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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Resenha: "Escrever Ficção: Um Manual de Criação Literária" (Luiz Antonio de Assis Brasil)

Colaboração: Luís Roberto Amabile

Sinopse: O criador da mais célebre oficina de escrita literária no Brasil transformou em livro o curso que formou muitos dos grandes escritores brasileiros contemporâneos.

“Este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos de ficção.” O escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil registrou aqui sua experiência ao longo de 34 anos ininterruptos de trabalho com a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na mesma universidade. 


Com a perspectiva de um ficcionista dialogando com outros ficcionistas, ele apresenta ferramentas indispensáveis para a formação de um escritor. Avesso a fórmulas, Assis ressalta o papel da leitura constante de obras literárias para quem ser se tornar autor de ficção ― e são essas obras as grandes referências de seus cursos e deste manual indispensável, que contou com a colaboração do escritor e ex-aluno Luís Roberto Amabile.
“Assis Brasil não ensina ao autor como deve ou não escrever. Sua abordagem consiste em escrutinar o repertório técnico fornecido pela tradição literária para permitir ao autor que conduza seu próprio florescimento, destravando potenciais e refinando o estilo.” ― Daniel Galera, autor de Barba ensopada de sangue e Mãos de cavalo
“Não bastasse sua notável obra, Assis Brasil foi decisivo na formação e também na consolidação de vários novos autores brasileiros surgidos nas últimas décadas. Um escritor, grande escritor, que faz diferença em todos os sentidos.” ― Paulo Scott, autor de Habitante irreal e Ithaca Road

Por Eliel: Luiz Antonio de Assis Brasil tem uma vasta experiência no ramo da literatura ficcional, principalmente à frente da Oficina de Criação Literária da Escola de Humanidades da PUC-RS e, recentemente, dos programas de Mestrado e Doutorado de Escrita Criativa. Com toda essa bagagem está sintetizada nesse novo livro que tem como objetivo guiar novos escritores nessa arte. Porém, não pense que trata-se um passo-a-passo ou de um tutorial. Aqui são apresentadas ferramentas e reflexões que irão auxiliar a quem se propõe a contar uma história.

Um livro que foi feito pensando em um público tão especifico, como o dos escritores, mas que também dialoga sobre a escrita com o leitor final sem subestimá-lo e além disso, que mais parece uma conversa com um bom professor pronto a provocar discussões acerca do assunto.

São nove capítulos que abrangem a criação da ficção e um último que serve de recapitulação de todas as ideias apresentadas nos capítulos anteriores. Esse é um recurso muito interessante para a fixação dos conceitos. Essa recapitulação é apresentada na forma de uma construção de um romance linear e serve para qualquer fase do projeto literário, desde que ele já tenha sido idealizado.

Como professor ele vai além ao tratar até mesmo da postura que o ficcionista deve adotar, pois o mesmo deve ser um bom leitor, praticar sempre sua escrita e vivenciar histórias. Isso irá treinar o olhar critico para enxergar boas narrativas que merecem ser contadas. 

Com esse livro em mãos temos acesso à uma gama de bons romances recomendados pelo autor ao longo dos capítulos, principalmente para exemplificar os conceitos. Entre romances clássicos e contemporâneos o escritor que usar esse livro como um guia terá muito material de apoio e leitura. Lembrando que um bom escritor é um bom leitor.

Um dos conceitos mais frisados é a construção de bons personagens, além, de um capitulo totalmente dedicado a esse assunto, vira e mexe o autor retorna ao tema e dá mais dicas sobre como esse conceito de construção está intimamente ligado aos outros.

Recomendo o livro a quem quer escrever um romance antes de ter o filho e plantar a árvore, a quem quer se profissionalizar na área ou quem quer se aprofundar no assunto. Mas aqui cabe um aviso, é praticamente impossível não terminar o livro com a cabeça fervilhando de ideias para já começar a escrever.

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Vale a Pena Ler de Novo: “Romancista como Vocação” (Haruki Murakami)

Neste mês de Janeiro estamos em recesso, mas preparamos para você, caro leitor, uma seleção com nossas resenhas mais acessadas de 2017.
Enquanto isso, prepare-se para todas os lançamentos e novidades de 2018.

Tradução de Eunice Suenaga
Por Kleris: Trabalhar com livros é se envolver com sonhos de muitos. Expectativas. Universos compartilhados. Na literatura então, temos um vasto campo de mundos e entremundos para os quais somos transportados. Ao longo do fazer literário, surgem aqui e acolá alguns livros que se dedicam a tais passeios – é, aliás, um tipo de viagem que curto muito – e Romancista como vocação, do Haruki Murakami, é um desses livros.

