Mostrando postagens com marcador Ensaios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ensaios. Mostrar todas as postagens
sábado, 8 de janeiro de 2022

Resenha: "Por que escrevo" (George Orwell)


Tradução de Claudio Marcondes

Sinopse: Breve coletânea de um dos maiores ensaístas contemporâneos, Por que escrevo traz textos sobre o poder dos livros e da leitura, a importância da linguagem e a necessidade de se escrever. Tudo isso com a habilidade característica do autor de 1984.

Seja demonstrando a falácia da linguagem política, dissecando o preço real dos livros ou proclamando verdades dolorosas sobre a guerra, os ensaios de George Orwell são atemporais e mostram sua relevância para qualquer período, país ou leitor.

Ao falar sobre o poder da escrita, o autor de A fazenda dos animais e 1984 analisa não só a própria produção, como também o papel que a literatura ― em seu sentido mais amplo ― exerce tanto na formação política do indivíduo quanto em sua forma de enxergar o mundo.

Incluindo os ensaios Por que escrevo, Política e a língua inglesa, Livros vs. cigarros e O leão e o unicórnio, esta edição traz uma seleta dos ensaios mais emblemáticos de um dos principais pensadores modernos.

Por Stephanie: Eu adoro a escrita do George Orwell. Admiro muito como ele consegue transmitir ideias com uma prosa simples. E neste pequeno livro de ensaios, intitulado Por que escrevo (assim como o primeiro dos quatro textos da obra), é possível ver essa característica do autor em sua forma mais pura.

Todas as linhas das obras sérias que escrevi a partir de 1936 foram escritas, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático [...].

Eu havia me interessado por esse livro pois acreditava que falaria a fundo sobre o processo de escrita, mas na verdade é uma obra muito mais política. Orwell discorre bastante sobre seus pensamentos a respeito da guerra, do capitalismo, socialismo, fascismo… e no meio de tudo isso, também fala um pouco sobre escrita, dando inclusive algumas (poucas) dicas para aspirantes a escritor.

Como eu já imaginava, foi muito fácil me deixar levar pela escrita do autor. Marquei diversas passagens ao longo da leitura, pois vários momentos foram impactantes e reflexivos para mim. Percebi que concordo muito com as visões de Orwell, e por esse motivo eu devo gostar tanto de suas obras de ficção.

Revolução não significa bandeiras vermelhas e confronto nas ruas; significa uma mudança fundamental no poder.

Porém, ainda que tenha sido uma experiência positiva, tenho que confessar que o primeiro ensaio foi o meu favorito, e o último, o mais difícil de ler pra mim. Acredito que Orwell foi me perdendo conforme se aprofundava demais em aspectos muito políticos, e talvez isso se deva pelo meu conhecimento que não é tão vasto assim no que tange a esses assuntos.

[...] Tudo o que sei é que os homens certos vão surgir quando o povo realmente os quiser, pois são os movimentos que fazem os líderes, e não o contrário.

Se você procura um livro sobre política com uma linguagem acessível, fica a recomendação!

Até a próxima, pessoal :)

Curta o Dear Book no Facebook
Siga o @dear_book no Twitter e o @dearbookbr no Insta
segunda-feira, 17 de junho de 2019

Resenha: "Gorda não é Palavrão" (Fluvia Lacerda)

Como ser feliz gostando do seu corpo como ele é
Por Kleris: Que livrinho para guardar no core <3

Tal qual um ted talk, “Gorda não é Palavrão” é um breve relato da modelo plus size Fluvia sobre gordofobia – discriminação essa que menospreza, marginaliza e negligencia pessoas pelo fato de serem gordas. Fluvia fala um pouco sobre a vida, e como e quando a gordofobia a atingiu em cheio, em uma visita ao Brasil. Mas isso fez com que ela apostasse mais no empoderamento de mulheres, algo que ela sempre teve referência desde cedo, mas a grande maioria não. 
Ser gorda nunca foi um problema na minha vida. [...] quando comecei a trabalhar com moda plus size, ninguém questionava os padrões de beleza impostos. Mas essa ideia já estava em mim. Sempre fui a menina para quem diziam: “Nossa, você é tão bonita! Se emagrecer, vai ficar perfeita!”. Só que, ao contrário do que acontece com a maioria das mulheres que ouve isso, eu não ficava triste ou encabulada. Não corria para chorar escondida ou malhar em uma academia qualquer. Para desespero da minha mãe, que sempre quis que fôssemos muito educados, eu respondia na lata: “Quem pediu a sua opinião?”.

Fiquei surpresa com como a modelo retrata o assunto, sempre muito positiva. Sua empatia e seu tom de “ué, qual o problema, não tô entendendo qual é a questão aqui, afinal, somos todos gente” fazem totalmente a diferença.

Embora seja uma leitura curtinha, Fluvia fala de diversas situações desse universo tóxico. Temos, por exemplo, a preocupação excessiva que mascara preconceitos, a moda que resiste em largar o osso de uma imagem não natural, pessoas que creem que são menos ou não estão vivendo até conquistarem um corpo que não seus. 
Sou gorda e não desrespeito ninguém. Por que preciso explicar que minha saúde está bem? Por que preciso justificar coisas que nenhuma modelo magra precisa? Ninguém pergunta a elas sobre o consumo de drogas para emagrecimento.

