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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Resenha: “A vida peculiar de um carteiro solitário” (Denis Thériault)


Tradução de Daniela P.B. Dias

Por Kleris: Sabe aquela história de que é nos frascos menores que estão as melhores fragrâncias? É neste pequeno romance e na vida peculiar deste carteiro que temos um livro incrível. Pensar nele me faz lembrar também daqueles achados (ou perdidos) que se concentram embrenhados em confins de bibliotecas e que guardam enredos extraordinários como pequenos segredos, esperando só um leitor topar ali, sem querer – pode-se dizer que topei sem querer, afinal, foi um presente ^.^ 
Bilodo se sentia fazendo parte da vida do bairro, e considerava que tinha um papel discreto, porém essencial nela. Para ele, entregar a correspondência era uma missão a ser cumprida conscienciosamente, sabendo que assim estava contribuindo para a manutenção da ordem universal das coisas. Ele não tinha vontade de trocar de vida com ninguém no mundo. Exceto, talvez, com outro carteiro.

Bilodo é um jovem carteiro humilde, sem muitas pretensões e de vida pacata. Enquanto uns são mais propensos a sair para noitadas, Bilodo tem ooooutros interesses, e seu trabalho é certeiro para alimentar um vício secreto: espionar e ler correspondências das pessoas e conhecê-las pelo que escrevem – ele captura as cartas antes de chegarem ao destino e depois devolve, entregando aos de fato destinatários. Esse vício o levou para outro, de stalkear correspondências de dadas pessoas. Nisso, Bilodo acabou se apaixonando por Ségolène. Quer dizer, pelos haicais que esta trocava em correspondências com um homem, que morava na cidade de Bilodo. Com o tempo, quanto mais ele alimenta esse vício, mais barreiras ele se vê tendo que transgredir.

O destino então lhe reserva uma reviravolta que ou findaria seus pequenos crimes contra correspondências alheias ou lhe obrigaria a tomar uma decisão drástica para conseguir manter esse vício. Eis a tragédia: quando o homem com quem Ségolène trocava cartas foi postar a nova correspondência, ele foi atropelado pelo veículo dos correios, onde Bilodo estava. O tal homem, Grandpé, morre ali mesmo e a carta é engolida pelo esgoto por conta do rio que se formou no temporal que caía. E agora, como receber mais cartas de Ségolène? Como matar aquela ansiedade por seus haicais? Como se conectar a essa mulher? Como dar continuidade a essa... paixão? 
Montanhas austeras
em segredo esperam
serem enfim conquistadas

Ostentam bravura
em roupas contra avalanche –
mas no fundo, frágeis
Haicai/’haicai:/ sm. (pl. – AIS) 1. pequeno poema japonês composto por três versos, em geral com 17 sílabas, tratando muitas vezes de temas da natureza. 2. uma imitação dessa forma poética em outros idiomas. [F:Do jap. haiku]
A vida peculiar de um carteiro solitário fala de fascínios. Resgatando as correspondências, Denis coloca as cartas como as verdadeiras e perdidas almas de uma comunicação que ficou para trás. Quem, afinal, ainda escreve à mão? E cartas? E troca regularmente? E nelas brinca com as palavras, com a vida? Os fascínios aqui transitam desde o fato de escrever cursivas #aletradaspessoas às poesias que as letras e sons e o imaginário podem formar. Agora imagina uma pessoa que é fascinada pelo fascínio dos outros (eu): fiquei apenas APAIXONADA por como o autor descreve, insere e encaixa as construções artísticas nessa trama beeeem peculiar. 
Bilodo geralmente almoçava no Madelinot, um restaurante que não ficava muito longe da Central de Triagem, e, depois da sobremesa, passava um tempo praticando caligrafia – a arte da bela escrita manual, que havia adotado como hobby. [...]
Os colegas de Bilodo nos Correios não entendiam. Quando o bando barulhento adentrava o Madelinot, na hora do almoço, zombavam dos seus esforços caligráficos, chamando-os de garranchos. Bilodo não se ofendia, porque afinal aqueles eram seus amigos, e também porque, se tinham culpa de algo, era apenas de serem ignorantes mesmo. À exceção de uma pessoa informada, ou um entusiasta devotado àquela arte como ele próprio, quem iria saber apreciar a beleza sutil de um traço de caneta, o equilíbrio delicado de proporções de uma linha bem-traçada?  
Muito mais atraentes, sem dúvida, eram as cartas das outras pessoas. Cartas de verdade, escritas por pessoas de verdade que preferiam o ato sensorial de escrever à mão e a expectativa deliciosamente lânguida de aguardar pela resposta à frieza reptiliana dos teclados e à instantaneidade da internet [...].