Geralmente de ensaios, essas leituras trazem reflexões sobre uma experiência da vida literária. Há aqueles que brinquem, que pautem uma discussão mais séria, uns mais técnicos, outros que voam alto demais... Lembro-me de um trecho de O céu de Lima (Juan Gómez Bárcena), também da editora Alfaguara (resenha aqui), que mencionava livros/guias para escritores, comumente ignorados por eles mesmos, por não curtirem as supostas “amarras” ali descritas (o que pode, não pode, dentro da literatura). 

Mas, por mais que você não conheça o trabalho do Murakami (como eu), com certeza Romancista como vocação não está dentre estas categorias. Sua humildade, carisma e senso nos entregam uma leitura bem equilibrada do ofício de romancista. 
No mundo existem pessoas que montam a maquete de um navio dentro de uma garrafa usando uma longa pinça, e demoram quase um ano nessa tarefa. Escrever romances talvez seja parecido. 
Ao fazer um romance, os escritores geralmente convertem em narrativa o que existe no interior da sua consciência. O que existe na consciência e o que foi expresso são diferentes, e eles usam essa diferença como uma alavanca para criar o dinamismo na narrativa. É um trabalho cheio de rodeios, que demanda muito tempo. 
Em minha opinião, quem quer ser escritor precisa ler muito, antes de qualquer coisa. Peço desculpas pela resposta bastante trivial, mas acho que a leitura é o treinamento mais importante e indispensável para quem quer escrever. Para fazer um romance é preciso compreender, de forma quase física, como eles são formados. É uma coisa óbvia; é o mesmo que dizer: “Para fazer uma omelete, é preciso quebrar os ovos”. [...] Passar por essas experiências é o mais importante. Corresponde a criar a bagagem indispensável para um romancista.

Acho que o que mais gostei neste livro foi esse caráter sóbrio para tratar do escritor em termos de vocação e trabalho. Minha sensação foi de ter lido uma resposta para uma interrogação “bem bomba” (como costumo fazer lá na coluna), um desafio que o autor aceitou de boa – ou pelo menos uma conversa bem informal, com direito a suco e biscoitos, no sofá de sua casa. Murakami me pareceu esse hospitaleiro. 
Os romancistas possuem muitos defeitos, mas em geral têm coração aberto e são generosos com a entrada de pessoas de fora. 
Uma das coisas incríveis de ser romancista é a possibilidade de me desenvolver e inovar, mesmo com cinquenta, sessenta anos. Quase não há limite. Diferente do que acontece com atletas, por exemplo. 
Produzem romances as pessoas que desejam escrever, que não conseguem ficar sem escrever. E elas continuam escrevendo romances. Claro que, sendo escritor, aceito essas pessoas de coração aberto. 
Todos os escritores têm o direito de experimentar as possibilidades da língua através de todas as formas imagináveis e ampliar ao máximo o limite de sua eficácia. Sem esse espírito aventureiro, nada de novo será criado.

Com diversas pautas (características dos romancistas, início de carreira, prêmios literários, o fazer literário, as dúvidas mais comuns, a relação com o público, fatores exteriores à criação, fronteiras físicas e não físicas, hábitos de leitura no Japão, e outros), Haruki desenvolve os tópicos, conta diversos causos, aprendizados da carreira, dá seus pitacos, e não deixa de assumir suas ideias. Diversas vezes ele me pôs a pensar sobre situações com autores e certos conflitos, além de algumas atitudes “pé no chão” quando se trata de seguir seu próprio caminho. 
Esse seu modo de pensar não é egoísta? Sim, naturalmente é um modo de pensar bem egoísta. Não tenho como contestar. Eu aceito as críticas com resignação. 
Podem me criticar, podem me louvar, podem me atirar tomates, ou até uma linda flor; eu só consigo escrever – e viver – dessa forma. 
Naturalmente o tempo que uso para escrever é importante, mas o tempo em que não faço nada também é. [...] Acontece o mesmo com romances. Se o período de cura não for suficiente, teremos um produto frágil que não secou bem ou cujos materiais não foram bem misturados.