Temos também luz sobre o machismo, inseguranças que dão lucros às indústrias, preconceitos dentro da comunidade plus size e a força do ódio para atacar pessoas simplesmente por seus corpos. Fluvia não se aprofunda muito nos temas, mas deixa claro o suficiente o que é preciso ser dito e encarado sobre o assunto. 
Claro que o desafio é enorme. Por gerações, aprendemos a seguir condicionamentos machistas sobre como viver e que aparência ter. Esses conceitos são repassados de mãe para filha como algo normal e desejável. O resultado é que muitas mulheres com quem converso têm dificuldade em lidar com essas crenças enraizadas. Mesmo quem sabe que peso não é indicativo de beleza, saúde ou caráter, ainda tem dificuldade em superar valores associados às palavras “gorda” e “magra”.

Ler o livro só me faz pensar que muitos de seus pensamentos demorei séculos para abraçar (e ainda bem que abracei), e que gostaria de ter visto essa representatividade desde cedo. Sofrer pressão estética e gordofobia são coisas diferentes, mas intimamente ligadas. Muitos corpos sequer são gordos e são encarados como fora do padrão (além de motivo de paranoia constante), o que demonstra muita falta de noção – e amor-próprio, empatia, compaixão, autoaceitação. 
Como é possível que algo como o meu peso revele meus sonhos e tudo aquilo que almejo para minha vida? Como ele poderia definir meu caráter ou minha capacidade profissional? Como revelaria minha capacidade de amar? De ser uma boa mãe, amiga, filha, parceira?

Fato é: ninguém deve se sentir menor ou maior por seus corpos. Corpos não resumem ninguém e corpos diferentes não devem ser abominados. Lembro aqui de um post do perfil @naosouexposicao que dizia: “quando alguém quer emagrecer, o que ela realmente quer ser é aceita, amada, respeitada, ter sucesso, ser vista e ser livre. E isso é o que a cultura da dieta não pode dar a ninguém”. 
Como alguém pode se aceitar gorda? Como pode viver bem assim? Como pode se sentir bonita? Fomos adestrados a acreditar que ser gorda é o fundo do poço.

Levei um tempo para ler, um tanto receosa de haver situações gatilho quanto minha relação com a pressão estética/gordofobia, e fiquei muito feliz de ter encontrado uma leitura tranquila. É, aliás, um livro válido de revisitar quando velhas questões retornarem. Os destaques de texto da própria edição vão super ajudar!




Vale ainda ter esse livríneo em bibliotecas, escolas, na estante, e principalmente perto de garotas em desenvolvimento – amigas, irmãs, primas, filhas, netas, etc. Fluvia é aquela fada sensata que dá tapa de luva e pisa com bondade. Seu livro é simples e ao mesmo tempo, essencial. 
Se tem algo que gostaria de conseguir transmitir para mulheres do mundo inteiro é como meu relacionamento com meu corpo é simples. Nunca consegui enxergar nada de errado nele. Por mais que pessoas insistissem em me fazer acreditar que não poderia ser feliz comigo mesma, que eu deveria devotar minhas energias, meu dinheiro e meu emocional a essa loucura desenfreada da busca de ser magra, jamais consegui aderir. 
Uma palavra não pode fazer tanto mal assim a alguém. Ou, pelo menos, não deveria fazer.

Se recomendo? Com toda a certeza e para todos os corpos!

Para conhecer mais a Fluvia, acompanhe ela pelas redes sociais:

Até!


Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram


Compre na Amazon através do link e continue ajudando o Dear Book a crescer:

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Vale a Pena Ler de Novo: “Romancista como Vocação” (Haruki Murakami)

Neste mês de Janeiro estamos em recesso, mas preparamos para você, caro leitor, uma seleção com nossas resenhas mais acessadas de 2017.
Enquanto isso, prepare-se para todas os lançamentos e novidades de 2018.

Tradução de Eunice Suenaga
Por Kleris: Trabalhar com livros é se envolver com sonhos de muitos. Expectativas. Universos compartilhados. Na literatura então, temos um vasto campo de mundos e entremundos para os quais somos transportados. Ao longo do fazer literário, surgem aqui e acolá alguns livros que se dedicam a tais passeios – é, aliás, um tipo de viagem que curto muito – e Romancista como vocação, do Haruki Murakami, é um desses livros.

Geralmente de ensaios, essas leituras trazem reflexões sobre uma experiência da vida literária. Há aqueles que brinquem, que pautem uma discussão mais séria, uns mais técnicos, outros que voam alto demais... Lembro-me de um trecho de O céu de Lima (Juan Gómez Bárcena), também da editora Alfaguara (resenha aqui), que mencionava livros/guias para escritores, comumente ignorados por eles mesmos, por não curtirem as supostas “amarras” ali descritas (o que pode, não pode, dentro da literatura). 

