quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Resenha: "A invenção das asas" (Sue Monk Kidd)



O barulho estava na sua lista de pecados dos escravos, que nós sabíamos de cor. Numero um: roubar. Número dois: desobedecer. Número três: preguiça. Número quatro: barulho. Um escravo devia ser como o Espírito Santo: Não se vê, não ouve, mas está sempre por perto, a postos.

Por Marianne: Confesso que rolou um bloqueio absurdo pra escrever essa resenha. Tudo o que eu escrevia ou montava na minha cabeça pra escrever não fazia jus a grandiosidade dessa obra de Sue Monk Kidd. Mas a resenha precisava sair então tentei o meu melhor pra convencer todo mundo a ler esse livro maravilhoso hahaha. Acho que é a maior que já escrevi, so sorry meus amigos, mas foi impossível resumir minha análise sobre A invenção das asas em poucas palavras.

'Por que a ideia de perfeição de Deus deve ser baseada numa natureza imutável? ’, perguntei. ‘A flexibilidade não é mais perfeita que a estagnação? ’.
Papai estapeou a mesa: ‘Se Sarah fosse um menino, seria a maior jurista da Carolina do Sul!’

Sarah Grimké é a caçula da família que vive em Charleston, no sul dos Estados Unidos do século 19. Ao completar 11 anos Sarah ganha de aniversário Hetty, uma escrava que tem a mesma idade de Sarah, para ser sua dama de companhia.
'Escravos, eu advirto vocês a se contentarem com seu quinhão, pois é a vontade de Deus! Sua obediência é ordenada nas Escrituras. É comandada por Deus através de Moisés. É aprovada por Cristo através de seus apóstolos e defendida pela igreja. Tomem tento, então, e que Deus em sua piedade lhes conceda que sejam prostrados hoje e voltem a seus mestres como servos fiéis.'

Apesar da pouca idade e de viver numa época totalmente escravagista Sarah recusa o presente por não aceitar o fato de outra pessoa como sua propriedade. Diante da negativa da mãe pela sua recusa do presente Sarah acaba tendo de aceitar Hetty como sua dama de companhia e tem a ideia mais genial que poderia lhe ocorrer: libertar Hetty. Através de uma carta de alforria Sarah deixa claro que Hetty é uma escrava livre e não mais propriedade da família Grimké. No dia seguinte Sarah encontra a carta rasgada na porta do seu quarto.  Afinal Hetty, pela lei, pertence ao pai de Sarah e a carta de alforria aos olhos da família Grimké foi só rebeldia infantil da filha caçula.

'Nossos escravos estão felizes', ela se orgulhava. Nunca ocorreu a ela que a alegria deles não era satisfação, mas sobrevivência.'

Hetty, mais conhecida como “Encrenca” por todos na fazenda dos Grimké, é filha de Charlotte, escrava costureira da família. Charlotte  é uma mulher simples porém muito à frente de seu tempo que tenta a todo custo transmitir a Hetty suas ideias de busca pela liberdade. Hetty por sua vez é uma personagem que engana a todos. Até mesmo Sarah não imagina a garotinha perspicaz que existe por trás de Encrenca, que se questiona sobre a conduta da sociedade que aceita que escravos sejam vendidos e torturados sem intervenção.

'Por que você pegou?'
'Porque eu podia'.
Aquelas palavras grudaram em mim. Mamã não queria o tecido, só queria causar confusão. Ela não podia ser livre e não podia dar na sinhá com uma bengala, mas podia pegar a seda dela. Você se rebela do jeito que pode.

Hetty e Sarah tem uma relação de amizade bem atípica. Quando crianças percebemos uma intimidade maior entre as duas, mas a medida que crescem desenvolvem uma familiaridade onde é notável que não são necessários palavras e gestos de apego pra nos mostrar que ali existe um grande laço de afeto.

Por essas primeiras narrações de Sarah e Hetty no livro podemos ter uma vaga ideia do tipo de mulheres que teremos pela frente, mas nada teria me preparado pra um dos enredos mais envolventes que já li na vida.

'Ou eu devia lhe perdoar por querer exprimir seu intelecto? Você é mais inteligente que Thomas ou John, mas é mulher, outra crueldade que eu não podia fazer nada para mudar.'

 A invenção das asas nos conta a história dessas duas mulheres (mais adiante no livro temos uma terceira mulher, mas eu chego lá) ao longo dos anos de uma maneira tão intrincada e angustiante que é IMPOSSÍVEL não nos envolvermos com seus impasses e histórias. Por vários momentos no livro Sue Monk conflita os dilemas de Sarah; mulher que frequenta aulas de etiqueta que a preparam pra ser uma boa esposa no casamento, proibida pelo pai de ler e sem a opção de seguir uma vida acadêmica,  com os dilemas de Hetty; mulher negra e escrava no século 19. Sue Monk faz isso sem em nenhum momento desmerecer a luta e tormento de nenhuma das duas personagens.

