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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Resenha: “A coragem de ser imperfeito” (Brené Brown)

Tradução de Joel Macedo
Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é pode levá-lo a uma vida mais plena 
[...] Lynne escreve:Para mim e para muitos de nós, o primeiro pensamento do dia, ainda na cama, é: “Não dormi o suficiente.” O seguinte é: “Não tenho tempo suficiente.” Esse pensamento de não suficiência vem a nós automaticamente, antes mesmo de podermos nos dar conta de sua presença ou examiná-lo. Passamos a maior parte de nossas vidas ouvindo, explicando, reclamando ou nos preocupando com o que não temos em quantidade ou grau suficiente. (...) Antes de nos sentarmos na cama, antes de nossos pés tocarem o chão, já nos sentimos inadequados, já ficamos para trás, já perdemos, já damos falta de alguma coisa. E quando voltamos para a cama à noite, nossa mente recita uma ladainha de coisas que não conseguimos ou não fizemos naquele dia. Vamos dormir com o peso desses pensamentos e despertamos para lamentar mais faltas. (...) Essa situação interna de escassez, essa tendência mental à escassez, habita no âmago do ciúme, da cobiça, do preconceito e de nossas interações com a vida.
 A escassez, portanto, é o problema de nunca ser ou ter o bastante. Ela triunfa em uma sociedade onde todos estão hiperconscientes da falta.

Por Kleris: Brené Brown. Que mulher maravilhosa. Gratidão forever a esse livro, ao seu carisma, palavras e palestras – quando puder, visite o site do TED aqui e aqui. É... iluminador. Revelador. Não tinha uma boa ressaca dessas há muito tempo. Com certeza vou guardar todos os sentimentos, que aqui se revolveram, num potinho <333 
Viver plenamente quer dizer abraçar a vida a partir de um sentimento de amor-próprio. Isso significa cultivar coragem, compaixão e vínculos suficientes para acordar de manhã e pensar: “Não importa o que eu fizer hoje ou o que eu deixar de fazer, eu tenho meu valor.” E ir para a cama à noite e dizer: “Sim, eu sou imperfeito, vulnerável e às vezes tenho medo, mas isso não muda a verdade de que também sou corajoso e merecedor do amor e aceitação.”

Trombei com A coragem de ser imperfeito ao perceber que Mais forte do que nunca tinha um livro introdutório, então resolvi lê-lo primeiro, pra não me sentir perdida com algumas referências. Aliás, há outro livro anterior, A arte de ser imperfeito, que ainda não pude ler, mas A coragem, conforme a Brené mesmo fala, parece ser mais conclusivo. Melhor decisão, pois assim entrei em contato com o melhor da autora. 
A maior certeza que eu trouxe da minha formação em serviço social é esta: estamos aqui para criar vínculos com as pessoas.

Para quem nunca ouviu falar nessa mulher, ela é uma pesquisadora. Na conferência do TED, ela se autodenomina pesquisadora-contadora de histórias :)) Quando ingressou em Serviço Social, logo voltou seus estudos para a conexão humana, que, majoritariamente, se baseou em entrevistas. Os livros, na verdade, são frutos dessa longa pesquisa, onde disserta sobre vínculos e comportamento humano. 
Na manhã seguinte à palestra, acordei com uma das piores ressacas de vulnerabilidade da minha vida. Você conhece aquela sensação de acordar e tudo parecer bem até que a lembrança de ter se revelado demais invade a sua mente e você quer se esconder debaixo das cobertas? 
Uma das estratégias mais universais de entorpecimento é viver “loucamente atarefado”. Nossa sociedade aceitou a ideia de que, se estivermos sempre muito ocupados, a verdade de nossas vidas não nos alcançará. 
“Não são as suas ações, mas o motivo por trás delas que faz toda a diferença”.

Alguns preferem classificar como autoajuda, mas nem parece, vez que Brené escreve de uma maneira tão <333. Ela conversa e se conecta conosco sem trazer aquela impressão de “acredite em si mesmo e seja feliz”. Brown vai mais longe, mais fundo. Ao intercalar relatos da pesquisa, genuinamente gentis, e pontuar suas conclusões, somos levados a uma compreensão intensa do que são as relações humanas. Compreensão, na verdade, é uma palavra que representa muito este livro. 
Nós gostamos de ver a vulnerabilidade e a verdade transparecerem nas outras pessoas, mas temos medo de deixar que as vejam em nós. Isso porque tememos que a nossa verdade não seja suficiente – que o que temos para oferecer não seja o bastante sem os artifícios e a maquiagem, sem uma edição pronta para exibição. Eu estava com medo de subir ao palco e mostrar à plateia o meu verdadeiro eu – aquelas pessoas eram muito importantes, muito bem-sucedidas, muito famosas; o meu verdadeiro eu, por outro lado, é muito desordenado, muito imperfeito, muito imprevisível. 
Um oficial da SWAT se aproximou de mim depois da palestra e disse: “O único motivo de termos escutado é que você é tão ruim em se abrir e se mostrar quanto nós. Se não tivesse a mesma dificuldade para lidar com a vulnerabilidade, nós não confiaríamos em nada do que disse.”