Mas, por mais que você não conheça o trabalho do Murakami (como eu), com certeza Romancista como vocação não está dentre estas categorias. Sua humildade, carisma e senso nos entregam uma leitura bem equilibrada do ofício de romancista. 
No mundo existem pessoas que montam a maquete de um navio dentro de uma garrafa usando uma longa pinça, e demoram quase um ano nessa tarefa. Escrever romances talvez seja parecido. 
Ao fazer um romance, os escritores geralmente convertem em narrativa o que existe no interior da sua consciência. O que existe na consciência e o que foi expresso são diferentes, e eles usam essa diferença como uma alavanca para criar o dinamismo na narrativa. É um trabalho cheio de rodeios, que demanda muito tempo. 
Em minha opinião, quem quer ser escritor precisa ler muito, antes de qualquer coisa. Peço desculpas pela resposta bastante trivial, mas acho que a leitura é o treinamento mais importante e indispensável para quem quer escrever. Para fazer um romance é preciso compreender, de forma quase física, como eles são formados. É uma coisa óbvia; é o mesmo que dizer: “Para fazer uma omelete, é preciso quebrar os ovos”. [...] Passar por essas experiências é o mais importante. Corresponde a criar a bagagem indispensável para um romancista.

Acho que o que mais gostei neste livro foi esse caráter sóbrio para tratar do escritor em termos de vocação e trabalho. Minha sensação foi de ter lido uma resposta para uma interrogação “bem bomba” (como costumo fazer lá na coluna), um desafio que o autor aceitou de boa – ou pelo menos uma conversa bem informal, com direito a suco e biscoitos, no sofá de sua casa. Murakami me pareceu esse hospitaleiro. 
Os romancistas possuem muitos defeitos, mas em geral têm coração aberto e são generosos com a entrada de pessoas de fora. 
Uma das coisas incríveis de ser romancista é a possibilidade de me desenvolver e inovar, mesmo com cinquenta, sessenta anos. Quase não há limite. Diferente do que acontece com atletas, por exemplo. 
Produzem romances as pessoas que desejam escrever, que não conseguem ficar sem escrever. E elas continuam escrevendo romances. Claro que, sendo escritor, aceito essas pessoas de coração aberto. 
Todos os escritores têm o direito de experimentar as possibilidades da língua através de todas as formas imagináveis e ampliar ao máximo o limite de sua eficácia. Sem esse espírito aventureiro, nada de novo será criado.

Com diversas pautas (características dos romancistas, início de carreira, prêmios literários, o fazer literário, as dúvidas mais comuns, a relação com o público, fatores exteriores à criação, fronteiras físicas e não físicas, hábitos de leitura no Japão, e outros), Haruki desenvolve os tópicos, conta diversos causos, aprendizados da carreira, dá seus pitacos, e não deixa de assumir suas ideias. Diversas vezes ele me pôs a pensar sobre situações com autores e certos conflitos, além de algumas atitudes “pé no chão” quando se trata de seguir seu próprio caminho. 
Esse seu modo de pensar não é egoísta? Sim, naturalmente é um modo de pensar bem egoísta. Não tenho como contestar. Eu aceito as críticas com resignação. 
Podem me criticar, podem me louvar, podem me atirar tomates, ou até uma linda flor; eu só consigo escrever – e viver – dessa forma. 
Naturalmente o tempo que uso para escrever é importante, mas o tempo em que não faço nada também é. [...] Acontece o mesmo com romances. Se o período de cura não for suficiente, teremos um produto frágil que não secou bem ou cujos materiais não foram bem misturados.

A maneira com que Haruki escreve, desperta fácil nossa percepção, confiança e respeito. É ousado, resiliente até, sem deixar de ser simples. E sua realidade não está tão distante da nossa, desde as flores às falhas que o mercado de publicação possui. 
Nem preciso dizer que o que fica para a posterioridade são as obras e não os prêmios. Creio que poucas pessoas do mundo se lembram da obra que ganhou o prêmio Akutagawa dois anos atrás ou do escritor que ganhou o Nobel três anos atrás. Você lembra? Mas, se uma obra for realmente boa, ela resistirá ao teste do tempo e será lembrada para sempre. [...] O prêmio literário pode acrescentar brilho a uma obra específica, mas não consegue lhe oferecer vida. 
[...] mesmo que a narrativa seja criada com materiais limitados, ainda existem possibilidades infinitas (ou quase infinitas). [...] Assim, mesmo que você pense: Não possuo os materiais necessários para escrever romances, não precisa desistir. Se mudar um pouco a perspectiva, o modo de ver as coisas, perceberá que muitos materiais estão espalhados à sua volta. Eles só estão esperando que você os perceba, recolha e utilize.

Gostosinho de ler, Romancista como vocação é um livro curto que vai num sopro. É, de fato, um presente para fãs, jovens romancistas e aficionados por literatura (texto de orelha). Vale, inclusive, deixar muitos marcadores ao lado. Você vai precisar. 
E desejo que, se possível, os meus leitores sintam a mesma coisa. Quero abrir uma nova janela na parede de seu coração e levar um ar novo até ele. É o que eu penso e desejo, sempre que estou escrevendo. Do fundo do coração, de forma bem simples. 
Às vezes recebo cartas curiosas dos leitores. Alguns dizem: “Li o seu último livro e fiquei desapontado. Infelizmente não gostei muito dele, mas com certeza vou comprar o seu próximo livro. Estou torcendo por você”. Para ser sincero, gosto de leitores assim. Sou muito grato a eles. Na nossa relação, com certeza existe uma sensação de confiança. Penso: é justamente para esses leitores que preciso escrever o meu próximo livro, com seriedade. E desejo sinceramente que o novo livro possa de fato agradá-los. Mas, como não posso agradar a todos, não sei como vai ser.

Murakami me ganhou totalmente; só falta mergulhar em um de seus livros de ficção pra confirmar minha impressão. Agora, com mais de 30 anos de produção criativa, quem diz que sei por onde começar?

