse estranhamento (um homem acorda na forma de inseto? Como assim?). Eu sempre tive a ideia de que a família seria a base de tudo e acho que o Gregor compartilha essa ideia comigo. Mas ver a forma como todos os membros da família exploravam o pobre filho, obrigando-o a se manter num emprego detestável para sustentar sozinho o lar me fez refletir muito até onde vai o amor familiar.
(Isso interferiu) Um pouco. À medida que me acostumava à figura do inseto Gregor, eu me sentia ainda mais enojado pelos outros membros da família. Isso fez eu repugnar um pouco o final (não vou contar o final hahahaha).

(Peter Kuper adaptou a obra para os quadrinhos. Mais cenas podem ser vistas aqui - contém spoilers)

E se você se visse na condição do protagonista? E na condição de algum familiar? Tipo, de repente você é irmão ou pai de um inseto. Qual seria sua preferência?
Luan: Não faço a mínima ideia do que eu faria. Nem gosto de pensar nisso hahahahahaha. Acho que por mais difícil que possa ser (na condição de algum familiar), eu tentaria continuar enxergando-o como um ser humano... não sei, eu não arrumaria uma maçã no meu filho como o pai do Gregor fez.
Acho que ser um inseto é bem ruim, mas lidar com um ente querido inseto é bem pior.

Que ideologia você sentiu ser bem forte? Como ela repercutiu em você?
Luan: Há uma crítica forte do Kafka ao capitalismo no livro: um homem que é forçado a estar no emprego que ele não gosta apenas para manter o status e conseguir sustentar a família: esse é o Gregor. Percebe-se também que ao virar inseto, a principal preocupação do nosso protagonista é o que o chefe vai achar se ele chegar tarde no serviço. Gregor é facilmente substituído quando o chefe descobre a nova "faceta" do personagem.
(Isso repercutiu em) Muita reflexão. Confirmar que os pontos negativos do capitalismo não são de hoje, que eles já estavam presentes, já estavam prejudicando pessoas lá no comecinho do século XX, num país bem distante do nosso foi bastante interessante. Fiquei imaginando também o quanto de nós não queríamos acordar insetos pelo menos uma vez na vida (tanta gente reza pra acordar doente) só pra não ter que levantar cedo pela manhã, só pra não ter que pegar um ônibus lotado naquele dia para ir ao trabalho.

O que diria ser inesquecível em A Metamorfose?
Luan: Acho que a cena final, por mais que eu tenha gostado muito dela. Uma das últimas coisas que a irmã fala para/sobre o Gregor ficaram muito na minha cabeça, vai ser complicado esquecer.

Consegue imaginar essa história se passando na atualidade? Como acha que a sociedade iria lidar?
Luan: Acho que o Gregor é o reflexo do homem moderno, logo “A Metamorfose” é um livro muito atual. Agora do ponto de vista do enredo, um homem virando inseto... não consigo imaginar isso, e acho que nem é tão bacana se pensar assim. A distância entre a literatura e a realidade é o que faz com que as pessoas continuem lendo e contando histórias.

Há algum trecho que queira destacar?
Luan: Desculpe, mas acabaria contando um grande spoiler (risos). Como já falei gosto muito de uma das últimas coisas que a irmã fala sobre/para o Gregor. É forte, é pesado e revela muito sobre os pontos fracos de toda aquela família. Interessante que esse trecho em especial me lembra um dos trechos da música O Vento, do Los Hermanos: “não te dizer o que eu penso, já é pensar em dizer”.

Houve alguma música que marcou sua leitura – ou lembrança dela?
Luan: Além do Vento, dos Hermanos, eu fiquei imaginando que esse livro poderia ter uma trilha sonora toda feita pelo Yann Tiersen. A dor e a liberdade do Gregor seriam ainda mais deliciosamente sentidas por mim.

Complete: “O livro é legal, mas...”?
Luan: O livro é legal, mas Kafka o achava uma porcaria (risos). Vai entender...

~~~~~~;~~~~~

E aí, também ficaram remexidos com Kafka? Quais eram/são suas ideias sobre A Metamorfose?


O que eu conhecia sempre foi pouco, minha curiosidade era mais pela questão do inseto e da reação das pessoas. A simbologia da qual o Luan comentou também, e agora parece mais forte na minha cabeça isso de humanidade. Gosto de temas sociais, então acho que já tenho uma queda (?) (rs) Decerto também já fico com umas teorias conspiratórias pra quando topar com esse livro. Obrigada, Luan, adorei o papo!

Espero que nossos leitores também tenham gostado.

Interessados em participar de uma entrevista, dentro dos citados requisitos, só mandar nome, um contato de rede social (FB ou twitter), o nome do livro e do autor para marykleris@hotmail.com, assunto Littera Feelings.

Até o próximo post,

#VAIBRASIL


Kleris Ribeiro.
 
Ana Liberato