segunda-feira, 31 de outubro de 2011

[Conto] Amor Maldito - (Juliana Marques)


Essa é a minha contribuição para a antologia feita pelo Dear Book com o tema de Halloween, esse conto é muito mais romântico e nem um pouco assustador, espero que gostem. O título ficou tosco e brega, pois eu fiquei me atormentando umas semana inteira buscando algo adequado, mas não consegui!!

Amor Maldito



Frio. A ausência do corpo dele próximo ao meu mecausa calafrios. A cada minuto que se passa chego a certeza de que tudo issorealmente ocorreu e que jamais voltarei a vê-lo. Encaro o lado vazio de minhacama. Lágrimas se desprendem e molham o fino tecido do lençol de linhovermelho. Lembro-me de sua cálida e rouca voz chamando meu nome, tão real. Tãovívido que por um breve momento acredito que ele esteja comigo. Uma tolice, eusei, afinal não há mais ninguém aqui comigo e jamais haverá. Sozinha. Uma palavraque desperta todos os medos. Sozinha para sempre. Nunca me imaginei nessasituação, decerto que sempre fui independente, mas quando o encontrei toda acerteza se dissipou e me encontrei presa em seu amor e naquela presença.

Agora tento me prender em nossas lembranças e sintoque o fluxo das lágrimas aumentou. E o frio que sinto causando mais quearrepios. Sinto que posso me perder na inconsciência a qualquer momento. Denovo tenho aquela estranha impressão de estar ouvindo sua voz. Como isso dói,pensar na voz, pensar nele. A certeza de ele jamais me tocar novamente mesufoca, sinto o ar escapar de meus pulmões e até desejo a morte. Como essaingrata passa a ser nossa aliada quando o desespero bate a nossa porta. Masacho que a coragem me abandonou, junto com a esperança e o amor.

Repetidamente ouço aquela voz grave me chamando,fecho ainda mais meus olhos para não encarar aquele vazio a meu lado. Esseinsistente som está me atormentando. Sinto a minha fraqueza aumentar e ainconsciência se aproximar. Não, não posso me deixar dormir. Os sonhos serãomais tristes agora. O mundo é mais triste. A minha vida é mais triste.

Um cheiro característico desperta meu olfato. Sim,aquele cheiro maravilhoso de loção pós-barba, couro e madeira, o cheiro dele.Nossa que cheiro mais delicioso. Nunca irei me esquecer de nossos momentosjuntos, o cheiro dele em minhas roupas, em meu corpo, em minha cama. Alcanço otravesseiro com o cheiro dele e agarro, afundo meu rosto na maciez e maislágrimas rolam pelo meu rosto pálido.

A voz insiste mais uma vez, o cheiro fica mais fortee sinto uma mão em meus cabelos. Sobressalto-me. Jogo longe o travesseiro eviro-me para ver o intruso. Ele está sentado na beirada da cama apoiando-se como cotovelo e curvado sobre minha cabeça. Sua mão livre acariciandodelicadamente os cachos ruivos de meu cabelo. Não acredito que meus olhospregam este tipo de peça em mim. Não acredito que esteja alucinando, pois tudoparece tão real. Estou louca, acredito eu. Eu o vi morrer, como ele poderiaestar sentado em minha cama e acariciando meu cabelo. Simplesmente não haviaoutra explicação. E aquela voz tão sedutora e apaixonante me chamando saindo deseus lábios. Sinto vontade de derreter. Será sonho, delírio ou realidade. Tãodifícil acreditar. Os olhos azuis dele estão fixos nos meus cheios de súplica etristeza. “Não chore” eu o ouço dizer, mas minhas lágrimas não querem obedecer.Fecho os olhos mais uma vez e tento me livrar das malditas. A mão queacariciava meus cabelos seca agora minhas lágrimas, abro meus olhos e percebo oquão perto está aquele rosto tão amado e desejado. Por impulso acaricio commeus dedos aquelas feições másculas, firmes e tão adoradas por mim. O rosto quesinto por baixo de meus dedos é real, mas como pode ser?