'Deus nos enche de todos os tipos de desejo que vão contra a normalidade do mundo. Mas o fato de que esses desejos com frequência não deem em nada, bem, duvido que seja obra de Deus’. Ela me penetrou com seus olhos e sorriu. ‘Acho que sabemos que isso é obra dos homens.'
A terceira mulher que conhecemos na história é a irmã mais nova de Sarah, Angelina. Ao descobrir que a mãe esta grávida Sarah implora pra ser madrinha de Angelina e acaba se tornando uma figura de apoio e orientação para a irmã.

O que essas três mulheres tem em comum é a constante indagação relacionada aos costumes da época. Por que existem tantas restrições impostas a mulheres e escravos, quem determinou que mulheres não podem ser juízas e escravos não podem andar livremente na rua sem uma carta de permissão?

Vamos acompanhando o desenvolvimento, amadurecimento e drama das personagens no decorrer dos anos. E a angustiante luta pra que fossem notadas, respeitadas, tratadas de igual para igual.

Quando Sarah se envolve mais diretamente na luta pelo fim da escravidão e decide levantar também a bandeira feminista, de igualdade entre homens e mulheres (que já é um “absurdo” pra muita gente hoje, imaginem no século 19) nos deparamos com um dos trechos mais interessantes do livro. Sarah e Angelina são confrontadas diretamente por homens que, até então, aprovavam e as acompanhavam em seus discursos anti escravagistas, e agora advertem as moças que calmaê moças, lutar pelos escravos ok, mas aí vocês querem lutar pelos direitos das mulheres também , aí já é demais!

Sem intenção, provocamos um alvoroço no país. A questão das mulheres terem certos direitos era nova e estranha e ridicularizada, mas, de repente, estava sendo debatida por todo o estado de Ohio. Eles chamavam minha irmã de Diabolina. Batizaram-nos de “incendiárias femininas”. De algum modo, tínhamos acendido o estopim.
O livro é uma mistura eventos históricos da época, como a temida revolução dos escravos que até hoje muitos não sabem se realmente foi planejada e a existência da casa de trabalho que era utilizada pra torturar escravos, e pessoas que não apenas existiram como contribuíram para que muitos dos eventos descritos no livro acontecessem. E a surpresa mais agradável de todas ao fim do livro, nas notas da autora: Sarah Grimké realmente existiu, e com ela toda a sua história. A autora deixa claro que através de pesquisas e relatos do diário da própria Sarah criou a personagem e lógico tomou liberdade de usar um pouco a imaginação.
'Dar as costas pra nós mesmas e ao nosso próprio sexo? Não queremos que o movimento se divida, claro que não. Entristeço-me ao pensar a respeito. Mas pouco podemos fazer pelo escravo enquanto estivermos sob os pés dos homens. Façam o que precisam fazer, censurem-nos, retirem seu apoio, continuaremos firmes de qualquer maneira. Agora, senhores, gentilmente tirem seus pés de nossos pescoços!' (Sarah Grimké)

Sarah Grimké teve um papel muito importante na história do feminismo e na luta pela abolição e é incrível poder conhecer um pouco do que foi essa história, ainda que com um “toque” de ficção. Um de seus últimos atos de “rebeldia”, ainda segundo as notas da autora, foi uma caminhada debaixo de neve em 1870 em direção a urnas simbólicas onde foram depositadas cédulas eleitorais. Isso em 1970, época em que mulheres sequer eram cogitadas a dar palpite na política, é muito amor essas irmãs Grimké!

'Angelina, considero você uma amiga, das mais caras, e me tortura ir contra você, mas agora é o momento de se levantar pelo escravo. Chegará o tempo de tratarmos a questão da mulher, mas não por enquanto.’
‘É hora de tratar o direito de alguém quando este lhe é negado!'
Sabemos também pelas notas da autora que Hetty de fato existiu e foi dada de presente a Sarah, mas toda a história que foi criada para a personagem foi imaginação de Sue Monk Kidd, que buscou na personagem uma maneira de dar voz aos escravos da época.
Foi um livro que ficou nos meus pensamentos por muitas semanas (e ainda está) após a leitura.  Está mais do que recomendado, está no cantinho de favoritos da minha estante e eu espero que entre pra de vocês também.

Beijos e até a próxima!

As senhoritas Grimké fazem discursos, escrevem panfletos e exibem-se em publico de maneiras não femininas há um tempo, mas não encontraram maridos. Por que todas as solteironas são abolicionistas? Por não serem capazes de arrumar um marido, pensam que podem ter chance com um negro, se ao menos conseguirem colocar a miscigenação em moda...


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