Deixe uma leitora no skoob espiar... 
Para que os escritores realizem uma atividade criativa por vários anos, seja escrevendo romances ou contos, é imprescindível que tenham força para persistir. 
Mas a sorte é um simples ingresso. E o talento não é como compôs petrolíferos e minas de ouro. Não basta procurá-lo; o ingresso não é suficiente para levarmos uma vida confortável e fácil. [...] tudo vai depender do seu talento, do seu dom, das suas habilidades, do seu calibre, da sua visão de mundo ou, às vezes, simplesmente da sua força física. De qualquer forma, ter sorte não é o suficiente.


Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram



Confira abaixo os melhores preços pela pesquisa do Buscapé – sua compra ajuda o blog :) 


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Resenha: “Do que eu falo quando eu falo de corrida” (Haruki Murakami)

Tradução de Cássio de Arantes Leite
Por Kleris: Murakami me arrebatou em Romancista como vocação (reveja resenha aqui) e nele descobri Do que eu falo quando eu falo de corrida, em que descreve uma ponte notável entre escrita e corrida. Diz Haruki que é este o estilo de vida que o melhor sustenta. Como ele, me identifico quando se trata de aliar um exercício físico que se ama com alguma produção (no caso, escrita). Isso significa qualidade em diversos níveis – produção textual de qualidade, tempo de qualidade, valor de qualidade, aproveitamento de qualidade, vida de qualidade. 
Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até.

Nesta proposta de leitura em especial, Murakami nos envolve de maneira esplêndida ao explorar variados aspectos da corrida – quase como um livro de memórias. Do que eu falo quando eu falo de corrida traz um conjunto de registros lá da virada do século – da década de 90 e os primeiros anos de 2000. São notas escritas despretensiosamente em meio ao que se vivia; na verdade, o impacto das corridas no dia a dia, seja como realização pessoal, seja como mera atividade física. 
Os pensamentos que me ocorrem quando estou correndo são como nuvens no céu. Nuvens de todos os tamanhos diferentes. Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo céu de sempre. As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora, deixando o céu para trás. O céu existe ao mesmo que não existe. Possui substância e ao mesmo tempo não. E nós meramente escolhemos essa vasta expansão e nos deixamos abrigar.

A sensação é de ter entrado no escritório do autor e, no meio de uma papelada, ter encontrado algum tipo de diário, que de imediato folheamos. Encontramos relatos honestos, humildes e reflexivos – em sua maioria, divagações que envolvem de tudo um pouco, como a escrita, livros, traduções, escritores e estilo de vida.

Murakami nos conduz com leveza. Ele tem um jeito impressionante de nos sugar atenção e nos colocar no local exato ao que estava. Tem até momentos de suspense! Em sua jornada de maratonas, vivemos e torcemos. Corremos também quase lado a lado, folheando tudo bem rapidinho.  
Não — esqueça a cerveja. E esqueça o sol. Esqueça o vento. Esqueça o artigo que tem de escrever. Apenas se concentre no movimento do pé adiante, um depois do outro. É a única coisa que importa.

Acho que o que mais conquista (novamente) é seu carisma, desde a construção de texto às ideias que quer passar. Nada egocêntrico, ele deixa claro o que faz/fez, sem induzir ou forçar a barra. Quer dizer, ele respeita a escolha do outro (ou pelo menos se esforça muito pra isso). É bacana ver como se aceita, em suas forças e em suas falhas, sempre a reforçar algo bom de si, favorecer sua saúde mental ou mesmo sincronizar a atividade com seu singular eu. 
Quando corro digo a mim mesmo para pensar em um rio. E nuvens. Mas em essência não estou pensando em uma coisa. Tudo que faço é continuar correndo em meu próprio vácuo aconchegante, caseiro, meu silêncio nostálgico. E isso é uma coisa maravilhosa. Digam as pessoas o que disserem. 
Eis por que a hora e pouco que passo correndo, preservando um tempo só meu, em silêncio, é importante para me ajudar a manter o bem-estar mental. Quando estou correndo, não preciso conversar com ninguém e não tenho que escutar ninguém falando. Tudo que tenho que fazer é olhar para a paisagem que passa por mim. Essa é uma parte de meu dia sem a qual não consigo viver.

Apesar de algumas notas suas enfatizarem âncoras de bem-estar, estados contemplativos e percepção, não tem nenhum lenga-lenga sobre saúde. Como eu disse, ele não tem interesse de “converter” ninguém para a atividade física. Seus registros são apontamentos que fez basicamente para si – para revisitar de tempos em tempos e se autoavaliar. Mas são tão bons que não podiam ficar na gaveta, né?  
Os pensamentos que me ocorrem quando estou correndo são como nuvens no céu. Nuvens de todos os tamanhos diferentes. Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo céu de sempre. As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora, deixando o céu para trás. O céu existe ao mesmo que não existe. Possui substância e ao mesmo tempo não. E nós meramente escolhemos essa vasta expansão e nos deixamos abrigar. 
Mas por mais determinada que seja a pessoa, por mais que possa odiar a ideia de perder, se não for uma atividade da qual realmente gosta, não vai continuar nela por muito tempo. Mesmo que o faça, não seria nada bom para essa pessoa.
É por esse motivo que nunca recomendei a corrida para os outros. Faço questão de nunca dizer algo como: “Correr é ótimo. Todo mundo deveria tentar.” [...]
Mesmo assim, alguém pode ler este livro e dizer: “Ei, vou experimentar correr um pouco”, e depois descobrir que gosta. E é claro que isso seria maravilhoso. Como autor do livro, eu ficaria muito feliz se isso acontecesse. Mas as pessoas têm seus próprios gostos e antipatias. Algumas são mais afeitas para correr em maratonas, outras, ao golfe, outras, a jogos de azar.

