segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Resenha: “A vida invisível de Euridice Gusmão”(Martha Batalha)




Por Marii: A vida de Eurídice Gusmão e Guida Gusmão nos faz perguntar como a história de duas irmãs tornou-se tão diferente e, ao mesmo tempo, tão limitadas pelos preceitos machistas de uma sociedade de não muitos anos atrás. Desse mesmo Brasil que hoje moramos. E, embora, ainda haja marcas profundas desse machismo. Nesse livro, senti que é muito difícil não conseguir gritar depois que começamos a ganhar alguma voz.
“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados, ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.”

Apesar de inicialmente achar que A vida invisível de Eurídice Gusmão fosse discursar sobre princípios feministas, me enganei ao encontrar uma personagem que poderia ter sido e ainda sim criar um interesse mesmo com a quebra de expectativas. Poderia ter sido, pois entre tantos os interesses que poderiam ter sido realizados e Eurídice vai descobrindo no decorrer de sua vida, tantas escolhas que poderiam ter sido feitas, Eurídice foi uma personagem limitada que teve que cumprir seu dever de dona-de-casa, mãe e esposa, e não teve muito espaço, ou melhor, muita liberdade para pensar em si.
“Eurídice pulos por dentro e por fora, mas os pais disseram que não, talvez não, com certeza não. As aulas com o senhor Jean Luc estavam indo muito bem, pra que mais? Para os pais de Eurídice, a flauta jamais seria um fim. A flauta era apenas um meio. Um meio de aumentar as prendas da filha para que fizesse um bom casamento. Um meio de distrair a família depois do jantar, quando um ou outro pedia: ‘Toque esta marchinha! ’. Eurídice não precisava de mais aulas com aquele excêntrico senhor de calças coloridas.”
A história do livro inicia-se com a vida de Eurídice Gusmão, mas não conta só sobre a vida dela, há outros personagens próximos como o marido Antenor, ou a vizinha fofoqueira Zélia. Isso, porque o livro é cheio de flashbacks da história de vários personagens a fim de explicar personalidades ou atos, por vezes, injustificáveis. Durante o livro inteiro viajamos pelo passado de personagens que vão surgindo na história e se misturando a vida de Eurídice. E entre esses personagens, está a segunda personagem muito importante, sua irmã, Guida. Demora um pouco até conhecermo-la, apesar do livro não ser para lá de muito grosso. Mas até o momento não havia nenhum grande clímax, ou eu nem imaginava onde eu desejava chegar. Percebi, depois, que todo o momento anterior e todas as histórias serviram-nos para nos preparar ao que viria a seguir, como também a nos fazer perceber a limitação das personagens mulheres que poderiam ter sido, como Eurídice.

Antes que tratemos de Guida, ou qualquer outro personagem. É importante frisar que o livro retrata de forma clara e direta o que era essa sociedade, que há menos de cem anos, pode ter sido vivenciada pelas nossas avós. E apesar, de desagradável hoje aos nossos olhos, são nas ironias e no humor simples, em pequenos detalhes, que Martha batalha faz as críticas que eu esperava. Achei bem cuidadoso o uso de palavras ou até expressões que se popularizaram, de saberes populares, como o famoso: formiga faz bem para os olhos. É aquela doçura de coisas que nossas avós nos diziam quando éramos crianças. Cada momento que lia algo assim, era um sorriso.
“’Sabe aquela brincadeira de rabo de burro? ’
‘Que?’
‘Aquela brincadeira de rabo de burro. Quando a gente tapa o olho da criança e diz que ela tem que colocar o rabo no burro. Aquela que a gente fazia nas quermesses da igreja.’
‘Sim.’
‘A vida é como essa brincadeira, Eurídice. Ás vezes a gente acha que está fazendo tudo certo, mas quando se dá conta descobre que estava com os olhos tapados e não consegue acertar de jeito nenhum.”
Voltando a Guida Gusmão, a irmã mais velha de Eurídice, que apesar da mesma família, não teve o mesmo destino que nossa personagem principal. Teve um destino mais infeliz, e enquanto lia sobre a história de Guida Gusmão, por um narrador em terceira pessoa que não tem o que esconder sobre a boa reputação da moça, descobrimos uma personagem que tinha uma vontade de sobreviver, mas que não conseguiu escapar das línguas afiadas da sociedade. Pessoalmente, me interessei mais pela personagem Guida, por ter sido a mais oprimida pela sociedade machista e ainda sim permanecer (e sobreviver).

“E Eurídice olhava triste para as unhas, porque estava de luto. Foram difíceis os meses que se seguiram ao enterro do caderno por trás dos toma da enciclopédia. Tentou-se dedicar mais aos filhos, mas essa era uma dedicação, digamos, estrábica. Com um olho ela vestia Afonso e Cecília para a escola, e com o outro se perguntava: Será que a vida é só isso? Com um olho ela ajudava as crianças com o dever, e com o outro se perguntava: E quando eles não precisarem mais de mim? Com um olho contava histórias, e com o outro se perguntava: Existe vida além dos uniformes escolares, da memorização da tabuada e de todas as histórias da carochinha?

A vida invisível de Euridice Gusmão não trata apenas de Euridice, e sim, de diferentes mulheres de uma época não muito distante da nossa e que sequer pensariam em ter voz para as suas vontades. Queria dizer que ainda temos muito o que fazer e ainda podemos fazer muito, mesmo com pequenos pedacinhos feministas e que podem ser.

Até a próxima,


Mariana Diniz
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