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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Resenha: "Tudo o que a gente sempre quis” (Emily Giffin)

Tradução de Marcelo Mendes.


Por Thaís Inocêncio: Esse livro é diferente de tudo o que Emily Giffin já escreveu. Autora de sete romances, como O noivo da minha melhor amiga (que deu origem ao filme com Kate Hudson) e Questões do coração, Emily agora se arrisca no drama contemporâneo – e, na minha opinião, dá muito certo. A história é tão atual que, para se ter uma ideia, alguns termos que aparecem nela são: snapchat, story, uber, muro do Trump, além de diálogos como esse:

— Apaga!
— Não gostou por quê? Você está ótima!
— Não, meus braços estão gordos!
— Posso editar isso.
— Só se editar meu rosto pálido também. 
— Tenho o aplicativo perfeito pra isso!"


O livro é narrado por três pessoas: Nina, Tom e Lyla. Nina nasceu em uma família simples, em uma cidade pequena, mas agora faz parte da elite de Nashville. Seu marido, Kirk, vendeu a empresa de tecnologia por uma fortuna e seu filho adolescente, Finch, acabou de ser aceito em Princeton, então ela acredita que conseguiu “tudo o que sempre quis”.

Tom também vive em Nashville, mas “do outro lado do rio”, o lado menos abastado. Ele é pai solteiro de Lyla, fruto de um relacionamento com uma brasileira, que abandonou a família. Lyla, por sua vez, é uma adolescente comum e feliz que conseguiu uma bolsa de estudos na Windsor, escola de prestígio de Nashville, onde Finch também estuda.

Tudo muda quando Lyla vai à uma festa, exagera na bebida e acaba perdendo os sentidos. Alguém se aproveita disso e a fotografa em situações constrangedoras, imagens que acabam se espalhando entre os adolescentes e a comunidade rica de Nashville. Nesse contexto, as vidas de Lyla, Tom e Nina acabam se entrelaçando e muitos valores são colocados à prova.
"Simplesmente não posso acreditar no que está acontecendo agora. Na pessoa em que meu filho se transformou. E, no entanto, posso, sim. Porque às vezes não enxergamos aquilo que está bem ali, debaixo do nosso nariz."
Esse livro aborda questões importantes tanto para os adolescentes, quanto para os pais de adolescentes, por isso pode agradar muitos públicos. Ao mesmo tempo em que retrata a vida de jovens que frequentam festas regadas a bebidas alcoólicas e fazem brincadeiras ofensivas e que acreditam que dinheiro traz poder e impunidade, ele nos faz refletir sobre a importância de uma boa criação e do diálogo entre pais e filhos.
“Pensei no tempo perdido com coisas triviais que se tornaram tão importantes para a minha vida. Reuniões, festas, almoços, academia, salão de beleza, jogos de tênis no clube e, sim, até mesmo alguma obra assistencial realmente útil. Mas com que finalidade? Que importância tinha tudo isso agora? O que poderia ser mais importante do que arrumar tempo para conversar com meu filho sobre respeitar as mulheres e as diferentes culturas e etnias?”
Além disso, a obra discute o abuso sexual e a desvalorização da mulher, alertando para as consequências profundas do machismo na vida das pessoas. Também fala muito bem sobre xenofobia e racismo – o tempo todo somos alertados para a ausência de negros na elite ou a presença deles em cargos inferiores. E ainda perpassa assuntos como alcoolismo, corrupção e, claro, os impactos da tecnologia na atualidade.
“Achava que esse ativismo era um dos poucos aspectos positivos das redes sociais, que muitas vezes não passavam de uma plataforma de narcisismo e futilidade, um meio de mostrar fotos de viagens de férias ou de entediar a todos com fotos da couve-de-bruxelas comida na véspera.”
O enredo do livro me cativou desde o início. A escrita da autora é bastante simples e ágil, o que torna essa leitura muito rápida e tranquila. Outro ponto positivo é o projeto gráfico do livro, que traz uma diagramação simples e agradável e uma capa aveludada muito bonita. Recomendo!

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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Resenha: “Azeitona” (Bruno Miranda)


Por Kleris: Best-seller nacional, Azeitona faz parte da leva de livros de youtubers que nada tem de biografia, tampouco é diretamente ligado à mídia de sua fama; o único empréstimo aqui, por assim dizer, é de seu público. E, posso dizer, Bruno Miranda figura bem nas prateleiras de ficção brasileira.

