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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Littera Feelings #32 – Se o leitor quer colorir, dê a ele o lápis de cor e pronto


Vamos colorir essa discussão porque sim.

Confesso que fiquei relutante em trazer o assunto aqui na coluna – visto que já se disse tanto a respeito da onda dos livros de colorir na internet – mas, diante de leitores ou mesmo agentes da produção/comercialização de livros polemizando esse fenômeno, acho que valem umas notas de consideração sobre o assunto, até porque os argumentos de que livro de colorir não é livro, de que a culpa da moda de colorir é da educação deficiente ou de que a leitura sumiu das prateleiras ainda não me convenceram.

  

É ou não é livro?

Sou mais da aposta de que sim, é livro, em vista do público e do ponto de venda direcionado, as livrarias. Ele também é trabalhado em formato de livro (impresso). Você tem capa, tem lombada, tem ISBN de publicação. Ele está sendo vendido como livro.

Não temos almanaques com capa, lombada, mas vendidos como revista? E não temos revistas hoje online que funcionam como blogs? E o que falar dos audiobooks? Acho que já deu essa história do que é livro ou não desde a chegada dos ebooks.

Livro interativo não é uma ideia de agora, e escolheram um ótimo momento para seu retorno. Já li relatos sobre essas publicações que juram terem representado infâncias; na minha memória, ficaram as agendas interativas e revistinhas de pintar – e que eram vendidas, respectivamente, como agendas e revistinhas.

Os livros de pintar para adultos poderiam ser revistinhas? Poderiam. Mas escolheu-se o modelo de livro, destinados para as livrarias e para os adultos.

A moda dos interativos só comprova como o livro por si pode se reinventar – principalmente como matéria e/ou conceito. O livro como objeto, na verdade, é de uma diversidade impressionante.

Um exemplo recente e interativo?
A série da Keri Smith, Destrua este diário, Termine este livro, Isto não é um livro, da Editora Intrínseca (que enamoro faz um tempinho). Para conferir a arte gráfica, veja aqui.

Um exemplo recente e não necessariamente interativo?
Queria Ter Ficado Mais, da Editora Lote 42 (que também estou enamorando faz um tempinho). Para conferir o projeto gráfico, leia aqui ou assista aqui.


E quem pinta é mesmo leitor?

Leitor interativo, oras. Leitura não é apenas texto – pois se fosse, como explicar os livros de ilustrações ou os fotolivros? Todo livro pressupõe algum tipo interação, seja para estudo, informação, entretenimento, relaxamento. Alguns interagem em pensamento, em silêncio, outros são mais ativos, sublinham, anotam, rabiscam, pintam, rasgam, joga-se da janela e etc. Além de ceder liberdade ao leitor, o livro oferece uma experiência fora do convencional – fora da leitura de texto.


Acostumamo-nos com a ideia de que livro de pintar é apenas para crianças, por causa do estímulo de cores, de tato, criatividade, coordenação motora e concentração. Mas, como as atividades de passatempo, há níveis de estímulo. Não é isso que também pode diferir um livro infantil de um livro para adultos?

No caso dos livros de pintar para adultos, explora-se uma abertura no horizonte das leituras, que, acredito eu, para uma criança poderia ser irritante (dependendo do livro, claro). Nesses livros temos muitos detalhes e também pressupõem uma coloração mais coordenada (ou “desvirtuada”: veja neste post) pelas visões de mundo. Isso sem falar dos temas. Tem tema proibido para menores de idade.

Assim, pode-se dizer que o leitor alvo não é fielmente o costumeiro leitor de livros, de romance, contos, ensaios, mas nem por isso ele será excluído da equação. Os livros de colorir estão aí atendendo não a demanda da criatividade, mas uma demanda que acumulou por muito debaixo de nossos narizes: uma população estressada com tudo e que precisa expirar esse cansaço.


Há quem tente os chás, o yoga, as corridas, as viagens, a música, o videogame, as séries, os filmes, as novelas, os livros. Por que não pensar nesse (grande) alvo, nas suas necessidades e alinhar isso no mercado de publicação? Mesmo que o (novo) leitor, que se pretende alcançar, não é aquele que regularmente consome livros? Já se comprovou que atividades manuais ajudam no quesito relaxamento. E mais!
Vivemos tempos exponenciais, com as mídias sociais, internet e smartphones. Estamos hiperconectados. Então, entramos em uma era na qual os jovens começam a experimentar a desconexão. E os livros de pintar significam a pessoa parar e fazer trabalhos. Para esses jovens, a leitura virou um momento para desligar por meia hora. E não é apenas com os livros.
Gil Giardelli, educador da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Fonte: Tab.

