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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Resenha: “Do que eu falo quando eu falo de corrida” (Haruki Murakami)

Tradução de Cássio de Arantes Leite
Por Kleris: Murakami me arrebatou em Romancista como vocação (reveja resenha aqui) e nele descobri Do que eu falo quando eu falo de corrida, em que descreve uma ponte notável entre escrita e corrida. Diz Haruki que é este o estilo de vida que o melhor sustenta. Como ele, me identifico quando se trata de aliar um exercício físico que se ama com alguma produção (no caso, escrita). Isso significa qualidade em diversos níveis – produção textual de qualidade, tempo de qualidade, valor de qualidade, aproveitamento de qualidade, vida de qualidade. 
Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até.

Nesta proposta de leitura em especial, Murakami nos envolve de maneira esplêndida ao explorar variados aspectos da corrida – quase como um livro de memórias. Do que eu falo quando eu falo de corrida traz um conjunto de registros lá da virada do século – da década de 90 e os primeiros anos de 2000. São notas escritas despretensiosamente em meio ao que se vivia; na verdade, o impacto das corridas no dia a dia, seja como realização pessoal, seja como mera atividade física. 
Os pensamentos que me ocorrem quando estou correndo são como nuvens no céu. Nuvens de todos os tamanhos diferentes. Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo céu de sempre. As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora, deixando o céu para trás. O céu existe ao mesmo que não existe. Possui substância e ao mesmo tempo não. E nós meramente escolhemos essa vasta expansão e nos deixamos abrigar.

A sensação é de ter entrado no escritório do autor e, no meio de uma papelada, ter encontrado algum tipo de diário, que de imediato folheamos. Encontramos relatos honestos, humildes e reflexivos – em sua maioria, divagações que envolvem de tudo um pouco, como a escrita, livros, traduções, escritores e estilo de vida.

Murakami nos conduz com leveza. Ele tem um jeito impressionante de nos sugar atenção e nos colocar no local exato ao que estava. Tem até momentos de suspense! Em sua jornada de maratonas, vivemos e torcemos. Corremos também quase lado a lado, folheando tudo bem rapidinho.  
Não — esqueça a cerveja. E esqueça o sol. Esqueça o vento. Esqueça o artigo que tem de escrever. Apenas se concentre no movimento do pé adiante, um depois do outro. É a única coisa que importa.

Acho que o que mais conquista (novamente) é seu carisma, desde a construção de texto às ideias que quer passar. Nada egocêntrico, ele deixa claro o que faz/fez, sem induzir ou forçar a barra. Quer dizer, ele respeita a escolha do outro (ou pelo menos se esforça muito pra isso). É bacana ver como se aceita, em suas forças e em suas falhas, sempre a reforçar algo bom de si, favorecer sua saúde mental ou mesmo sincronizar a atividade com seu singular eu. 
Quando corro digo a mim mesmo para pensar em um rio. E nuvens. Mas em essência não estou pensando em uma coisa. Tudo que faço é continuar correndo em meu próprio vácuo aconchegante, caseiro, meu silêncio nostálgico. E isso é uma coisa maravilhosa. Digam as pessoas o que disserem. 
Eis por que a hora e pouco que passo correndo, preservando um tempo só meu, em silêncio, é importante para me ajudar a manter o bem-estar mental. Quando estou correndo, não preciso conversar com ninguém e não tenho que escutar ninguém falando. Tudo que tenho que fazer é olhar para a paisagem que passa por mim. Essa é uma parte de meu dia sem a qual não consigo viver.