Em Azeitona, os personagens Ian e Emília se veem numa situação um tanto inusitada: o que dizer de participar da mais nova temporada de um reality show dedicado a pais adolescentes quando você nem espera um bebê e nem tem um relacionamento com seu suposto parceiro? Alguns poderiam esperar fama, porém a motivação do jovem casal está mais ligada ao anonimato... Um anonimato de bolso cheio. 

Seduzidos pela ideia de garantir algum dinheiro para o que a vida lhes reserva, Ian e Emília topam driblar a produção do programa, assim como mentir para todo o Brasil. Sustentar essa pequena grande mentira se torna o auê que vai balançar mais que a trama, vai levantar também questões significativas no que diz respeito às relações familiares.

A trama transita entre os núcleos de Ian e Emília e mostra o que o dinheiro fácil representa para eles: Ian quer ajudar em casa, vez que a irmã, Íris, grávida, está para se formar e a grana deles é apertada – sem falar que ele se sente um peso, pois Iris teve que se virar para criá-lo quando se viram sem os pais tão cedo; e Emília, que nem precisa tanto assim, mas acha que um bom dinheiro viria a calhar para sair de casa e se ver livre da mãe; ambos são adolescentes prestes a iniciar a vida adulta e estão bem dispostos de seguir a qualquer custo com o plano. 
— Eu ainda não pensei em tudo, mas acho que não tem motivos para se preocupar. É como se estivéssemos participando de um reality normal, isso não é legal? – Ian esperou a resposta, mas Emília permaneceu estática. — A única diferença é que você precisaria estar grávida. Você poderia usar talvez... aqueles enchimentos e fingir um enjoo ali, um desejo aqui...
— E quando o bebê nascer?
— Que bebê?
— Pois é, Ian.

Vez que a voz de narração é onisciente, temos uma melhor visão da ação do livro. Em um primeiro momento o ritmo é lento, para nos ambientar sobre como a bola de neve de mentiras se desencadeia, mas tão logo o programa Novos Pais começa a ser gravado, o ritmo engata com uma série de reviravoltas. É engraçado que a gente já imagina que caminhos que o enredo vai tomar, mas tem hora que não tem jeito, Ian e Emília se jogam à sorte para escapar dos becos aparentemente sem saída e haja coração para segurar nossas expectativas. Aliás, o autor é bem criativo, tanto para construir as situações, quanto para nos derrubar nelas.

Nesse meio tempo, Bruno também passeia por diversos núcleos familiares. Aqui, através de momentos mais silenciosos da narrativa, assistimos como vários temas relacionados à gravidez precoce acabam se adequando por si só à trama, como o acolhimento da família, o preconceito/julgamento da sociedade, as responsabilidades que acarretam, dentre outros. Toca-se ainda em questões de diálogo e como às vezes os pais colocam um bem acima dos filhos e se esquecem de ouvi-los. Além de Ian e Emília, personagens como Caio e Lisa roubam nossa atenção e bem figuram essas realidades. 
— Não, não – Ian respondeu rapidamente. — Não estou dizendo que você seja o culpado. Mas você precisa entender o que está quebrado para poder consertar. Eu não acredito que você seja o problema, mas com certeza algo precisa ser consertado, entendeu?

Com humor e carisma, Bruno nos conduz a um enredo inteligente e verossímil. Para o gênero, ele sai do lugar comum sem abrir mão de alguns clichês, que funcionam. Em dadas horas de leitura batia até o sentimento de que o autor estava pulando esses “fatores mais batidos” por pular – como o fato de não focar no romance adolescente, não se utilizar de figuras de mocinhas/mocinhas e vilões ou mesmo de apelações – mas talvez nossas prateleiras já estejam cheias, como diz a Chimamanda, de “histórias únicas”, e uma vez que alguém segue outro caminho, a gente já sente, então encaro como algo positivo :) No mais, a abordagem leve e até cômica faz toda a diferença.

Azeitona é um livro de leitura rápida para quem busca se distrair e se envolver com uma história bem trabalhada. Para um autor principiante, Bruno tem uma excelente desenvoltura. No começo você não diz muita coisa, mas o desenvolvimento fala por si. Minha leitura, inclusive, deu uma empacada no início – que me pegou justo na época de um bloqueio daqueles – e então engrenou de vez. Já espero por mais livros, que ele já prometeu :) Recomendo.

O título, como alguns já sabem (vide “spoiler” aqui), tem uma ótema sacada; não poderia ter um melhor que esse. A capa igualmente combina e traz cores fortes para te chamar da prateleira da livraria. Além de marcar a estreia de Bruno na literatura, marca a estreia do selo Outro Planeta, comandado pelo nosso querido Felipe Brandão.