O mercado testou essa proposta e logo que tiveram ótimos resultados, a aposta veio com tudo. Nesse sentido, foi importante ousar.


Melhor momento para o mercado de publicação e as inovações


Logo que a febre foi confirmada, as editoras tiveram que se manobrar para não perder a onda. Claro! Replanejar aqui e ali, adiar lançamentos, adiantar e recriar projetos, por que não? Uma coisa que se ouve falar muito quando uma moda estoura é o quanto o fenômeno pode ser aberto para as inovações temáticas. Para os livros de colorir, isso foi essencial. Melhor, foi genial. Gostei de ver sobre o quanto isso potencializou o alcance dos livros!

(Link da imagem acima)

Gostei de ver também o quanto isso valorizou o nosso próprio mercado livreiro. Pense no quanto de ilustradores, designers e profissionais afins estão se mobilizando. Pense no quanto isso está se expandindo. Pense em outras indústrias que, apesar de terem sido pegas de surpresa por esse bilhete premiado, correram para produzir lápis de cor, apontadores e hidrocores. Se antes as papelarias já sorriam com os materiais auxiliares de leitura, como post-its, flags (marcadores adesivados), canetinhas coloridas, agora eles estão fazendo a festa!


O mercado todo está em festa, eu diria (embora haja quem reclame aqui e ali, né). Além da “fortuita” valorização do trabalho nacional, colhe-se um ótimo capital para projetos futuros. E por que não driblar também a ameaça da crise econômica ou mesmo do dólar alto (que infere na compra de lançamentos lá de fora) que haveriam de nos afetar?
[...] Tornou o mercado editorial mais saudável num ano de crise. E está agregando público às livrarias e ao mercado editorial.
Rafaella Machado, editora da Galera, da Record. Fonte: O Globo.

Em outro post desta mesma coluna, afirmei que a vitória ainda era do leitor (em relação à leitura). Hoje já digo que a vitória está aí para todos, porque os lucros, ah, os lucros, ainda estamos para assistir a muito deles.


O “daqui pra frente” de um fenômeno

É válido lembrar de vez em quando que o livro é produto comercial, mesmo por todo o amor que temos por ele. Agora que as editoras têm a atenção desse grande público, é importante repensar os projetos e fazer mais uma ponte para que fidelizem esses novos clientes. Porque uma hora a onda vai passar.

Não é que a leitura vá reaparecer nas prateleiras – ela não sumiu, afinal; uma livraria não se vale apenas de estouros ou de montinhos de livros nas entradas – mas é esperado que as novas propostas (quem sabe?), as próximas ondas, sejam tão bem-vindas quanto. E quem sabe se isso mesmo de alguma maneira não impulsione a, citada lá em cima, “educação deficiente”?

(me confirmem se essa frase é realmente dele)

Eu, como leitora, apoio os livros de colorir. Se o leitor quer colorir, que escolha seu livro e mande brasa!

E vocês, o que dizem a respeito dessa polêmica? O que convence e o que não convence nessa discussão? O que esperam desse fenômeno?

Até a próxima,


Kleris Ribeiro

P.S.: Obrigada aos twitteiros pelos tweets :)
terça-feira, 14 de abril de 2015

Littera Feelings #30 - A vitória ainda é do leitor

Olá, leitores queridos! Como estão?

Passei uns bons dias em off por conta de uma virose daquelas tensas que até pra segurar o celular era um esforço, mas foi esse mesmo smartphone com wifi que me salvou quando de repente eu tava nessa fenda da febre e precisava ter noção de mundo ~real~. 

Acompanhem-me em mais uma viagem.


Bom, todos os anos pouco a pouco a leitura tem quebrado barreiras e vencido desafios. Foi-se o tempo em que imaginávamos que éramos os únicos em alguma coisa (apesar de hora e outra a sensação querer voltar); a internet está aí pra isso, nos abrindo o leque todos os dias, todas as horas, minutos e segundos (de fato, em tempo real). Para a leitura não é diferente.

A “luta” é de todo dia, e já podemos afirmar que conquistamos coisas espetaculares. Desmitificou-se o preconceito/problema em ler; a produção nacional tem ganhado um considerável espaço diversificado em relação à produção estrangeira; e ser independente não é mais tão novidade assim. Os ebooks são outros que não são mais encarados como afronta; Amazon, Kobo, Lev, Book Tour, Book Haul, TBR (to be read) Jar, shelfie, tudo faz parte dos vocabulários cotidianos e antenados. Propagam-se brincadeiras e desafios literários pelas redes; projetos, propostas, clubes, eventos e outros estão se fazendo valer cada dia mais. 