A maneira com que Haruki escreve, desperta fácil nossa percepção, confiança e respeito. É ousado, resiliente até, sem deixar de ser simples. E sua realidade não está tão distante da nossa, desde as flores às falhas que o mercado de publicação possui. 
Nem preciso dizer que o que fica para a posterioridade são as obras e não os prêmios. Creio que poucas pessoas do mundo se lembram da obra que ganhou o prêmio Akutagawa dois anos atrás ou do escritor que ganhou o Nobel três anos atrás. Você lembra? Mas, se uma obra for realmente boa, ela resistirá ao teste do tempo e será lembrada para sempre. [...] O prêmio literário pode acrescentar brilho a uma obra específica, mas não consegue lhe oferecer vida. 
[...] mesmo que a narrativa seja criada com materiais limitados, ainda existem possibilidades infinitas (ou quase infinitas). [...] Assim, mesmo que você pense: Não possuo os materiais necessários para escrever romances, não precisa desistir. Se mudar um pouco a perspectiva, o modo de ver as coisas, perceberá que muitos materiais estão espalhados à sua volta. Eles só estão esperando que você os perceba, recolha e utilize.

Gostosinho de ler, Romancista como vocação é um livro curto que vai num sopro. É, de fato, um presente para fãs, jovens romancistas e aficionados por literatura (texto de orelha). Vale, inclusive, deixar muitos marcadores ao lado. Você vai precisar. 
E desejo que, se possível, os meus leitores sintam a mesma coisa. Quero abrir uma nova janela na parede de seu coração e levar um ar novo até ele. É o que eu penso e desejo, sempre que estou escrevendo. Do fundo do coração, de forma bem simples. 
Às vezes recebo cartas curiosas dos leitores. Alguns dizem: “Li o seu último livro e fiquei desapontado. Infelizmente não gostei muito dele, mas com certeza vou comprar o seu próximo livro. Estou torcendo por você”. Para ser sincero, gosto de leitores assim. Sou muito grato a eles. Na nossa relação, com certeza existe uma sensação de confiança. Penso: é justamente para esses leitores que preciso escrever o meu próximo livro, com seriedade. E desejo sinceramente que o novo livro possa de fato agradá-los. Mas, como não posso agradar a todos, não sei como vai ser.

Murakami me ganhou totalmente; só falta mergulhar em um de seus livros de ficção pra confirmar minha impressão. Agora, com mais de 30 anos de produção criativa, quem diz que sei por onde começar?

Deixe uma leitora no skoob espiar... 
Para que os escritores realizem uma atividade criativa por vários anos, seja escrevendo romances ou contos, é imprescindível que tenham força para persistir. 
Mas a sorte é um simples ingresso. E o talento não é como compôs petrolíferos e minas de ouro. Não basta procurá-lo; o ingresso não é suficiente para levarmos uma vida confortável e fácil. [...] tudo vai depender do seu talento, do seu dom, das suas habilidades, do seu calibre, da sua visão de mundo ou, às vezes, simplesmente da sua força física. De qualquer forma, ter sorte não é o suficiente.


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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Resenha: “Romancista como vocação” (Haruki Murakami)

Tradução de Eunice Suenaga
Por Kleris: Trabalhar com livros é se envolver com sonhos de muitos. Expectativas. Universos compartilhados. Na literatura então, temos um vasto campo de mundos e entremundos para os quais somos transportados. Ao longo do fazer literário, surgem aqui e acolá alguns livros que se dedicam a tais passeios – é, aliás, um tipo de viagem que curto muito – e Romancista como vocação, do Haruki Murakami, é um desses livros.

Geralmente de ensaios, essas leituras trazem reflexões sobre uma experiência da vida literária. Há aqueles que brinquem, que pautem uma discussão mais séria, uns mais técnicos, outros que voam alto demais... Lembro-me de um trecho de O céu de Lima (Juan Gómez Bárcena), também da editora Alfaguara (resenha aqui), que mencionava livros/guias para escritores, comumente ignorados por eles mesmos, por não curtirem as supostas “amarras” ali descritas (o que pode, não pode, dentro da literatura). 