Espero que gostem e digam lá suas impressões ;)

Até! 
— E aí, tudo bem? – Emília perguntou para Lisa.
— Aham – a garota olhou para a própria barriga e pousou a mão sobre a blusa folgada. — Ele só tá se mexendo muito, até fiquei preocupada, mas minha mãe falou que nessa fase que tô isso começa a acontecer. Espera só quando for você, dá um pouco de agonia.
Emília estava esperando que Lisa falasse de si, e não sobre o bebê. Em alguns momentos ela se esquecia que, entre todas aquelas garotas, apenas ela não esperava um bebê e apenas ela não pensava naquilo o tempo todo.



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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Resenha Dupla: “O Vento” e “Coração sobre Coração” (Karen Alvares)


Por Kleris: Acho que não é muita surpresa eu vir dizer que sou muito fã da Karen Alvares (e a Marianne também!, aquiaqui) e que por seus contos ela me conquistou (vide aqui). Há algo na sua escrita simples, mas muito firme e envolvente que me enlaça e logo me toca no coração. Foi assim com esses dois contos em especial, ambos participantes do concurso que rolou esse ano, Brasil em Prosa – torci muito por eles, mas não foi dessa vez. O que importa é que eles são <3

O Vento 
Uma menina observa a estrada das janelas do automóvel da família. Há dois caminhos a seguir e uma decisão à sua frente que pode mudar tudo. E o único que conhece a direção para Casa é o próprio Vento. (Skoob)

Nesse conto, a autora nos traz um pequeno recorte de uma família em viagem de carro e o feeling de que às vezes somos levados para outros caminhos por conta de um bem maior. Enganos pequenos nos salvam de enganos maiores. É algo incompreensível, mas que está ali, tão rente a nós e é extraordinário como por um fio tudo poderia ser diferente. Achei bacana esse conto por todo seu ar de inocência, receio e surpresa, de maneira que nos sentimos sendo a pequena menina que tudo sente, tudo percebe, mas escolhe em um bom momento guardar tudo para si.

Para ler, você encontra o conto lá na plataforma Amazon - e é possível ler de graça se você tiver o Kindle Unlimited.


Coração sobre Coração

Ministério Literário adverte: não recomendado para quem está num momento sentimental demais, lágrimas podem rolar a solta. 
Aquele dia havia um cheiro estranho no ar. Um cheiro que me deixou em alerta. Um cheiro triste de fim. As coisas mais importantes sempre acontecem nos dias mais comuns. Aquele dia mudou tudo. (Skoob) 
Era um dia como todos os outros.
Abri o olhos e ergui devagar a cabeça, atento. Tudo parecia exatamente igual, mas um sino insistente apitava em algum lugar, avisando que algo tinha mudado.
Algo importante.

Esse continho muito me emocionou! A autora nos relata um momento bem nobre e bonito da vida. Instinto é a palavra da vez. Aqui Karen repete a dose dos sentimentos incompreensíveis, ingênuos e simplistas. Fiquei apenas querendo um abraço após a leitura =’)

Para ler, você encontra o conto lá na plataforma Amazon - e é possível ler de graça se você tiver o Kindle Unlimited.
(print do app kindle, início do conto O Vento)

Nos contos da Karen encontro sempre algo que me surpreende e fico feliz de ter uma autora como ela figurando nossa literatura brasileira. Por sua escrita, sinto por sempre que sai do óbvio e traz recortes interessantes nessas historietas. É justo esse caráter despretensioso que se revela ser um plus. Mais uma vez afirmo que isso prenuncia uma boa carreira de escrita para essa moça ;)

As capinhas de ambos os contos são fofas e a organização dos ebooks também é bem feita. São super curtos e para serem lidos num sopro. Mas, embora se vão em minutinhos, deixam cá, conosco, múltiplos feels para um looooooongo, longo prazo.

Recomendadíííííssimos :)

Espero que conheçam mais dessa autora e me contem também o que acham dela. 

Até a próxima! 


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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Resenha: “Quem, eu? – Uma avó, um neto, uma lição de vida” (Fernando Aguzzoli)

Por KlerisAcho que esse é o livro que mais me deixou sem palavras para uma resenha, mas vou tentar apresentar direitinho pra vocês amarem o tanto que ele merece. Um tempo atrás vi a primeira edição e me encantei só pelos vídeos, mas, se vocês bem já viram uns posts meus, sabem que corro de livros vulgo tristes-de-chorar, então ficava a dúvida...

