sábado, 2 de maio de 2015

[Entrevista] Adorbs Produções e Dona Moça: uma websérie transmídia brasileira (Parte 1)


Oi, oi, queridos leitores! Como estão? Curiosos desde já?

Assim que eu soube que teríamos uma websérie transmídia*, com uma adaptação de um clássico desse Brasil despontando esse ano, fiquei ansiosa :) Quer dizer, depois de algumas webséries nesse segmento terem chamado a atenção lá fora, ficou no ar esperar uma adaptação por aqui e imaginar que livro seria o primeiro. Senhora, de José de Alencar, foi a primeira escolha da Adorbs Produções, uma produtora formada recentemente e... Bom, melhor conhecer mais pelo bate-papo que tive com as meninas da equipe. Vamos?


Mas, primeiro, quem está na Adorbs Produções?


Anna Lívia Marques @annaliviams 
Chefe de produção e edição
Bacharel em Audiovisual, tem se estabelecido como produtora e assistente de direção para curtas, longas e séries. Anna também faz videos no Youtube e colabora com críticas literárias para a Revista Pólen.

Jacqueline Viana @jacqueplensack 
Roteiro e produção transmídia
Formada em Comunicação Social e especialista em Semiótica e Linguagens Visuais, trabalhou em diversos veículos como o portal MSN, TV Bandeirantes e Record.  É colaboradora do portal Be Style na internet e co-produtora do documentário Carcereiros.

Larissa Siriani @larissasiriani 
Roteiro e produção
Formada em Audiovisual, se firmou como escritora e professora de inglês. Comanda um canal no Youtube há três anos e integra a equipe do Literário Cast. Tem um blog pessoal onde fala sobre o processo de escrita, de seus livros e outros assuntos ligados à literatura e cultura pop.

Maria Raquel Silva @_mrsilva
Roteiro e produção
Graduanda em Literatura Inglesa e Português, escreveu seu primeiro roteiro aos dezesseis anos para a escola. Anos mais tarde, voltou a essa forma de contar histórias ao criar Dona Moça. É colaboradora do blog NOSSOS Romances Adolescentes e colunista de mixtapes na Revista Pólen. Tem um blog pessoal, o Doces Comentários Ácidos, onde posta crônicas esporadicamente.