O vejo fechar aqueles lindos olhos e pronunciar maisuma vez meu nome. Eu estou sonhando e isso tudo não é real. Tento me convencermais uma vez. Ele se aproxima mais uma vez e roça seus lábios nos meusmurmurando meu nome. Isso é tão real que sinto que estou enlouquecendo. Eleabre os penetrantes olhos azuis e me perco em seu olhar. Gaguejo, querendo umaexplicação. Ele inspira suavemente. “Eu morri, é bem verdade. Mas nunca fuicomo você. Desculpa ter escondido toda a verdade, mas só Deus é testemunha doquanto eu me esforcei para protegê-la de minha natureza.” ele começou a dizer,“Peço seu perdão e acredite que jamais voltarei a importuná-la. Sou desse jeitoe não poderei mudar. Tenho que mantê-la a salvo e mesmo que me doa tanto, tereique deixa-la.”.

Mais lágrimas umedeceram meu rosto. Ele teria que medeixar novamente? Mas isso não fazia sentido. Quem ele realmente era? Ou maisespecificamente, o que. Um choque de eletricidade me atingiu quando elenovamente me tocou para reter minhas lágrimas. Meu choro tornou-se insistente.“Me explica. Por favor diga-me tudo. Não me deixe assim, não consigo maisacreditar o que é real e o que é fantasia. Ajude-me com essa dor pois não aaguento mais.” eu disse num sussurro e entre soluços.

Ele se deitou finalmente a meu lado, seu calor maispróximo, seu cheiro mais intenso. Estou louca Deus. Ele clareou a garganta. “Eunão sou humano. Sou algo muito ruim e que habita o pesadelo de muitos, mas comvocê eu me tornei outra pessoa. Eu te amo e sempre irei amar. Saiba que issonunca havia me ocorrido antes e você é a única que despertou esse sentimento emtoda a minha existência. Sua alma tão doce, livre e cheia de paixão me encantoue tentou milhares de vezes. Tive que me controlar para salvá-la. Desculpe-mepor todo seu sofrimento, mas também eu sofro todos os segundos em que passolonge de você. Estou aqui me arriscando e pondo você em perigo, pois nãoconsegui me controlar. Precisava ver-te, te tocar, sentir seu perfume, ouvirsua voz e olhar nestes doces olhos verdes.” Ele disse suavemente próximo a meuslábios.

Minha cabeça girava. Eu simplesmente não conseguiacaptar tudo o que ele me dizia. Nada fazia sentido. Tudo deixou a esfera darealidade no momento em que ouvi a voz dele. “O quê?” eu consegui balbuciar.“Eu te amo Caroline. Acredite nisso. Eu morri para você. Por favor, tente meesquecer. Eu não posso ficar. Você merece mais e sei o quanto isso vai me doer.Você merece ser feliz e eu não posso te dar isso. Sou um maldito demônio que seapaixonou.“ ele disse numa voz estrangulada. As palavras ditas flutuaram erodearam toda a minha cabeça. Fiquei tonta com a informação e ainda sentia quealgo estava errado. “Eu o vi morrer. Não é possível que você esteja aquicomigo. Eu estava lá. Não consigo acreditar. E tua ausência me dói tanto. Porfavor, me diga a verdade. Diga-me se eu enlouqueci. Que tudo não passa de umamera ilusão causada por uma pobre mulher que sofre pela perda de seu amor!”desabafei. Não conseguia ficar mais quieta, as palavras saíam de minha bocacomo formigas, pequenas, mas que o ferroaram a alma. Senti seu olhar triste. Viseu rosto mudar para uma expressão de profundo desespero.

Ficamos nos encarando, cada um com sua dor porintermináveis segundos. O tempo passava e pareciam séculos de espera até queele fechou os olhos novamente e me beijo calidamente. Tudo a minha voltadesapareceu. Apenas o sentia. Aquele calor que só ele podia me transmitir. O amorque sentíamos transbordava. Nossas bocas se fundindo num beijo doce e há tantodesejado. Ah que saudades tinha desse beijo. O beijo que me deixava no paraísoe às vezes no próprio inferno. O beijo que trazia tantas vívidas lembranças. Obeijo que significava tudo. O beijo que era nossa própria essência. Até que eleinterrompeu. Sem fôlego e tentando buscar oxigênio ele disse “Desculpe-me. Nãoconsigo ficar longe de você nem um segundo. Mas não sou merecedor de seu amor.Acredite quando o digo. Eu sou um ser desprezível, torturei almas e as leveipara o mais profundo desespero. Não tenho uma alma como você. E nosso amor fugiude meu controle. Muitos nos vigiam, por isso tive que morrer. Preciso mantê-laa salvo e agora percebo que a quero perto de mim. Por favor, não diga maisnada. Sei o quanto estou instável, mais demônios a querem como um troféu. Suaalma tornou-se um alvo. E estou dividido entre amá-la e protegê-la.”.

