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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Resenha: "Ele - Quando Ryan conheceu James" (Elle Kennedy & Sarina Bowen)

Tradução: Lígia Azevedo

Sinopse: James Canning nunca descobriu como perdeu seu melhor e mais próximo amigo. Quatro anos atrás, seu tatuado, destemido e impulsivo companheiro desde a infância simplesmente cortou contato. O que aconteceu na última noite daquele acampamento de verão, quando tinham apenas 18 anos, não muda uma verdade simples: Jamie sente saudade de Wes.
O maior arrependimento de Ryan Wesley é ter convencido seu amigo extremamente hétero a participar de uma aposta que testou os limites da amizade deles. Agora, prestes a se enfrentarem nos times de hóquei da faculdade, ele finalmente terá a oportunidade de se desculpar. Mas, só de olhar para o seu antigo crush, Wes percebe que ainda não conseguiu superar sua paixão adolescente. 

Jamie esperou bastante tempo pelas respostas sobre o que aconteceu com seu relacionamento com Wes, mas, ao se reencontrarem, surgem ainda mais dúvidas. Uma noite de sexo pode estragar uma amizade? Essa e outras questões sobre si mesmos vão ter que ser respondidas quando Wesley e Jamie se veem como treinadores no mesmo acampamento de hóquei.



“Li este livro em uma sentada só — é tão bom! Se eu tivesse que selecionar duas autoras para colaborarem, não vejo dupla melhor que Bowen e Kennedy.” — Colleen Hoover, autora best-seller do New York Times
“A maneira como Sarina Bowen e Elle Kennedy desenvolvem o romance destes dois homens é atemporal e maravilhosamente real.” — Audrey Carlan, autora best-seller do New York Times




CONTEÚDO ADULTO
Fonte: Companhia das Letras

Por Eliel: Fiquei muito feliz em receber uma prova antecipada desse livro.Um pouco ansioso também, por esse ser o meu primeiro romance erótico. E comecei logo com um romance LGBTI. Com certeza, esse foi um livro completamente fora da minha zona de conforto que é basicamente constituído de distopias, fantasias e ficções.

Além de isso tudo ser novo para mim, é novo para a Editora Paralela também. Esse é o primeiro da temática no Brasil trazido pela editora.  Esse livro será lançado dia 29 de Junho e já está em pré-venda, só clicar no banner no final desse post e garantir já o seu!

Esse romance é uma parceria das autoras Elle Kennedy e Sarina Bowen. Elle já é bem conhecida pela série Amores Improváveis, ela tem experiência com livros de conteúdo adulto. Sarina também tem bastante experiência com esse tema e em com parcerias, principalmente de Elle. O que esperar dessas duas feras de romances hot quando os protagonistas são dois homens másculos jogadores de hóquei? Eu fiquei bem surpreso de como elas desenrolaram a trama.

É engraçado - tenho certeza de que todo mundo se arrepende de algo que já disse. Um insulto que dirigiram a alguém. Uma confissão que preferiam não ter feito. Talvez, não sei, uma piada insensível que gostariam de não ter contado.
A frase de que eu me arrependo? Vamos ver um pornô.

Iremos acompanhar a história de Wesley Ryan, um grande atacante de um time de hóquei na faculdade e promissor atleta profissional, e James Canning, um ótimo goleiro de hóquei e com futuro tão promissor quanto o do seu melhor amigo na adolescência. Cada capítulo é contado do ponto de vista de uma das personagens (ao melhor estilo Martin que eu curto muito hahaha).

Ryan Wesley (Wes) é um gay assumido e isso não é um grande problema para ele, seus colegas de time não tocam no assunto e nem se importam com quem ele dorme. A sua relação familiar não é a mais perfeita, mas eles também não influenciam sua vida. Ele já é um homem crescido e sabe se virar sozinho. 

Jamie Canningn não tem ideia do tipo de poder que exerce sobre mim.

James Canning (Jamie) é o caçula de uma família de seis irmãos fissurados em futebol americano e o hóquei foi a única maneira que encontrou para se destacar. Uma família muito unida que sempre estão se comunicando e fortalecendo os laços. Jamie tem um futuro promissor como goleiro profissional de hóquei. Devo dizer que ele é hétero, porque isso fará bastante sentido nesse romance.

Depois da tarde que tive, tenho certeza de que sua perplexidade não chega nem perto da minha.

Os dois se conheceram quando eram apenas meninos em um acampamento de hóquei e se tornaram melhores amigos desde então. Todos os verões passaram juntos até que a amizade ficou abalada por um acontecimento no último verão. Quatro anos depois do que aconteceu (só não conto porque é spoiler) eles se reencontram em um campeonato e tem muita coisa para resolver.