Mas, por mais que você não conheça o trabalho do Murakami (como eu), com certeza Romancista como vocação não está dentre estas categorias. Sua humildade, carisma e senso nos entregam uma leitura bem equilibrada do ofício de romancista. 
No mundo existem pessoas que montam a maquete de um navio dentro de uma garrafa usando uma longa pinça, e demoram quase um ano nessa tarefa. Escrever romances talvez seja parecido. 
Ao fazer um romance, os escritores geralmente convertem em narrativa o que existe no interior da sua consciência. O que existe na consciência e o que foi expresso são diferentes, e eles usam essa diferença como uma alavanca para criar o dinamismo na narrativa. É um trabalho cheio de rodeios, que demanda muito tempo. 
Em minha opinião, quem quer ser escritor precisa ler muito, antes de qualquer coisa. Peço desculpas pela resposta bastante trivial, mas acho que a leitura é o treinamento mais importante e indispensável para quem quer escrever. Para fazer um romance é preciso compreender, de forma quase física, como eles são formados. É uma coisa óbvia; é o mesmo que dizer: “Para fazer uma omelete, é preciso quebrar os ovos”. [...] Passar por essas experiências é o mais importante. Corresponde a criar a bagagem indispensável para um romancista.

Acho que o que mais gostei neste livro foi esse caráter sóbrio para tratar do escritor em termos de vocação e trabalho. Minha sensação foi de ter lido uma resposta para uma interrogação “bem bomba” (como costumo fazer lá na coluna), um desafio que o autor aceitou de boa – ou pelo menos uma conversa bem informal, com direito a suco e biscoitos, no sofá de sua casa. Murakami me pareceu esse hospitaleiro. 
Os romancistas possuem muitos defeitos, mas em geral têm coração aberto e são generosos com a entrada de pessoas de fora. 
Uma das coisas incríveis de ser romancista é a possibilidade de me desenvolver e inovar, mesmo com cinquenta, sessenta anos. Quase não há limite. Diferente do que acontece com atletas, por exemplo. 
Produzem romances as pessoas que desejam escrever, que não conseguem ficar sem escrever. E elas continuam escrevendo romances. Claro que, sendo escritor, aceito essas pessoas de coração aberto. 
Todos os escritores têm o direito de experimentar as possibilidades da língua através de todas as formas imagináveis e ampliar ao máximo o limite de sua eficácia. Sem esse espírito aventureiro, nada de novo será criado.

Com diversas pautas (características dos romancistas, início de carreira, prêmios literários, o fazer literário, as dúvidas mais comuns, a relação com o público, fatores exteriores à criação, fronteiras físicas e não físicas, hábitos de leitura no Japão, e outros), Haruki desenvolve os tópicos, conta diversos causos, aprendizados da carreira, dá seus pitacos, e não deixa de assumir suas ideias. Diversas vezes ele me pôs a pensar sobre situações com autores e certos conflitos, além de algumas atitudes “pé no chão” quando se trata de seguir seu próprio caminho. 
Esse seu modo de pensar não é egoísta? Sim, naturalmente é um modo de pensar bem egoísta. Não tenho como contestar. Eu aceito as críticas com resignação. 
Podem me criticar, podem me louvar, podem me atirar tomates, ou até uma linda flor; eu só consigo escrever – e viver – dessa forma. 
Naturalmente o tempo que uso para escrever é importante, mas o tempo em que não faço nada também é. [...] Acontece o mesmo com romances. Se o período de cura não for suficiente, teremos um produto frágil que não secou bem ou cujos materiais não foram bem misturados.

A maneira com que Haruki escreve, desperta fácil nossa percepção, confiança e respeito. É ousado, resiliente até, sem deixar de ser simples. E sua realidade não está tão distante da nossa, desde as flores às falhas que o mercado de publicação possui. 
Nem preciso dizer que o que fica para a posterioridade são as obras e não os prêmios. Creio que poucas pessoas do mundo se lembram da obra que ganhou o prêmio Akutagawa dois anos atrás ou do escritor que ganhou o Nobel três anos atrás. Você lembra? Mas, se uma obra for realmente boa, ela resistirá ao teste do tempo e será lembrada para sempre. [...] O prêmio literário pode acrescentar brilho a uma obra específica, mas não consegue lhe oferecer vida. 
[...] mesmo que a narrativa seja criada com materiais limitados, ainda existem possibilidades infinitas (ou quase infinitas). [...] Assim, mesmo que você pense: Não possuo os materiais necessários para escrever romances, não precisa desistir. Se mudar um pouco a perspectiva, o modo de ver as coisas, perceberá que muitos materiais estão espalhados à sua volta. Eles só estão esperando que você os perceba, recolha e utilize.