“Por favor, me ame. Preciso de você. Não entendo oque diz. Tudo é confuso e a única certeza que tenho é do quanto eu o amo e oquanto eu preciso de você. Não me abandone. O quero novamente em minha vida, emminha cama e para sempre em meu coração. Percebo o quanto deseja me proteger,mas será mais fácil se estiver aqui por perto.“ tentei suplicar pois percebi otom de despedida na voz dele. Ele voltou a me encarar. Seu olhar tão profundo ecom um cerne de preocupação que lhe era estranho. Segurou com ambas as mãos meurosto e me beijou mais uma vez. Dessa vez seu beijo foi intenso, quente commuita paixão. Deus, como esse beijo era bom. Em todos nossos momentos de paixãoenlouquecida nos beijávamos assim. E pensei que jamais iria sentir esse gostonovamente. Suas mãos deixaram meu rosto e partiram pelo meu corpo o explorando,o memorizando. Cada parte de meu corpo sob seu contanto fervia, um calorintenso e característico de quando nos amávamos. Nosso desejo e excitação eramgrandes, impossível de descrever a intensidade. E ao perceber os meus desejosele parou. Deixou a mão pousada em minha cintura. Nossos corpos tão próximos.Nossas respirações pausadas.

E com a mão livre arrancou o colar que usava. Ocolar que nunca tirava. O estranho pingente na correia de couro que pendia emseu pescoço. E então me entregou. “Fique com isso. Por mais que eu queira ficarcontigo, terei que partir. E somente isso a irá proteger. Todos que vierem procurá-lasaberão que estou contigo. E sempre que me quiser beije o pingente e me chame.Virei imediatamente.”

E quando ele me beijou novamente senti que esse eraum adeus. Um beijo triste pois significava uma despedida. Não posso suportarpensar nisso. Então aproveitei o beijo. Não podia mais pensar. Mesmo com umairritante vontade de chorar eu me segurei e me deixei levar pelo momento. Nossomomento. Uma despedida doce e também amarga. “Eu te amo!” ele suspirou. Equando finalmente abri os olhos ele havia sumido. O colar em minha mão. Oapertei tão forte. Mal podia acreditar em tudo o que se passou. Ele não haviamorrido e tinha me deixado. Mas me amava e fez tudo para me proteger. A dorparece maior agora. A verdade de tudo tornou mais difícil encarar a suaausência.

E numa medida desesperada eu aproximei o pingente deminha boca, o beijei e murmurei seu nome repetidas vezes. Seu corpo tomou formano canto do quarto. E com um sorriso em seus lábios disse “Já sentiu minhafalta, meu amor?”. “Sempre. E nunca pense em fazer algo assim de novo. Eu o amoe sendo humano ou não o sempre irei amar” eu falei.

Ele se encaminhou para minha cama e puxando-me paraperto dele ele confessou suavemente “Estarei sempre com você, minha alma!”.

Juliana Marques (Jujuba)
Colunista de séries

6 comentários

  1. Curti muito o jeito que vc escreve, ficou misterioso, romantico e alguns momentos sexy!

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  2. Gostei bastante, mas desculpe a ignorancia mas ficou uma dúvida: que criatura ele é? Um vampiro, anjo, sucubo, ou o que? Fiquei em duvida quanto a isso...rsrs
    Mas a historia prendeu bastante minha atenção!

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  3. Gostei bastante.
    Não ficou aterrorizante, mas bem romantico. ^~
    Bjs.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Gostei muito!
    1° visita! Seguindo...
    Abraços

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Ana Liberato