Mas não posso. Só posso agir como homem, apertar a mão dele e dizer que é bom vê-lo de novo. Posso encarar aqueles olhos castanhos que me desarmam e pedir desculpas por ser um imbecil. Depois posso pagar uma bebida e tentar puxar um papo sobre esportes ou qualquer outro assunto seguro.

O fato de Jamie ter sido o primeiro cara que amei e que fez com que eu encarasse verdades assustadoras relacionadas a mim mesmo... Bom, nesse assunto não vou tocar.
E então meu time vai acabar com o dele na final. E é assim que deve ser.

Entre muitos altos e baixos nessa relação de amizade, (muitos mesmo!) eles irão coisas descobrir sobre sua sexualidade, família, preconceito e perdão. Apesar das cenas hot, é um romance muito sincero. As autoras conseguem trazer muito da realidade para as páginas. Uma coisa que gostei muito foi que as personagens não são esteriótipos e sim pessoas que podemos encontram no dia-a-dia, são pessoas comuns com desejos comuns e reações comuns. Embora a história não seja nada comum.

A leitura é bem fluída e leve. Se prepare que as cenas hot são bem detalhadas. Em resumo, é um livro bem interessante que eu recomendo, mas apenas para os maiores de 18.

A data de publicação desse post (28 de Junho) é muito importante para a comunidade, pois:

"é o Dia do Orgulho LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex), data celebrada e lembrada mundialmente, que marca um episódio ocorrido em Nova Iorque, em 1969. Naquele dia, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn, até hoje um local de frequência de gays, lésbicas e trans, reagiram a uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência.O levante contra a perseguição da polícia às pessoas LGBTI durou mais duas noites e, no ano seguinte, resultou na organização na 1° parada do orgulho LGBT, realizada no dia 1° de julho de 1970, para lembrar o episódio. Hoje, as Paradas do Orgulho LGBT acontecem em quase todos os países do mundo e em muitas cidades do Brasil ao longo do ano". (Anistia Internacional)
E amanhã, 29 de junho de 2018, esse livro que chegou às minhas mãos será lançado! Garanta já o seu!

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segunda-feira, 26 de março de 2018

Resenha: “Louca para Casar” (Madeleine Wickham)


Tradução de Alice França

Para Kleris: Como uma chicklitter de coração, não teria livro melhor pra começar o ano. Estava, aliás, precisando de um romance assim, bem gostosinho. Louca para casar calhou de esperar cerca de quatro aninhos na minha estante porque da última vez que o peguei, fora totalmente do clima, não rolou. Agora só penso em renovar meu estoque de chick-lits, pois de tempos em tempos preciso de doses cavalares de amorzinho assim.

Em seus 18 anos, Milly se aventurou num curso profissionalizante em outra cidade, e lá conheceu seu futuro marido, Allan. Mas não era um casamento comum... ou real. Eles casaram para que Allan pudesse ficar no país e ficar com Rupert, sua grande paixão. Após voltar pra casa, Milly nunca mais os viu.

Ao passar 10 anos, Milly está para subir o altar com Simon. Aquele casamento da juventude meio que foi esquecido, abandonado... apagado. Era o que Milly achava, sem se ligar dos trâmites legais e que poderia estar cometendo bigamia. O destino (in)felizmente traz alguém do passado para recobrar a consciência da mocinha e tratar de colocar desespero resolver a situação – antes que alguém descubra.

Enquanto Milly se revira para cuidar dos preparativos do casório, lidar com a família e suas crises, Madeleine nos leva para um significativo e maravilhoso passeio pelos relacionamentos de cada personagem envolvida nesta trama de família.

Primeiramente, a autora caprichou MUITO na construção da história e narrativa. Ao explorar de maneira primorosa os pontos de vista, ela instiga e guarda cada bomba que AAAAAAAAAAAAAAA! Mesmo na gana de querer sempre saber de um e outro personagem, o suspense da narração se torna algo tão gostoso que não te deixa largar o livro por coisa nenhuma.

Mas o que mais impressiona é como Madeleine retrata a vulnerabilidade de seus personagens e como se utiliza de uma situação para despertar a todos de suas realidades. Nesse sentido, sua voz narrativa funciona quase como um microscópio emocional que nos conduz perfeitamente às emoções e papeis de cada um na história. E assim se pauta o status, a instituição do casamento, as insatisfações pessoais, problemas familiares, preconceitos, as maneiras para agradar pessoas e as maneiras de ser feliz. 
Mas não era. Ele precisava de mais, queria mais. Desejava uma vida diferente, antes que fosse tarde. 
— [...] Quer dizer que o seu relacionamento perfeito não é tão perfeito como você pensava. E daí? Isso significa que você tem que jogá-lo fora, descartá-lo?

Não é uma mera história sobre casar e casar por status, ou de que o casamento deva ser uma relação pautada em regras (sociais ou religiosas), mas entender como todos têm seus problemas e que devem lidar não só com as consequências de suas escolhas, mas com seus reais sentimentos sobre tais escolhas. Chamada para tortas de climão? Com certeza!