Gostosinho de ler, Romancista como vocação é um livro curto que vai num sopro. É, de fato, um presente para fãs, jovens romancistas e aficionados por literatura (texto de orelha). Vale, inclusive, deixar muitos marcadores ao lado. Você vai precisar. 
E desejo que, se possível, os meus leitores sintam a mesma coisa. Quero abrir uma nova janela na parede de seu coração e levar um ar novo até ele. É o que eu penso e desejo, sempre que estou escrevendo. Do fundo do coração, de forma bem simples. 
Às vezes recebo cartas curiosas dos leitores. Alguns dizem: “Li o seu último livro e fiquei desapontado. Infelizmente não gostei muito dele, mas com certeza vou comprar o seu próximo livro. Estou torcendo por você”. Para ser sincero, gosto de leitores assim. Sou muito grato a eles. Na nossa relação, com certeza existe uma sensação de confiança. Penso: é justamente para esses leitores que preciso escrever o meu próximo livro, com seriedade. E desejo sinceramente que o novo livro possa de fato agradá-los. Mas, como não posso agradar a todos, não sei como vai ser.

Murakami me ganhou totalmente; só falta mergulhar em um de seus livros de ficção pra confirmar minha impressão. Agora, com mais de 30 anos de produção criativa, quem diz que sei por onde começar?

Deixe uma leitora no skoob espiar... 
Para que os escritores realizem uma atividade criativa por vários anos, seja escrevendo romances ou contos, é imprescindível que tenham força para persistir. 
Mas a sorte é um simples ingresso. E o talento não é como compôs petrolíferos e minas de ouro. Não basta procurá-lo; o ingresso não é suficiente para levarmos uma vida confortável e fácil. [...] tudo vai depender do seu talento, do seu dom, das suas habilidades, do seu calibre, da sua visão de mundo ou, às vezes, simplesmente da sua força física. De qualquer forma, ter sorte não é o suficiente.


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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Resenha: "O céu de Lima" (Juan Gómez Bárcena)

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

Por Kleris: Sabe aqueles livros que tem, em seus releases, tudo a ver com você? O céu de Lima se apresentou como uma comédia de erros, metaficção meutombofavorito, com correspondência por cartas, conspiração, bases de realidade e essa capa muito massa para brincar. Às vezes tenho receio de livros assim, com aspectos tão nós mesmos, pois as expectativas e a bagagem literária podem inferir demais na leitura. Mas O céu de Lima foi... diferente. 
Só sabe que ao receber o pacote de cartas tem a sensação de que lá dentro há algo muito íntimo e por outro lado absolutamente alheio. Que é a coisa mais importante que fez na vida e ao mesmo tempo um absurdo, uma estrepolia, uma brincadeira de mau gosto que desandou.
Pense em um autor que você tem uma grande admiração. Agora pense: esse autor lançou um livro que é impossível de encontrar disponível no seu país e você e um amigo (ou amiga) tem interesse na obra. Daí vocês mandam um e-mail falando sobre essa admiração, o quanto esse autor fez/faz diferença na vida de vocês, que tem interesse nesse livro, mas se veem sem a possibilidade de encontrar, e assim, por acaso, pede um exemplar. Talvez o autor não responda ou talvez ele responda, mas não mande o livro pra vocês. O mais natural seria voltar a procurar nas livrarias, esperar que alguma editora publicasse, algo do tipo. Mas e se o pensamento lhes soprasse a ideia de imaginar para que pessoa em especial o autor mandaria e daí se passar por essa pessoa, vocês topariam o desafio de conseguir o livro? 
É verdade que ainda parece brincadeira. Mas de certo modo é a coisa mais séria que fizeram na vida.

Essa é mais ou menos a trama inusitada de Bárcena. Só que são dois amigos poetas (José e Carlos), no Peru, interessados no livro do poeta Juan Ramón Jiménez, em Madri, começo do século XX, trocando intensamente cartas se passando por Georgina Hüber, figura feminina totalmente fictícia. Com o tempo, a brincadeira foi mudando seus objetivos (os poetas passaram a “escrever” um romance sobre a peripécia e já queriam que o autor dedicasse uns versos verdadeiros à Georgina) e a coisa foi ficando séria, a ponto de a ficção de fato bater na porta da realidade. Bárcena abraça essa história – que se inspirou num fato verdadeiro com o autor Juan Ramón Jiménez – e nos faz viajar num espaço entre mundos da realidade e da ficção.