No entanto, quando chegou a opção de pedido na Paralela, não resisti. Manda a vó que eu quero conhecer a vó! E não me arrependi mesmo quando os olhos se encheram de lágrimas em dadas páginas. Ok, eu chego lá.

Em 2008, a família Aguzzoli se viu em situações confusas, a vó Nilva começava a demonstrar os primeiros sinais de que havia algo errado. O duro diagnóstico de Alzheimer foi um baque, fez com que a família se mobilizasse e passasse a cuidar da senhorinha integralmente. Fernando, o neto, foi aquele que resolveu que a querida vó Nilva merecia mais, por isso largou a empresa, a faculdade, tudo, para se dedicar à vó. Não era algo com que se podia lutar contra, afinal.


Em Quem, eu? temos um relato saudoso e delicado deste neto, Fernando. A abordagem dele é que faz toda a diferença – não se explora a emoção, tampouco a história de vida dessa família, como bem vi comentários por aí. Também não se faz graça da doença, ela é tomada como algo que invariavelmente estava ali com vovó Nilva, porém, nem por isso deveria ele se resignar em esperar perder a vó aos poucos. 
Como defender alguém de um inimigo tão impalpável e esquivo? Imaginar aquela pessoa especial me buscando na memória (“Quem é esse rapaz?”) seria inconcebível. Será que ela ia mesmo se esquecer de quem amava?
Há passagens breves pela história da Vó Nilva, pelas lembranças da infância do neto, pela dura realidade que pega todos de surpresa. Fernando nos inteira sobre como foi essa transição, e, sabendo-se tão pouco sobre a doença, todo cuidado era significativo para manter a vó em segurança. Nesse aspecto, a decisão de Fernando e família foi além: se não há como tratar, por que não se centrar no agora e se deixar levar pelo que era essa nova faceta da vó? Isso não significava algo glorioso, mas com certeza era menos doloroso. 
Eu via o que aconteceria no fim, mas como eu chegaria lá era uma escolha minha. Tornar essa viagem mais interessante e proveitosa para que lá fosse um pouco menos tortuoso se tornou uma necessidade. 
A vida da minha avó não era mais compatível com o meu estilo realista. Ela agora vivia em um quadro surrealista de Salvador Dalí, um lugar onde tudo aquilo que sempre imaginamos poderia ser real em nossa clausura ficcional. Você se veria capaz de entrar de cabeça nesse universo?
É inevitável contar um relato desses sem passar pelas partes tristes, mas uma coisa que Fernando fez (e bem) foi deixar claro que o amor estava acima de tudo. Temos os dias difíceis, complicados e doloridos, e também os divertidos, os corriqueiros, as aventuras, as travessuras. Entremeados aos textos há pequenas conversas, confidências e vídeos (para visualizar os vídeos, você tem que ter o aplicativo QR Code), sem falar de notas para dadas situações e explicações de profissionais ao final do livro, para nortear bem a todos de como funcionam alguns procedimentos de cuidados.


O livro é tão curtinho que a gente nem sente passar – o epílogo, inclusive, é na página 88 (de 192 págs), você ri, chora, ri, chora, ri e gargalha e ri e ri e ri e ri e gargalha mais, tudo numa mesma sentada. Os complementos do livro são fotos de memórias, as mencionadas notas dos profissionais e um compilado incrível que reúne os momentos mais inesquecíveis que essa senhorinha proporcionou.


Algumas pessoas conheceram a batalha diária da família Aguzzoli por conta de uma page no Facebook (Vovó Nilva) que compartilhava (e até hoje compartilha) conversas e fatos cotidianos, com vídeos, fotos, posts diversos – tenho até a impressão de ter visto (faz teeeeempo) algum dos vídeos por acaso. Pelo que Fernando conta, a page não somente foi um escape, ela ajudou e incentivou outras famílias a lidarem com familiares que precisavam de cuidados. Logo, Quem, eu?, o livro, representa mais uma forma de vó Nilva se multiplicar e permanecer viva. 
Nesse período refleti sobre minha escolha e sobre a melhor forma de conviver com ela. Encontrei o humor como resposta, e dessa forma assumi a gargalhada como filosofia. Eu não ia conseguir curá-la. Mas a gente ia rir à beça!

Merece TODAS as agridoces lágrimas seguidas de GOSTOSAS gargalhadas. A saudade pode até apertar, mas... eles se divertiram.