Minha admiração pela Sophie Kinsella – sim! – aumentou. Para quem não sabe, Madeleine é o nome real oficial da nossa amada Sophie. Sem deixar suas tramoias de Kinsella de lado, Madeleine aqui desenvolve com uma escrita suave, realista e sóbria – sem aquele típico desespero ou mel exagerado, sabe?

Geralmente ela me deixa a sensação de estar sempre à frente de tudo. Não foi muito diferente em Louca para casar – que, me perdoem, me parece um título injusto para tal obra. Com toques de girl power, desromantização de instituições sociais, feminismo e femismo, love is love, e conflitos, muitos conflitos internos, Madeleine dá um show de ficção. 
Sem a intenção de enganá-lo, mas também sem querer desapontá-lo, ela lhe permitiu formar uma imagem que, sinceramente, não era de todo verdadeira. [...] Tudo o que era precisava era mudar o modo de se vestir, fazer alguns comentários inteligentes ocasionais e permanecer discretamente calada o restante do tempo. 
— O que estou dizendo é que não existe casamento baseado na verdade — corrigiu Esme. — Felicidade é outra coisa.  

Destaque para a personagem principal, Milly, que apesar de ser a mocinha confusa, é uma heroína e tanto. Madeleine, aliás, trabalha bem essa questão de impressões e narrativas que pessoas têm de outras pessoas. Rupert, Isobel, Simon, Allan, James, Olivia e – vá lá – Harry também não ficam pra trás. Só sei que foi difícil deixá-los ao finalizar o livro. Você quer descobrir tudo, acompanhar tudo, pirar com tudo, menos deixar o livro acabar. 
— Não vivo para o trabalho. — Isobel pousou a caneca na mesa com força. — Sou apenas uma pessoa que trabalha.
— Eu não quis dizer...
— Mas disse! — retrucou Isobel, exasperada. — Vocês pensam que minha vida se resume a isso, não é? Uma carreira e nada mais. Vocês esqueceram todos os outros aspectos.

Por fim, Louca para casar é aquele livro que sabe ser amorzinho, mas sabe também nos deixar em reflexão com nossos ideais internos. Recomendadíssimo! 
— Tenho certeza de que você e Milly serão muito felizes. Nem todo mundo tem a mesma sorte.
— Não é uma questão de sorte — retrucou Simon furioso. — Sorte não conta! — Ele fitou James e Olivia. — O que vocês acham que faz um casamento dar certo?
— Dinheiro — respondeu Olivia antes de dar uma gargalhada. — Brincadeira!
— É cumplicidade, não é? — perguntou Simon. Ele se inclinou para frente com ar sério. — Compartilhar, dialogar, conhecer um ao outro profundamente.



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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Resenha: “Louco Amor de Fã: um romance um tanto incomum” (Sheila Lima Wing)

Por Kleris: Depois de uns meses agitados e intensos, tudo o que estava buscando era algo bem leve e divertido – de uma ou duas sentadas de preferência. Foi nessa procura pela próxima leitura que conheci Louco Amor de Fã da Sheila Lima Wing, uma novelinha ideal para o descanso.

Maria das Dores – ou melhor, Madori – nunca conseguiu ser próxima das irmãs, nem do pai. Suas personalidades, caráter e gostos apenas não batiam. Mas Madori tentava suas formas de se aproximar... Numa delas, teve sua primeira experiência de fangirl, e por saber o quanto suas irmãs curtiam ser fãs de algo, Madori foi contar sobre como se apaixonou por certo colunista de uma revista juvenil, e que sua cartinha de fã fora respondida pelo próprio! As irmãs não perderam tempo em estragar todo o momento. A mágoa de menina foi tanta que jurou não mais gostar de nada, nem voltar a se aproximar das irmãs.
Ainda que viajasse por aquelas páginas multicoloridas e me divertisse vez ou outra, a certeza que tinha até então era a de que aquela coisa de ser tiete nunca faria parte de mim.

E assim elas cresceram, ao meio de uma situação familiar que separou seus pais. As irmãs tomaram partido do pai, Madori da mãe. Assim que atingiu a maioridade, nossa protagonista deu no pé para dividir uma casa com a melhor amiga. Entramos na história quando está chegando o casamento de uma das odiadas irmãs, em que Madori tem de marcar presença e ainda lidar com um convidado inesperado em sua casa – um cantor que pagaria pela estada a quantia necessária para ela se libertar de vez do pai. Que, aliás, era o crush do momento de sua melhor amiga. Mas Sheila Wing lhe reserva um fim de semana de muitas reviravoltas que vai remexer com seu passado e presente como nunca.