José e Carlos embarcam na empreitada. Eles são meio bobalhões, daquelas peças que não sabem bem ser ou como ser eles mesmos, porém, se arriscam em descobrir. Conforme a história vai ganhando corpo, vemos que aspectos mais profundos de cada um vão despertando – aspectos bons e ruins. Carlos é quem mais se destaca, quem mais parece querer cuidar de Georgina e da história. Questões sobre criação, escrita, percepção, fuga da realidade, soluções de trama, agradar público e outros vão passando diante de nossos olhos assim simplesmente. 
Carlos, por seu lado, não se preocupa com esse poema ainda não escrito. Seus temores na verdade são um só: de que Georgina não valha a pena. De que só tenham conseguido, depois de tantas cartas, de imaginá-la durante tantas noites de insônia, dar à luz uma mulher comum, insignificante, incapaz de despertar o interesse de Juan Ramón. De que ela esteja condenada para sempre a ser um personagem secundário. 
“Mas o que estão dizendo”, interrompe Carlos. “Georgina não tem vocação. Você sabe disso. Nós a fizemos assim. Juntos.”

É muito interessante ver essa relação de uma maneira tão realista e ao mesmo tempo fantasiosa, porque, como leitores, não só vivemos isso o tempo todo, como esperamos que isso aconteça sempre, pelas próprias características do que a literatura nos proporciona: mímese (imitação da realidade), verossimilhança (harmonia ou coerência de elementos em certa realidade) e catarse (processo de emoções que culmina e nos traz algum tipo de libertação, cura ou limpeza emocional).

Ou seja, um livro que traz um mundo semelhante à nossa realidade, que tem certa ordem de sentido, e toda sua jornada nos prende, passando por diversas emoções, a ponto de fechar uma lacuna ou compreensão dentro de nós mesmos; ter um efeito, a depender, em nós. Os autores literalmente se armam destas ferramentas para causar um efeito. Só que, claro, ao entregarem uma história, é sempre uma aposta, pois não há, precisamente, como adivinhar como um livro vai repercutir. O que é outro papo. Mas sim, José e Carlos estão empenhados em escrever essa história, com as cartas de Georgina, usando suas poucas experiências de escrita e leitura. 
É preciso enfeitar a realidade, porque afinal é isso que os poetas fazem, e eles são poetas, ou pelo menos é o que sonham ao longo de muitas noites em claro como esta. E é exatamente o que estão a ponto de fazer agora, o poema mais difícil, um poema sem versos mas capaz de comover o coração de um verdadeiro artista.

A sacada sacada mesmo é a do autor de O céu de Lima, Juan Gómez Bárcena, que tem uma exímia narração pra nos socar nesta (meta?)conspiração. Sagaz, ele não só se arma das melhores ferramentas (contexto, período de passagem, ambientação, psicologia, filosofia, sociologia), como as explora em experimentalismos de narração. Às vezes a gente acha que ele tá saindo da linha (tradicional), daí entendemos que ele quer mostrar várias outras histórias que valem ser conhecidas e que vão contribuir muito. Às vezes, bem, o narrador é apenas traquina e palhaço. Isso só mostra demonstra como o cara é engenhoso e soube segurar muito bem, de começo ao fim, sua história.

Imagino o quanto não deve ter batido cabeça!

O céu de Lima traz inúmeras discussões sobre a arte de escrever e ler, quase um easter egg para nossa percepção. Reflete também várias questões literárias perpetuadas pelos séculos, ainda atemporais. E, embora os capítulos sejam bem curtinhos, a trama é um tanto densa e por isso pede uma leitura mais calma, de sugar pouco a pouco as palavras de Bárcena, que, com certeza, são de arrebatar. 
Talvez seja exagero chamá-los de escritores só porque mandaram algumas cartas. Isso depende da importância que dermos a tal correspondência. E, claro, da seriedade com que considerarmos o próprio ofício de escrever, que aliás não é uma profissão, mas uma espécie de ato de fé. A única coisa de que podemos ter certeza é isto: eles julgam ser escritores. E, tal como uma gravidez psicológica o corpo se alarga para abrigar um filho que não haverá, em torno da sua hipotética condição de literatos também irão se gerando algumas das virtudes e defeitos dos verdadeiros escritores. 
Mas o amor, onde está? Ainda não está, porque ninguém lhe deu palavras. O amor é um discurso, meu amigo, é um folhetim, é um romance, e se não for escrito na cabeça, ou no papel, ou onde quer que seja, não existe, fica pela metade; não passa de uma sensação que imaginou ser um sentimento...

P.S.: Inevitavelmente lembrei da Docinho de Coco (Candy Cane), do filme Perseguição: A Estrada da Morte (Joy Ride, 2001), clássico suspense de fim de noite da Globo. Não achei trailer legendado ou dublado.