Apesar de algumas notas suas enfatizarem âncoras de bem-estar, estados contemplativos e percepção, não tem nenhum lenga-lenga sobre saúde. Como eu disse, ele não tem interesse de “converter” ninguém para a atividade física. Seus registros são apontamentos que fez basicamente para si – para revisitar de tempos em tempos e se autoavaliar. Mas são tão bons que não podiam ficar na gaveta, né?  
Os pensamentos que me ocorrem quando estou correndo são como nuvens no céu. Nuvens de todos os tamanhos diferentes. Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo céu de sempre. As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora, deixando o céu para trás. O céu existe ao mesmo que não existe. Possui substância e ao mesmo tempo não. E nós meramente escolhemos essa vasta expansão e nos deixamos abrigar. 
Mas por mais determinada que seja a pessoa, por mais que possa odiar a ideia de perder, se não for uma atividade da qual realmente gosta, não vai continuar nela por muito tempo. Mesmo que o faça, não seria nada bom para essa pessoa.
É por esse motivo que nunca recomendei a corrida para os outros. Faço questão de nunca dizer algo como: “Correr é ótimo. Todo mundo deveria tentar.” [...]
Mesmo assim, alguém pode ler este livro e dizer: “Ei, vou experimentar correr um pouco”, e depois descobrir que gosta. E é claro que isso seria maravilhoso. Como autor do livro, eu ficaria muito feliz se isso acontecesse. Mas as pessoas têm seus próprios gostos e antipatias. Algumas são mais afeitas para correr em maratonas, outras, ao golfe, outras, a jogos de azar.

Há, claro, esse compartilhar de experiências, a descrever condições de corrida, ritmo e preparação. Percebe-se, no entanto, que o que se sobrepõe a tais é justo o aprendizado, seu interesse maior de registro.   
Por mais que você fique ali nu se examinando diante de um espelho, nunca vai ver refletido o que existe por dentro.

Do que eu falo quando eu falo de corrida é uma excelente opção de leitura aos aficionados por corrida, exercício físico, esportes de atuação solo. Maratonas, energia, quilômetros, aliás, são palavras-chave. Murakami, porém, vai bem além. Seus textos hipersensoriais criam uma espécie de redoma que se desenha em um momento de apreciação e nela concentra o pensamento – senão, a luta pelos nossos sonhos. Recomendo! 
[...] decidi que deveria apenas escrever honestamente sobre o que penso e sinto quanto a correr, e me ater ao meu próprio estilo. [...] a maior parte deste livro registra meus pensamentos e sensações em tempo real. [...] Talvez não sejam grande coisa, mas são lições pessoais que aprendi ao pôr meu corpo efetivamente em movimento [...] Pode acontecer de essas lições não se prestarem a generalizações, mas é justamente porque o que é apresentado aqui sou eu, o tipo de pessoa que sou. 
As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que esse seja o motivo pelo qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo. [...] Forçar a si mesmo ao máximo dentro de limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicada à vida — e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muito corredores concordariam. 
Às vezes, quando estou praticando uma palestra em minha cabeça, me pego fazendo todo tipo de gesto e expressão facial, e as pessoas que passam por mim na direção oposta me lançam um olhar estranho. [eu na vida]

Até a próxima!

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Resenha: "A Rainha de Tearling" (Erika Johansen)

Tradução: Cássio de Arantes Leite

Por Sheila: Oi pessoas! Como vocês estão? Eu andei falando por aqui e com uma galerinha sobre a terrível bad literária em que eu estava. Sei lá todos os livros que eu lia eram meio  nota 3 e olhe lá. Juro que chegou um momento em que eu até passei a duvidar do meu próprio julgamento, e a pensar seriamente que eu talvez - horror dos horrores!- não fosse mais uma ávida leitora.

Claro, isso tudo ate conhecer Kelsea, A Rainha de Tearling. E descobrir que não havia nada de errado comigo. Só tinha lido um monte de histórias ruins mesmo. Previsíveis. Forçadas. E com cada clichê de me fazer corar de vergonha pelo autor.

Mas deixem eu contar um pouquinho para vocês a respeito da Kelsea - chamando pelo nome, ao invés de majestade - para vocês verem como eu criei intimidade com essa heroína M-A-G-N-Í-F-I-C-A e a irmã que eu nunca tive! 