I feel you, Maria! #empatia

Com uma escrita gostosinha, Louco Amor de Fã chega com uma historieta inusitada. Bem simples, a noveleta mexe de diversas formas com nossos ideais de família, pertencimento, além de preconceito, apesar de ter alguns personagens estereotipados. Sheila também brinca com o clichê e resolve dá um nó em nossas impressões. Suas pistas são danadas, não entregam totalmente de cara, induzem pra um lado e outro, e a saída para a história me surpreendeu.

Maria é uma personagem um pouco amarga e vive na defensiva – com razão – e dentre os outros personagens, quem se destaca é Karol, que entra na trama para intrigar os leitores. Através dessa relação que praticamente toda a história se movimenta.

Vez que Madori é também uma leitora, há variadas menções de leituras (nacionais, principalmente, em claro apoio a nossa literatura), além de referências que vão da cultura pop à otaku. Ao momento destas notas, no entanto, diria que escrita precisa se firmar mais um pouco, para não parecer algo solto, fora alguns cuidados com o ponto de vista, o que dão uma ligeira impressão de fanfic à história. 
(“Você tem o Shimura Danzou e eu tenho minha Dolores Umbridge, viu? brincou ele”)

Por outro lado, as citações de finais de capítulo, com links e perfis referenciados de outros autores, dão um plus ao que está sendo retratado. É, mais uma vez, uma forma de a autora demonstrar seu apoio a nossa literatura. Tem até homenagem direta! Quem conhece, percebe logo de cara.
“Ter outros sentimentos vai depender de quanto amor vive em você”Dâmaris Sena
Instagram @poestisadequarto


Louco Amor de Fã fala sobre nossa necessidade de se encontrar no outro, de ser aceita pelo que é, de respeitar e valorizar as pessoas e suas escolhas, de se libertar de amarras, e sobre ser fã e não se fechar para aquilo que se gosta por conta do julgamento de uma ou outra pessoa. Simples e à sua maneira, Sheila nos oferece uma leiturinha tragicômica, relax e com toques de mistério, excelente para quando você tá saindo de uma baita ressaca.
— O nome todo dele é Teodoro Queiroz? — perguntou ela quando terminou a leitura.
— Acho que sim. É o que diz na primeira matéria que eu li.
— Parece nome de avenida... — comentou ela com uma careta.

Para acessar o livro na Amazon, clique aqui.
(ele está no Kindle Unlimited)

Para conhecer mais livros da autora, clique aqui.
Visite o site da autora aqui.


Até a próxima!

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Interrogação #13 – Um preconceito literário silencioso

Com Camila M. Guerra, autora convidada


Interrogação é uma coluna do Dear Book que recebe convidados para refletir o nosso momento enquanto ideias, hábitos, panoramas e manifestos culturais. A cada post, uma pergunta e uma opinião. Todo o conteúdo de resposta é de responsabilidade dos convidados. Sem periodicidade fixa, a coluna é organizada pela dear boss, Kleris Ribeiro.

Que preconceito literário lhe parece mais silencioso?

C: Correndo o risco de parecer incoerente, vou responder a esse desafio da Kleris iniciando meu raciocínio com um desafio também. Dê-me algumas linhas de crédito e acompanhe o desenrolar desta curta narrativa. Quando ela chegar ao fim, pense (e, se quiser, comente) se já viu algo do gênero por aí. Vamos lá:

Uma funcionária de uma empresa divide sua vida estressante entre as tarefas diárias junto a um chefe ultranervoso, os estudos e os pais doentes. Ela gosta de silêncio, histórias e solidão. Também gosta dos amigos, de um papo, das brincadeiras. Reserva alguns dias para estar com eles, mas, na maior parte das vezes, ela escolhe a leitura para relaxar no seu tempo livre. Da hora de almoço que lhe cabe, destina entre 30 e 40 minutos para ler e liberar a mente nas viagens longínquas e divertidas. Outros dias, decide estudar sobre os assuntos dos cursos que faz ou sobre as curiosidades que movem sua vida. Naqueles momentos, a mente se liberta do estresse e ela é feliz. O tempo passa e a protagonista dessa pequena história descobre que lhe arrumaram um apelido.

A narrativa acaba aí e eu gostaria de fechá-la com duas perguntas. Primeira: Qual apelido você daria para a moça? Faça um esforço e seja original, não vale o batido “CDF”. E, a segunda pergunta: Qual apelido você acha que arrumaram para ela?

Não sabe a resposta da segunda? Então aguarde um pouco, em algumas linhas você vai perceber.

Se não somos preconceituosos em um assunto, certamente somos em outros e não poderia ser diferente na literatura. As picuinhas literárias são incontáveis, estranhas, infinitas: entre leitores de clássicos e de livros comerciais, de literatura séria e literatura de entretenimento, entre os fãs de um autor e os fãs de outro, entre os diversos gêneros, entre os leitores de ficção e os de não ficção... Enfim, a lista é extensa, os motivos também.