Maynnara Jorge @maynnara_ 
Designer de produção e figurino
Formada em Comunicação e Produção de Moda, trabalhou como styling para editoriais de várias revistas paraibanas, como Revista Voilá, Santa Inês e Eventus, todas pela Agência Team. Também produziu conteúdo para o site da Revista Lis e suas redes sociais.

~~~//~~~

Esta primeira parte trata-se mais de uma apresentação de Dona Moça, curiosidades e bastidores do plano da série. Conversei com a Jacque (J) e a Larissa (L); meus breves comentários estão em itálico (K).
Vem que tá ótemo!


Apresentem a sinopse do livro e da adaptação. O que com certeza podemos esperar?

J - Todo mundo que fez ensino médio conhece um pouco de Senhora. É a história de Aurélia, uma moça pobre e sem perspectivas financeiras e familiares que se apaixona por um moço de classe média, o Fernando. Eles namoram por um tempo, mas o Fernando, que gosta de viver entre os ricos, a troca por uma moça da alta sociedade, por quem o pai ofereceu um dote.
O livro faz a crônica de um ano no casamento dos dois. O legal é que, se a gente parar para pensar, quem manda na relação é a Aurélia, apesar das aparências e das regras da sociedade da época ditarem o contrário. Algo muito ousado para se fazer em 1875.
L - E na série é um pouquinho parecido... Só que sem essa história de casamento. [O livro] é super moderno, super feminista de uma maneira recatada. E de certa forma, isso é uma coisa que transpõe muito pra série. [Alencar] acidentalmente fortaleceu a causa. No nosso caso, na série, o que rola é o seguinte: a Aurélia tinha uma origem humilde, e por isso não podia agregar o status que o Fernando, que também vem de uma família sem muita grana, queria ostentar. E por isso ele a rejeita, ainda nos tempos da faculdade. Então a Aurélia cresce, aparece, e funda essa empresa de eventos (a Dona Moça), ao lado da Fifi, sua melhor amiga e sócia. E num belo dia, quando uma nova vaga se abre pra empresa, ela recebe o currículo dele, e resolve contratá-lo meio como numa vingança a longo prazo haha.
K - Eu fiquei um pouco na dúvida se rolaria ou não a parte do casamento, porque, como em outras webséries (TLBD** e um pouco de AOJE***), teve umas alterações na linearidade do roteiro, pra fazer sentido na história.
L - Nem lembro se a gente cogitou a história do casamento, pra ser sincera. Porque não tem nada a ver com hoje em dia, com a cultura brasileira, com nada do que a gente quer passar. Mesmo porque, no livro o casamento é um tipo de “trabalho”. A relação deles se constrói nesse ambiente, na convivência, nas delegações de cada um.
K - Eu gostei da ideia do trabalho. Tipo workaholic, como a Aurélia no twitter já se mostrou. Mostra a ideia da mulher que batalha e lidera.


J - A Aurélia do livro sempre se mostrava impecável, faceira, atrevida. Ela se portava e era vista como a mulher perfeita. E que forma melhor de se passar por perfeita que mergulhando na carreira, sendo uma profissional impecável? É isso que a gente quer mostrar na série. Até o fim a gente pretende desconstruir a imagem de mulher perfeita da Aurélia para mostrar que ela também é gente como a gente, se cobra muito, engole sapo, erra e aprende... Ela é um ser emocional, embora não goste de demonstrar. E é por causa dessa repressão emocional da Aurélia que temos a incrível, a inigualável, Fifi. A Fifi é a rainha do fandom.

Por que José de Alencar e por que Senhora? Normalmente a atenção das adaptações se volta para Machado de Assis ou algum autor do movimento modernista.

J - Bem, em primeiro lugar, a gente tinha que escolher uma obra em domínio público, né? Não temos dinheiro para brigar por direitos autorais com os descendentes do Mário de Andrade e, por mais que eu ame a Lygia Fagundes Telles, jamais teria coragem de roubar “As Meninas” na cara dura. Então, para isso acontecer, o personagem tem que estar em domínio público. Machado está em domínio público. Por que vocês acham que existem tantas edições diferentes dos livros dele pipocando por aí? O que nos leva ao Homem, o Mito: além de todo mundo mexer com Dom Casmurro, Quincas Borba e afins, acho que a gente ainda não tem cacife para adaptar o Machadão. Machado é Machado, né?
L - Mas também é importante citar que, na verdade, quando tudo começou, nem foi uma questão de domínio público. Foi alguém dizendo “nossa, acho que Senhora daria uma websérie muito legal” e isso em, sei lá, 2013? Faz muito tempo, ainda tava passando TLBD e a gente começou a brincar com a ideia, fazer umas sinopses, etc, e nem cogitando REALMENTE tirar isso do papel até, sei lá, um ano atrás.
J - Isso que a Lari falou é mega importante. Tudo começou porque uma das meninas do fandom de The Lizzie Bennet Diaries comentou que Senhora dava uma adaptação muito legal.
L - A gente super considera adaptar Machado... um dia. Mas como a Jacque falou, ainda somos pequenas demais nesse negócio pra nos jogarmos nessas águas perigosas haha.
J - Acho que essa conversa começou a rolar lá pelo ep. 70 de Lizzie Bennet Diaries, porque foi mais ou menos na época em que essas adaptações começaram a bombar lá fora.
L - Confesso que tinha essa sensação de que nunca ia rolar, não por falta de vontade, mas porque “quem somos nós?”, sabe? E um dia, eu pensei: “por que não a gente?”. Faz bastaaante tempo. A gente tinha um grupo pra falar a respeito, mas foi morrendo e ficou mudo por vários meses até a gente desenterrar. Criamos o chat no facebook, ainda super sussa, brincando de roteirizar. E um dia eu mandei um “gente, vamos botar essa porra pra funcionar DE VERDADE?” e adicionei a Anna Lívia. Um dia a gente sentou, conversou e decidimos que desse ano não ia passar haha!
