sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resenha: “Gigantes – Cinco Amigos, Uma História” (Pedro Henrique Neschling)

Por Kleris: Estreia do diretor, roteirista, dramaturgo e ator, fiquei balançada com o booktrailer que a Companhia/Paralela lançou ao promover o livro (aqui). Minha referência de trabalhos do autor talvez seja só a lembrança de um papel na novela Da Cor do Pecado (que passou na minha terrinha maranhense!), em que ele era o jovem Dionísio, um dos irmãos lutadores da família Sardinha. Pois então, agora Pedro se revela na literatura e, reconheço, é perceptível sua excelência na escrita... só não me ganhou.

Em Gigantes, há todo esse querer em ser mais do que se é, em conquistar seu espaço, realizar-se enfim. Como diz o subtítulo, temos a história de cinco amigos, agora um pouco distantes vez que a vida aconteceu e a escola, bem, acabou. São jovens sonhadores e que muitas vezes dão a cara a tapa, se aventuram, levam rasteiras e, sim, eles vivem intensamente conforme seus corações lhe mandem. Lipe, Fernando, Camila, Duda e Zidane são esses garotos que a gente vê crescer. Os cinco são a representação dessa geração que está passando dos 30 ou 40 e ainda vivem se atropelando nas fases naturais da vida. É, por certo, um livro que coloca em pauta a nostalgia e aquele bom e velho sorrisinho de olhar para trás e pensar “eu vivi isso”. 
Era iminente que tinha talento para aquilo e mantinha intacta a certeza que havia nascido para fazer sucesso. As dificuldades pelas quais passara nos últimos tempos foram uma espécie de aprendizado que precisava ter, como leu que havia acontecido com vários de seus ídolos. Foram uma preparação para algo muito maior que estava começando. O trem entrava de volta nos trilhos, e a locomotiva ia partir a toda velocidade, sem freio. Um dia leriam sobre tudo aquilo na sua biografia na Wikipedia, com a Rolling Stone de fonte para comprovar. Não tinha chance de dar errado. Não tinha mesmo.

As histórias aqui correm como um cinema de poucas falas e somos meros espectadores sem muitas perspectivas, pois não vivemos junto com os personagens por exato. De perfis tão elitistas, não pude não lembrar de como era assistir à série Gossip Girl, com personagens tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes de mim – pareceu-me, inclusive, que era o livro do Dan o que eu lia (há uma notinha introdutória então, bate certinho). Há um pouco de metaficção, aliás.

Nota introdutória ;)
A escrita é leve e se dá em capítulos curtíssimos, cada um se centrando em um dos personagens. A gente nunca sabe quem terá sua cena estampada nas páginas e achei isso um toque interessante, vez que são muitos caminhos para convergir e é aqui que a narração trabalha. O narrador bem conhece a galera e se preocupa mais em demonstrar quem eles são a construir uma trama complexa – logo, vemos relatos, reflexões e pouca ação, numa vibe meio contador de histórias, com cenas delicadas e sentimentalismos. Vê-se muito também daquela velha máxima de sexo, drogas e rock n’roll, além de pinceladas de roteiro e dramaturgia, imagino.
Deitado em sua cama, de cueca samba-canção, com o baseadinho apagado no cinzeiro ao lado, assistia atentamente ao Chaves que passava no SBT. Era o episódio em que todos os personagens, até dona Clotilde, a bruxa do 71, vão para Acapulco, e que termina com ele, Chaves, sozinho e desolado em seu barril/casa com a vila toda apagada. Sentiu uma imensa vontade de chorar revendo a cena, provavelmente pela milésima oitava vez. Sentia-se como o Chaves, sabe. Sem ninguém. Sem perspectiva.

Neschling abre as cortinas e mostra que a vida tende a ser fatalista, pois vez e outra ela vai te derrubar e ainda assim nos sentiremos gigantes por enfrentar essas batalhas. Elas, de alguma maneira, vão nos fortificar e, com sorte, nos colocar no lugar onde deveríamos estar. Isso porque muitos desses jovens (e muitos de nós) têm oportunidades a seus pés, mas ainda não sabem bem o que querem. A saga da vida é a saga dessa busca aparentemente incessante; e percalços nunca faltarão.
Olhando para o teto, um sorriso involuntário escapava no canto de sua boca. Era bom ter planos. Era bom ter desejos. Era bom ter dificuldades e até angústias quando se vislumbravam soluções. Ter motivação para acordar e cansaço para dormir. Era tranquilizante ter força para caminhar sem um pânico paralisante. Ter coragem para arriscar novamente. Ainda se sentia frágil, mas viva. 
Agora estava ali, sentada no chão panicando e rindo da própria cara.
Mais tranquila, levantou-se devagar e deitou na cama. Em cima do edredom encontrou algumas fotos da época de escola que tinha resolvido deixar para trás, aquelas que ficam mais bem guardadas na casa dos pais. Numa delas estava abraçada com Fernando e Belinha, sua amiga inseparável naquele tempo. Fazia tempo que não falava com nenhum dos dois. Sentiu uma pontada aguda de saudade. [...] Foi tudo divertido, mas a pobre Duda nutria ódio dela até hoje, achava. Nunca mais faria uma coisa daquelas de novo.

Apesar desse porte de gigantes, os problemas aqui relatados não são nada rasos, tampouco sem empatia – em dados momentos de cada um invariavelmente vamos enternecer. Mas, como eu disse, a história não me ganhou, muito provável por não ter sido o momento certo da leitura... não sei, não me conectei. Por outro lado, foi diferente. Esse caráter sim, razoável, me agradou. Vale a leitura – o traço existencial te faz pensar nessa louca viagem que é a vida e no rumo que temos trilhado. Interessados na essência do meio artístico de roteiros, produção, peça publicitária, dramaturgia e semelhantes podem vir a se agradar também. 

Enfim, Gigantes é para quem procura ir além numa leitura: além do conhecido, além do que é contado e além de meras histórias que vemos estampadas em crônicas no cotidiano. É sobre conhecer a vida de outrem que já fez parte da nossa e que sempre deixa um pedacinho cá conosco, que pode nos instigar (e querer voltar no tempo) a qualquer momento da vida. No mais, é um breve suspiro carregado de vivências. Por isso, meus melhores votos de felicidades a Lipe, Camila, Fernando, Duda e, sim, Zidane. Somos todos gigantes, sem certo ou errado :) 
Olharam-se com todo o carinho do mundo. E o tempo parou. Não estavam mais ali na areia, não eram mais os adultos que tinham sem tornado sem perceber, tampouco eram os adolescentes que se conheceram na escola. Eram alguma coisa além de si mesmos, e a existência, apenas uma fantasia. Tinham se tornado eternos.
[...] Continuaram lá sentados, um ao lado do outro, sentindo. Apenas sentindo.


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