O mais tácito deles, e o que permanece no topo da lista dos que causam mais estrago à literatura, é o preconceito contra a própria literatura. Ele existe e estende seus tentáculos para todos os lados. A leitura tem por aqui uma conotação bizarra e, para os inexperientes no assunto, caminha adornada por um fraque de arrogância e uma cartola de soberba. Para esses, não ler significa ser boa gente, simpático. Falam da importância da literatura, mas nas rodas de preconceito contra ela, crucificam-na como a uma rainha louca, a uma madame pomposa ou a uma peste avassaladora. Ler faz mal para a humildade.

Há quem não leia porque tem vergonha. Não querem correr o risco de parecerem superiores. Outros há que sentem orgulho de conquistarem o status de não leitores. Há alguns outros ainda que não tocam nos livros porque não precisam deles. O que, afinal, um monte de papel, ou de bits em um aparelho, poderia oferecer de tão fantástico ou de tão útil?

Para não me estender, não vou entrar no mérito do que está por trás de cada um desses tipos de pensamentos, basta dizer que eles existem, residem e resistem.

Acima do preconceito, no entanto, estão os conceitos que se formam com a leitura. É em busca deles que estamos todos nós que escrevemos. Em nome dessa busca travamos uma luta constante e, muitas vezes, inglória contra os pré-conceitos, concebidos com base em achismos, em medos e aversões, sem a pertinência da experiência. Estamos à procura dos conceitos, aqueles embasados em verdades próprias, em fatos experimentados, em conhecimento adquirido. Esses perduram e não há pré-conceito que os derrube.

Tocar um leitor é fazer a arte completar seu ciclo, que se inicia no coração de um e termina no coração de outro. Porque ler é despir-se de suas cascas e abrir-se para o que o outro tem a oferecer, é deixar-se tocar, aceitar a metamorfose e mudar. E, para isso, é preciso ter coragem de parecer amigo da soberba, mesmo recusando o fraque e a cartola a seu dispor. Ser você mesmo às vezes dói no outro.

A historinha narrada acima é verídica, sou testemunha, e a moça ganhou o apelido de metida a intelectual. 

Xô pré-conceito!


Formada em administração de empresas, atualmente divide seu tempo entre o trabalho de tradutora e a criação de histórias. Leitora assídua desde a infância, a escrita floresceu na adolescência, época em que nasceu seu primeiro livro, um infantojuvenil chamado O Caminho. Estreou em janeiro de 2015 na Amazon com seu primeiro romance A Última Chave – Realidade em um Mundo Paralelo (resenha aqui). Em seguida publicou seu segundo romance As Flechas de Tarian, o primeiro de uma trilogia ainda em desenvolvimento, e alguns contos. Atualmente continua escrevendo em tempo integral, seja traduzindo, blogando ou produzindo seus livros.



 

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Resenha: Para educar crianças feministas – um manifesto (Chimamanda Ngozi Adichie)

Tradução de Denise Bottman
Por Kleris: Imagino que após a palestra de Sejamos Todos Feministas (reveja resenha aqui), onde o discurso feminista puxou as cortinas da sociedade e plantou suas sementes, muitos puderam entender o que é o movimento, seus ideais, suas lutas. 

Mas isso foi só a introdução, uma centelha, que deixou diversas questões para discussão e compreensão real, do feminismo em si, do feminismo no dia a dia, de como reagir ante as lutas; e Para educar crianças feministas é esse passo seguinte. É uma resposta mais direta para algumas de nossas inquietações quando se trata de mudar o comportamento. 
Há alguns anos, quando uma amiga de infância – que cresceu e se tornou uma mulher bondosa, forte e inteligente – me perguntou o que devia fazer para criar sua filha como feminista, minha primeira reação foi pensar que eu não sabia.
Parecia uma tarefa imensa.
Mas, como eu me manifestara publicamente sobre o feminismo, talvez ela achasse que eu era uma especialista no assunto. [...] Em resposta ao pedido de minha amiga, resolvi lhe escrever uma carta, na esperança de que fosse algo prático e sincero, e também servisse como espécie de mapa de minhas próprias reflexões feministas. [...] Ainda assim, penso que é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens.

Ao falar de cultura, também falamos de educação. Nesse sentido, é bastante complicado criar uma “nova” noção de cultura quando se está tão mal acostumado a sensos nocivos, mais ainda por vê-los como “naturais” ou “normais”. Existem muitos projetos trabalhando nessa conscientização e reeducação social, mas uma coisa é certa neste cenário: nascemos todos machistas, misóginos e babacas, sem mesmo saber o porquê de assim nos comportar. Não precisamos, no entanto, esperar que as futuras gerações despertem - e tardiamente. Nós podemos promover a mudança desde o começo. 
Mas o que realmente conta é a nossa postura, a nossa mentalidade. E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero? (Sejamos todos feministas) 
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura. (Sejamos todos feministas) 
Se não empregarmos a camisa de força do gênero nas crianças pequenas, daremos a elas espaço para alcançar todo o seu potencial. Por favor, veja Chizalum como indivíduo. Não como uma menina como deve ser de tal ou tal jeito. Veja seus pontos fortes e pontos fracos de maneira individual. Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma.