capa com envelope fechado
A escrita de Denis é uma poesia em prosa e uma prosa em poesia. Já mencionei em algum post por aqui que AMO metaficção e que é um tema de difícil escrita, pois segurar e amarrar a história como deve ser ou se intenta, é bem complicado, é um delinear de camadas de enredos. Para as camadas que envolvem em A vida peculiar, o autor se saiu muito bem, muito ambicioso. Foi deliciosamente singelo e simplório (que me fez amar mais ainda!). 
Os poemas de Ségolène, por mais que fossem muito diferentes entre si, tinham todos a mesma forma, sempre com três versos: dois com cinco e um com sete sílabas, somando sempre dezessete sílabas – nem mais, nem menos. Sempre a mesma estrutura misteriosa, como se fossem regidos por um código.

capa com envelope aberto
Por tratar-se justo de uma escrita sobre escrita, imaginei que a leitura fosse se mostrar lenta, mas não, ela flui bem rápida e, com 128 páginas, é para uma sentada só. Parece um filme francês, aliás (quero filme já!). Você não encontra muita ação na história, porém, tem umas reviravoltas magníficas. Com pitadas de mistério e suspense, que a verdade seja dita: Denis prega várias peças na gente. Uma preciosidade só!

Para derrubar o forninho de vez, o projeto gráfico do livro é liiiiiiindo demais. A capa é em formato de carta (com um segredo para se espiar) e seus versos têm ilustrações com selos, a diagramação é permeada de carimbos, selos e flores, e como não falar das poesias e haicais? Igualmente bem trabalhados. 

Este é o segundo romance deste autor canadense e estou doida para conhecer o primeiro, que foi muito premiado (mas acho que ainda não chegou por aqui =/). Como veem, curti bastante e sim, shippei muito. Vou parar por aqui se não entro nos méritos das jogadas do destino e do tempo.


Magnifique! Admirable!

Segurem aí o meu recomendadíííííííííííííííííííííííííííííííííííííssimo!

Até a próxima!


P.S.: Acho que Bilodo piraria se visse o insta e/ou o livro do Eu me chamo Antônio ;)


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domingo, 16 de setembro de 2012

Resenha: "Travessia" (Ally Condie)

- Clique aqui para ler a resenha do primeiro livro da série: “Destino”.

Por Juny: E enfim pude ler a tão aguardada continuação de “Destino”, uma das séries distópicas de mais destaque no momento, com grandes possibilidades de ser adaptada no cinema.

Assim como o título já sugere, “Travessia” é um livro que marca a transição, a saída dos domínios da Sociedade e a busca pela Insurreição.

Ky é enviado junto com outras Aberrações para combater “O inimigo” nas Províncias Exteriores, logo no inicio ele já percebe que eles estão lá apenas para simular aldeões das províncias (alvos) e morrer. Não há maneira de se defender, as armas não funcionam. Ele conta com o apoio de Vick para tentar sobreviver em meio a essa guerra injusta.

Os mortos não veem, mas eu vejo. Vejo coisas demais. Sempre vi. Na minha mente palavras e imagens se conectam de maneiras estranhas, e onde quer que eu esteja reparo em detalhes. Como agora. Vick não é nenhum covarde, mas o medo cobre seu rosto. Nos braços moles do menino morto a smangas do casaco estão esfiapadas, e alguns fios roçam a água.
Cássia está em um campo de trabalho enquanto não é decidido o seu cargo na Sociedade. Ela busca uma oportunidade para ir ao encontro de Ky e fica amiga da misteriosa Indie.

Indie e eu saímos correndo pelo topo da Escultura e deixamos os corpos para trás.
Ky ainda está vivo, digo a mim mesma. Tem que estar.
No céu, apenas o sol. Nada voa. Aqui não há anjos.
Em meio há tudo isso ainda há Xander, que mesmo não aparecendo muito, agita a narrativa com o seu “segredo” (que me surpreendeu muito!).

A esperança de todos é a busca pelo “Piloto”, citado em um dos poemas, e que muitos dizem ser o líder da Insurreição, a ultima esperança.

“(...) E do nosso riacho de Tempo e Lugar
A torrente pode me levar para longe, mar afora,
Mas espero ver meu Piloto cara a cara
Quando a margem eu cruzar.”
Os personagens secundários (Indie, Eli, Hunter e Vick) desempenham papeis fundamentais e tornam a narrativa mais interessante, dispersando um pouco o foco do triangulo amoroso. Ky continua sendo meu personagem favorito, o mais surpreendente.