Há, claro, esse compartilhar de experiências, a descrever condições de corrida, ritmo e preparação. Percebe-se, no entanto, que o que se sobrepõe a tais é justo o aprendizado, seu interesse maior de registro.   
Por mais que você fique ali nu se examinando diante de um espelho, nunca vai ver refletido o que existe por dentro.

Do que eu falo quando eu falo de corrida é uma excelente opção de leitura aos aficionados por corrida, exercício físico, esportes de atuação solo. Maratonas, energia, quilômetros, aliás, são palavras-chave. Murakami, porém, vai bem além. Seus textos hipersensoriais criam uma espécie de redoma que se desenha em um momento de apreciação e nela concentra o pensamento – senão, a luta pelos nossos sonhos. Recomendo! 
[...] decidi que deveria apenas escrever honestamente sobre o que penso e sinto quanto a correr, e me ater ao meu próprio estilo. [...] a maior parte deste livro registra meus pensamentos e sensações em tempo real. [...] Talvez não sejam grande coisa, mas são lições pessoais que aprendi ao pôr meu corpo efetivamente em movimento [...] Pode acontecer de essas lições não se prestarem a generalizações, mas é justamente porque o que é apresentado aqui sou eu, o tipo de pessoa que sou. 
As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que esse seja o motivo pelo qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo. [...] Forçar a si mesmo ao máximo dentro de limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicada à vida — e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muito corredores concordariam. 
Às vezes, quando estou praticando uma palestra em minha cabeça, me pego fazendo todo tipo de gesto e expressão facial, e as pessoas que passam por mim na direção oposta me lançam um olhar estranho. [eu na vida]

Até a próxima!

Confira os melhores preços no Buscapé! Sua compra ajuda o blog ;)



Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram 
sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Resenha: “O Fantástico Universo do Ser Humano” (Carlos Holthausen)

Por Kleris: Livros que tratam do lado emocional do ser humano são como um tour do buraco negro; é um tema que instiga, afinal, muitos mistérios da vida estão escondidos neste campo do conhecimento. Já havia lido diversas abordagens sobre emoções (ensaios sociais, biológicos, científicos, behavioristas, terapêuticos), mas ler sobre tal pelos olhos da Psicanálise me pareceu inédito, diferente. Nunca se sabe o que há de mais para se conhecer e foi assim que O Fantástico Universo do Ser Humano me chamou atenção. 
Não existe outra fonte de saber sobre nós mesmos, além de nós mesmos. 
Podemos olhar e registrar com algum detalhamento a existência do mundo externo. Temos alguma capacidade de observar o nosso organismo funcionando e até deduzir supostas causas das nossas emoções.

É perceptível o fascínio de Carlos Holthausen pelo ser humano. E ele faz de tudo para nos mostrar como somos marcados pelas experiências desde o nascimento, mesmo sem termos noção alguma do que está acontecendo. Em uma primeira instância (“a alienação da semente”), o tour faz um apanhado histórico-cultural apresentando a sociedade em seus primórdios, o desenvolvimento humano pelo tempo, a separação do homem do animal, a construção de ideologias e a constituição do emocional; em uma segunda instância (“a depressão da flor”), ele segue viagem ao interior do ser.

A escrita de Carlos é excelente. Claro que quem tem costume de ler pesquisas científicas vai deslizar fácil pelas páginas numa fluidez mega rápida; já leigos podem se perder um pouco, pois, embora firme, o tom formal e acadêmico prevalece. Poucos são os momentos que o autor divaga e conta uma história para situar a questão debatida.

Foram nestes momentos, inclusive, que imaginei que o autor exploraria histórias para chamar atenção e transmitir mais empatia. Elas, no entanto, reforçaram uma visão muito particular da psicanálise da qual não sou muito fã. Fala-se bastante de desejo e satisfação, relação de falta e presença, prazeres e posse, constituição do ser enquanto ainda bebê, resumido no pleno relacionamento com a mãe. Algumas passagens até lembram bem o realismo-naturalismo, em que se veem explicações ultra deterministas para esclarecer sobre o comportamento do homem em sociedade. 
Nossos desejos dependem muito mais das oportunidades, oferecidas pelo habitat geopolítico, econômico e cultural em que nascemos e vivemos do que da nossa capacidade de tomar decisões, pautados no suposto livre-arbítrio. 
[...] não podemos concordar com o pensamento de que cada pessoa, ao viver, constrói um caminho, simplesmente porque quando andamos na vida com um objetivo, que seria o motivo para construirmos um caminho, estamos indo atrás de tal objetivo cegos por ele. Dizendo de outra maneira, é o desejo que nos conduz e não nós que conduzimos o desejo.