Como Chimamanda nos conta, ela escreveu uma carta para uma amiga respondendo à grande questão de educar crianças como feministas. Apesar de poucas páginas e da leitura ser rápida (a edição é pocket), o conteúdo é para ser digerido lentamente. São MUITAS situações para repensar, refletir e despertar. É um exercício social. E tal qual, não dá pra pegar um conceito, aplicá-lo puramente e ter um resultado satisfatório, porque as situações não são prontas e possuem muitos detalhes de contexto. 
E entendo o que você quer dizer que nem sempre sabe qual deve ser a reação feminista a certas situações. Para mim, o feminismo é sempre uma questão de contexto.

Isso me lembrou bastante da série de livros da Brené Brown, que começa com conceitos sociais de vulnerabilidade (A arte de ser imperfeito), depois se discute identificá-los em contextos (A coragem de ser imperfeito, aqui) e então o exercício e aprendizados diários (Mais forte do que nunca, aqui). É uma escolha. 
Isso parece fácil, mas você se surpreenderia ao saber quantos nunca reconhecem os próprios sentimentos e emoções – apenas os descarregam. [...] A ironia é que, ao mesmo tempo que criamos distância entre nós e as pessoas ao redor, descontando tudo nos outros, ansiamos por laços afetivos mais profundos e por uma vida emocional mais rica. (Mais forte do que nunca) 
Cuidado com o perigo daquilo que chamo de Feminismo Leve. É a ideia de uma igualdade feminina condicional. Por favor, rejeite totalmente. É uma ideia vazia, falida, conciliadora. Ser feminista é como estar grávida. Ou se é ou se não é. Ou você acredita na plena igualdade entre homens e mulheres, ou não. [...] Mais preocupante ainda é a ideia, no Feminismo Leve, de que os homens são naturalmente superiores, mas devem “tratar bem as mulheres”. Não, não e não. A base para o bem-estar de uma mulher não pode se resumir à condescendência masculina.

É possível ler Para educar crianças feministas antes de ler o primeiro (Sejamos todos feministas) ou de assistir à conferência original, mas não é aconselhável se você não tem um bom embasamento dos principais ideais – pois pode haver um choque desfavorável, como o feminismo leve. No mais, o livro-carta é excelente para entender mais do posicionamento feminista. Como principiante (ainda), para mim o manifesto foi uma leitura iluminadora. Chimamanda é uma excepcional guia. Recomendadíííííssimo! 
Tente não usar demais palavras como “misoginia” e “patriarcado” com Chizalum. Nós, feministas, às vezes usamos muitos jargões, e o jargão às vezes pode ser abstrato demais. Não se limite a rotular alguma coisa de misógina – explique a ela porque aquilo é misógino e como poderia deixar de ser. 
Mas é uma triste verdade: nosso mundo está cheio de homens e mulheres que não gostam de mulheres poderosas. Estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração. E por isso ela é policiada. [...] Julgamos as poderosas com mais rigor do que os poderosos. E o Feminismo Leve permite isso.

Novamente, dá vontade de comprar centenas de exemplares e distribuir :) 
Todo mundo vai dar palpites, dizendo o que você deve fazer, mas o que importa é o que você quer, e não o que os outros querem que você queira. Por favor, não acredite na ideia de que maternidade e trabalho são mutuamente excludentes.


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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Resenha: “Sejamos Todos Feministas” (Chimamanda Ngozi Adichie)

Tradução de Christina Baum


Por Kleris: Acho que podemos resumir esse livro em “minutinhos de uma LEITURA NECESSÁRIA”. É incrível como às vezes estamos tão envolvidos em conhecer mais do feminismo e entendermos suas verdades e, por outro lado, muita gente não sabe nem pra onde vai, o que é, do que realmente se trata. Assim Chimamanda te chama pra conversar sobre o movimento e por que todos devemos ser feministas – independente de sermos homens ou mulheres. 
Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar “normal” que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens. 
Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoas mais qualificada para liderar não é a pessoas fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem quanto uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.

A edição é curtinha e é uma adaptação de um discurso feito pela autora numa conferência do TEDxEuston (uma iniciativa destinada à disseminação de ideias). Você pode assistir a palestra no youtube, inclusive. O conteúdo é altamente esclarecedor.