Update: subiu pra Migos, perdi a conta! Apenas leiam <333 CONHEÇAM A VÓ!

Recomendadííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííssimo!


Até a próxima o/


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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Resenha: "Diga aos lobos que estou em casa" (Carol Rifka Brunt)



Por Marianne: Um livro que explora com delicadeza o amor em quase todas as formas e foge dos clichês de muitos romances mocinho/mocinha que já existem por aí. Essa é frase pra descrever Diga aos lobos que estou em casa, romance de estreia da autora Carol Rifka que já mora no meu coração.

Minha mãe tinha sintonizado a KICK FM, a estação de country, e, embora eu não goste muito desse tipo de música, às vezes, se você deixar, o som de todas aquelas pessoas cantando com tanta emoção pode trazer à mente antigos churrascos em família no quintal e encostas de morros nevados com crianças em trenós e jantares de Ação de Graças. Coisas que fazem bem. Por isso minha mãe gostava de ouvir essa rádio no caminho para a casa de Finn.
June tem quatorze anos, é apaixonada por artes e tem um relacionamento intenso de carinho e amizade com seu tio e padrinho Finn. Tio Finn é irmão da mãe de June, trabalhou com artes por muito tempo e agora vive sozinho no seu apartamento e está concluindo uma obra muito especial: um retrato das irmãs Greta e June.
June e Greta, sua irmã mais velha, eram muito próximas e amigas quando eram crianças. Acabaram se afastando com o passar dos anos e a relação de amizade que existia entre as duas desapareceu e deu lugar a um abismo de distância onde Greta trata a irmã quase com hostilidade.


— Greta – eu disse –, você sabe que não vai demorar muito mais tempo. Com o Finn, quero dizer.
Precisava garantir que ela entendesse como eu entendia. Minha mãe dizia que era como uma fita cassete que você não podia rebobinar. Porém, era difícil lembrar que você não podia rebobiná-la  enquanto a estava ouvindo. E, assim, você se esquecia e caía na música e ouvia e, depois, sem nem saber, a fita de repente acabava.
A história corre no fim dos anos oitenta, quando AIDS e homossexualidade eram (eram?) um tabu gigantesco na sociedade. June acompanha de perto essa realidade. Seu tio Finn é soropositivo e homossexual, o preconceito sofrido vem de dentro da própria família. Num trecho do livro a mãe de June entra em desespero achando que a filha pode ter contraído HIV apenas por usar um brilho labial do tio.
June sabe que a saúde do tio está fragilizada, mas é quando recebe a ligação de um homem estranho lhe dando a terrível notícia é que seu mundo desaba. Seu tio Finn, seu melhor amigo, a única pessoa com quem ela se sentia confortável por perto não existe mais. E quem é esse homem estranho que ligou para dar a notícia?
A família de June se refere ao homem como “o homem que matou tio Finn”, em outras palavras, o homem que lhe passou AIDS.

Pensei em todos os tipos diferentes de amor no mundo. Consegui pensar em dez sem nem me esforçar. A maneira como os pais amam os filhos, a maneira como as pessoas amam um cachorrinho ou sorvete de chocolate ou seu lar ou livro favorito ou a irmã. Ou o tio. Há esses tipos de amor e há outro tipo. O apaixonado. O amor de marido-e-mulher, o amor de namorado-e-namorada, a maneira como você ama o ator em um filme

Após a morte do tio o tal “homem que matou tio Finn” entra em contato com June através de um bilhete pedindo para encontra-la. O homem se chama Toby, e é através dele que June entra num mundo de descobertas e surpresas relacionadas à vida do tio que ela nunca teria imaginado.

O que mais me encantou no livro foi o quanto verdadeiramente humano ele é. Você vai tentando entender o comportamento do cada personagem (todos descritos pelos olhos da observadora June) e tirando suas conclusões pra ir desconstruindo todas elas à medida que a história vai acontecendo. A forma como a autora descreve a dor de June e Toby em pela morte de Finn toca até os mais sem coração.

Os personagens não são divididos entre bonzinhos e maus, são apenas humanos, cada um com sua história e suas mágoas que refletem diretamente no comportamento de cada um.
A própria June é um poço de confusão tentando entender e decifrar seus sentimentos em relação ao tio, à irmã, a Toby.

Eu fiquei encantada por esse livro. A leitura flui muito fácil e incrivelmente cativante. Você se apega aos personagens, se identifica com suas dores e sentimentos. Está muito recomendado, na minha lista de favoritos com certeza.

Até a próxima resenha :)



 
Ana Liberato