 Até a próxima!

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quinta-feira, 2 de março de 2017

Interrogação #11 – O caminho fácil e o caminho difícil na escrita


Com Melissa de Sá, autora parceira convidada


Interrogação é uma coluna do Dear Book que recebe convidados para refletir o nosso momento enquanto ideias, hábitos, panoramas e manifestos culturais. A cada post, uma pergunta e uma opinião. Todo o conteúdo de resposta é de responsabilidade dos convidados. Sem periodicidade fixa, a coluna é organizada pela dear boss, Kleris Ribeiro.


O que é o caminho fácil e o caminho difícil pra você na escrita?

M: Vixe, bem que me avisaram que as perguntas por aqui não eram fáceis, hein?

Para mim, o caminho fácil na escrita é continuar na zona de conforto. Todo escritor tem aquele gênero que tem mais afinidade, aquele tipo de cena que “flui do nada”. É fácil seguir escrevendo só isso, um caminho muito menos doloroso. Sair da zona de conforto é entrar no caminho difícil, pois nos força a expandir nossos horizontes, procurar coisas onde não imaginamos. É escrever algo que nunca imaginamos escrever. E às vezes isso é complicado, nos faz bater cabeça, reescrever mil vezes. Mas também é um processo que nos faz escritores melhores.

Seguir “modinhas” pode parecer um caminho fácil, inicialmente, mas é preciso lembrar que a literatura segue em ondas: aquilo que é o ápice durante alguns anos, depois já não é mais tão interessante. Os livros que permanecem são aqueles que conseguiram transitar entre velho e o novo, que conseguiram atingir seu público, mas que trouxeram algo que ficará para além de sua época. Eles podem até ter feito parte de uma certa modinha, mas tinham algo a mais.

Obviamente os leitores são importantes, mas atender às expectativas do público sempre e a qualquer custo faz com que surja uma leva de livros completamente iguais. É muito fácil cair em velhas fórmulas literárias e clichés e usá-los de forma pouco problematizada. Encher um livro com triângulos amorosos, sacrifícios de herói e protagonistas ruivas muito especiais pode parecer inicialmente uma solução fácil que vai agradar a todos, mas sem dosagem nenhuma faz com que aquele texto só seja mais um na multidão.

Trilhar esse caminho difícil também pode colocar público e escritor em rota de colisão. Quando um escritor ou escritora é associado a um determinado gênero, pode parecer loucura para os leitores quando uma publicação diferente aparece. Mas precisamos lembrar que Stephen King escreveu uma fantasia clássica em Os Olhos do Dragão e um drama emocionante em A Espera de um Milagre. Margaret Atwood escreveu a distopia O Conto da Aia, mas também tem um livro de poemas maravilhoso chamado Os Diários de Susanna Moodie.

Em relação à minha escrita, tive que sair da minha zona de conforto algumas vezes e foram desafios dolorosos, mas que me ensinaram muito. O mais notável foi o conto “Erva Daninha”, para a antologia Medieval da Editora Draco. Foram várias e várias reescritas, vários comentários de “não tá bom ainda” e eu tive que trabalhar no texto de forma muito intensa fazendo pesquisas sobre a Veneza medieval, como as pessoas viviam na época e figuras históricas. Foi um parto, foi difícil, não era nada daquilo que eu estava acostumada a escrever, mas aprendi muito no processo.

Outro caso meu foi com Metrópole: Despertar, minha distopia também publicada pela Draco, em que tive que mexer em metade do livro porque a história não estava fluindo tão bem quanto eu esperava. Foi difícil ouvir e perceber isso, sentar na cadeira e repensar tudo, mas hoje vejo que o livro ficou bem melhor.

  

É sempre mais fácil viver dentro da nossa bolha, mas a bolha é sempre o caminho fácil. Na vida e na escrita temos que sair dela.


Melissa de Sá tem medo do escuro, mas escreve sobre ele mesmo assim. Desde 2012 traz suas ideias da gaveta para o mundo. Publicou Metrópole: Despertar, uma distopia Young Adult pela editora Draco em 2016. Esteve presente em diversas antologias, dentre elas Excalibur (2013), Boy’s Love (2014), Piratas (2015) e Medieval (2016), além de possuir vários trabalhos independentes. Seu e-book infantil, A Última Tourada, teve mais de 51 mil downloads no site, o que levou à publicação da versão impressa. É de Belo Horizonte e mestre em Literaturas de Língua Inglesa pela UFMG. Gosta de doce de leite, música e verões preguiçosos.