A partir de vivências, o ensaio corre fácil como a fala de Chimamanda, muito carismática também. Enquanto lia, parece que estava de fato ouvindo sua voz e assistindo seu riso – já tinha visto sua conferência sobre O perigo de uma história só (assista aqui), outro discurso que toca nos estereótipos, só que no quesito literário. Vale muito a pena ler, disseminar seu discurso e, principalmente, levar conhecimento a quem nada compreende. 
Mas o que realmente conta é a nossa postura, a nossa mentalidade. E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero? 
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

Dá vontade de comprar centenas deles e distribuir ;)

Você pode comprar a versão impressa (é uma edição em pocket, coisa mais linda!) ou versão digital, pela Amazon, um ebook permanentemente gratuito; acesse aqui.
Ela não conhecia a palavra “feminista”. Mas nem por isso ela não era uma. Mais mulheres deveriam reivindicar essa palavra. O melhor exemplo de feminista que conheço é meu irmão Kene, que também é um jovem legal, bonito e muito másculo. A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: “Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar”. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar.

Até a próxima!


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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Resenha: “Americanah” (Chimamanda Ngozi Adichie)

*Por Mary*: Quando recebi esse livro, fiquei um tanto incerta quanto a ele. Sabe quando você segura o volume como uma espécie rara a ser observada? De início, notei a bela capa que utiliza formas e cores que aliam o africano ao americano; e, logo depois, a contracapa com estampa étnica (muito bonita, por sinal). Li a sinopse, mas permaneci incerta e, em seguida, fiz algo que não costumo: fui pesquisar mais sobre a obra.

Veja bem, não gosto de ler resenhas antes para não me influenciar de algum modo, mesmo que indiretamente. Mas tentei saber mais sobre a autora, a publicação... essas coisas. Em meio a isso, acabei vendo algumas opiniões sobre este livro, que é elogiadíssimo tanto como obra de ficção, quanto no âmbito acadêmico. Confesso que isso me deixou um pouco intimidada. E se eu não gostasse? Eu sou do contra?

Como que enviado pelos deuses dos resenhistas, um ex-professor da faculdade postou sobre a obra no FB. E, bem, o cara – que é um chato de galocha – amou... e isso me deixou ainda mais intimidada. Para neutralizar isso, tive que deixá-lo esperando um pouco, porque não me sentia no clima (até já falei sobre maturidade literária na resenha de P. S. Eu te amo) e não queria correr o risco de ser injusta com um bom livro por simplesmente não estar em um momento literário condizente.

Creio que isso foi muito bom, porque Americanah é o tipo de livro despretensioso. Sinceramente, tenho um pouco de preconceito com livros demasiado pretensiosos. Quero dizer, parece que o autor constrói a história não por ela mesma, mas para chocar, ensinar ou para ser Cult. Por esse motivo, algumas vezes, histórias supervalorizadas são vendidas pela “imagem” intelectual transmitida, em vez de por sua qualidade.

Seguindo um caminho inverso, Chimamanda cria uma história profunda e substancialmente leve sem se tornar cansativa, ou como se quisesse nos empurrar goela abaixo um ensaio sobre etnia, raça e preconceito. Logo nas cem primeiras páginas, a autora consegue abordar política, fanatismo religioso, costumes, paternalismo e misoginia. 
“Minha mãe acusou o homem publicamente e ele ficou furioso e deu-lhe um tapa, dizendo que não ia aceitar que uma mulher falasse com ele daquele jeito. Então minha mãe se levantou, trancou a porta da sala de conferências e pôs a chave no sutiã. Ela disse a ele que não podia retribuir o tapa, pois ele era mais forte, mas que ele teria de pedir desculpas publicamente, na frente de todo mundo que vira o tapa nela (...). As pessoas diziam ‘Como ele pôde dar um tapa numa viúva?’, e isso a deixou ainda mais irritada. Disse que não deveria ter levado um tapa por ser um ser humano completo, não por não ter um marido para defendê-la.” 
Depois de treze anos vivendo nos Estados Unidos, Ifemelu está decidida a voltar ao seu país de origem: a Nigéria. Para tanto, se desfaz de seu apartamento, fecha um blog de sucesso e termina com o seu namorado americano, Blaine. Algo parece faltar e, de algum modo, Ifemelu acredita que essa parte que falta está na Nigéria, esperando-a. Sentada em um salão de beleza, Ifem relembra sua adolescência na Nigéria, seu namorado de escola e faculdade, Obinze, e os fatos que a levaram a morar nos Estados Unidos, bem como sua difícil adaptação ao ocidente, novos amores e, por fim, a necessidade insana de retornar.

Na Nigéria, Obinze recebe um e-mail de Ifemelu que mexe com ele muito mais do que gostaria. Apesar de estar casado e ter uma filha, não pode negar que jamais esqueceu seu primeiro amor (e nunca pôde compreender o motivo de ela ter se afastado). Mesmo depois de tantos anos – de ter construído uma fortuna considerável e se estabelecido – não consegue deixar de se perguntar “E se...?”. E a chegada de Ifemelu irá mostrar se tudo o que tiveram realmente ficou no passado ou se há alguma possibilidade de restaurar a ruptura causada pela distância.