Nesse sentido, o fantástico universo do ser humano pauta-se mais por egoísmo, egocentrismo e insensibilidade, detendo-se às emoções básicas que só descarregamos. Enquanto disserta avidamente sobre os “limites” do ser humano, Carlos trata o ser quase como mero boneco suscetível aos seus desejos. Não se valoriza a autossuficiência, a autoconfiança, menos ainda o respeito.

Quanto aos vínculos, então, a visão (principalmente do mal-estar social) se mostrou nada empática e até antiquada, a ponto de banalizar a depressão e suicídio. Livre-arbítrio e fé também não escapam dessa egolatria. 
Assim, podemos dizer que a fé é um adereço ao desejo humano, ela pode também ser aceita como intrínseca a nossa constituição pelo outro, pois, se as emoções do nosso constituinte, que nos são transmitidas pela sua linguagem, não forem regadas pela fé, elas, as emoções e suas representações, não serão reconhecidas como verdades. Assim, a nossa necessidade da fé seria a mesma de existir de verdade.

Em sua fluidez, os pontos de vista são interessantes de conhecer, nem tanto de aplicar. Quer dizer, é uma maneira de compreender o eu, porém, não consigo me limitar a esperar isso do ser humano. E justo por ser humano, temos a oportunidade de expandir, de mudar, de melhorar.

Em O Fantástico Universo do Ser Humano, encontramos uma compreensão bem ególatra, em claro culto e fascínio do eu, este individualista em saciar seus desejos. Neste campo, não se exploram emoções para além do eu, tampouco grandes conflitos do momento contemporâneo. É um traço bastante particular, indicado para os curiosos da ciência e fãs da Psicanálise. 
[...] a grande maioria de nós sequer teve ou tem a chance de conhecer algo significativo sobre a sua existência antes de morrer, além dos dogmas da fé religiosa, que, exatamente, por esta falta de conhecimento, se solidificam, pela cultura de cada momento, como verdades absolutas e, aparentemente, necessárias, principalmente nos primórdios da humanidade, digamos, de passagem. 
Ao descortinarmos a janela das possibilidades do nosso saber, observando os dados e as informações de que dispomos sobre o nosso Universo e especialmente sobre o ser humano, sentimo-nos tão insignificantes que a primeira vontade que aparece é a de fechar a cortina e continuar simplesmente respirando.

Você encontra o livro à venda no site da editora Autografia


Até a próxima!

Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram
sexta-feira, 30 de junho de 2017

Resenha: “Romancista como vocação” (Haruki Murakami)

Tradução de Eunice Suenaga
Por Kleris: Trabalhar com livros é se envolver com sonhos de muitos. Expectativas. Universos compartilhados. Na literatura então, temos um vasto campo de mundos e entremundos para os quais somos transportados. Ao longo do fazer literário, surgem aqui e acolá alguns livros que se dedicam a tais passeios – é, aliás, um tipo de viagem que curto muito – e Romancista como vocação, do Haruki Murakami, é um desses livros.

Geralmente de ensaios, essas leituras trazem reflexões sobre uma experiência da vida literária. Há aqueles que brinquem, que pautem uma discussão mais séria, uns mais técnicos, outros que voam alto demais... Lembro-me de um trecho de O céu de Lima (Juan Gómez Bárcena), também da editora Alfaguara (resenha aqui), que mencionava livros/guias para escritores, comumente ignorados por eles mesmos, por não curtirem as supostas “amarras” ali descritas (o que pode, não pode, dentro da literatura). 

Mas, por mais que você não conheça o trabalho do Murakami (como eu), com certeza Romancista como vocação não está dentre estas categorias. Sua humildade, carisma e senso nos entregam uma leitura bem equilibrada do ofício de romancista. 
No mundo existem pessoas que montam a maquete de um navio dentro de uma garrafa usando uma longa pinça, e demoram quase um ano nessa tarefa. Escrever romances talvez seja parecido. 
Ao fazer um romance, os escritores geralmente convertem em narrativa o que existe no interior da sua consciência. O que existe na consciência e o que foi expresso são diferentes, e eles usam essa diferença como uma alavanca para criar o dinamismo na narrativa. É um trabalho cheio de rodeios, que demanda muito tempo. 
Em minha opinião, quem quer ser escritor precisa ler muito, antes de qualquer coisa. Peço desculpas pela resposta bastante trivial, mas acho que a leitura é o treinamento mais importante e indispensável para quem quer escrever. Para fazer um romance é preciso compreender, de forma quase física, como eles são formados. É uma coisa óbvia; é o mesmo que dizer: “Para fazer uma omelete, é preciso quebrar os ovos”. [...] Passar por essas experiências é o mais importante. Corresponde a criar a bagagem indispensável para um romancista.

Acho que o que mais gostei neste livro foi esse caráter sóbrio para tratar do escritor em termos de vocação e trabalho. Minha sensação foi de ter lido uma resposta para uma interrogação “bem bomba” (como costumo fazer lá na coluna), um desafio que o autor aceitou de boa – ou pelo menos uma conversa bem informal, com direito a suco e biscoitos, no sofá de sua casa. Murakami me pareceu esse hospitaleiro. 
Os romancistas possuem muitos defeitos, mas em geral têm coração aberto e são generosos com a entrada de pessoas de fora. 
Uma das coisas incríveis de ser romancista é a possibilidade de me desenvolver e inovar, mesmo com cinquenta, sessenta anos. Quase não há limite. Diferente do que acontece com atletas, por exemplo. 
Produzem romances as pessoas que desejam escrever, que não conseguem ficar sem escrever. E elas continuam escrevendo romances. Claro que, sendo escritor, aceito essas pessoas de coração aberto. 
Todos os escritores têm o direito de experimentar as possibilidades da língua através de todas as formas imagináveis e ampliar ao máximo o limite de sua eficácia. Sem esse espírito aventureiro, nada de novo será criado.