J - Teve um dia que a Maria Raquel e eu nos sentamos num Starbucks e montamos a história toda! Assim, numa única tarde. Depois ela e a Lari foram montando os roteiros de acordo com as escaletas, a Annali foi vendo as possibilidades de produção, eu fui montando as mídias sociais...

L - Starbucks devia ser patrocinador, só digo.
(fica a dica, Starbucks haha)

J - Claro que esse é um trabalho em grupo, então no final todo mundo analisa o trabalho de todo mundo. Os roteiros passam por todas nós da “parte criativa”.

Como é a passagem de Alencar para roteiro? Alguma influência direta do tipo de narrador para as diversas perspectivas transmidiáticas ou foca-se na captura da essência da história e personagens?

L - Bom, acho que 90% do tempo é mais focado nos personagens. Porque a história foi transformada, então certas coisas precisam mudar ou serem abandonadas pra caberem à nova narrativa. Mas os personagens são sempre quem eles são, e isso tem sido bem tranquilo, fácil de visualizar. A gente entrou num consenso muito bacana de quem são essas pessoas e pra onde elas deveriam ir.
J - Sim, e tem muita coisa que mudou na história, mas na essência os personagens são os mesmos. O que mais deu trabalho na verdade foi reconstruir parte da história, que precisou ser modificada por motivos operacionais – e financeiros.
L - Haha sim. Pra algumas coisas a gente tinha ideias muito legais que eram impraticáveis com as limitações da produção.
K – Tomando outras webséries como base, gosto como os personagens parecem gente como a gente, que, como em TLBD, a gente acompanhava como “pessoas reais” e era tão massa de ver a Lizzie falando, que, putz, dava um rebuliço de estar tão próxima da personagem, sabendo que é uma personagem e ao mesmo tempo crer que ela tá na nossa realidade. É extraordinário. Tanto é que há chance de pessoas acreditarem que não é ficção.
J – Sim, nossa maior preocupação é manter essa verossimilhança. E isso também está influenciando na escolha dos atores, mas vou parar por aqui para não dar spoilers.

(clique para ver detalhes; fonte: twitter)

L - Transmídia é uma coisa que é tão legal e ao mesmo tempo TÃO desesperadora. A gente tem brincado bastante com isso, aproveitando esse tempo pra estabelecer os personagens, suas personalidades, como eles são nesse espaço virtual. Porque acho que tudo isso ajuda a transformar a maneira como você encara o que está na tela. Se é pra ser uma narrativa transmídia, então tem que ser relevante e, mais importante, relacionável.
J - A gente está basicamente usando essa fase pré-série para aprender os mecanismos da transmídia. E erramos bastante.
L - Mas também, acertamos bem em algumas coisas haha.
K - É na bagunça que podem sair os melhores acertos, já que vem muita coisa inesperada XD
J - A gente tem toda a transmídia deles na história delineada. O que eles vão tuitar, postar no instagram entre quais episódios.... Mas por ora a gente só quer se divertir e aprender.
K - Só penso nas pérolas (e já espero bloppers de produção hahaha).
L - Essa participação é o que faz a diferença na transmídia; o personagem entrando no mundo real. Acho muito legal quando as pessoas participam. Tipo, a gente fez uma ação em que tuitamos durante uma reprise de Harry Potter e teve muitos RTs de gente aleatória. Foi super divertido.

O que teremos de romântico e realista?

L - Acho que a interação Aurélia-Fernando é toda muito realista; é difícil definir uma parte em particular.
J - Acho que no começo seremos muito mais realistas que românticos. Não esperem muita tensão sexual no começo. É tensão nervosa mesmo (rs), porque é muito da história isso. Eles demoram a se acertar, e por isso só fica romântico depois de passar por cima dos primeiros espinhos.
K - Acho que vai funcionar como aquela parte que a Larissa falou de abandonar algumas coisas do Alencar. Porque na época em que ele publicou era de transição e o realismo não tinha assentado de fato no meio literário. Aí imagino que vocês vão investir mais nessa parte realista.
L - Com certeza. E de entrar no que a gente preparou da história também, porque os embates deles são outros, os problemas são outros... Isso acarreta uma resolução diferente, de certa forma um pouco mais difícil.
J - Estamos tentando construir uma história bem orgânica, nada pode ser forçado.

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O que dizer de uma série que ainda nem começou, mas já adoro pacas? Curtiram? Ansiosos por mais? Logo, logo a segunda parte da entrevista! 

Para acompanhar mais da série, curtam a page da Adorbs, conheçam o blog oficial e sigam os perfis de Dona Moça :)


Até o próximo post!


Kleris Ribeiro.



Observações:

Websérie (de “narrativa”) transmídia* - série que transcende uma mídia para transmitir uma história, utilizando-se de várias plataformas ao mesmo tempo. Cada plataforma contribui para o todo da série, em que, a partir das diversas mídias acompanhadas em tempo real, vemos personagens se “integrando” às nossas realidades de vivência. No caso, temos conversações no twitter, fotos no instagram, vídeos no youtube e assim por diante.

TLBD** - The Lizzie Bennet Diaries (adaptação de Orgulho e Preconceito, Jane Austen; também se utilizou de um livro/ebook/audiolivro – resenha em breve – para agregar outro contexto de uma mesma história).


AoJE*** - Autobiography of Jane Eyre (adaptação de Jane Eyre, Charlotte Brontë).

Um comentário :

  1. Gente, adorei! Hahahaha. Assisti TLBD e agora fiquei curiosíssima para essa websérie nacional :D Já vou conferir as redes sociais para acompanhar!

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