Apesar de não seguir uma narrativa linear, Chimamanda consegue deixar tudo muito claro. Com capítulos bem marcados e partes igualmente bem delimitadas, o leitor não se perde e é como se a autora tivesse o feeling perfeito de puxar você para o caminho que ela quer que siga sempre que te sente perdendo o fio da meada. É bastante perceptível, nesse sentido, a sensibilidade da Chimamanda, que parece ter o compasso adequado para que a obra não perca o sentido ou fique maçante.

Por outro lado, o retorno de Ifemelu à Nigéria me pareceu pouco explorado. Isto é, boa parte do livro é dedicado a contar sobre o passado da protagonista, desde sua adolescência na Nigéria – perpassando pelos fatos que a levam a ir morar nos Estados Unidos – até os anos passados na América, quando decide retornar. Acontece que isso tudo toma, pelo menos, dois terços do livro e é apenas no último terço que ocorre a chegada de Ifemelu à sua terra natal. Até aí tudo bem, não fosse a sinopse dar a entender que o ponto central da obra é sua readaptação à Nigéria. Isso acontece? Sim! Mas de forma bem rápida. 
“Aisha fez Ifemelu se lembrar do que tia Uju disse quando finalmente aceitou que ela estava falando sério sobre voltar à Nigéria – Você vai aguentar? –, e a sugestão de que ela havia sido irrevogavelmente mudada pelos Estados Unidos a fez sentir como se sua pele estivesse cheia de espinhos.” 
No entanto, diante da magnitude da obra, não considero que esse detalhe possua tanta relevância. Narrada em terceira pessoa, Americanah é uma obra bem fundamentada, contada de forma ágil. A leitura flui. Se o tamanho assustar você, o medo vai embora logo no primeiro capítulo. É o tipo de livro gigante que, quando você se dá conta, já devorou metade das páginas.

Além disso, os personagens são muito humanos, muito verossímeis. A Ifemelu é cheia de defeitos, mas isso dá a ela uma carga de realidade indescritível. Obinze, um cara idealista e romântico, também está longe de ser perfeito. Sem dúvida, esse grau de humanidade deixa a obra ainda mais valiosa.

O único grande erro da Chimamanda foi esse aqui:

Duerdinhito? Sério? Tudo bem que brasileiro adora um nome complicado, mas Duerdinhito foi demais. Da próxima vez, tenta Wandherkleudysson. ;)


Não posso me esquecer de mencionar a ambientação, claro. É interessante como a autora aborda isso, fazendo piada tanto sobre o senso comum ocidental acerca da África, quanto à ocidentalização dos próprios nigerianos no que se refere à supervalorização dos costumes estrangeiros e a corrupção do país. Pari passu, estamos tão habituados à ponte aérea literária EUA-Inglaterra-(algumas vezes)Brasil, que um local “exótico” dá uma arejada na leitura.

Por fim, fiquei com a impressão de que alguns núcleos não foram completamente encerrados, o que me faz pensar que a autora quis deixar em aberto para um eventual segundo volume. Procurei algo a respeito, mas não encontrei nada. Sendo assim, se alguém aí souber alguma coisa, me conta, por favor!

Bom, Americanah tranquilamente pode ser indicado tanto para quem quer apenas um romance bacana para relaxar em um dia de chuva quanto para quem gosta de temáticas mais sérias, pois de uma forma bastante inteligente se faz uma reflexão perspicaz relativa a uma gama de temas complexos. Não perca tempo, conheça você também a Nigéria pelos olhos da nossa protagonista. 
“Obinze devia ter tomado as rédeas e começado a falar com Ginika, Kayode devia ter ido embora, Ifemelu devia ter ido atrás e o destino dos deuses teria sido cumprido. Mas Obinze falou pouco e Kayode teve que sustentar a conversa, com a voz ficando cada vez mais exuberante, e de tempos em tempos ele olhava de soslaio para Obinze, como quem desejasse incentivá-lo. Ifemelu não soube quando exatamente, mas, naqueles instantes, enquanto Kayode falava, algo estranho aconteceu. Um tremor dentro dela, uma revelação. Ifemelu se deu conta, de repente, de que queria respirar o mesmo ar que Obinze.”


*HABEMUS FILME*


Na verdade, ainda não habemus realmente filme, mas os direitos para o cinema foram comprados pela atriz Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz por Doze Anos de Escravidão (aqueeeela do vestido de pérolas roubado). Confesso que já super visualizei a Lupita no papel de Ifemelu e fiquei animada. Idubitavelmente, há bastante material para uma boa adaptação, mas, como bem sabemos, isso depende de diversos fatores. Mais uma vez, aguardemos.





 
Ana Liberato