Com diversas pautas (características dos romancistas, início de carreira, prêmios literários, o fazer literário, as dúvidas mais comuns, a relação com o público, fatores exteriores à criação, fronteiras físicas e não físicas, hábitos de leitura no Japão, e outros), Haruki desenvolve os tópicos, conta diversos causos, aprendizados da carreira, dá seus pitacos, e não deixa de assumir suas ideias. Diversas vezes ele me pôs a pensar sobre situações com autores e certos conflitos, além de algumas atitudes “pé no chão” quando se trata de seguir seu próprio caminho. 
Esse seu modo de pensar não é egoísta? Sim, naturalmente é um modo de pensar bem egoísta. Não tenho como contestar. Eu aceito as críticas com resignação. 
Podem me criticar, podem me louvar, podem me atirar tomates, ou até uma linda flor; eu só consigo escrever – e viver – dessa forma. 
Naturalmente o tempo que uso para escrever é importante, mas o tempo em que não faço nada também é. [...] Acontece o mesmo com romances. Se o período de cura não for suficiente, teremos um produto frágil que não secou bem ou cujos materiais não foram bem misturados.

A maneira com que Haruki escreve, desperta fácil nossa percepção, confiança e respeito. É ousado, resiliente até, sem deixar de ser simples. E sua realidade não está tão distante da nossa, desde as flores às falhas que o mercado de publicação possui. 
Nem preciso dizer que o que fica para a posterioridade são as obras e não os prêmios. Creio que poucas pessoas do mundo se lembram da obra que ganhou o prêmio Akutagawa dois anos atrás ou do escritor que ganhou o Nobel três anos atrás. Você lembra? Mas, se uma obra for realmente boa, ela resistirá ao teste do tempo e será lembrada para sempre. [...] O prêmio literário pode acrescentar brilho a uma obra específica, mas não consegue lhe oferecer vida. 
[...] mesmo que a narrativa seja criada com materiais limitados, ainda existem possibilidades infinitas (ou quase infinitas). [...] Assim, mesmo que você pense: Não possuo os materiais necessários para escrever romances, não precisa desistir. Se mudar um pouco a perspectiva, o modo de ver as coisas, perceberá que muitos materiais estão espalhados à sua volta. Eles só estão esperando que você os perceba, recolha e utilize.

Gostosinho de ler, Romancista como vocação é um livro curto que vai num sopro. É, de fato, um presente para fãs, jovens romancistas e aficionados por literatura (texto de orelha). Vale, inclusive, deixar muitos marcadores ao lado. Você vai precisar. 
E desejo que, se possível, os meus leitores sintam a mesma coisa. Quero abrir uma nova janela na parede de seu coração e levar um ar novo até ele. É o que eu penso e desejo, sempre que estou escrevendo. Do fundo do coração, de forma bem simples. 
Às vezes recebo cartas curiosas dos leitores. Alguns dizem: “Li o seu último livro e fiquei desapontado. Infelizmente não gostei muito dele, mas com certeza vou comprar o seu próximo livro. Estou torcendo por você”. Para ser sincero, gosto de leitores assim. Sou muito grato a eles. Na nossa relação, com certeza existe uma sensação de confiança. Penso: é justamente para esses leitores que preciso escrever o meu próximo livro, com seriedade. E desejo sinceramente que o novo livro possa de fato agradá-los. Mas, como não posso agradar a todos, não sei como vai ser.

Murakami me ganhou totalmente; só falta mergulhar em um de seus livros de ficção pra confirmar minha impressão. Agora, com mais de 30 anos de produção criativa, quem diz que sei por onde começar?

Deixe uma leitora no skoob espiar... 
Para que os escritores realizem uma atividade criativa por vários anos, seja escrevendo romances ou contos, é imprescindível que tenham força para persistir. 
Mas a sorte é um simples ingresso. E o talento não é como compôs petrolíferos e minas de ouro. Não basta procurá-lo; o ingresso não é suficiente para levarmos uma vida confortável e fácil. [...] tudo vai depender do seu talento, do seu dom, das suas habilidades, do seu calibre, da sua visão de mundo ou, às vezes, simplesmente da sua força física. De qualquer forma, ter sorte não é o suficiente.


Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram



Confira abaixo os melhores preços pela pesquisa do Buscapé – sua compra ajuda o blog :) 


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Resenha: Para educar crianças feministas – um manifesto (Chimamanda Ngozi Adichie)

Tradução de Denise Bottman
Por Kleris: Imagino que após a palestra de Sejamos Todos Feministas (reveja resenha aqui), onde o discurso feminista puxou as cortinas da sociedade e plantou suas sementes, muitos puderam entender o que é o movimento, seus ideais, suas lutas. 