A narrativa é lenta, um livro para ser lido aos poucos, para ser sentido. A busca é tensa e é sofrida. Os capítulos são narrados por Cássia e Ky, de forma alternada. Todos personagens passam por momentos críticos. A Sociedade mostra o seu poder. A Insurreição é ao mesmo tempo uma dúvida e uma esperança.

Gostei muito da continuação, principalmente dos últimos capítulos onde o ritmo dos acontecimentos é acelerado e revelador. Torço muito por Ky e Cássia, espero que fiquem juntos no final. “Destino” continua como uma das minhas séries favoritas e mal posso esperar pelo último livro. Recomendo!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Resenha e #PROMO: "Destino" (Ally Condie)

Por Juny: Um livro que de tanto que comentaram antes, durante e depois do seu lançamento, criou grandes expectativas durante a leitura, e ao invés de decepção, elas foram superadas, pois é ainda melhor do que eu imaginava.

A “Sociedade” é um governo do futuro, que criou um sistema perfeito, baseado em estatísticas e probabilidades, que impõe onde você mora, o que você come, onde você trabalha, como você se diverte, com quem você casa e quando você morre.

A trama começa no "Banquete de Pares" de Cássia, no qual ela é apresentada para a pessoa que a Sociedade escolheu para que seja seu companheiro. Após um erro no telão ela descobre que seu par está lá e é seu melhor amigo, Xander, algo que dificilmente acontece.

Ela fica feliz com a escolha, mas quando vai conferir o cartão onde deveriam estar as informações do seu par ela se depara com a foto de outra pessoa, Ky, que ela também conhece.

A família de Cássia passa por um momento difícil, esta chegando o aniversário de 80 anos do avô de Cássia, o qual ela é muito apegada e todos sabem o que essa data significa: ele terá que morrer. Mas antes ele compartilha um segredo com ela, um poema que sua avó guardou antes de que fosse destruído, escondido dentro de seu artefato (um pote de pó compacto).

Cássia buscou forças para começar a questionar a Sociedade quando conheceu o poema secreto de seu avó e descobriu o amor e a liberdade com Ky. Eu não conhecia esse poema e assim como Cássia, me apaixonei por essas palavras, talvez eu esteja sensível e passando por um momento em que eu precisava delas, precisava não entrar docemente.

“Não entre docemente naquela boa noite,
A velhice deve arder e delirar ao fim do seu dia;

Revolte-se, revolte-se contra o apagar da luz

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a escuridão é o certo
P
orque suas palavras não provocaram centelhas, eles

Não entraram docemente naquela boa noite.”

(Dylan Thomas)
Gostei muito da Cássia como protagonista, ela é inteligente, forte e questionadora, suas qualidades crescem ao decorrer do livro. Xander, embora seja uma opção de Par imposta a Cássia, é um cara legal, digno, que a ajuda sempre. Ky é apaixonante, no começo você tem dó dele, depois se deixa envolver em seus encantos, assim como a Cássia, mesmo sendo uma escolha perigosa.

O romance entre Ky e Cássia, é feito de olhares, de palavras escritas na terra durante as trilhas, do poema que só os dois conhecem, de pequenas coisas, que acabam tendo muito valor, são o que eles conseguem sem a vigilância da Sociedade.
Não nos beijamos. Não fazemos nada além de nos segurarmos e respirar, mas eu sei. Não posso entrar docemente agora. Nem pelos meus pais, pela minha família. Nem mesmo por Xander.
Já vi criticas muito negativas a esse livro e acho que vai do sentimento de cada um com a estória, da identificação. Particularmente é uma série que me marcou e eu não perco por nada o próximo livro “Crossed” (ainda sem título em português e nem previsão de lançamento).

A autora escreve muito bem, consegue nos envolver no clima da narrativa, muitas vezes fiquei tensa junto com a Cássia, com medo que tivesse algum Funcionário da Sociedade observando tudo.

Quero pegar essa moldura e caminhar até o meio da área verde. Vou ficar ao lado daquela fonte seca e esperar e esperar até que a Funcionária me encontre. E quando me encontrar e perguntar o que eu estou fazendo, vou dizer a ela e a todo mundo o que eu sei: estão nos dando pedaços da vida real em vez da coisa inteira. E vou dizer que não quero minha vida em amostras e retalhos. Uma provinha de tudo, mais uma refeição de nada.
“Destino” é uma critica a passividade, ao medo, ao aceitar tudo aquilo que nos é imposto, o livro clama por liberdade, que as pessoas questionem mais, que sejam responsáveis por suas escolhas.

Um dos melhores livros que li nesse ano, um livro que nós faz pensar depois da leitura, vai além do entretenimento. Recomendo muito!


 
Ana Liberato