quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Resenha: “A décima segunda noite” (Luis Fernando Veríssimo)


Por Kleris: Tenho esse costume de ir em feiras de livros pra procurar achados, livros que estão fora do meu campo de visão habitual – e com aquele precinho camarada. Ao ver A décima segunda noite em uma bancada em 2015, a capa de pronto me chamou atenção, mas por ter Luis Fernando Veríssimo como autoria, nem li a sinopse direito, levei pra casa! Do autor, faz um tempinho que havia lido um livro de contos, As mentiras que os homens contam, e já estava mais que na hora de voltar a mergulhar em alguma transloucada trama sua.

A décima segunda noite é baseada na peça Noite de Reis, de Shakespeare, e faz parte de uma coleção de adaptações, chamada Devorando Shakespeare, da Editora Objetiva. Os livros são independentes, todos novelas literárias, e com autores diferentes para cada título. Além de Veríssimo, temos Jorge Furtado no primeiro livro e Adriana Falcão no terceiro.

Não conheço muito de Shakespeare para poder calibrar uma crítica à adaptação, porém, já assisti um filme baseado na mesma peça, um high school americano chamado Ela é o Cara (com Amanda Bynes e Channing Tatum <3) (aqui trailer) que me salvou de entender e me orientar nas loucuras da história. Veríssimo ainda aproveitou a oportunidade para mergulhar em Paris, cidade pela qual é fascinado e onde toda a novela se passa. Eu diria, inclusive, que é uma novela inglesa afrancesada à brasileira. E metaficção!

A M O  M E T A F I C Ç Ã O!
E Veríssimo A R R A S A! 
Este era escritor, ou tentava ser. Morava sozinho e passa o tempo todo falando comigo, aos gritos, despejando em cima de mim as teorias que tinham lhe custado três esposas e todos os amigos, e só “oui, oui”, e “bien sûr”. Eu iria contestá-lo, para também ser atirado pela janela? Foi ele que me falou das diferentes formas de narrativas e da intervenção do narrador na narrativa. Qualquer um, qualquer coisa, pode ser o narrador. 
Se vocês querem me puxar para o passado, têm que aguentar a literatura. Já que querem me ouvir, têm que aguentar a comédia disfarçada de tragédia, a tragédia disfarçada de vaudeville e esta voz de caldeirão rachado. E a narrativa cronológica, com eventuais digressões, de um moribundo, finalmente com uma plateia atenta.

A gente chega na primeira página e já é golpeado pela trama. Tem um papagaio tagarelando sem fim sobre algo que a gente ainda não sabe o que é, nem o que tá acontecendo. Esse é um toque maravilhoso de Luis Fernando, que faz grandes imersões no ofício da escrita dentro da própria escrita e narração. O papagaio narrador é Henri, bisbilhoteiro, piadista, erudito e um verdadeiro contador de história. 
Tente dizer qualquer coisa séria, ou profunda, com voz de papagaio. Mesmo em francês. Impossible. Foi por isso que não me deram atenção, e a comédia que vou contar quase virou tragédia. Eu avisei, me esganicei, mas me ouviram? Diziam “Le perrouquet, qu’est-ce qu’il dit?”. E riam. Eu avisando que não era comédia, era drama, era tragédia. Tinha paixão, traição, perfídia, sociologia. E riam, riam. Culpa da voz, minha sina. 
É contra a natureza dos papagaios serem sucintos e breves. Durante séculos, milênios, gerações e gerações, vivemos com a capacidade de falar sem saber que a tínhamos. Imaginem. Uma espécie inteira que se autodesconhecia. Imitávamos uns aos outros, imitávamos os outros bichos e os sons da floresta, mas só quando ouvimos um humano falar, pela primeira vez, descobrimos este nosso talento para articular palavras. E descobrimos o que nos faltara durante gerações e gerações de loquacidade desperdiçada e sons desconexos: assunto. Até hoje, em florestas desabitadas, papagaios selvagens voam em bandos cacofônicos sem conhecer a delícia de fazer uma frase completa, os prazeres da prosódia. É em nome deles que eu falo tanto assim. E pra recuperar o tempo perdido, o nosso tempo sem assunto. Eu estaria traindo a minhas ascendência se fosse sucinto e breve. Eu... Está bem, a história que vocês querem ouvir. Isso é um gravador ou uma caixa de pílulas? Ridicule. Mas vamos lá.

Conforme o passar dos capítulos, vemos que ele é a única testemunha de uma tragicomédia em Paris. Por isso mesmo estão gravando seu depoimento. Como toda metaficção (uma ficção que conta sobre a própria arte e construção de ficção), a história é de camadas. O brilhantismo de Veríssimo atua bem aí, pois afora toda a confusão da Décima Segunda Noite (data conhecida após o Natal, que é a Noite de Reis), temos um grande mistério no ar com mil e uma pistas: Quem é que tá gravando? Por que tá gravando? Qual o interesse nessa gravação? Não imaginava o tamanho tesouro de Veríssimo que tinha em mãos! 
É em momentos como este, e olhando o rosto de Violeta quando viajava sobre o seu ombro no metrô, imaginando como seria tê-la nos meus braços, que eu sinto não ser, nem digo um Flaubert, mas gente, só gente, em vez de um mero artifício narrativo. Agora só falta me dizerem que não gravou nada e minhas palavras se perderam no ar, e minha voz lamentável esteja neste momento arranhando o domo de ozônio do planeta, tentando sair desta estufa de vaidades, rumo às estrelas. Mon Dieu, mon D

Entre os disse-me-disse de Violeta, Orsino, Olívia, César, Negra, Malvolio e outros, nos embrenhamos nos mal-entendidos, mistérios e toda emoção. A leitura é super rápida, de uma sentada, com muitos OH-MY-GOD! para soltar. Mon Dieu, são muitos babados numa só novela! Por isso mesmo não indico lugares que possam interromper a leitura, pois você não vai querer largá-lo de jeito nenhum.

Super legal também é o show de representatividade que Luis coloca, de maneira tão natural, além de tratar de uma época interessante da história do Brasil e França. Uma nota ademais é que Henri de vez em quando solta umas falas em francês, nada muito difícil e que nem nos atrapalha. São elementos que só enriquecem a obra. E o resto... bem, Henri te conta ^^

Se você procura um bom livro com gostosas sacadas, suspense, humor, conspiração e confusão, com toda a certeza, é A décima segunda noite, de Luis Fernando Veríssimo! 
Vocês acham que eu estou contando tudo isto que vocês já sabem para não chegar ao que vocês querem ouvir, ao saião da santa. Vocês acham que eu estou querendo ganhar tempo. Claro que preciso de tempo. Aceito tempo de onde ele vier, de qualquer fornecedor. Esta tinta está me matando, o verde e o amarelo me asfixiam, estou morrendo patrioticamente sem nunca ter visto o Brasil, quero mais tempo, mais vida, sim, nem que seja para mais amar a Violeta. Mas não é isso. O fato, mes amis, é que temos que pôr tudo num contexto. Precisamos, no mínimo, de ordem cronológica num mundo que cada vez mais desdenha a ordem. E precisamos de literatura.

Só sei que preciso ler mais livros desse autor :)

Super recomendadííííííssimo!

Espero que gostem o/



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