Mas isso foi só a introdução, uma centelha, que deixou diversas questões para discussão e compreensão real, do feminismo em si, do feminismo no dia a dia, de como reagir ante as lutas; e Para educar crianças feministas é esse passo seguinte. É uma resposta mais direta para algumas de nossas inquietações quando se trata de mudar o comportamento. 
Há alguns anos, quando uma amiga de infância – que cresceu e se tornou uma mulher bondosa, forte e inteligente – me perguntou o que devia fazer para criar sua filha como feminista, minha primeira reação foi pensar que eu não sabia.
Parecia uma tarefa imensa.
Mas, como eu me manifestara publicamente sobre o feminismo, talvez ela achasse que eu era uma especialista no assunto. [...] Em resposta ao pedido de minha amiga, resolvi lhe escrever uma carta, na esperança de que fosse algo prático e sincero, e também servisse como espécie de mapa de minhas próprias reflexões feministas. [...] Ainda assim, penso que é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens.

Ao falar de cultura, também falamos de educação. Nesse sentido, é bastante complicado criar uma “nova” noção de cultura quando se está tão mal acostumado a sensos nocivos, mais ainda por vê-los como “naturais” ou “normais”. Existem muitos projetos trabalhando nessa conscientização e reeducação social, mas uma coisa é certa neste cenário: nascemos todos machistas, misóginos e babacas, sem mesmo saber o porquê de assim nos comportar. Não precisamos, no entanto, esperar que as futuras gerações despertem - e tardiamente. Nós podemos promover a mudança desde o começo. 
Mas o que realmente conta é a nossa postura, a nossa mentalidade. E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero? (Sejamos todos feministas) 
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura. (Sejamos todos feministas) 
Se não empregarmos a camisa de força do gênero nas crianças pequenas, daremos a elas espaço para alcançar todo o seu potencial. Por favor, veja Chizalum como indivíduo. Não como uma menina como deve ser de tal ou tal jeito. Veja seus pontos fortes e pontos fracos de maneira individual. Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma.

Como Chimamanda nos conta, ela escreveu uma carta para uma amiga respondendo à grande questão de educar crianças como feministas. Apesar de poucas páginas e da leitura ser rápida (a edição é pocket), o conteúdo é para ser digerido lentamente. São MUITAS situações para repensar, refletir e despertar. É um exercício social. E tal qual, não dá pra pegar um conceito, aplicá-lo puramente e ter um resultado satisfatório, porque as situações não são prontas e possuem muitos detalhes de contexto. 
E entendo o que você quer dizer que nem sempre sabe qual deve ser a reação feminista a certas situações. Para mim, o feminismo é sempre uma questão de contexto.

Isso me lembrou bastante da série de livros da Brené Brown, que começa com conceitos sociais de vulnerabilidade (A arte de ser imperfeito), depois se discute identificá-los em contextos (A coragem de ser imperfeito, aqui) e então o exercício e aprendizados diários (Mais forte do que nunca, aqui). É uma escolha. 
Isso parece fácil, mas você se surpreenderia ao saber quantos nunca reconhecem os próprios sentimentos e emoções – apenas os descarregam. [...] A ironia é que, ao mesmo tempo que criamos distância entre nós e as pessoas ao redor, descontando tudo nos outros, ansiamos por laços afetivos mais profundos e por uma vida emocional mais rica. (Mais forte do que nunca) 
Cuidado com o perigo daquilo que chamo de Feminismo Leve. É a ideia de uma igualdade feminina condicional. Por favor, rejeite totalmente. É uma ideia vazia, falida, conciliadora. Ser feminista é como estar grávida. Ou se é ou se não é. Ou você acredita na plena igualdade entre homens e mulheres, ou não. [...] Mais preocupante ainda é a ideia, no Feminismo Leve, de que os homens são naturalmente superiores, mas devem “tratar bem as mulheres”. Não, não e não. A base para o bem-estar de uma mulher não pode se resumir à condescendência masculina.

É possível ler Para educar crianças feministas antes de ler o primeiro (Sejamos todos feministas) ou de assistir à conferência original, mas não é aconselhável se você não tem um bom embasamento dos principais ideais – pois pode haver um choque desfavorável, como o feminismo leve. No mais, o livro-carta é excelente para entender mais do posicionamento feminista. Como principiante (ainda), para mim o manifesto foi uma leitura iluminadora. Chimamanda é uma excepcional guia. Recomendadíííííssimo! 
Tente não usar demais palavras como “misoginia” e “patriarcado” com Chizalum. Nós, feministas, às vezes usamos muitos jargões, e o jargão às vezes pode ser abstrato demais. Não se limite a rotular alguma coisa de misógina – explique a ela porque aquilo é misógino e como poderia deixar de ser. 
Mas é uma triste verdade: nosso mundo está cheio de homens e mulheres que não gostam de mulheres poderosas. Estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração. E por isso ela é policiada. [...] Julgamos as poderosas com mais rigor do que os poderosos. E o Feminismo Leve permite isso.

Novamente, dá vontade de comprar centenas de exemplares e distribuir :) 
Todo mundo vai dar palpites, dizendo o que você deve fazer, mas o que importa é o que você quer, e não o que os outros querem que você queira. Por favor, não acredite na ideia de que maternidade e trabalho são mutuamente excludentes.


Curta o Dear Book no Facebook
Siga @dear_book no Twitter e @dearbookbr no Instagram

Confira os melhores preços no Buscapé! Ao clicar na loja, você nos ajuda a ganhar uma pequena comissão para manutenção. Obrigada pela visita :)



 
Ana Liberato