Assim como Aurora, ela foi criada na floresta, para fugir de uma terrível feiticeira e de um tio ganancioso que queriam, mais do que tudo, sua morte, para se apossarem de sua coroa e reino. mas, ao invés de três fadas bondosas, teremos um casal idoso formado por um médico e uma dama austera, que criaram Kelsea com menos carinho do que disciplina e lições sobre história e política para que, no momento certo, pudesse governar o reino de Tearling.

Além disso, não era dotada de beleza e encanto, ou de voz angelical, muito menos temperamento delicado e suave. Kelsea se denomina glutona, e sua aparência é descrita como comum. Em momentos decisivos, não esta banhada em uma luz celestial, mas descabelada, suja e com ares de gente do povo. Kelsea não é uma princesa. Kelsea é, até mesmo nos momentos de fraqueza, Rainha.

Vivendo em um mundo com ares de medieval, Kelsea foi preparada para ser Rainha mas, sobre tudo, para ser caçada. E é exatamente isso que acontece quando, ao completar 19 anos, precisa deixar a segurança da cabana onde cresceu para trás e seguir com um  grupo de nove cavaleiros, intitulados A Guarda da Rainha, de volta à sua fortaleza em Tearling para ser coroada e tomar posse de seu trono. Por mais que tenha sido criada na ignorância de alguns conhecimentos chave do reinado de sua mãe, Elyssa, Kelse desde tenra idade sabia o que lhe esperava: uma luta que poderia ser sangrenta pelo seu trono e sua vida.

Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Um homem gritou, e Kelsea sentiu uma dor cortante no ombro esquerdo. Clava a empurrou para o chão e agachou-se acima dela, protegendo-a com o próprio corpo. Uma mulher gritou na multidão, a um mundo de distância.
Espadas se chocaram ao redor deles. Kelsea se debateu sob a proteção de Clava, tentando pegar a faca na bota. Tateando com a mão livre, descobriu o cabo de uma faca se projetando logo acima de sua escápula. Quando seus dedos roçaram nele, uma dor lancinante percorreu seu corpo inteiro, da cabeça aos pés.

Ao longo do livro vamos sendo apresentados a todas as questões aos poucos, e nossa ignorância é desfeita juntamente com a de Kelsea, sendo que falar muito mais a respeito da trama, na minha opinião, seria estragar a surpresa. Mas a história foi escrita com maestria, e compará-la com Jogos vorazes como fez o USA today na orelha do livro seria reducionismo.

Na verdade, o que fica em evidência neste livro, e que talvez seja o que provoca tanta ressonância, é que o Mal não se encontra personificado em um único personagem que encarna O Vilão. Não que não tenhamos muitos personagens que cometem atos bárbaros, seja por necessidade de prazer, poder ou fraqueza.

A Rainha Vermelha, de Montmesner, parece ser uma dessas antagonistas, assim como Thomas, o tio de Kelsea e regente do reino de Tearling até seu retorno, e que tramou sua morte. Mas, no fim, a autora nos fará ver que a maldade é intrínseca à personalidade humana, e explorá-la não em um sentido moral, mas necessário. Nos acontecimentos de "A Rainha de Tearling" vemos que os vilões em sua maioria são pessoas que fizeram más escolhas, que ignoram que exista outra forma de lidar com a situação, que se orientam pelo que acham, em sua visão distorcida, ser certo e justo.

Chega a ser irônico que Tearling e outros reinos adjacentes tenham sido fundados após o término de uma antiga civilização, que entrevemos ser a nossa, que havia se corrompido. E que, apesar de todos os esforços de seus fundadores, isso volta a acontecer, como se fosse da natureza humana repetir velhos erros quando a história de um povo se perde e a educação não é mais a principal prioridade de um governo.

O que mais posso dizer? Leiam. Reflitam. E, claro, comentem! Forte abraço.

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Ana Liberato