Brené humaniza o mundo de novo. Desmitifica. Ela nos entrega uma noção intrigante dos mecanismos e comportamentos, dos mais simples aos mais complexos, assim como os destrutivos e construtivos. Isso certamente nos ajuda a decifrar melhor as motivações por detrás de ações mínimas das pessoas e procura maneiras de ir contra a cultura do mal-estar (vergonha, desvalorização, não se sentir o bastante, ira, conformismo, desmotivação, julgamento, crítica, medo, ansiedade, desconforto, baixa autoestima, dependências, depressão, etc). Para isso, devemos abraçar nossas imperfeições e desapegar de amarras que a sociedade criou e nos empurra a todo custo. 
Cada tática era construída sobre a mesma premissa: manter todo o mundo a uma distância segura e sempre ter uma saída estratégica. 
Ser “perfeito” e “à prova de bala” são conceitos bastante sedutores, mas que não existem na realidade humana. Devemos respirar fundo e entrar na arena, qualquer que seja ela: um novo relacionamento, um encontro importante, uma conversa difícil em família ou uma contribuição criativa. Em vez de nos sentarmos à beira do caminho e vivermos de julgamentos e críticas, nós devemos, ousar aparecer e deixar que nos vejam. Isso é vulnerabilidade. Isso é coragem de ser imperfeito. Isso é viver com ousadia.

A coragem de ser imperfeito é uma leitura de tirar o fôlego. Um tapa na cara pra acordar! Também é tiro, porrada e bomba, te deixa no chão. E ainda assim, um abraço. Conforto. Esperança. Aceitação. Gratidão. Tudo isso pra nos mostrar que é preciso encarar a vulnerabilidade, pois ela é chave para tudo nessa vida. Para a coragem, a criatividade, a inovação, a ousadia, a vida plena. É um desafio universal. 
Abrir mão de nossas emoções por medo de que o custo seja muito alto significa nos afastarmos da única coisa que dá sentido e significado à vida. 
Vulnerabilidade é incerteza, risco e exposição emocional. 
Eis o paradoxo: vulnerabilidade é a última coisa que quero sentir em mim, mas a primeira que procuro no outro. 
A vontade de acreditar que o que estamos fazendo tem importância é facilmente confundida com o estímulo para sermos extraordinários.

Com certeza você vai fechar o livro com sensação de “por que não li antes???”; porque ele é maravilhoso assim. E prepare os marcadores, vai precisar de muitos deles! Até então, só esses livros três acima comentados foram publicados no Brasil. Já quero todos publicados! São de pessoas como ela que a gente precisa nesse mundo e palavras como as dela, espalhar sempre que possível. 
Quando a vergonha se torna um estilo de gerenciamento, a motivação vai embora. Quando errar não é uma opção, não existe aprendizado, criatividade ou inovação. 
O resultado de viver com ousadia não é uma marcha da vitória, mas uma tranquila liberdade mesclada com o cansaço gostoso da luta. 
Todos somos muito gratos pelas pessoas que escrevem e falam de seus problemas, fazendo com que nos lembremos que não estamos sozinhos. 
Costumo dizer que plenitude é como uma estrela guia: nós nunca realmente a alcançamos, mas sabemos que estamos indo na direção certa.

Até a próxima!


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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Resenha: “Sejamos Todos Feministas” (Chimamanda Ngozi Adichie)

Tradução de Christina Baum


Por Kleris: Acho que podemos resumir esse livro em “minutinhos de uma LEITURA NECESSÁRIA”. É incrível como às vezes estamos tão envolvidos em conhecer mais do feminismo e entendermos suas verdades e, por outro lado, muita gente não sabe nem pra onde vai, o que é, do que realmente se trata. Assim Chimamanda te chama pra conversar sobre o movimento e por que todos devemos ser feministas – independente de sermos homens ou mulheres. 
Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar “normal” que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens. 
Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoas mais qualificada para liderar não é a pessoas fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem quanto uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.

A edição é curtinha e é uma adaptação de um discurso feito pela autora numa conferência do TEDxEuston (uma iniciativa destinada à disseminação de ideias). Você pode assistir a palestra no youtube, inclusive. O conteúdo é altamente esclarecedor.

A partir de vivências, o ensaio corre fácil como a fala de Chimamanda, muito carismática também. Enquanto lia, parece que estava de fato ouvindo sua voz e assistindo seu riso – já tinha visto sua conferência sobre O perigo de uma história só (assista aqui), outro discurso que toca nos estereótipos, só que no quesito literário. Vale muito a pena ler, disseminar seu discurso e, principalmente, levar conhecimento a quem nada compreende. 
Mas o que realmente conta é a nossa postura, a nossa mentalidade. E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero? 
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

Dá vontade de comprar centenas deles e distribuir ;)

Você pode comprar a versão impressa (é uma edição em pocket, coisa mais linda!) ou versão digital, pela Amazon, um ebook permanentemente gratuito; acesse aqui.
Ela não conhecia a palavra “feminista”. Mas nem por isso ela não era uma. Mais mulheres deveriam reivindicar essa palavra. O melhor exemplo de feminista que conheço é meu irmão Kene, que também é um jovem legal, bonito e muito másculo. A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: “Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar”. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar.

Até a próxima!


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Ana Liberato