Redes sociais de Melissa


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Até a próxima interrogação!
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Interrogação #8 – A voz na escrita e a voz na leitura

Com Karen Alvares, autora parceira da casa


Interrogação é uma coluna do Dear Book que recebe convidados para refletir o nosso momento enquanto ideias, hábitos, panoramas e manifestos culturais. A cada post, uma pergunta e uma opinião. Todo o conteúdo de resposta é de responsabilidade dos convidados. Sem periodicidade fixa, a coluna é organizada pela dear boss, Kleris Ribeiro.


O que é pra você a voz na escrita e/ou na leitura de um livro?

K: A Kleris me deu esse tema espinhoso para a coluna Interrogação (isso porque ela diz que gosta de mim!). Mas tudo bem, só porque eu gosto dela também, fiquei pensando na pergunta por dias e (acho) que cheguei a uma conclusão.

Assim como cada pessoa tem uma interpretação própria do mundo, cada escritor e cada leitor tem uma visão muito pessoal dos livros. Posso falar de ambas as situações, pois além de leitora, também sou escritora; é possível ser leitor sem ser escritor, mas jamais existirá um bom escritor que também não seja um ávido leitor.

Como escritora, é impossível escrever uma história sem colocar nela um pouco de si. Isso não quer dizer que os personagens sempre sejam pessoas reais, mas costumo dizer que todos eles possuem pitadas aqui e acolá de pessoas que realmente existem ou existiram. Mas, além disso, há a voz do escritor; não é bem o estilo dele, mas sim o que diz e como diz. O estilo é uma roupa que se veste, mas a voz é algo que vem de dentro e às vezes nem o próprio escritor percebe; é seu cheiro, seus trejeitos, sua entonação ao falar, a curva de seu sorriso. E todas essas sutilezas estão presentes em suas palavras, na maneira como as arranja, torce, espreme, cospe, vomita, dá significado e, finalmente, apresenta-as ao leitor.


Mas e o leitor? Bem, eu também leio muito – mais leio que escrevo, aliás –, e quando paro para pensar, a voz na leitura não é tão diferente assim da voz na escrita. Tudo bem que um leitor não está criando uma história do zero, como o escritor, apenas com a assustadora página em branco à sua frente, mas assim como ele, a imaginação também é sua arma e pode usá-la como quiser, mesmo que a história tenha sido criada por outrem.

Prova disso é que cada leitor interpreta um livro de uma maneira única, nunca uma leitura será a mesma para duas pessoas, e mais ainda, um livro não é o mesmo em diferentes fases da vida, ainda que o leitor seja o mesmo. Isso acontece porque, assim como quando se escreve, a voz vem de seu íntimo, e quando lemos, interpretamos e sentimos o texto à nossa maneira, com nossa visão, nossa voz. Jamais poderei ler um texto da mesma maneira que você, aí do outro lado, lê; somos pessoas diferentes, com diferentes experiências e vivências, e que bom que as coisas são assim, do contrário o mundo seria muito chato.

Assim como acontece com nossa voz que vem da garganta, não acredito que um dia um escritor ou um leitor vá saber exatamente como sua voz na escrita ou na leitura soa aos outros. Nós a ouvimos de uma maneira, mas nunca saberemos como uma pessoa de fora a interpreta, nem mesmo com um gravador.

Isso só mostra como somos únicos e especiais. Bem como os livros.



KAREN ALVARES conta histórias para o papel há tanto tempo que nem lembra quando começou. Autora da duologia Inverso (Draco, 2015) e Reverso (Draco, 2016), Jornada para Far Lands – uma aventura não oficial de Minecraft (Draco, 2016), Horror em Gotas (Independente, 2013), Alameda dos Pesadelos (Cata-vento, 2014) e Dois Lados, Duas Vidas (Cata-vento, 2015), também organizou a antologia Piratas (Cata-vento, 2015) e foi publicada em várias antologias de contos da Editora Andross, Draco e Buriti, além de publicações independentes e revistas. É colunista no blog literário Por Essas Páginas e foi premiada em diversos concursos nacionais. Em 2016, na Bienal do Livro de São Paulo, foi premiada pela Amazon com o 3º lugar no destaque como autora de ficção no evento “Celebrando Autores Independentes”. Apaixonada por mundos fantásticos, chocolate e gatinhos, vive em Santos/SP com o marido e cria histórias enquanto pedala sua bicicleta pela cidade.

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Ana Liberato