E sabe o que tenho gostado de ver nos últimos tempos? Como a cultura da leitura tem se expandido pelo país, pipocado em vários cantos. Melhor dizendo, o livro tem deixado seu “centro cultural” e encontrado novos lugares especiais. E não só isso, tem também reunido leitores antes tão dispersos e perdidos de uma mesma região.


Isso, para algumas pessoas, pode parecer bobo de se dizer, uma vez que se respire cultura no eixo sul-sudeste. A perspectiva muda quando nos vemos em lugares que mal há uma livraria, ou um bom acesso e atendimento a sebos e bibliotecas. Os leitores podem sobreviver com livrarias online e correios, mas não é a mesma coisa. Cada desenvolvimento em seu tempo, claro, como foi no meu Maranhão.

Estendendo um pouco mais esse parêntese da conversa, recentemente tivemos a visita do Projeto Quebras (que viaja por todo o país para conhecer e registrar produções únicas de suas regiões) com Marcelino Freire, temos mais autores mostrando a face no cenário maranhense de produção, e a capital tem multiplicado os eventos literários. Vale uma super menção para o twittaço para trazer a #TurnêIntrínseca e às atividades dos clubes (Penguim e Vórtice).


Agora, deixando de lado essa minha admiração, nos voltemos para certo dado que todos os anos mexem conosco: a avaliação do cenário de leitura.

(contém vitamina: A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y & Z)

Por toda a última semana, um texto que muito me chamou a atenção foi o do Rodrigo Casarin, lá do blog Página Cinco (matéria repostada no Mob de Leitura) sobre os dados de leitura de 2014. O título diz muito: 70% dos brasileiros não leem. E daí? O Rodrigo se mostrou preocupado por termos tão poucos leitores, e, de fato, cada vez que saem essas pesquisas, é difícil não ter em mente o quanto do Brasil ainda não atingimos.

Mas então pensei: se 30% é tudo que temos, o que mais há por trás dele para ser considerado? O que isso representa para o leitor?

Se a pesquisa mira no livro como um produto (já que o cunho é uma análise mercadológica) e um produto não só de entretenimento, mas de informação e conhecimentos diversos, então, por óbvio, há outros produtos e/ou serviços nessa concorrência. Temos aí videogames, brinquedos, tv, cinema, teatro, música, shows, aparelhos tecnológicos diversos, revistas, jornal, dvd, blueray, netflix, novela, programas, podcasts, jogos de diversos esportes, etc. É ou não é uma intensa disputa de atenção?

Não esqueçamos que temos diversas feiras, encontros, bienais, eventos, e alguns deles todos os anos. Embora o seu objetivo não seja fomentar a leitura em si, não há como negar as vendas. Independente de ser uma bienal ou uma bancada de livros com desconto na esquina de uma praça, livros estão sendo vendidos. Se nosso mercado fosse tão fraco, como as editoras se interessariam em publicar? Tem lançamento para todos os gostos quase todo mês!

Lembremos (mais uma vez) que nem todos vivemos em cidades grandes ou em centros culturais. Há cidades em que a banca de jornal está fechando, ao passo que, sei lá, uma banca de revista numa cidadezinha do interior seja aquela que faça a diferença. O fato é que há diversas realidades de leitura por esse país, e a que mais foge à memória é aquela que mais movimenta o mercado livreiro nacional: as compras governamentais para as escolas.

Mas, ok, não vou me enveredar para o lado da educação. O que importa é que nós produzimos, nós compramos, nós lemos e nós conversamos sobre livros. Nosso mercado é vivo. Eu vejo e respiro isso quase todos os dias - nós, leitores, estamos nos encontrando, tanto no real, quanto no virtual. Os 30% podem não ser os números dourados, porém essa realidade já está disponível e para muitos.

Apesar da crise apontada para o mercado, acredito que há ainda muitos livros em nossas mãos. A vitória dessa vez não foi da leitura, no entanto, cada vez que um livro é aberto por um não leitor, temos uma nova esperança. A vitória ainda é do leitor. Ele faz valer todos os nossos esforços. 

— Acredito que as pessoas têm de ler livros. Não importa se elas vão ouvir o livro, se vão ler no papel, no smartphone, num tablet, não importa. Importa é que elas leiam.
— E você acha que o brasileiro lê livro?
— O brasileiro lê livro sim. Ele infelizmente não tem acesso, em várias questões econômicas, socioculturais; ele ainda tem dificuldade em alcançar os livros. Mas se fossem mais populares, eu acho que o brasileiro ia ler mais. 
Ednei Procópio – editor especialista em livros digitais e membro da Comissão do Livro Digital na Câmara Brasileira do Livro – em entrevista sobre a era digital.

(tempo no vídeo do trecho acima – 21:15)

Até a próxima!


Kleris Ribeiro.
 
Ana Liberato